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Nas últimas décadas foram identificados dezenas de possíveis depósitos sedimentares deltaicos na superfície de Marte. A formação destes depósitos foi atribuída à existência de antigos lagos e rios marcianos. Esta era uma das principais evidências para sustentar a ideia de que, no passado, Marte apresentava condições climáticas que permitiam a presença de água líquida no planeta. Um novo estudo concluiu que nem todos os deltas identificados em Marte são verdadeiros. Os investigadores analisaram 60 depósitos sedimentares de diferentes zonas de Marte e foram surpreendidos porque apenas 30% são realmente deltas.

Ao contrário daquilo que a comunidade científica defendia, grande parte desses depósitos anteriormente identificados no planeta vermelho não tem origem num delta. Quando falamos de delta, é preciso lembrarmo-nos das aulas para perceber o que é um delta. São aqueles braços de rio que se vão separando já junto da foz. Connosco temos David Vaz, é investigador da Universidade de Coimbra e um dos responsáveis por este estudo. Muito boa tarde, David Vaz. Obrigado por estar em direto aqui na Rádio Observador. Já agora explique-nos lá melhor o que é isto de um delta em Marte.

Olá, boa tarde. No fundo, o que nós vemos hoje em Marte não são deltas, são depósitos possivelmente deltaicos, que se formaram há mais de 3000 milhões de anos e que seriam bons indicadores da presença da água em Marte no passado.

Sim, David. Estamos a ouvi-lo.

E o que nós procurámos com este estudo foi exatamente usar estes depósitos, que anteriormente foram interpretados como deltas, fazendo uma série de medições do volume destes depósitos e comparar com o volume dos vales que foram esculpidos pelos rios, como forma de tentar perceber se estes depósitos são compatíveis com ambientes deltaicos, ou seja, tal como foi dito anteriormente, um rio que vai desaguar num lago ou num oceano, como temos, por exemplo, na Terra. E a ideia do estudo foi exatamente essa.

Portanto, David Vaz, isto é importante para caminharmos, para comprovar ou não a questão de ter ou não água em Marte.

Não tanto comprovar, porque isso está comprovado e hoje em dia também existe água. Não é no estado líquido, existe água no subsolo e nas calotas polares. O que a comunidade científica discute é a quantidade de água que existiu no passado e durante quanto tempo. Uma coisa é existir muita água durante pouco tempo, outra coisa é existir muita água durante muito tempo, pelo menos do ponto de vista da biologia e da possibilidade de ter existido vida ou de existir em Marte.

Portanto, a conclusão aqui é que 30% apenas são deltas, ao contrário do que se pensava.

Exatamente. No fundo, nós reduzimos os possíveis depósitos deltaicos em 70%. Apenas 30% daqueles que anteriormente se pensava estarem associados à água são realmente deltas, ou seja, acabamos por reduzir um bocadinho a possibilidade de existência de água, quer no espaço, quer no tempo.

Exatamente. Ou seja, isso também diminui as probabilidades de facilitar um dia uma eventual vida de homens em Marte, de uma base em Marte, ou não?

O estudo não está propriamente relacionado com isto, ou seja, nós estamos a analisar o passado geológico.

Sim, mas estamos sempre a pensar nisso, não é? É um assunto que está em cima da mesa.

Exato. Existem grandes quantidades de água em Marte. Não estão no estado líquido hoje em dia. No subsolo, há relativamente pouca profundidade nalgumas zonas e existe também nas calotas polares em relativamente grande quantidade. Essa água é que poderá ser utilizável a qualquer dia quando houver uma exploração humana, claro.

David Vaz, agradeço-lhe ter estado connosco. É investigador na Universidade de Coimbra, é um dos líderes deste estudo que teve esta conclusão: apenas 30% dos deltas de Marte são realmente deltas. Foi sobre isto que falámos hoje. Amanhã voltaremos a falar de ciência na tarde em direto. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.