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Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. Diário do Mundial, todas as noites vamos até ao Qatar, até Doha, falar com o nosso enviado especial, o editor de esporte, Bruno Roseiro. O Bruno que acabou de sair agora mesmo desse grande jogo entre Argentina e Países Baixos. Já ouvimos de fundo esse barulhinho que vem do Lusail. Bruno Roseiro, muito boa noite. Já recuperaste destas emoções dos pênaltis?

Não, ainda não recuperei. Aliás, sabes que quando isso acontece, eu faço é contas sempre à minha vida e portanto antes das 4 h da manhã não estou em casa.

Portanto, para ti foi má notícia os pênaltis.

Sim, quiseram sofrer um gol ao 11º minuto de descontos, quiseram não estudar um lance que o Wolfsburg fez há dois anos. Ou seja, quiseram fazer essas coisas todas. Se calhar estou a te dar uma notícia, não tinhas visto ainda.

Não. Eu já tinha visto alguns lances parecidos, mas que este era do Wolfsburg. O Weghorst não jogava no Wolfsburg nessa altura?

Exatamente, foi o Weghorst que marcou.

Então saiu daí. Portanto, o Weghorst aqui a importar coisas da Bundesliga. Muito bem.

Exatamente. Tudo isto podia ser evitado, mas ainda assim, no final foi mais divertido, pelo menos. Foi mais emocionante. E agora cá ando na zona mista, se calhar vamos ter de interromper isto a qualquer momento.

Fica aqui por um tempo.

Sim.

Hoje qual é, quais suas apostas?

As do costume.

Enzo Fernández que hoje falhou um pênalti, por exemplo.

Mas acabou bem o prolongamento. E de que maneira.

Mais um grande jogo.

E deixa-me dizer, não sei se existe essa percepção, cada vez mais a seguir ao Messi. O Messi está muito lá em cima. E depois a seguir ao Messi, quem vem é o Enzo Fernández a nível de preferência dos argentinos. Não sei se há completamente essa consciência. Estando aqui, e portanto estando completamente à vontade, porque estamos longe do nosso país e de tudo, o Enzo Fernández é claramente agora a grande figura depois de Messi. Se considerarmos que o Messi não é humano, o Enzo é o jogador dos humanos.

É o melhor dos humanos.

Que os argentinos nesta altura mais seguem. Isso sim.

Bruno, como é que começou o teu dia? Já sabemos como é que acabou. Só pudeste assistir a este segundo jogo.

Já sabemos como é que acabou? Opa! Ainda falta.

Já sabemos como é que está quase a acabar.

Também não.

Pois, ainda pode acontecer. Desde acidentes de carro. Costumas ver a festa argentina no metrô. Já trouxeste tampões hoje ou não é preciso?

Não. Sabes que nesta altura a minha questão até é outra. A minha questão é que o metrô fecha às 13:00 e eu não sei se ainda vou ter metrô quando isto acabar. Eu até já estou mais à frente. Eu não sei se é melhor trazer tampões para o metrô ou bateria para o telemóvel para eu chamar aqui um Uber. Ou uma ou outra.

Não sei se dá para chamar Ubers de Lisboa para Doha. Mas qual é a coisa? Deixa a vida aqui.

Não que estes daqui são mais baratos.

Então pronto.

Estamos melhor.

Então como é que começou?

Sim, como é que começou o dia? Hoje o dia basicamente foi dedicado a conferências de imprensa, ou seja, comecei a escrever uma coisa que, por exemplo, ainda não acabei, que tinha a ver com todo este fenômeno Marrocos. Portanto, aquilo que eu fiz de manhã foi, sobretudo, começar a perceber como é que estavam tantos marroquinos cá e por que é que estavam tantos marroquinos cá. Entre outras coisas, houve um acordo que envolveu o rei, companhias aéreas, etc, que reduziu, e muito, os preços das viagens. E depois há aqui um fenômeno, que eu esse ainda não consegui perceber, mas que existe, tal como já tinha acontecido no jogo com a Espanha, vão existir uma série de bilhetes oferecidos a adeptos marroquinos, inclusivamente, já se fala na possibilidade de haver milhares de marroquinos que vão chegar entre hoje e amanhã a Doha, não tendo bilhete para o jogo, portanto, tendo a esperança de ainda ser possível encontrar o bilhete, porque os marroquinos não é como os argentinos. Se os argentinos for preciso ficam a ver numa zona mista, os marroquinos querem mesmo ir ao jogo e, portanto, não sei até que ponto é que não poderá até dar confusão no meio disto tudo.

Sem isso, os marroquinos estariam na mesma mais que os portugueses, é essa a noção que tens?

Não, à vontade. Os marroquinos, amanhã, as pessoas que se preparem, vai ser um ambiente infernal, porque vão mostrar duas coisas: vão ser muito mais em termos de quantidade e vão estar ao nível daquilo que nós conseguimos ouvir, por exemplo, dos adeptos da Argentina.

Pois.

Portanto, para eles é sempre um e nuvem.

E também com todos os africanos a torcer por eles, muito provavelmente.

Os africanos e mais, e o próprio mundo. Ou seja, eu acho que há muitas pessoas que se calhar já foram a jogos do Campeonato do Mundo com a camisola sete Ronaldo a torcer por Portugal, neste caso por Ronaldo, mas que amanhã, no mínimo, estarão divididos, porque nós podemos olhar para Marrocos, que é a primeira vez que está nos quartos e é a quarta seleção africana a chegar aos quartos-final de um Campeonato do Mundo, mas é também a primeira seleção árabe a chegar aos quartos do Campeonato do Mundo, podendo ainda ser uma história com continuidade. E tudo isso poderá depois fazer alguma diferença. Agora, deixa-me só acrescentar em relação ao ambiente Se tu me perguntares se isso é um fator determinante para Portugal, eu acho que não. O Bruno Fernandes e o Bernardo quando vão jogar a também não têm propriamente o melhor ambiente. O João Félix quando vai jogar ao Bernabéu também não tem propriamente o melhor ambiente. Para Marrocos, que me parece, até pelas informações que existem, hoje eu vi uma rádio francesa que dizia que Hakimi, por exemplo, não tinha feito o último treino. Para Marrocos é um fator anímico importante, seja quando a equipa mais está a cair, e é normal que caia porque fisicamente o jogo foi muito desgastante com a Espanha, seja quando em determinados momentos do jogo tente ganhar algum ascendente sobre a partida. Por aí, e para Marrocos, pode ser um ponto importante, para Portugal não me parece que seja algo decisivo.

Bruno, depois dessa conferência, seguiste já para o jogo. Onde é que viste o jogo Croácia-Brasil?

Isso é uma boa pergunta. Deixa-me só dizer em relação à conferência, ouvi as duas, portanto Fernando Santos e Félix. As conferências também já passaram, já se falou muito sobre isso. Retiro aquela frase que vai ser uma das frases do mundial: "Deixa o Ronaldo em paz".

Dava também título de um álbum de música.

Sim, mas é uma conferência importante até por uma razão, porque Fernando Santos deu alguns pormenores sobre a conversa do Ronaldo que não eram conhecidos e que não batem certo com a primeira notícia que tinha vindo a público. Nesta altura, se houver apenas e só uma verdade, ela estará do lado do Fernando Santos, a não ser que exista agora algum outro dado que seja acrescentado no meio disto tudo. Fui também à conferência do treinador de Marrocos e uma das coisas que eu percebi é que ele é um fenômeno, acho que já se percebeu por aí, ele é um autêntico fenômeno. Ele entra na sala de conferências de imprensa e os jornalistas começam a bater palmas.

A bater palmas?

Sim, batem palmas, levantam-se e batem palmas. Todos muito contentes. Ele é uma personagem claramente que percebe que este é o seu momento, que está no principal palco. Fala em francês, principalmente, também fala em inglês, fala em árabe, portanto, não precisa de qualquer tipo de tradução. É quase como se estivesse a mostrar ao mundo que consigo fazer tudo isto, estou à vontade para treinar todos os clubes.

Também uma piscadela de olho ao mercado, talvez, não?

Sim, muito provavelmente. E há aqui um ponto importante que é a maneira como ele coloca a questão: o que Marrocos vai jogar amanhã. E aquilo que me parece é que ele está a jogar muito, não só na parte tática, ele já disse que tem um plano que vai ser completamente diferente daquele que teve no jogo com a Espanha, criticando até os críticos da seleção de Marrocos em relação ao jogo com a Espanha e dizendo: "Se vocês olharem a porcentagem de posse de bola da França, da Alemanha, até de Portugal quando jogou com a Espanha, não podemos ser só nós, porque somos africanos, a ficar com o rótulo de equipa defensiva. Ninguém consegue ter a bola e ninguém consegue jogar em posse contra a Espanha". Mas está a utilizar muito a questão de ser um feito histórico para uma equipa africana, ser um feito histórico para o mundo árabe, para poder também daí retirar mais apoio ainda do que aquele que já vai ter. E parece-me que isso também é a mensagem que está a passar para dentro do balneário. Depois, se vai ou não resultar, só amanhã saberemos, mas parece-me que a parte mental e a parte psicológica do jogo também está a ser muito trabalhada nesse sentido. Atenção, nós somos africanos, nós temos orgulho de ser africanos, nós queremos mostrar que os africanos podem ser competitivos e podem estar entre os quatro melhores do mundo. Agora é a vossa altura de fazer história. E isso, muitas vezes, pode também ser importante para aquilo que é o desfecho de um jogo.

Bruno, passando dos africanos para os sul-americanos e numa altura em que estamos aqui a ver nos nossos ecrãs imagens a partir das televisões portuguesas, claro, dos jogadores brasileiros em lágrimas na flash interview, Richarlison parte o coração com os olhos bem vermelhos. Dizias há pouco que era uma história interessante que tinhas, como é que viste este Brasil-Croácia? Como é que foi?

Eu vim um bocadinho mais cedo aqui para o Estádio Lusail, ou seja, ia adiantando a crônica da Argentina e estava a adiantar também o texto de Marrocos, que algures de madrugada irá sair. E estava sentado e ia vendo o jogo de vez em quando, ou seja, não estava a ver com muita atenção, e ia seguindo também as movimentações. Ou seja, quando alguém fazia um bocadinho mais de barulho ou quando ouvias um bocadinho mais de barulho, sabias que estava a passar alguma coisa interessante, levantavas os olhos, ficavas ali a ver um bocadinho na televisão e baixavas outra vez a cabeça. Nas grandes penalidades, foi tal e qual como se fosse um estádio, em termos de barulho, de festa, etc. Como é óbvio, não eram só croatas que estavam ali.

E com os argentinos à volta, não?

Não, sabes que jornalistas argentinos já não havia muitos, porque eles andavam à volta do estádio a falar com adeptos, etc. Havia muitos jornalistas a torcer pela Croácia, isso pareceu-me também evidente. E cinco minutos depois, como eu ainda estava no centro de imprensa, na altura, consegui ver imagens da festa que os argentinos fizeram dentro do estádio, e aí sim, foi uma coisa à séria. Ou seja, para quem achava que os argentinos só queriam defrontar o Brasil nas meias-finais, é para esquecer. Aquilo que eles queriam era que o Brasil perdesse, ponto final, isso aí não há dúvidas nenhumas. Até por este final de jogo da Argentina e pela derrota do Brasil, volto-me a recordar da primeira imagem que eu hoje tirei quando cheguei a Lusail. Hoje, ao contrário do que é normal, eu vim no shuttle e não vim de metro, porque era uma volta de 45 minutos, 1 hora e não valia a pena. E a primeira imagem que eu vi, ainda estava meio a acordar, tive 15 minutinhos muito fortes no autocarro a fechar o olhinho que me faziam falta. E a primeira imagem que eu tenho é um argentino com uma bandeira da Argentina, com uma camisola de Maradona dobrada, tal e qual como se guarda numa gaveta, uma fotografia de Maradona e entre ela duas velinhas. E ele estava quase a pedir em orações para que a Argentina conseguisse passar. Não sei se foi aquilo que resultou ou não. Sei que não só o Brasil perdeu, como a Argentina passou. Não sei se foi daquilo, mas pelo menos correr bem, correu.

Correu muito bem. Vamos ver. É pedir também amanhã aos portugueses para deixarem a vela. Estivemos de colar e a pedir aos portugueses para pôr as bandeiras. Vamos ter de pôr também velas para amanhã sabermos se Portugal vai ou não.

Sim, mas sobretudo, a principal vela que podemos acender amanhã é uma que se chama paciência.

Sim, muita paciência.

Durante o jogo, depois vais perceber aquilo que eu vou dizer. Se nós tivermos paciência e se nós conseguirmos fazer as coisas com paciência, acho que poderemos entrar aqui numa zona que seria a terceira vez na história, mas sobretudo, algo que eu já começo a ver, isto com equipas de nível superior, mas parece-me que está a acontecer o fenômeno Euro 2016. Parece-me, pode ser só uma ideia minha. Depois quando for o França e Inglaterra, se ganhar a Inglaterra, vamos ver se é mesmo assim, mas parece-me que está aqui a criar-se o fenômeno Euro 2016.

As estrelinhas estão a alinhar-se, não é?

Sim, está a haver aqui uma conjugação cósmica de qualquer coisa para haver um The Last Dance, Messi e Ronaldo na final, e antes do The Last Dance, haver uma meia-final Portugal-Inglaterra. Vamos ver até quanto é que vai ser mesmo assim.

E chamamos o Ricardo depois para nos ajudar.

Não, isso não é preciso, agora temos o Dio Costa.

Exatamente. Que nem precisa tirar as luvas para defender.

Não, e melhor ainda, podem até os penaltis ser repetidos que ele defende na mesma.

Exatamente. Com guarda-redes assim, nem é esse o problema. Bruno Roseiro, boa flash interview, boa zona mista para ti, a ver se consegues apanhar aí algum jogador argentino.

Agora está a falar o Van Dijk, mas eu estou a cerca de 50 gravadores de distância de o conseguir ouvir. Parece que não vai acontecer.

Mas é incrível como eu e o Vicente estamos aqui um ao lado do outro, sentados aqui na paz da nossa redação, que está agora muito mais escalável, mais vazia, e tu estás apenas a dois metros do Van Dijk. Portanto, olha, Bruno, aproveita esse gigante que está aí ao teu lado.

Mas já estive mais perto.

Já estiveste mais perto do Messi, não é?

Eu anteontem, enquanto tiveste esse luxo das folgas, tu e o João tiveram esse luxo das folgas, eu fui ao treino, neste caso era porta fechada, mas fui à conferência dos Países Baixos, que foi com o Van Dijk e com o Noppert.

Portanto, estiveste lá mesmo ao lado. Então olha, dá um abraço ao Van Dijk por nós e tenta falar mais qualquer coisa.

Mas olha que ele está com cara de quem não quer muito esse abraço.

Pois, sim. E a altura também, se o abraçares, provavelmente vais só chegar à perna.

Sim, mas se calhar vou passar isto. Se vir um argentino, acho que eles estão mais fáceis de abraçar do que os neerlandeses. Parece-me.

É isso. Então fica aí esse abraço para os argentinos. Bruno Roseiro, amanhã estamos de volta para a emissão do Portugal-Marrocos, como é claro. Amanhã jogamos às 15h. Vamos ter também o Bruno em direto a partir do estádio, como sempre. Bruno, um forte abraço, bom trabalho e depois bom descanso, que bem mereces. Até amanhã.

Obrigado, até amanhã.

Olha a cabeçada! É gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.