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Ana Gomes, bem-vinda ao "Direto ao Assunto" da Rádio Observador. Luís Montenegro comprometeu-se com o apoio à candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu. O timing escolhido foi uma estratégia para tentar fazer esquecer a derrota eleitoral da AD ou para passar para segundo plano, pelo menos?
Olá, boa tarde. Foi, com certeza, uma estratégia inteligente para desviar as atenções da derrota do PSD nas eleições europeias. Tanto mais que a questão vinha de trás. Havia quem alimentasse o tabu, a começar pelo próprio ex-primeiro-ministro António Costa, mas pelos vistos já tinham conversado. Inclusivamente, viemos a saber pelo próprio ex-primeiro-ministro António Costa, que tinham conversado sobre a matéria mesmo antes de Luís Montenegro ser primeiro-ministro. A mim não me espanta. Eu venho há uns anos a dizer que isto estava na calha e agora, felizmente, finalmente, todos assumem que está na calha e, pelos vistos, está mesmo muito bem encarrilado.
Com o apoio de Luís Montenegro, o nome de António Costa ganha maiores possibilidades de agradar à família do PPE?
À família portuguesa, não.
Não, à família europeia do Partido Popular Europeu.
Sim, claro. Mas eu digo que não à portuguesa, porque inclusivamente naquela noite, quando se falou na sede da AD, quando se falou do nome de António Costa, viram-se uns aplausos, que depois foram silenciados pelo que disse o primeiro-ministro Luís Montenegro. Mas a nível europeu, sim, com certeza. Desde logo, à senhora von der Leyen, que era a Spitzenkandidatin do PPE, que tudo indica que poderá vir a ser de novo presidente da Comissão Europeia, tendo que obviamente ter o apoio do Parlamento Europeu, que se faz por voto secreto, mas tudo indica que o que vai lá chegar ao Parlamento Europeu, como é habitual, é um negócio feito entre as grandes famílias políticas, e esse negócio poderá implicar justamente que a senhora von der Leyen volte à presidência da Comissão Europeia, que António Costa, pelos socialistas, será o presidente do Conselho Europeu e, eventualmente, que alguém, eventualmente a senhora Kaja Kallas, pelos liberais, ou alguém outro pelos liberais, ficará com o posto de Alto Comissário para a Política Externa. E, portanto, isso agradará ao PPE e agrada, sem dúvida, à senhora von der Leyen, porque a senhora von der Leyen e o nosso ex-primeiro-ministro António Costa têm uma excelente relação, que desenvolveram ao longo de anos, e ambos trabalharam para ter essa excelente relação. E eu tenho a certeza que a senhora von der Leyen prefere António Costa, por exemplo, àquele que hoje exerce o cargo de presidente do Parlamento Europeu, com quem teve amplas e públicas disputas, Charles Michel.
Este resultado, apesar do crescimento da direita radical e da extrema-direita, esta correlação de forças foi o melhor resultado possível para aumentar as possibilidades de ver António Costa como presidente do Conselho Europeu?
Sim, do ponto de vista do interesse de António Costa ser presidente do Conselho Europeu, estes resultados confirmam a família socialista em segundo lugar e, portanto, indicam que o posto de presidente do Conselho Europeu será para um socialista e ninguém está melhor posicionado do que ele, e ninguém tem até mais experiência política e como chefe de governo do que ele. Portanto, não admira que desde já esteja a ser endossado por outros chefes de governo determinados, como Olaf Scholz e o presidente Macron.
Esta questão judicial que ainda o envolve já não é uma questão nesta altura do campeonato?
Eu penso que não, até porque senão o primeiro-ministro Luís Montenegro não teria feito o anúncio que fez. De alguma maneira, essa questão judicial, que foi pelos vistos fabricada, visto que a própria justiça que sai bastante mal e até com uma imagem no exterior bastante negativa. Se aquilo foi feito para tolher o passo ao primeiro-ministro António Costa, e designadamente o expulsar do cargo de primeiro-ministro, acabou por lhe servir às maravilhas, porque neste momento, se ele estivesse ainda como primeiro-ministro, teria algum predicamento em ter que arranjar uma justificação para sair do cargo de primeiro-ministro com maioria absoluta e para poder candidatar-se a presidente do Conselho Europeu. Por linhas tortas, digamos que a justiça portuguesa deu-lhe o pretexto para ele ser afastado do cargo de primeiro-ministro e estar hoje livre e mais disponível, sem problemas, para se candidatar a presidente do Conselho Europeu.
E pode até não ter sido mau de todo, porque antecipava-se que António Costa nem gostaria de fazer o mandato até ao fim, tendo em conta que já estava há muitos anos como primeiro-ministro.
Exatamente, eu fui das pessoas que foi dizendo que isso estava na calha. Havia claros indícios. O simples facto, por exemplo, da Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus ter passado do ME para alfândega do gabinete do primeiro-ministro eram bem demonstrativas de que obviamente havia aqui um interesse Extraordinário pelas questões europeias e que obviamente não era destituído de um interesse pessoal.
Vamos então à vitória do PS nas europeias, que ainda por curta margem, pergunto-lhe se pode aproximar Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro e com isso permitir a viabilização do próximo orçamento do Estado.
Oiça, eu acho extraordinário que estejam todos a falar da viabilização do orçamento do Estado, quando nós ainda não sabemos qual é esse orçamento, o projeto do orçamento do Estado que o governo vai apresentar. Eu acho que seria insano o PS ou qualquer outro partido comprometer-se com a aprovação de um orçamento que não conhece. Só quando esse orçamento for conhecido, só quando esse orçamento for negociado e se vir qual é o resultado final dessa negociação, é que o PS deve anunciar qual é a sua posição. A esta distância.
Mas a liderança de Pedro Nuno Santos entrou aqui numa fase nova depois de domingo, até com aquele anúncio de lançar os estados gerais, ou seja, agora é que Pedro Nuno Santos vai começar a renovar o partido?
Bom, eu acho que obviamente o resultado foi bom para o PS e para Pedro Nuno Santos, o resultado das eleições europeias. E sim, ele foi catapultado para secretário-geral do PS, por causa da demissão do primeiro-ministro nas condições em que sabemos, à conta das suspeitas que a justiça tornou públicas, e naturalmente teve que se haver com duas eleições de emergência, e portanto é natural e é saudável, penso eu, que ele justamente tenha anunciado esses estados gerais, portanto uma ação do PS para ouvir a sociedade civil, para receber novos contributos e para se regenerar e, sobretudo, reabrir à sociedade, designadamente aos mais jovens, que obviamente é um setor que foi alienado pelo PS nos últimos anos. Pelo PS e por outras forças, mas o PS em particular, e isso é bastante grave. E portanto eu acho que faz todo sentido que agora com o novo vigor, por causa da vitória nas eleições europeias, António, o Pedro Nuno Santos possa iniciar esse processo de reflexão e de recepção de contributos para o PS.
Essa intenção de arrancar com os novos estados gerais também não é indicador de que não é intenção do Partido Socialista derrubar este governo já neste processo orçamental?
Mas isso foi afirmado pelo próprio Pedro Nuno Santos, aliás, na noite destas eleições.
Para si ficou claro.
Claro, o PS não é um fator de instabilidade. Ele disse logo na própria noite da vitória da AD nas eleições legislativas, reconhecendo imediatamente a derrota do PS, que ia fazer oposição e que ia ser oposição. E é o que tem estado a ser, oposição. Seriamente, com propostas construtivas. Ao governo cabe governar, mas naturalmente, até por causa da pequeníssima maioria que tem, tem que negociar e o PS tem demonstrado estar mais que disponível para isso. Aliás, tem resolvido alguns problemas ao governo, exatamente pela sua incapacidade de negociar. E portanto, agora também nas europeias, Pedro Nuno Santos, em perfeita coerência com o que disse na noite das legislativas, também voltou a dizer que não quer ser um fator de instabilidade. Não é por causa do PS, que obviamente se precipitarão eleições. Tudo depende do governo, de governar e de conseguir demonstrar que essa governação serve os interesses do país. Mas tem que obviamente contar que o PS faça o seu trabalho, designadamente denunciando medidas do governo que são contrárias aos interesses do país. Olhe, dou-lhe um exemplo. O IRS Jovem, tal como está programado, proposto pelo governo, que é um esquema claro de arrasar com a progressividade nos impostos, isto é, com o princípio de quem mais recebe é quem mais paga. Este sistema proposto pelo governo vai, no fundo, servir uma política neoliberal para uma fatia significativa da população, que é a população até aos 35 anos, introduzir um esquema de impostos muito mais reduzidos, em que são os mais abonados que menos pagam ou que recebem a maior fatia de baixa de impostos.
Mas depois aí não a incomoda ver a proposta do PS viabilizada com os votos do CHEGA?
Mas é que o PS não faz nenhuma negociação com o CHEGA. Rigorosamente nenhuma. Não faz, não fez e não fará. Era o que mais faltava, nem pensar. Agora, não podem impedir que o CHEGA vote como lhe der na cabeça. Nós sabemos que a agenda do CHEGA é outra, é completamente oportunista, e tem um objetivo que é, obviamente, arrasar o PSD. Mas será por isso que o PS vai deixar de fazer o seu papel de oposição, de oposição construtiva, de oposição que defende os interesses do país, naturalmente segundo a sua própria visão? Não, maneira nenhuma.
Que leitura é que Luís Montenegro deve retirar destes resultados? Deve mudar?
Não quer que o CHEGA lhe perturbe o jogo.
Tem que olhar para o PS.
Ou negocia com o PS, obviamente.
Mas deve mudar a forma como o tem feito? Esses resultados das europeias dão esse sinal?
Com certeza. Ou negoceia com o PS e arranja soluções que efetivamente sirvam a perspectiva dos dois partidos e o interesse comum, ou então faz negociações com o Chega, ou então sujeita-se a que a conjugação de votações com todos os outros partidos da oposição, incluindo o Chega, por razões oportunísticas, não permita aprovar as suas próprias propostas.
Eduardo Cabrita acusou Marcelo Rebelo de Sousa de ser o principal responsável pela instabilidade política. Partilha deste entendimento?
Partilho e há muito tempo que o digo. Desde que fui candidata às eleições presidenciais, justamente contra o professor Marcelo Rebelo de Sousa, que disse que ele era o grande estabilizador. E mais do que isso, também disse nessa altura que ele era um dos principais apoiantes do Chega. Não o assumindo, claro, mas na medida em que tinha deixado o acordo nos Açores fazer-se com o Chega, nessa altura, em 2020, criando, portanto, um precedente que, pelos vistos, tem vindo a florescer nas regiões autónomas e que é objetivo do Chega, naturalmente, ver reproduzido a nível nacional.
Ana Gomes, só para terminar, hoje Adalberto Campos Fernandes lançou o nome de Mário Centeno para Belém. O atual governador do Banco de Portugal seria um bom candidato presidencial?
Eu acho que ainda estamos tão longe das eleições presidenciais, mas não vejo que entre as pessoas com mais de 35 anos, possa estar excluído.
Onde se inclui Ana Gomes. Estaria disponível para ir de novo a eleições?
Eu nunca me pronuncio sobre essa matéria. Aliás, é um peditório para que já dê, não é? Portanto, não me pronuncio sobre essa matéria. Acho que Mário Centeno é uma pessoa perfeitamente séria e respeitável, e não faço a mais pequena ideia se ele tem vontade de ser candidato, que acho que isso é muito importante. Mas acho que não vale a pena estar a especular, não quero alinhar nesse tipo de especulações a um ano e meio ou mais das eleições presidenciais. É querer desviar as atenções do que importa discutir na sociedade portuguesa neste momento. E eu acho que realmente o importante é discutir a governação de quem hoje tem a responsabilidade de governar.
E foi isso também que fizemos aqui. Ana Gomes, muito obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós neste "Direto ao Assunto" na Rádio Observador. Ainda nesta hora teremos novo "Direto ao Assunto" com o secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias.