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Margarida, eu descobri uma forma muito barata de entrar na final do mundial sem pagar bilhete.

Eu até tenho medo do que vem por aí.

Não tenhas. Basta escolheres a mala de que tu gostas mais. Do Avesso, um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.

Aí está uma bela ideia. É que isto sem Portugal, o mundial nos relvados já não me interessa assim muito.

É verdade.

Mas se estamos a falar do campeonato das carteiras, já me entusiasmo mais.

Voltamos a ter interesse.

A nossa sorte é que os futebolistas já deixaram praticamente aquela moda das mariconeras.

Para quem não faz ideia sobre o que estamos a falar, são aquelas bolsinhas estilo toalete, ainda se usam, mas usavam-se sobretudo há 20 anos. Não havia metrosexual que não usasse uma debaixo do braço. Lá os víamos a entrar e a sair dos treinos e jogos com a sua mariconera.

Sim, na era dourada dos monogramas, da Gucci e da Vuitton. Hoje em dia ainda temos alguns monogramas, mas de facto muito menos. O que realmente me espanta é o tamanho das malas dos atletas.

Sim, parece que andaram a tomar coisas e que cresceram imenso. Só foram ao ginásio com eles, também pode ser. As malas e as coleções de cada jogador, porque sinceramente tomara nós ter as Birkins do Messi ou do Haaland. Tu já viste? Aquilo é uma coisa impressionante, é uma atrás da outra, de facto cabemos nós lá dentro para ir para qualquer lado.

Têm um closet de fazer inveja às Kardashians.

Seguramente.

De facto, os looks dos futebolistas fora do campo continuam a ser notícia e servem de barómetro para o que os homens andam a usar por aí.

E para o que se vai apresentando nas passarelas também. Achas que é oficial podermos dizer que a tendência de ir buscar referências ao guarda-roupa feminino está bem e recomenda-se?

Completamente, sem vergonha nenhuma. Isso ficou muito visível até no calendário masculino em Paris, onde Pharrell Williams usou o palco para mostrar carteiras, sobretudo. Tinha ali muitos casacos, calças, coisas interessantes, mas o que deu que falar foi carteiras e várias mulheres a comentar depois nas redes sociais.

Que ele lançou ali.

Ele até reinventou o xadrez da Speedy em preto e branco, que depois estendeu também a outras peças de roupa.

A parte boa é que isto dá para a família inteira. Tu compras uma mala e quem se levantar mais cedo, seja ele ou ela ou os filhos, escolhem o que vai usar.

E foi mesmo o que aconteceu com a família do Pharrell Williams, que surgiu no desfile toda a condizer. Os pais do designer, a mulher e os filhos estavam todos com o monograma colorido da Vuitton, todos vestidinhos de igual.

Tudo tão familiar que até me deu vontade de ficar em casa. Na Dior, o Jonathan Anderson tem tudo pronto para fazermos uma espécie de pijama party incrível. Mas claro, o efeito pijama é tão sofisticado que acabamos por ter que ir à rua, nem que seja só despejar o lixo.

É o mínimo, aquilo só para dormir não vale a pena.

É uma pena ficar em casa. Mas de facto, o tailleur cruzou-se com este registo mais confortável, que aliás foi um denominador comum. E dá-me ideia que as pessoas querem voltar ao dress up, a começar pelos homens, mas sem perder de vista esta praticidade. As coisas têm que ser confortáveis.

Sim, ele até recuperou, por exemplo, os rasgões nas calças que estão de há 15 ou 20 anos. Agora mais ao estilo brocado ou com aplicações, portanto faz essa mistura entre a coisa prática e depois os materiais mais requintados. E depois, na verdade, a roupa de homem, sendo na essência mais básica, obrigou a uma atenção especial aos detalhes. O que torna muitas vezes as coleções masculinas mais interessantes, até do ponto de vista do design, do que as próprias coleções femininas.

Sim, e a verdade é que se nota muita artesania na roupa masculina. É algo que normalmente associamos mais ao guarda-roupa feminino, por tradição. Isso, de alguma forma, só reforma este movimento pendular entre armários, que é muito produtivo. Ou seja, podes ir pescar na gaveta dos homens e vice-versa.

Sim, basta ver a Sharon Stone a desfilar para o Elie Saab à Riviera. Ou como a esta altura do calendário, por norma, já apostem em desfiles e apresentações que apresentam ambos os géneros. Se não me engano, tiveste alguns desfiles masculinos que abriram com modelos femininas.

Às vezes já não sabes bem onde é que estás no calendário, por norma é interessante. De resto, é algo que os Ernest W. Baker, os portugueses Ernest, fazem muito bem e desde sempre. E provavelmente até é o que faz mais sentido nesta altura.

Também não nos podemos esquecer que as normas mais flexíveis na roupa de trabalho e até este advento do teletrabalho, vieram abrir algumas portas neste universo do vestuário masculino. A obrigação de ir de fato e gravata para o escritório já não é o que era, e aqui a kulna ganha bastante terreno hoje no dia a dia dos homens.

É verdade. Isso foi muito visível, por exemplo, com o Michael Ryder na Celine. Foi um dos mais aplaudidos e arrojados, talvez com calças e luvas coloridas. São peças e propostas de looks que só podem funcionar em meios menos tradicionais. Mas ao mesmo tempo deu-me muitas vibes do ex-Versace, Sabato De Sarno. Foi corrido num ápice, com muita pena nossa, mas vamos ver como é que isto corre.

Correu, mas correu sem os sapatos de Aladdin da Sam Edelman. Visto bem, aqueles que pareciam com plástico, superbicudos.

Sim, a verdade é que esta semana se foram só daqueles elementos imaginados para criar buzz ou se aquilo pode mesmo virar moda. Eu duvido que possa, mas nunca se sabe.

O que é certo é que logo no dia do desfile criaram polémica e foram um dos topic trends das redes sociais.

Fazem falta também.

Outra coisa em que eu reparei muito foi na paleta cromática das coleções. Havia umas introduções de uns neutros alternativos muito interessantes.

Sim, isso foi notório até em Lanvin, onde o registo clássico não impede um fato masculino, mas neste caso rosa velho, ou seja, para matar ali algumas carências históricas. Por exemplo, o designer da marca atual, o Peter Copping, tem notado, e com muita razão, que normalmente há muito manancial nos arquivos femininos, mas muito pouco masculino. E às vezes é difícil reinventar e trazer novas interpretações.

É verdade. A não ser que recuas muito na história, porque se formos bem lá atrás.

Vamos encontrar fatos cor-de-rosa de homem, precisamente.

Exatamente. Mas isso também dá para outro episódio, que nós tivemos também. Foi a estreia da Sarah Burton numa coleção masculina com a Givenchy, em que copiou quase a papel químico alguns elementos do seu desfile de mulher, coisa que também aconteceu, por exemplo, com a Schiaparelli, quando a Schiaparelli cria fatos para o Edward Ennin. Este último que ele usou, que é aquele tom amarelo clarinho com uma trança que parecia de cabelo humano a fazer uma gravata. E lá está, tinha botões que lembram botões que ele já usou na coleção feminina.

Essa linha que atravessa coleções é uma estratégia da marca. Vimos isso também no desfile da alta costura da Schiaparelli, onde há formas muito particulares, é claramente um processo criativo contínuo. E assim, de repente, já viste, é muito fácil saltar para as coleções femininas de novo e já estarmos a falar das senhoras.

É muito fácil, porque de facto parece que está tudo ligado. Mas tu sabes, na Schiaparelli há um detalhe Muito interessante que o diretor criativo da marca, o Daniel Roseberry, confessou também num vídeo para as redes sociais, que na sua última coleção achou que tinha encontrado a fórmula mágica para criar uma ótima coleção.

Meu Deus, o que era?

Sim. O processo era supersimples, achava ele. Viajar, visitar um monumento arquitetônico excepcional e voltar para o estúdio cheio de ideias. Então olha, lá foi ele, fez as malinhas, foi para Barcelona, mergulhou no trabalho de Gaudí, esteve para lá não sei quanto tempo a olhar para aquelas coisas incríveis, só que voltou sem inspiração.

Oh, diabo.

Imagina, coitado. Imagina a desilusão.

Pelo menos visitou.

Mas esta coleção depois nasce de facto desse vazio entre as coleções anteriores e a suposta inspiração que ele ia ter. Por isso é normal que aqui haja essa ligação de formas. Ele depois inovou pela parte dos materiais.

Sim, nos materiais ele trabalha muito com o silicone e o látex e tem peças iluminadas por dentro. Foi mais uma vez um dos teus preferidos, ou não?

Olha, é sempre impressionante. Sabes que eu adoro sempre, mas desta vez tenho que confessar que fui cativada por uma coisa muito diferente, que foi a simplicidade da Balenciaga. Ou melhor, a aparente simplicidade. Toda a coleção de alta-costura tem um trabalho de modelagem absolutamente inacreditável, mas que tu só consegues perceber com um olho mais atento, com a ajuda do Re-See, dos vídeos que dão ponto de bastidores. Tu tens ali tops que parecem ter sido pousados em cima das manequins. Não tem uma única pinça, uma prega, um botão para fechar, uma costura, que é uma coisa dificílima de fazer. Depois tens também formas interessantes, como aquelas corcundas.

Aquilo ocupa muito espaço na sala, mas é incrível.

Sim, e que são feitos de tecidos leves, mas sabes que aquilo por dentro tem couro para dar a forma e a estrutura. Portanto, tens mesmo que virar as peças ao contrário para perceber o que ali está. E depois tens, claro, a paleta cromática.

A cor. Ninguém trabalha a cor como o Patou.

O Patou é incrível. Já desde a Valentine, as paletas cromáticas e as sugestões de combinação de cor são impressionantes.

Aliás, eu fiquei também impressionada com isso, obviamente, mas também com o futurismo da Iris van Herpen. Estamos a falar de futurismo de verdade e não uma impressão ou inspiração. A designer usou plasma, que é considerado o quarto estado da matéria. É uma matéria sem forma fixa e com uma enorme carga energética, que é capaz de responder aos estímulos exteriores, imagina.

Ela tinha dois vestidos muito especiais, mas este que estás a falar é aquele que tem os tubos de vidro no ombro. Aquilo que se ia iluminando conforme a modelo lhes ia tocando, aquilo ia mudando de forma.

Sim. Para colocar o plasma nos tubos foi usado um acelerador de partículas, vemos aqui o detalhe deste processo, com temperaturas próximas dos 100 graus, ou menos 100 graus. É muito interessante, porque percebes que é uma peça que não foi pensada para passadeiras vermelhas ou para uma polémica efémera na internet, mas provavelmente pode ir direita para um museu e entrar nos livros de história da moda, quem sabe.

Até porque a designer já vem fazendo esta pesquisa deste tipo de matérias há algum tempo. E está de facto noutra dimensão. O que é também uma visão muito interessante da alta-costura, que nos faz questionar se não faria mais sentido ser esse o objetivo destes desfiles e deixar um bocadinho de parte a parte comercial.

Essa é a dúvida. Para que isto serve?

Têm sido apostas, da Chanel e da Dior, por exemplo, são coleções muito bonitas, mas claramente têm um lado comercial.

Sim. Um duelo que continua, aliás, entre essas duas marcas e fica aqui já prometido um outro especial sobre isso. Mas antes disso, de facto, o Matteo Blasi levou-nos ao mundo do "João Pé de Feijão". A história que trouxe magia, claro, mas a magia das coisas simples. Ou lá está, aparentemente simples, porque tudo ali parecem criações que não estão lá longe, inalcançáveis, mas prontas a usar com toda a sua sofisticação. Uma coleção para sonhar, mas terra terra. Para quem pode comprar, obviamente. É sempre esse pequeno detalhe.

Claro. E também não faltou o look de noiva. Mas ao contrário do que é habitual, não fechou o desfile, apareceu mais no meio. E o diretor criativo decidiu encerrar com o Revenge Dress.

Preto, não é?

Sim, preto, mas desta vez não para fazer uma homenagem à Diana, mas sim para fazer uma homenagem à Coco Chanel, que no final das contas nunca se casou, nem o casamento era para ela um ponto de parada.

Não devia ser prioridade. Olha, por falar em casamentos, especulou-se por estes dias se a noiva da Dior nos teria dado uma imagem do que Taylor Swift terá vestido no seu casamento no Madison Square Garden no início do mês. Isto porque se sabe que a cantora vestiu Dior, mas não se sabe exatamente como é que foi aquela criação. Não exatamente nem nada. Não se sabe, na verdade, detalhes nenhuns. Mas eu espero que esse fait divers não ofusque o resto da coleção da Dior, que foi ótima, como costuma ser.

Ele inspirou-se mais uma vez numa artista, desta vez uma artista visual e escultora norte-americana, a Linda Benglis, que é conhecida pelo uso da cera e do látex. Mas para uma referência mais popular daquilo que vimos.

Para as pessoas perceberem quando nos ouvirem.

Imaginem uma manequim embrulhada em pratas repoussados incríveis, muito volumosas, até com acessórios de cabeça no mesmo material.

Sabes o que me lembrou, Margarida? Daqueles Dom Rodrigo Algarvios, de acessórios. Mas não é? É a imagem, é verdade quando tu pensas.

Ele não viajou ao Algarve.

O Jonathan Anderson não sei se já uma vez esteve no Algarve, mas de facto se não esteve, recomendamos e que traga de lá uns doces, porque de facto o principal está feito.

Mas o bombom aqui foi a natureza que está sempre em pano de fundo, nas texturas que parecem, na verdade, prados e jardins. O Jonathan Anderson reviu, por exemplo, o famoso casaco trapézio Arizona de 1948 e deu-lhe agora um efeito plissante.

Era, havia muitos espreguiados.

Eram muitos espreguiados e muitos plissês. E o Bar Jacket, que aqui também ganha uma versão com franjas e uma bainha de chifon branca muito vaporosa.

Também gostei muito. Olha, tão extraordinário que imagina, aconteceu uma coisa raríssima. Apanharam a Anna Wintour no final boquiaberta, para não dizer eufórica nas palmas. Aquilo a senhora não sei o que é que lhe deu, mas foi uma coisa extraordinária. Portanto, vamos embora antes que nos aconteça o mesmo.

Exato, até à próxima.

Até à próxima.