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Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. E por estes dias há mesmo um português, pelo menos afeto a "O Observador", que está a sentir muito mais do que os que cá ficaram. Bruno Roseiro, enviado especial a Doha, o nosso editor de desporto. Como estás? Estás melhor do pé?
Já estou melhor. Podia estar melhor, mas não é por causa do pé. E vou estar claramente apto para os oitavos de final, que começam amanhã com a Argentina. Claramente já apto. O departamento médico já me libertou e vou poder, à vontade, fazer um jogo por dia dos oitavos.
É isso, e porque Portugal já lá está, o jogo frente à Coreia, no Estádio Cidade da Educação, em Al Rayyan, não correu bem. Veio a primeira derrota, mas Portugal acaba por carimbar, ainda assim, o primeiro lugar do grupo. Bruno, como é que começou o teu dia? Foi, claro, centrado neste último jogo de Portugal na fase de grupos.
Sim, tem uma vantagem prática. Isto também não pode ser todos os dias a dizer que o Estádio Al Bayt é mau, porque é muito longe. Al Khor é muito longe. Aqui é precisamente ao contrário, ou seja, dá para trabalhar no QNC, que é onde está o media center global. Isto é um edifício gigante. O melhor é tu decorares duas ou três entradas e fixas-te naquelas e assim nunca tens problemas, nem corres o risco. Tem outra vantagem, é que no sítio onde tu entras é também onde podes deixar as camisas a lavar e as calças e afins. Portanto, também tratei disso. Até é mais baratinho, vem tudo passado, portanto, por aí está tudo bem. Mala preparada até dia 19 de dezembro, se for preciso.
Olha, baratinho ou baratinho para o Qatar, já agora? Uma curiosidade.
Não, é baratinho. Deixa-me lá fazer as contas. Cinco camisas e umas calças, 31 reais, assim arredondado, dá a volta mais ou menos de uns €8. Já vi coisas mais obscenas. Já apanhei mundiais muito mais obscenos do que isto. Isto nem para boxers servia. Oito ou €9 nem sequer para boxers servia. E portanto, deu para despachar esta parte mais logística, com essa vantagem que é o QNC fica localizado perto de uma estação que é Qatar National Library, e o Education City é logo a estação seguinte, na linha verde. Portanto, é uma viagem de cinco minutos. Demoras o dobro do tempo a sair da estação de metro para chegar à zona do estádio, onde é a entrada da imprensa, do que propriamente na viagem em si. Portanto, tu vês a proximidade. Isso também fez com que não tivéssemos propriamente muita noção cá fora ainda do número de portugueses que estariam presentes. Percebi cedo, quando cheguei, que a Coreia do Sul ia ter uma claque mais organizada, digamos assim, e acho que isso durante o jogo foi percetível, ou pelo menos foi audível, que a Coreia do Sul tinha essa falange mais organizada. Isto não quer dizer que os adeptos portugueses não sejam tão ou mais entusiastas como a Coreia do Sul. Há aqui uma distinção que me parece que é a distinção lógica de fazer, isto é uma mera perceção, mas parece-me uma coisa lógica, é que da Coreia do Sul, grande parte ou a esmagadora maioria dos adeptos sul-coreanos vieram da Coreia do Sul, e em Portugal não é bem assim. Ou seja, temos todos os portugueses que vivem no Qatar. Temos também portugueses que vivem em países como Arábia Saudita, Omã, e que acabam por vir também cá ver o jogo, ao Qatar. E depois temos aquela onda grande de adeptos do futebol da Índia, do Bangladesh, do Paquistão, do Quénia, ou seja, uma série de países que têm Cristiano Ronaldo como a grande figura. É incontornável. Havia um que tinha uma imagem engraçada, que tinha uma fotografia do Ronaldo e depois embaixo tinha uma espécie de uma cartolina que dizia: "A minha mulher deu-me autorização para eu vir ao jogo ver o meu ídolo, Ronaldo". Portanto, gira tudo sempre à volta de Ronaldo. E isto tudo para dizer que é normal que a falange de apoio mais organizada de Portugal não se ouça tanto como a sul-coreana. Mas em contrapartida, quando o Ronaldo faz alguma coisa em campo ou basta aparecer nos ecrãs e o nível de decibéis dos adeptos a saudar Cristiano Ronaldo é muito maior do que os sul-coreanos. Portanto, isto acaba por ser o pão nosso de cada dia no Qatar sempre que Portugal joga. Mesmo assim, claramente muito mais equilibrado, uma ligeira vantagem em termos de adeptos para Portugal, mas muito mais equilibrado, porque de facto a Coreia do Sul também trouxe muita gente a este jogo, pessoas que acreditavam no milagre e pessoas que valeu a pena a viagem porque o milagre aconteceu mesmo.
Aconteceu mesmo. Mas, Bruno, e tu que estiveste a observar o joguinho logo de ontem, aqui neste mesmo espaço, no Diário do Mundial de ontem, de dia 1 de dezembro, na quinta-feira, já antevias as mudanças promovidas por Fernando Santos, que acabaram por acontecer. E na altura lembro-me de brincar contigo sobre se as mudanças de Fernando Santos iam ser semelhantes às de Didier Deschamps, que rodou a equipa toda contra a Tunísia e acabou por perder. E o que é certo é que o desfecho foi basicamente o mesmo, apenas com a variante de que Portugal começou a ganhar e até parecia que o jogo ia ficar por ali. Portugal controlava, Ricardo Horta marcou relativamente cedo e parecia que aquilo ia ser, não um passeio, mas ia ser tranquilo.
Sim, pelo menos não há nada melhor em termos anímicos para uma equipa com vários jogadores que estão a fazer a sua estreia no Campeonato do Mundo, começar a ganhar. É impossível pedir um melhor início. Em relação às alterações, deixa-me dizer que eu esta manhã percebi que o Ronaldo ia ser titular, portanto, deixei de ter essa dúvida. Ainda assim, fiquei surpreendido com a titularidade de Pepe e Rúben Neves, porque me pareciam dois elementos, o Pepe, porque antes do mundial teve aquele período, e na grande de paragem, o Rúben Neves, porque tinha saído ligeiramente tocado no jogo com o Uruguai. Pensava que poderiam ser dois dos elementos poupados. Fernando Santos fez ao contrário, ou seja, preferiu, por exemplo, manter o Palhinha no banco e continuar com o Rúben Neves, porque isso também tinha a ver com a estratégia de jogo que trazia para a Coreia do Sul. Em relação ao Pepe, descansou o Rúben Dias, ficou o Pepe. Portanto, essas para mim acabaram por ser as principais surpresas, partindo do pressuposto que de manhã já tinha percebido que o Ronaldo não ia descansar. Acho que foi uma oportunidade perdida para descansar, sobretudo para espairecer um pouquinho a cabeça, para desanuviar um bocadinho, porque nós muitas vezes, vou dizer isto num sentido um bocado mais lato, mas acho que é algo que se aplica muito a Ronaldo. Nós muitas vezes quando nos sentimos confortáveis no ambiente em que nós estamos, quando sentimos que é o contexto ideal para nós mostrarmos o melhor que nós temos. Muitas vezes isso também cria uma ansiedade onde nós queremos tanto retribuir tudo isso que sentimos, que as coisas acabam por não correr como nós queremos. E acho que o jogo do Ronaldo foi um bocadinho mais disso, ou seja, tu percebes que durante o jogo ele quer tanto marcar, quer tanto participar no jogo, quer tanto fazer as coisas todas, que a certa altura quase que a ansiedade o trai e acaba por haver ali uma espécie de lei de Murphy onde tudo o que podia correr mal, correu pior, nomeadamente até aquele desvio no canto da Coreia do Sul, que depois originou o empate. Até isso, ele acaba por ter azar. Depois, claro está, a questão da substituição, eu ainda vou ter de fazer uns contactos, vou ter de perceber algumas coisas. Deixa-me só acrescentar que aquela questão de ele se ter pegado com o avançado sul-coreano, isso é verdade, porque eu estava a ver isso. Inclusivamente, ele fez gestos que da bancada de imprensa não percebi o que ele queria dizer, mas ele estava a fazer gestos para ele.
E fez o Pepe também a confrontar, entre aspas, o jogador coreano, como descreveram Cristiano Ronaldo e Fernando Santos.
Sim, e essa situação aconteceu. Até porque o Pepe foi logo acertar o passo a esse avançado da Coreia do Sul, que se estava a meter com o Ronaldo. Se houve mais alguma coisa, e se ele saiu insatisfeito e mostrou essa insatisfação, também com o Fernando Santos, é aquilo que eu agora, durante a noite, ainda vou ter tempo para perceber. Do jogo em si, aquilo que retiro, há dois jogadores que, para mim, em condições normais, ganharam o lugar como titulares nos oitavos.
Vitinha?
Vitinha e Diogo Dalot. Tenho dúvidas é quem é que possa sair.
Certo.
Sobretudo em relação ao Diogo Dalot. Não sei se irá Cancelo ou Rafael Guerreiro, mas se sair Cancelo também é por uma questão de gestão física, porque alguém que está a apontar chegar a uma final, também tem de pensar em todos os pormenores, mesmo sabendo que a partir de agora não há margem de erro. Em relação ao Vitinha, acho que é uma lição de bola de futebol. Foi mais uma lição de bola de futebol e deixa-me dizer que ele está muito mais evoluído sem bola do que estava no futebol do Porto. Ou seja, Sérgio Conceição fez um trabalho fantástico a evoluir tudo aquilo que Vitinha já tinha de bom. E eu acho que agora o Paris Saint-Germain e o fato de ele próprio assumir quase um papel de sombra perante uma equipa de estrelas, onde até no meio-campo Verratti tem quase obrigatoriamente de sobressair mais do que ele, fez com que ele ganhasse uma noção de jogo sem bola e uma noção de jogo a ocupar os espaços, que acho que é qualquer coisa fantástica, vista do estádio então, acho que se nota imenso essa diferença. Esses dois diria que colocaram os papéis para a titularidade nos oitavos. Não estou a dizer que não possam existir mais jogadores também a subir, mas diria que não. E resumidamente sobre o jogo, eu acho que a grande questão continua a ser os períodos em que Portugal desliga. Quando Portugal consegue estar ligado ao jogo, eu ainda não vi nenhuma seleção ser superior do que Portugal, e até se consegue jogar um futebol bom e sobretudo pragmático. Consegue-se rematar à baliza, consegue-se criar oportunidades. A questão é que muitas vezes a equipa, sem se perceber muito bem por quê, é quase como se desligasse a ficha. E aquilo que os adversários têm aproveitado é quando percebem que houve um desligar de ficha, atacam e tiram rendimentos. Com o Gana, o resultado acabou por ficar 3x2, mas o Gana também sentiu isso e conseguiu. Com o Uruguai, há aquele período entre a saída de Rúben Neves por Rafael Leão e depois a entrada de Palhinha e Matheus Nunes, que acaba com o jogo, onde o Uruguai tem uma bola no poste, tem uma bola nas malhas laterais do Suárez e tem uma grande defesa do Diogo Costa a remate de Torres Caheta. E a Coreia do Sul tem o gol do empate, que nasce também de uma bola parada, que não é normal Portugal sofrer gols de bola parada. E depois o segundo gol, que para mim é o melhor exemplo do que é desligar do jogo, porque é o beabá do futebol. Nenhuma equipa sofre um gol partindo de um lance que é um canto a seu favor. Isso não existe.
Nos videojogos existe muito, Bruno, deixa-me que diga, mas isso é nos videojogos.
Nos videojogos, e acontece, sobretudo no futebol de formação, que é quando se ensina aquilo que se deve fazer, nomeadamente, que tem de haver sempre mais um jogador do que a equipa adversária caso perca a bola, que tem de haver um jogador ou dois perto de uma zona da área Para uma qualquer segunda bola, mas que também podem matar qualquer transição. Ou seja, isto não é tirar mérito à maneira como a Coreia do Sul marcou, porque o Son tem mérito, o Hwang tem mérito, não é isso que está em causa. A questão é que não se pode sofrer aquele tipo de golos. Não foi importante, Portugal passou, Portugal continua em primeiro. Pode ter sido um aviso. Por exemplo, no caso da Espanha, acho que aquilo que aconteceu ontem com o Japão pode ter sido um aviso importante para aquela seleção, porque também desligou, porque quando a Espanha está ligada ao jogo, para mim é uma clara favorita a ir à final deste Campeonato do Mundo. Vamos ver se Portugal também consegue transformar isto num aviso. Sendo que quer Espanha, quer Portugal, neste caso, terão adversários sempre competitivos, complicados e que poderão ser sempre revelações neste mundial por aquilo que fizeram. Portanto, a partir de agora vai começar a sério doer e é bom que, se era necessário errar, que tenha sido agora nesta fase o erro.
E assististe de cadeirinha à enorme festa dos sul-coreanos, que ainda tiveram que ficar errados aos telemóveis um bocadinho para conferir.
Fiz até uma coisa melhor.
Não digas que foste lá ter com eles ao relvado.
Não, só faltava isso. Mas publiquei a crônica e fiquei à espera. Eu estava na bancada de imprensa e por baixo de mim estava o Klinsmann.
Ok.
E sempre que ele dava uma abertazinha, não é propriamente o ato de coscuvilhar, é apenas isso, é olhar em frente e ver o que ele está a fazer.
Certo.
Pronto. E achei engraçado, ele no intervalo estava a ver lances de um jogo entre Países Baixos e País de Gales, que não é deste Campeonato do Mundo, ou seja, ele estava a estudar lances. Não sei se será o sucessor de Van Gaal ou não. Pode ser.
Estranho.
Não sei, mas ele está a trabalhar para uma televisão, portanto provavelmente poderiam estar a ver esses lances numa perspectiva de estudar como é que jogam os Países Baixos e, neste caso, como é que joga o Depay na seleção para poder comentar o jogo dos Países Baixos com os Estados Unidos, que é amanhã, e os Estados Unidos é uma seleção que conhece bem, porque ele já foi selecionador norte-americano. E depois fiquei à espera, porque achei piada à reação do próprio Klinsmann, que acabou por ser uma reação que toda a gente teve, que foi aquela ânsia dos jogadores estarem à espera no relvado. Como disse o Son depois na zona mista, também para nós portugueses, que também já podemos falar, não tem nada a ver uma zona mista da Coreia do Sul com uma zona, por exemplo, de seleções latinas.
Imagino.
Foram os seis minutos mais longos da vida do Son, mas ao mesmo tempo acabaram por ser os seis minutos de maior felicidade para o Son. Foi uma festa enorme. Eu não sei se chegaram a publicar esse vídeo nas redes, mas o vídeo que eu publiquei é não só da festa dos sul-coreanos, mas também do Klinsmann a rir-se enquanto estava a deixar a bancada de imprensa. Portanto, mesmo de propósito, ver se ele aparecia. E esperei pela festa e depois foi a zona mista onde houve a rábula Ronaldo.
Pois.
Porque aquilo que passa é só o Ronaldo ir às televisões e a falar e a justificar aquilo que ele já estava a entender, que podia ser uma espécie de caso que se estava a criar e que ele achava que não se deveria ter criado um caso. Antes disso acontecer, Ronaldo tinha passado pela zona mista e por duas vezes disse que não ia falar. Ou seja, neste caso, à CNN, primeiro questionado sobre o que é que se tinha passado na altura da substituição, a resposta foi: "Isto já passou". Um bocadinho mais à frente, questionado se queria falar sobre o jogo, disse apenas: "Hoje não". E saiu. E passado cinco minutos é que voltou àquela parte da zona mista, que é para quem tem os direitos e neste caso para as televisões, e falou e justificou aquilo que se tinha passado. Portanto, há sempre uma história por trás de cada intervenção.
E a FPF percebeu que seria importante o Ronaldo falar porque estava a acontecer burburinho, não é?
Eu acho que alguém deve ter dado o toque, até porque é normal que a preocupação do Ronaldo ao seguir um jogo desse não seja propriamente ele agarrar no telemóvel e ver quais são os posts que tem no telemóvel para conferir se está tudo bem ou mal. Alguém lhe deve ter dito. Ele perante essa situação, provavelmente deverá ter pensado: "O melhor é eu falar já e explicar aquilo que se passou para não haver mais um caso, digamos assim, não se começar a criar uma novela". Resolveu assim a situação, mas antes tinha havido este episódio. Ele já tinha passado pela zona mista e não tinha falado, portanto, alguém deverá ter deixado esse alerta.
Certo.
E eu depois continuei por lá, ou seja, já sabia que dos jogadores portugueses não iria falar mais nenhum, porque já tinham falado os três da Flash, e essa é a única obrigatoriedade FIFA, pois a partir daí os jogadores podem ou não falar, não são obrigados a nada já. Ficamos à espera dos sul-coreanos e neste caso, para falar com o Hwang, que foi simpatiquíssimo, que já tinha estado a falar imenso tempo, mas que mesmo tendo algumas dificuldades ainda com o inglês, fez o esforço para falar um bocadinho sobre se já tinha falado com o Rúben Neves, sobre os portugueses no Wolverhampton, a explicar uma fotografia que já tem algum tempo, em que apareci com um casaco do Brasil, que provavelmente pode ser o adversário da Coreia do Sul nos oitavos, e ele a explicar que sempre foi um fã do Brasil desde o momento em que viu o Mundial da Coreia do Sul em 2002 e viu o Ronaldo fazer aquilo que fez, nomeadamente com dois gols na final Que o Brasil ganhou a Alemanha.
Com aquele pentiasão.
Em inglês, foi-se tentando explicar. Percebia-se que ele estava nervoso, a mão dele estava a tremer um bocadinho, mas ele mesmo assim teve a paciência para, dentro do seu inglês possível, que já foi aprendendo, falar um bocadinho de tudo isso. E o Son foi a mesma coisa, ou seja, parou em dois espaços para falar com os jornalistas sul-coreanos, falou um bocadinho de inglês e mesmo assim depois ainda parou ali com uma particularidade que não é muito normal, que é quando um assessor diz última pergunta, é mesmo a última pergunta. O jogador acaba de responder a essa pergunta e vai embora. E houve três vezes a última pergunta. Já estive a conferir na gravação, três vezes: "Última pergunta". E ele foi continuando a falar, falou de como é que foi a Coreia do Sul preparar um jogo sabendo que não iria ter o treinador no banco, neste caso o Paulo Bento. Perguntei-lhe também se o Paulo Bento lhe tinha passado algum tipo de segredo ou alguma coisa em relação a Portugal por conhecer bem os jogadores, por conhecer bem a seleção. E ele deu uma resposta muito pragmática, que foi: "Ele não precisava de passar nenhum segredo, porque nós conhecemos bem os jogadores portugueses e conhecemos todos os jogadores portugueses e não existe necessidade de passar nenhum segredo, porque toda a gente sabe o que é Portugal". E tem ali depois uma frase onde me parece que parte do discurso motivacional de Paulo Bento poderá ter passado por ali, que é Son a dizer: "Vocês vieram de Portugal, vocês estão aqui, vocês provavelmente hoje pensariam que Portugal iria ganhar fácil à Coreia do Sul, porque era favorito, mas nós conseguimos ganhar o jogo e estamos muito contentes por passar para os oitavos". Ou seja, pareceu-me que havia ali quase um discurso de: eles são os favoritos, eles são muito melhores, eles já estão qualificados, etc. Mas é possível nós sermos maiores do que eles. E foram. Sinceramente, não sei, nem falei com o Paulo Bento, nem com ninguém ainda, mas não sei se terá também passado por aí a última mensagem de Paulo Bento antes de deixar a equipa e antes de ver o jogo na bancada, mas pelo discurso do Son, parece-me que passou também muito nessa base. Portugal é um dos favoritos a ganhar o Mundial, é favorito a ganhar este jogo. Nós vamos tentar mostrar que conseguimos jogar tão bem ou melhor do que eles e conseguiram no final ganhar o jogo.
E da nossa parte, a ver se a seleção ganha um chip e acorda, entre aspas, com este percalço que em nada beliscou o primeiro lugar. A esta hora que estamos a falar, ainda está por decidir o adversário de Portugal e da Coreia do Sul. Jogam Sérvia-Suíça e também Brasil e Camarões, mas adiantemos já até o dia de amanhã, Bruno, até porque o tempo urge. Amanhã temos o dia um dos oitavos de final. Temos às 15h, horas de Lisboa, Países Baixos-Estados Unidos e às 19h, um Argentina-Austrália. Em que jogo vais estar?
Queres adivinhar? Não é difícil.
É o Argentina.
Evidente.
Porque gostas tanto dos hinchas que não te fartas deles e queres estar com eles.
Não, isso é sobretudo a seguir ao jogo, no metro, essa é a pior parte que existe. Agora, eu vou ser sincero, dentro de todos os jogos dos oitavos de final, não tenho dúvidas nenhumas que a zona mista dos Países Baixos com os Estados Unidos ia ser garantidamente a melhor, até na quantidade de jogadores com que poderíamos falar e o tipo de conversas. Já estive em jogos dos Estados Unidos e dos Países Baixos e portanto já fui vendo como é que são aqueles jogadores e não tenho dúvidas nenhumas que a zona mista seria muito melhor. Agora, acho que nunca se pode passar ao lado da história e a história aqui chama-se Lionel Messi, chama-se Ronaldo. Esta loucura toda argentina é porque existe esse sonho do Campeonato do Mundo, mas é também por Lionel Messi. E convenhamos, já vimos tantas surpresas. Eu também já vi um jogo da Austrália, parece-me que a Argentina poderá ganhar fácil, mas a partir de agora é simples, isto pode ser sempre o último jogo de Messi na seleção.
Pois, exato.
E, portanto, enquanto houver entradas, neste caso nem é para a zona da tribuna de imprensa, é para uns bancos ao lado.
Nem vais ter ficha para ligar o computador.
São tantos os pedidos que não há mesas para todos. E sobretudo desde que existe a zona mista, e a de amanhã já está garantida, terá de ser sempre a seguir à Argentina, porque a partir de agora, qualquer deslize, qualquer percalço, pode ser definitivamente o fim do Lionel Messi na seleção. Antes, vou fazer uma coisa, não sei se estás preparado para isto, fisicamente e psicologicamente para saber esta informação. Vou assistir ao campeonato de camelos no Qatar.
Isso é inacreditável. Incrível.
Os camelos e as corridas de camelos aqui é uma espécie de ex libris a par dos concursos entre falcões.
Certo.
Estamos a falar de prêmios verdadeiramente milionários para quem ganha a corrida dos camelos. Eu já lá passei, já fui estudando, só para as pessoas perceberem. Existe um corredor a meio, que é onde correm os camelos em corridas de 5 e de 10 km, e ao lado existem duas pistas para os carros que comandam os robôs que estão em cima dos camelos.
Incrível.
Funciona, digamos assim, como uma espécie de jóquei. Até há alguns anos eram crianças que serviam de jóqueis de camelos. Depois, para não haver qualquer tipo de problema em relação a abusos infantis, inclusivamente chegou-se a falar em exploração infantil, acabou-se com isso e começaram a ser robôs. E lá estarei eu a perceber como é que aquilo funciona. Eu já comecei a ver mais ou menos nos treinos. Como é que as pessoas assistem é que eu tenho alguma curiosidade, até porque me dizem que isto é sobretudo uma coisa feita para dar na televisão e que tem audiências brutais.
Ok.
Aquilo que me faz confusão é se isto é tão brutal Vamos lá ver se eu não ponho as minhas mãos no fogo. De certeza absoluta que deverá haver bancada com as pessoas a ver. Como existe em qualquer prova deste tipo, onde se tenha de percorrer cinco ou 10 km. Portanto, lá estarei, chegarei um bocadinho mais cedo também para perceber tudo isso. É ao pé, mais ou menos, do estágio da seleção. Fica sensivelmente cinco, 10 km, penso que não será muito mais do que isso. E a seleção vai treinar às 11h30. Mais ou menos à hora em que começa este campeonato, que terá um nome particular que eu ainda não percebi bem qual é, será quando vai começar o campeonato e portanto vou começar assim o meu dia, uma corrida de camelos e depois à noite Lionel Messi e a sua Argentina.
E amanhã, estou curioso, sábado, farás o "Diário do Mundial" com o André Maia. Espero que lhe digas quem é o CR7 dos camelos ou o Messi dos camelos.
Sim, mas CR7 a todos os níveis, incluindo ordenados e prémios. Atenção. Isto é a loucura dos camelos, para tu perceberes a loucura dos camelos, há concurso de beleza de camelos também. Aí já não consigo perceber muito bem quais são as regras, mas deverá haver as suas regras. E há alguns camelos que foram desqualificados de concursos há não muito tempo, e isso foi uma notícia de nível nacional, porque os seus proprietários utilizaram Botox para os lábios e acabaram por ser desqualificados. No fundo utilizaram doping, que era Botox para os lábios no concurso de beleza. Isto aqui é uma questão de dar um pontapé numa pedra e aparece uma história e nós vamos andando atrás dela. Agora é a corrida dos camelos, que seja a corrida dos camelos.
E amanhã vais estar cá para contar tudo em mais uma edição de "Diário do Mundial". Bruno, até amanhã e bom descanso.
Obrigado. Até amanhã.
Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.
