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Bom ano, Maria.
Bom ano? Mas que eu saiba ainda estamos em 2026.
Eu sou daquelas pessoas que liga mais ao calendário escolar do que ao calendário gregoriano.
"Do Avesso", um podcast sobre moda, com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Estamos em época de regresso ao trabalho, mas também de regresso às aulas, é um facto, e pelo menos para as crianças é esta altura que marca o início de uma nova etapa.
Para as crianças e para os pais, que se apercebem mais ou menos por esta altura, que os miúdos estão enormes e os uniformes do ano passado já não lhes servem.
Já deram por isso em agosto, é muito provável.
Sim.
Olha, eu por vezes é o princípio de um moda e saia, porque a par das livrarias para comprar os manuais escolares, as lojas que vendem fardas também costumam ter umas belas filas de espera.
Olha, eu usei farda durante muitos anos e ainda me lembro bem da chatice que era renovar o stock de roupa.
Eu sei, segundo sei, tu também tens alguns pequenos traumas dessa altura, não é?
Bem, não lhe chamaria traumas, mas enfim. A verdade é que ainda hoje tenho que confessar que usar kilt é uma ideia que me dá uns certos calafrios. Acho que nunca mais usei esta peça de roupa.
Estresse aquele tempo. Olha, de facto, o kilt é uma das peças-chave de quase todos os uniformes. Consolida-se no século XVIII. No século seguinte, a monarquia britânica e a cultura vitoriana popularizaram o tartã, e o tal kilt, como símbolo da identidade, formalidade, e acaba por estar muito vinculado à disciplina também, daí ter conquistado terreno tanto no plano militar como escolar. Mas tu sabes que é já no século XX, aqui mais próximo de nós, que as escolas privadas britânicas começaram a adotar este conceito de tartã, o famoso xadrez, que nós chamamos.
O xadrez, que também como há muitas opções, podes usar diferentes tartãs para cada escola.
E as pregas. Nós normalmente chamamos simplesmente as saias de pregas, com aquele fecho lateral, por vezes um alfinete ali a prender. Muitas das vezes já só a enfeitar, mas que vai ganhando de facto versões mais práticas, sobretudo depois da Segunda Guerra.
É verdade, mas sabes que naquele que dizem ter sido um dos uniformes escolares mais antigos do mundo, não encontramos esta peça. Em 1552, o Christ's Hospital School, que foi fundado pelo rei Eduardo VI em Londres para acolher as crianças órfãs e pobres da cidade, e aqui a farda era um casaco comprido, azul-escuro, com saia, mas uma saia normal, ou ceroulas amarelas e meias da mesma cor. A camisa era branca, simples, mas depois tinha um laço no colarinho. Mas de facto aqui a saia era mais normal, não havia kilt.
Hoje mantêm-se praticamente iguais. Com os casacos e as meias intactos, os botões do casaco parece que ainda têm até o busto do rei e tudo, imagina, mantêm-se ali aquela tradição. Aliás, diz que o amarelo pode ter sido escolhido na altura porque era uma cor que ajudava, diziam eles, a afastar piolhos e pulgas. Uma coisa muito comum no século XVI. Hoje, felizmente, menos frequente.
É bem possível, mas a verdade é que é apenas uma teoria. O que nós sabemos, com toda a certeza, é que o azul e o amarelo eram pigmentos baratos naquela época, o que certamente ajudou aqui a serem a escolha de cores para a escola. Sabes que a única coisa que podiam escolher os alunos eram os sapatos.
Ora bem, já não é mau.
Já não é mau. Mas parece que desde 1987 quase todos os alunos escolhem o mesmo. Escolhem uns Doctor Martins.
As botas?
Não. Não estamos a falar dessas botas, mas os sapatos que também são assim pesadões.
Para sermos rigorosos, consta que já no século XIII, o arcebispo da cantuária impôs aquele que seria o primeiro standard em termos de dress code em Inglaterra, quando disse aos alunos para usarem a chamada "cappa clausa".
Mas bom, aí quase que aposto que mais parecia um robe.
Sim, não era uma saia às pregas. De todo. O facto é que alguns destes equipamentos mais clássicos levam-nos a só o britânico e a um conjunto de instituições onde a tradição ainda é ponto de honra.
Sim, não deve haver ninguém que não pense logo em Eton. O famoso colégio fundado em 1440 pelo rei Henrique VI, onde estudam príncipes, futuros reis e de onde já saíram 20 primeiros-ministros.
Imagina. Nomes como William ou Harry, bem populares entre nós, são Old Etonians, como se diz, e também eles usaram aquela famosa casaca preta comprida com cauda. A aba de grilo, o colete preto, as calças com risca de giz e o colarinho branco, rígido e falso. Se há traje que simboliza o pináculo do elitismo britânico, eu acho que é este.
Sim, mas até este bastião assumiu pequenas nuances nos uniformes.
Sim, é verdade.
Porque os rapazes chegaram a usar muito mais cor, incluindo casacas azul-escuras e golas encarnadas, como mostram alguns retratos antigos.
E muito mudou, sobretudo depois da Segunda Guerra, aliás, em vários domínios no que toca ao vestuário, em geral. A partir de 1948, deixou de se usar o chapéu alto, como se fazia até então em Eton. Não é que tenha sido abolida propriamente esta prática, mas há hábitos que, apesar de tudo, foram caindo com o tempo, e este é um deles.
As fardas são ainda hoje muito comuns em Inglaterra. Sabes que se estima que 90% das escolas tenham uniformes, mas também há bons exemplos um pouco por todo o mundo.
Algumas histórias muito interessantes. Assim que disseste, eu lembrei-me logo do Japão e do estilo Sailor Foku, com aquelas golas de marinheiro e saias de pregas, que foi muito inspirado, na verdade, nos uniformes da Marinha Real Britânica.
Mas para uma referência mais popular, esta é a farda que inspirou a imagem, imagine-se, das navegantes da Lua.
Pois era, a famosa série.
E que, de resto, também se tornaram um símbolo na cultura pop.
Pois é. E que no Japão deu origem depois à subcultura Kogal, que é uma subcultura, lá está, uma coisa mais de nicho, um estilo de moda japonês que surgiu nos anos 90, caracterizado por adolescentes que adaptavam os seus uniformes escolares com um toque mais rebelde e chamativo. Um visual muito conhecido pelas minissaias, pintavam muitas vezes o cabelo, geralmente loiro ou assim um castanho claro, e maisHá aqui a gente também mais acentuada.
E quando queriam fugir aos padrões, costumavam usar as suas regras muito particulares. Encurtavam de propósito as saias de pregas.
Quem nunca?
Sim, quem nunca. As loose socks, que eram as meias brancas intencionalmente folgadas, imagina que colavam-nas às pernas com cola para elas ficarem mesmo ali em baixo.
Isso é um aspecto muito curioso. Eu quando penso naqueles argumentos contra o uso de uniformes, normalmente há muito aquela crítica: "Isto limita a expressão da personalidade dos miúdos". Mas na verdade, e para quem teve que usar este tipo de farda, também pode aguçar essa expressão de criatividade, porque de alguma forma te obriga a puxar pela cabeça. Eu lembro-me na escola primária usarmos todos uma bata branca. Isso nunca impediu ninguém de impor o seu estilo. Pelo contrário, eu ainda me lembro de uma coleção de lacerotes de cola que usava, que ainda deve estar perdida lá pela casa dos meus pais.
Claro, tens sempre os acessórios que ajudam aqui muito. Eu, por exemplo, na adolescência, lá está, como já disse, usava farda, usava uns brincos enormes e muito coloridos que trocava todos os dias religiosamente.
Depois aumentavas a coleção. Pois, esse é que é o problema.
Exatamente. Tinha colegas que adoravam pintar o cabelo, mesmo que fosse com aquelas madeixas que saíam com água, que havia azul, verde, havia sempre alguém com uma panóplia de cores no cabelo. Depois também tinhas, claro, o team bandlete e as carteiras também eram super importantes. Porque havia quem tivesse as clássicas Eastpak.
Os próprios gestos, tudo aquilo acabava por compor o kit e distinguir.
E por dar ali alguma personalidade.
Claro que há sempre aquele fator elitista, mais de exclusão, de pertença ao mesmo tempo, mas também uniformiza e trata todos por igual ou tem na sua base essa pretensão. Ainda que, claro, acessórios como os sapatos ajudem a denunciar as classes, se for esse o caso, como falávamos. E há sempre aqui estes dois movimentos, por um lado, de rejeição, mas também de aspiração, que é uma coisa que nós hoje temos visto muito.
Sim, basta pensar no merchandising ao estilo Ivy League, que as pessoas tanto desejam. A quantidade de pessoas que adoraria andar com-
Aliás, a Diana a correr, lembras-te aquelas imagens da Diana com as T-shirts?
Aliás, são artigos procurados em mercados de segunda mão e tudo por pessoas que nunca lá estudaram.
E até porque há muitas universidades já vão apostando neste segmento, que na verdade se estende às empresas e essa tal ideia de comunidade de pertença não deixa de ser uma espécie de pregadeira de ouro na lapela.
O que é certo é que muitos colégios têm optado por fardas cada vez mais completas. Alguns até com opções para o dia a dia, coisas mais simples, mais tipo as T-shirts, os polos, e depois têm também uma farda mais formal. Também há quem tenha versões de verão e de inverno. A verdade é que a coisa facilita muito o trabalho dos pais na hora de escolher e evita muitas discussões matinais, sobretudo com adolescentes, seja porque eles demoram muito tempo a vestir ou então porque decidem escolher um estilo que os pais não acham adequados. Com fardas é o que é.
Pelo menos ali têm que se sujeitar. É curioso como os fatos mais colegiais tiveram um impacto brutal na própria moda. A silhueta tornou-se o padrão da cultura pop punk, por exemplo, do movimento grunge ocidental dos anos 90. Bem, quem é que não pensa logo naquele videoclipe do "Baby One More Time" da Britney Spears?
Sim, muito colegial.
Pronto, e hoje, talvez, daquela estética Y2K, que também vai buscar aqui muito esta inspiração dos anos 90.
Sim, é muito aquela onda Gossip Girl e até mais recentemente do Elite. A verdade é que nunca se livram de uma carga erótica, sobretudo aqui quando falamos das raparigas.
É verdade. Olha, erotismo era algo que o nosso salvo seja Estado Novo dispensava, certamente. Os últimos anos trouxeram, de facto, um autêntico boom de colégios privados, sobretudo o regresso em força de muitos uniformes. Mas a verdade é que este seria um cenário muito pouco popular no rescaldo da Revolução.
É, não seria possível, com certeza. Até porque as gerações mais antigas ainda se lembram do uniforme da Mocidade Portuguesa. Organização de inscrição obrigatória para os jovens, ali entre os sete aos 14 anos, instituída em 1936. E aqui a farda possuía também uma forte estética de inspiração militar.
Como sempre, nestes casos, aquela da disciplina.
E até colonial, um bocadinho. Os rapazes usavam a camisa verde escura, calções castanhos ou calças compridas para os mais velhos, meias altas, sapatos escuros e um cinto com uma fivela marcada com a letra S.
De que é que seria?
Bem, Salazar, Servir, não sei, acho que existem várias opções. Incluía também uma boina estilizada, não era a farda que tem melhor memória em Portugal.
Isso nos rapazes, nas raparigas, lá está, uma saia de pregas azul escura ou castanha conjugada com a blusa branca, mantendo sempre ali um toque de sobriedade e recato. Era de facto um tipo de farda usado em dias de desfile, paradas cívicas, momentos de ginástica, também celebrações nacionalistas, lá está, oficiais do regime.
É, nessa altura costurava-se muito mais do que hoje, também é certo. Mas às vezes sabes que pedem com cada coisa aos pais que mais parece que também ainda vivemos no antigamente.
Tu não me digas que andas a costurar fardas.
Fardas, não.
Ainda não.
Ainda não. Mas tu não fazes ideia da quantidade de pais e mães que de certeza absoluta que sabem fazer umas asas de anjo.
Ai, meu Deus, asas de anjo.
Ou umas túnicas de pastor. As coisas que são pedidas para festas de Natal, final de ano, realmente às vezes deviam vir acompanhadas de um workshop de costura.
Tem que dar um kit aos pais, uma formação. Estes são aqueles momentos do ano em que até as escolas que não têm farda querem as turmas vestidas de igual ou pelo menos ali dentro de um conceito. Mas aqui tudo em nome da veia artística dos mais pequenos.
É verdade. A vantagem é que além de envolver os pais no processo, que até acaba por ser divertido, eu estava para aqui a dizer, mas é verdade, acaba por ser um processo engraçado.
Mas trabalhoso à medida.
Trabalhoso, sim, mas eu gosto de costura. Haverá mães que não concordam. Mas a verdade é que tem outra vantagem, é que não é tão caro como um uniforme.
Se vimos para aí, sim, é feito em casa, fica uma coisa mais modesta.
É que hoje em dia uma farda completa, ou seja, estamos aqui a falar de um conjunto completo formal, camisa, saia ou calças, pullover, meia, sapatos, gravata, a coisa fica entre os 100 e os 200 €.
Sim, nunca será menos que isso.
E estamos a falar do básico, sem peças repetidas, o que é sempre necessário.
Porque a semana tem muitos dias.
Exatamente. Portanto, pelo menos convém que os miúdos tenham duas ou três camisas para irem trocando e dois pares de calças. E também sem falar dos equipamentos de ginástica, que também andam aqui neste campeonato e podem rondar os 50 € ou mais.
Bom, olha, também já há muitos estabelecimentos de ensino a fazerem vendas em segunda mão, ou até para promover trocas de tamanho de forma gratuita, até porque se trata de facto de miúdos e a roupa deixa servir rapidamente. Às vezes ainda está em bom estado.
Essa é de facto uma ótima opção. Por vezes a Vinted também tem algumas coisas, mas não aparece tanto. Normalmente os próprios colégios organizam os seus bancos de fardas e essas trocas.
Sim, e há de facto peças bonitas, fardas que mesmo tiradas deste contexto respondem a alguns cânones mais formais, os tais ingleses de que falávamos, mas às vezes até dá vontade de incorporar no guarda-roupa do dia a dia. Aliás, nós já dedicamos um episódio às fardas, à inspiração militar na roupa e enfim, parece estar-
Sim, lá está, os tais sweats shirts das universidades e tudo acabam por estar completamente incorporadas fora deste contexto. A verdade é que algumas fardas, e aqui falamos de colégios e mesmo de crianças mais pequenas, são tão giras que dá mesmo vontade de partilhar.
Os pais não resistem.
Não resistem, mas temos que ter atenção, porque isto de facto pode ser uma grande falha de segurança que nós às vezes esquecemos e de forma inocente, mesmo que não tenha nem a cara da criança, nem a escola onde anda, não nos podemos esquecer que pela farda percebes onde é que a criança passa a sua maior parte do tempo.
E está ali completamente exposto.
Acaba por se expor. Mas a farda é mesmo para identificar o local onde estuda e acaba por ser também uma boa ferramenta de marketing para os próprios colégios e escolas.
Claro, mas fica aqui o conselho atento à nossa Margarida. Da nossa parte, já sabe muito bem onde é que andamos sempre, é fácil identificar. Olha, só nos falta um uniforme do Avesso.
Olha, é de pensar nisso. Até para a semana.
Até para a semana.