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E a nossa convidada nesta segunda edição de Direto ao Assunto, Diva Ribeiro, foi no passado domingo eleita deputada pelo círculo eleitoral de Beja, pelas listas do Chega. Ficou em segundo lugar na votação à frente da CDU, que perdeu o único deputado que a coligação liderada pelo PCP tinha no Alentejo. Diva Ribeiro, 49 anos, professora há 21, leciona Matemática em Vila Nova de Milfontes. Bem-vinda à antena do Observador.
Muito boa tarde, muito obrigada pelo convite.
Esta eleição para o Parlamento sempre entrou nas suas contas, habituada que está a fazê-las, ou foi sobressaltada pelo resultado conhecido no domingo?
Ser eleita era um resultado que nós já prevíamos que fosse possível acontecer. Isto foi acontecendo e fomos verificando que a vontade das pessoas numa verdadeira mudança no Baixo Alentejo era uma realidade. E fomos acreditando todos os dias que isto era possível e que iríamos ter um grande resultado no Baixo Alentejo.
Face ao resultado de 2022, o Chega duplica a votação neste ato eleitoral em Beja. Fica em segundo lugar à frente da AD e como já referimos, também à frente da CDU. Que razões encontra para esta subida tão pronunciada da votação?
Peço desculpa, não duplica, quase triplica o resultado de há dois anos. O facto de ficar à frente da CDU. O distrito efetivamente teve uma mudança radical, nós fizemos história. Acredito que o partido Chega contribuiu e muito para esta viragem. O distrito deixou de ter três deputados de esquerda e passou a ter dois deputados de direita e um deputado de esquerda. Portanto, passámos de três-zero para dois-um, efetivamente uma mudança que fez história no Baixo Alentejo.
Mas quais são as razões para esta subida tão pronunciada, no seu entender? Porque é uma subida bastante significativa num território historicamente dominado, como disse, pela esquerda.
Este resultado é reflexo de tudo aquilo que não foi feito no Baixo Alentejo. Muitas coisas estavam projetadas, muitas coisas tinham sido prometidas e nada disso foi concretizado. O Baixo Alentejo é um distrito muito envelhecido, tem uma população muito envelhecida. Deixou de haver uma fixação de jovens, criação de empresas, criação de postos de trabalho. Tudo isto ficou por fazer. E ficou por fazer porque tudo aquilo que tinha sido prometido não foi executado. E posso começar pelas infraestruturas. Há quantos anos está prometida a conclusão da A26? A A26 tem que ser uma realidade. Tem que ser uma realidade porque nós somos uma capital sem autoestrada. Não faz sentido. Nenhuma capital consegue desenvolvimento sem ter acessos, sem ter uma autoestrada, sem ter uma ferrovia com iluminação. Tudo isto são pontos que são essenciais para o desenvolvimento do nosso distrito e que não aconteceram.
Na análise aos resultados eleitorais, alguns analistas, ex e atuais políticos consideram que o crescimento do Chega fica a dever-se também, entre outros fatores, ao fato de o partido ter a capacidade de dar voz à preocupação de muitos eleitores em torno de temas que os partidos ditos tradicionais descuraram ou têm pudor em abordar nos mesmos moldes em que o Chega o faz. Foi também o que aconteceu em Beja?
Não sei do que me está a falar, concretamente.
O caso da imigração, por exemplo, o Chega aborda o tema da imigração com menos pudores do que os partidos de centro, e que isso também terá contribuído para que em muitos locais do país o Chega tenha subido a sua votação, para que alguns eleitores tenham criado uma identificação com o Chega.
O Chega aborda o tema da imigração, tal como outros temas. Ou seja, o Chega toca efetivamente nas feridas da sociedade e a imigração é um deles. O Chega, ao contrário do que outros partidos disseram, e disseram também durante a campanha eleitoral, não é contra a imigração. Nós temos perfeita consciência de que necessitamos de imigrantes, que necessitamos de mão de obra. E é isso que nós queremos. Nós queremos que esses imigrantes venham para o nosso país e sejam uma mais-valia para o nosso país, contribuam para a riqueza do nosso país, para construir riqueza no nosso país. Mas não é isso que acontece. Nós temos uma imigração descontrolada.
E isso sente-se particularmente no distrito de Beja?
Sente-se também no distrito de Beja, e cada vez mais. Mas no distrito de Beja alguns concelhos estão mais afetados. Como é o concelho de Odemira, que é uma situação de conhecimento público, que existe uma imigração completamente descontrolada. E é isso que nós não queremos. Nós queremos que os imigrantes tenham condições, tenham trabalho, tenham acesso ao SNS com condições dignas, tenham acesso à educação. E tudo isto está a ser feito de forma Descontrolada, porque posso falar em relação ao ensino, eles são integrados no ensino, mas não são integrados de forma completamente igual em relação aos outros alunos. Eles são integrados em turmas e não conhecem a língua. É uma confusão dentro das escolas, nomeadamente nas escolas do Conselho de Odemira. Os professores tentam tudo por tudo para os integrar, mas nós não temos condições para o fazer.
Face a essas dificuldades de acolhimento, qual é a solução? É não aceitar que os imigrantes venham ou encontrar um modelo alternativo de integração desses mesmos migrantes?
Exatamente, é encontrar o modelo alternativo. Ou seja, nós temos que primeiro criar condições para receber esses imigrantes e temos que efetivamente receber os imigrantes que, quando vêm para o nosso país, têm efetivamente um emprego. Não é terem um visto provisório e depois logo se vê. Nós temos que controlar esta situação, porque esta situação está a causar muitos problemas no nosso país, está a causar muitos problemas no território, nomeadamente no Baixo Alentejo, mas não só no Baixo Alentejo, infelizmente, isto já é transversal a todo o país. E isto não pode acontecer. Nós defendemos uma imigração, mas, volto a repetir, uma imigração controlada.
Além desta questão das infraestruturas, que referiu também do controle da imigração, que outros temas crê serem prioritários? Que outras medidas devem ser tomadas por um próximo governo para alterar esta realidade que tem tornado descontente uma parte tão significativa do eleitorado, precisamente, ou mais propriamente, na região pela qual foi eleita?
O Alentejo e nomeadamente o Baixo Alentejo, o motor da economia do Baixo Alentejo é a agricultura. Não nos podemos esquecer disso. A agricultura tem sido muito maltratada, aliás, tem sido completamente esquecida. Os nossos agricultores foram deixados ao abandono. Não se vai ao encontro das necessidades dos nossos agricultores. Tudo aquilo que é aprovado em Bruxelas é aprovado sem ter em conta a realidade do nosso território, a realidade dos nossos agricultores. E a agricultura é, sem dúvida, uma das pastas que vai ter que ser muito mexida dentro daquele parlamento.
E mexer em que sentido? O que a Diva vai levar ao Parlamento em nome dos agricultores do distrito de Beja?
Os agricultores precisam de ser apoiados. Precisam de ser apoiados para aumentar a sua produção, precisam de ser apoiados, nomeadamente os agricultores, porque a agricultura divide-se em duas grandes áreas: a agricultura de regadio e a agricultura de sequeiro. Nomeadamente em relação à agricultura de regadio e tendo o Alqueva também um controlo da água, uma correta distribuição da água, que também não está a ser feita. E depois os agricultores do sequeiro, esses então têm sido completamente esquecidos. Têm sido completamente esquecidos porque não lhes são criadas condições para eles poderem continuar com esse tipo de agricultura. Os apoios não lhes foram dados, não lhes foram cedidos. Não têm alternativa, por exemplo, nos anos de seca, que vão sendo cada vez mais, de terem, nomeadamente, albufeiras, que também lhes foram prometidas e não foram construídas, para eles poderem ter, nesses anos de seca, pastagens para o seu gado. Muitas explorações agropecuárias foram fechadas e estão a ser fechadas. Portanto, isto para o Baixo Alentejo é muito prejudicial a nível da economia.
A Diva foi militante primeiro da JSD, depois do PSD, e isto durante, se não falham as contas, 33 anos. O que a fez mudar para as fileiras do Chega?
Como eu já respondi várias vezes a esta pergunta, eu não mudei. Eu sou exatamente a mesma pessoa e defendo exatamente as mesmas coisas.
O PSD é que mudou.
Exatamente. O PSD é que mudou. Juntar-me ao Chega é juntar-me a um partido que me identifica e que eu acredito ser o único partido que identifica os portugueses. E cada vez mais os portugueses estão a dar prova disso e estão a dizer que efetivamente querem o Chega no governo.
48 deputados foi o que o Chega elegeu. Já agora, em sua opinião, que mudanças é que ocorreram no PSD que fez com que deixasse de se identificar com o partido?
Foram várias mudanças, nomeadamente os líderes que foram sendo escolhidos ultimamente e esses líderes não corresponderam de forma nenhuma àquilo que eram os ideais do partido. E depois, internamente, também outras situações que foram acontecendo e que não foram ao encontro daquilo que eu durante muitos anos acreditei ser o único partido que representava os interesses.
Muitos anos mesmo, 33 anos. Só para sairmos, deu-lhe algum gozo especial ter ficado à frente da AD?
Se me deu algum gozo especial.
Pelo sorriso, deu.
Não especialmente. Um gozo, efetivamente, seria ter ficado em primeiro lugar. Isso sim era o meu propósito. Ficar à frente da AD dava-me tanto gozo como ficar à frente de outro partido qualquer, porque efetivamente não me representa.
Diva Ribeiro, muito obrigado pela sua disponibilidade e pela sua presença neste "Direto ao Assunto", da Rádio Observador. Até à próxima.
Muito obrigada.