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Margarida, ainda nem abrimos o nosso correio do ouvinte e as perguntas já vêm ter conosco.

É verdade, estamos cá para isso, para pelo menos tentar dar uma resposta. Convém é que seja sobre roupa, que é a nossa especialidade.

Sim, estes discos pedidos são sobre roupa, posso garantir. E a pergunta é mais ou menos esta: por que reparamos na forma como algumas pessoas estão vestidas e noutras nem por isso? Do Avesso, um podcast sobre moda, com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.

Deixa ver se percebo. Por que às vezes estamos a ver uma pessoa e em outros casos, na verdade, estamos a ver sobretudo a roupa da pessoa? É mais fácil dar muito mais nas vistas se estiveres a usar algo muito distintivo do que se estiveres a usar uma coisa banal.

Sim, e aí tanto pode ser porque estás a usar um acessório ótimo, como por estares a usar uma combinação qualquer que fica péssima. Mas neste caso, eu penso que a interrogação nem era por aqui. É mais sobre aquela linha muito ténue, que separa as pessoas com uma boa presença e aquelas que até podem combinar muito bem as cores e as peças, aquelas que parece estar tudo feito para dar certo, mas tornam-se demasiado previsíveis e aborrecidas.

Isso acontece muito facilmente se te limitares a seguir tendências dos últimos anos, como tons neutros.

É um pouco, não é? Sim.

Porque no fundo, se te vestires de cinzento sobre cinzento, bege sobre bege, é difícil de errar, mas também é difícil criar um look memorável, exatamente porque a margem de risco é muito pequena.

Sim, e não sentes que tanta curadoria acaba por te fazer desaparecer. Há aquela velha máxima de que o mais importante do que o vestido brilhar, é brilhar a mulher. O que poderíamos aplicar aos homens também. Mas não sentes que as redes nos tornaram exércitos de uniformes, de certa forma?

Sim, completamente. As redes trouxeram-nos muita democracia, mas a promessa de diversidade, a verdade é que foi um bocadinho pelo cano. Isto a culpa, na minha opinião, tem muito a ver com o algoritmo.

Sim, também.

Que também só te mostra coisas semelhantes ao que tu já gostas. Portanto, na verdade, o teu feed acaba por ser todo um bocado mais do mesmo. Além de teres de produzir conteúdos que sejam disseminados, e aí, mais uma vez, entras na guerra do algoritmo. Isto acontece com muitas influenciadoras e tu notas isso muito facilmente. Vês que todas estão a fazer o mesmo vídeo, a vestir-se mais ou menos da mesma maneira. Por quê? Porque o objetivo delas é responder ao algoritmo e chegar a mais gente. Isso torna tudo muito uniforme, efetivamente.

Sim, até porque os produtos depois também vão sendo posicionados nelas. O que as marcas pretendem escoar, escoam, querem ficar tudo para as mesmas pessoas ao mesmo tempo, como uma ação massiva. As coisas tornam-se um pouco homogêneas. A questão é que aqui eu penso, de facto, tanto se estende às ruas como aos feeds. Eu lembro-me que no liceu tínhamos um nome para as miúdas que se vestiam todas de igual, que andavam em bando, que eram as fotocópias.

Mas aí até se entende, porque é um fenômeno muito adolescente. É a coisa da pertença, do grupo. Estás numa fase de desenvolver o teu estilo, trocas de roupa com as amigas. Mas mesmo nesse ambiente, é possível fazer coisas diferentes.

Sim, é verdade.

Olha que eu usei farda durante todo o meu período escolar. Desde os 12 anos, na escolaridade obrigatória, eu usei a farda. E nós conseguíamos distinguir-nos entre os grupos. Mesmo com farda, as tribos, dava para perceber.

Basta ter um pequeno acessório.

A forma como tu punhas o gancho no cabelo, conseguia-se perceber se a pessoa era mais beta ou menos beta, basicamente.

É um bom barômetro. Improvável, mas sim. E mesmo dentro dos grupos homogêneos de adolescentes, há pessoas que de facto investem no seu estilo. E procuram ser mais distintivas, como tu dizias, acabando por ser as que as outras imitam, ou seja, também já sendo uma espécie de influenciadoras ali naquele meio. E depois, claro, tens outras pessoas que preferem jogar pelo seguro, talvez para se integrar e também muito pela sua personalidade. Aliás, por alguma razão, nós temos influencers que se destacam mais do que outras. Claro que depende muito do gosto dos seguidores, mas a verdade é que umas fazem mais escola do que outras.

Sim, e isso depende muito, como estavas a dizer, da personalidade. Por isso é que eu acho que o vídeo é tão importante nas redes sociais. O vídeo e até mesmo as legendas.

As legendas.

E mais recentemente, os canais, que é a forma com que tu falas mais diretamente com os teus seguidores, porque é aí que o influencer fala e que mostra um bocadinho se tem graça, se não tem graça, o que pensa, o que não pensa e pode cativar ou não. Porque sejamos sinceros, se tu fores só ver as fotografias de muitas influencers e puseres todas umas ao lado das outras, são todas iguais, umas mais feias, umas mais bonitas, umas com mais jeito para a fotografia, outras com menos.

Podes achar mais uma que outra.

Mas a maneira de vestir é muito idêntica.

Sim, em termos de inspiração, como tendência, tanto podes ter fotografias de uma como de outra, que acaba por fazer sentido. Aliás, até me faz lembrar um pouco aqueles antigos catálogos de moda em papel, que se usavam tanto e que até se enviavam para casa alguns. Podia funcionar isso, só que hoje é online.

Sim, e neste caso, especificamente, vêm-me dois grupos à cabeça. Tu tens as Portuguese Girly, que é aquele estilo de misturar padrões e cores, que é uma estética que está muito na moda.

Mais exuberante.

Muito exuberante. E depois tens as Old Money, que é a tal estética mais bege e cinzenta, com os cortes mais perfeitos, muitas fotografias a preto e branco também. E se tu fores ver, seguires umas e as outras, na verdade, são todas muito parecidas.

Dentro da sua tribo.

Sim, se tu trocares as caras, aquilo funciona na mesma. Ou seja, é um efeito grupo. Tu tens ali, de facto, um estilo, é um estilo marcado, e neste caso, são dois estilos muito diferentes.

Movimento, quase.

Mas não são estilos personalizados.

É verdade.

São um estilo de banda. É o mesmo do que tu dizeres que uma pessoa é gótica. Aquilo não é o estilo daquela pessoa em particular.

Pertença.

Pertence a uma tendência geral, a um tipo de pessoas que se veste de forma muito parecida. E não tem nada de mal.

Certo. Mas de fato é muito isso. Ou seja, acaba por não ser uma coisa tão personalizada. Aliás, nós voltamos um pouco ao começo desta conversa. Vestir bem e ter estilo são coisas totalmente diferentes. Aliás, tu podes sair, por exemplo, de uma grande cadeia, uma loja de consumo rápido como uma Zara, para dar um exemplo acessível, com a certeza de que é difícil errar, porque encontras coisas que todas juntas conseguem bater certo, mas isso não significa que tu consigas escapar à banalidade ou que te consigas destacar da multidão.

Completamente. E há um aspecto também interessante que é como tu podes usar a mesma roupa em momentos diferentes e ora para aparecer, ora para desaparecer. Tu podes escolher uma roupa tão exuberante que te engole completamente e que ninguém fala propriamente de ti, mas da roupa, ou então escolher algo tão neutro, tão adequado, tão previsível, que não é digno de nota de forma nenhuma. Eu lembro, por exemplo, da Julianne Moore, numa entrevista à Bella Freud no podcast dela, falou precisamente que na passadeira vermelha não era uma pessoa que arriscasse imenso, apesar de ela ser clássica e estar sempre super bem vestida, porque não se sente confortável.

Ela não quer mesmo ser falada. Dispensa isso.

Sim, quer tirar a fotografia da praxe, aparecer nas bem vestidas, ótimo, mas que não seja digno de grande nota.

A maioria de nós, neste caso, estamos a falar de sobriedade, de um nível em que as pessoas contam com a ajuda do stylist, o que faz toda a diferença na imagem final. Porque nós normalmente no dia a dia não andamos propriamente com o stylist atrás, e portanto temos que ser nós a tomar essas pequenas decisões.

É verdade, mas há coisas que são de senso comum e que tu podes aplicar isto à realidade e se calhar nem pensas nisso. Mas se tu quiseres dar as vistas num funeral, vais que? Vais vestida de preto ou vais vestida de encarnado?

Também é verdade. A não ser que peçam para ires de encarnado, por alguma razão.

Obviamente, vais vestida de encarnado. Se quiseres dar nas vistas. Se antes pelo contrário, quiseres passar completamente despercebida, vais o mais neutra possível.

Verdade.

Como numa entrevista de trabalho. Se queres encaixar, vais vestida de forma adequada ao ambiente. Aliás, isso é muito importante, porque estar bem vestido muitas vezes é apenas estar vestido de forma adequada ao ambiente, com roupa limpa, bem passadinha, com bom aspeto, nem tem que ser necessariamente cara, mas é estar adequado e com roupa com bom aspeto. Mas isso não é ter estilo.

Verdade.

Ter estilo é sim, estar vestido também de forma suficientemente adequada à educação para não chocar. Isto é muito importante, porque há pessoas que acham que ter estilo é chocar. E na minha opinião, não. Tu para ter estilo tens que estar adequado ao momento, ao que vais fazer.

Isso é fundamental.

Agora, o que marca ali a diferença é que estás vestido de forma adequada ao momento, mas tens de ter algo inesperado, algo diferente que mostre a tua personalidade.

Sim, aliás, é uma daquelas discussões eternas. O que é preferível? Eu de certa forma acho que às vezes até prefiro uma pessoa um pouquinho mais mal vestida a uma pessoa aborrecida. Porque de fato tem muito a tocar esta questão do estilo e do traço mais pessoal que nós deixamos na nossa indumentária. Mas eu também tenho noção que isto é um feitio de maximalista, acho o minimalismo um pouco contranatura até. Nem é só questão de ser aborrecido, acho mesmo que o nosso olho humano é interessado, é curioso e portanto é difícil viver sempre no mesmo espectro de cor. Além de que a roupa é de fato uma arma superpoderosa. Sobretudo se achares que não deves, por exemplo, tanta beleza e pode-te ajudar como um escudo fundamental.

Até para moldar o teu corpo.

Completamente, sim. Já nem vamos por aí. Eu lembro-me sempre de figuras lendárias, como por exemplo a Peggy Guggenheim ou a Iris Apfel, que para mim são casos bingo. E quando eu digo bingo é porque tu tanto reparas na pessoa como na roupa, mas pelos melhores motivos. Isto já para não saltar para aquela Liga dos Campeões, com pessoas como Grace Kelly ou Diana, que aí conjugam a beleza, o charme, o vestir bem, o ter pinta ou estar adequada.

Sim, nem precisamos de chegar.

Não precisamos.

Aí vais pensar, por exemplo, na Caroline Kennedy, que já morreu há imensos anos e que é um exemplo de ícone de estilo que se baseou muito em boas peças intemporais, muitas delas que voltamos a existir, mas sem nos dar vontade de dormir, apesar de também não ser uma maximalista.

Nada. E é incrível como tu dizes, já foi há tanto tempo e ela continua a ocupar as redes. Aparece imenso nos feeds, nos algoritmos, nisso tudo, e as pessoas continuam de fato a inspirar-se. Também acontece muito com a Diana, é extraordinário.

Acho que ali alias o pragmatismo à qualidade das peças, depois ela era muito bonita, o que ajuda também sempre muito, mas de fato está ali um estilo. E é um estilo que é interessante, porque quando tu vês a fotografia parece muito fácil de copiar.

Pois é, e não é.

E depois vais pôr aquilo e pode resultar ou não dependendo da pessoa, porque lá está, ela apesar de ser minimalista, tinha ali um cunho pessoal que dá aquele must ao look, mas eu acho que parecem sempre fáceis de copiar, por isso é que também tem tanto sucesso ainda hoje. E depois tens um caso que eu adoro, que é o Ralph Lauren.

Pois, nos homens também é muito interessante.

Que agora acaba de ganhar o prêmio de melhor designer feminino do ano, portanto, em questão do gosto, matéria do gosto, está superaprovado. Tem toda uma carreira que o comprova, mas que é um homem cheio de estilo. Mas cheio de estilo de uma forma assim muito inesperada, porque anda sempre com camisas de flanela de xadrez, casacos com franjas, botas de cowboy, aqueles cintos enormes, como este tipo de estilo texano, que não é propriamente a coisa mais bonita do mundo. E a verdade é que muitas vezes ele não é o mais bem vestido da sala, mas ninguém lhe tira o estilo.

É marcante.

Sim, ainda hoje com 86 anos continua a ter isso. É um bom caso para perceber a diferença entre estar bem vestido e ter estilo, acho eu, aqui no lado masculino.

Sim, aliás, o Ralph Lauren é muito curioso falares disso. Para mim é um ótimo exemplo de alguém que, apesar de ser o pai do preppy americano, daquele estilo betinho americano, se quiseres, com peças que nós podíamos imaginar que a certa altura estariam datadas, mas a verdade é que nunca saem de moda. Estão sempre lá. Vão sendo reformuladas aqui e ali com uma ou outra declinação, mas qualquer coisa, tu queres uma camisa ou umas calças assim assado e vais sempre ali buscar. E ele já disse até em entrevistas, uma coisa muito curiosa, é que costuma andar com uma camisa, já não sei se é uma camisa, se é uma T-shirt comprada na feira, e ele anda com aquilo e adora dar entrevistas com aquilo, só porque tem imenso valor afetivo. E eu acho que é precisamente este tipo de nota artística no estilo, é a cereja em cima do bolo. Aliás, tu já falaste de uma coisa há pouco que é pra mim muito relevante, que é a personalidade, de facto, é decisiva pro efeito final. Ou seja, nem a roupa vive sem a personalidade, nem a personalidade vive sem a roupa. E há pessoas, de facto, muito comuns que entram numa sala e todos reparam nelas, nem precisam de estar vestidas segundo o que se usa ou se deixa de usar hoje, basta uns jeans e uma T-shirt. E há pessoas, de facto, que se vão diluindo. Mas a roupa é muito fundamental e pode ajudar ou desajudar.

Sim, mas um look é um conjunto sempre. Há quem se vista dor e parece sempre que foi à loja dos 300.

É verdade.

E há quem saiba misturar peças muito baratas e parece ter uma conta bancária de milhões e não precisa nada de ter. É tudo uma questão de atitude e eu acho, sinceramente, cada vez mais de educação. E não é a educação de poder ter uma educação-

Estudar em Oxford, não é isso.

Não é isso. É a educação de base, de ser gentil e simpático, que é uma coisa que nos dias de hoje é rara e faz, de facto, a diferença.

É mesmo. Tu falas aí num ponto pra mim também importantíssimo. Por um lado, porque o guarda-roupa está historicamente associado ao gosto, mas também aos modos e à educação. E a etiqueta seria todo um outro podcast, e há de ser. Nós também nos vestimos e adequamos às ocasiões por respeito pelo próximo, por consideração pelo próximo. E levamos um look ou eliminamos o excesso, as coisas que são desnecessárias, por estima pelo outro. E eu acho que isto, de facto, é importante e as pessoas às vezes esquecem-se um pouco disto e faz a diferença.

A questão de ser adequado e perceber que chocar às vezes não é o melhor, porque às vezes tu quando chocas com a roupa estás, de facto, a entrar ali num campo já a roçar seres rude com a atitude ou com alguém. Portanto, é muito importante haver esse equilíbrio. Bem, nós temos que nos ir embora, mas não sem antes nos despedirmos educadamente dos nossos queridos ouvintes.

Já agora, já que fizemos este desfecho, é justo. Até pra semana, Margarida.