Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E o resto é história.
É a terra fumar.
Do incêndio e palavra ainda na zona do Chiado.
Que faz um filho. Falo por gosto. É que o pai, vinho vermelho, troco de cor, fogo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais este episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Foi a 4 de julho de 1776, fez agora precisamente 250 anos, que as 13 colônias americanas do Reino Unido declararam a sua independência e cortaram os laços com o Império Britânico. É um dia absolutamente histórico, não só pelo alcance político dessa decisão, que lançou as bases para os futuros Estados Unidos da América, mas também porque o texto da Declaração da Independência Americana se tornou um farol para todos os regimes democráticos que nasceram a partir daí. Eu cito as extraordinárias palavras escritas por Thomas Jefferson, que depois foram trabalhadas pelas incríveis cabeças de John Adams e Benjamin Franklin: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade". 250 anos após esse dia, todos nós somos hoje um bocadinho americanos, independentemente do amor que tivermos pelos Estados Unidos. Seja para amá-lo, seja para odiá-lo, os Estados Unidos tornaram-se na potência dominante no mundo em relação à qual todos nos posicionamos, quer em termos políticos, quer em termos culturais. E por isso nós decidimos fazer uma coisa que até hoje nunca fizemos no "E o Resto é História" e que esperamos que os nossos ouvintes gostem. Nós vamos dedicar quatro programas à Independência Americana para explicar de forma tão completa quanto possível a história do nascimento dos Estados Unidos da América. Portanto, nós vamos falar da Declaração da Independência e do corte das colônias com a Inglaterra, vamos falar da Guerra da Revolução, vamos falar da escrita de uma nova e revolucionária Constituição. Nós vamos falar tudo isso, mas apenas nos episódios dois, três e quatro. Hoje começaremos pelo princípio: a chegada das primeiras famílias europeias vindas do Reino Unido ao continente americano no princípio do século XVII. Rui, começa lá por me explicar isto. Os primeiros colonos ingleses fundaram Jamestown, na Virgínia, em 1607, e o mítico barco Mayflower atracou em Cape Cod, no Massachusetts, em 1620. Ora, isso é mais de 100 anos após os espanhóis terem começado a explorar a América do Norte. Como é que os ingleses conseguiram instalar-se lá? Ou, se preferires, por que os espanhóis não se instalaram lá primeiro que os ingleses? Porque chegaram muito antes.
Isso é uma pergunta que provavelmente os espanhóis se fazem agora, na altura não se faziam. Vamos perceber o que caracteriza a conquista das Américas pelos europeus a partir do princípio do século XVI. A conquista das Américas é a segunda tentativa de projeção externa das populações cristãs da Europa Ocidental. A primeira foram as Cruzadas dos séculos XI e XIII para o Médio Oriente, para a chamada Terra Santa. Mas a conquista das Américas é muito diferente das Cruzadas. Na conquista das Américas não há grandes expedições militares, não há expedições comandadas por reis, nem por grandes aristocratas, como tinha havido nas Cruzadas medievais para o Médio Oriente. É verdade que o rei de Castela, e isto eram conquistas, nós falamos da Espanha, mas isto eram conquistas da Coroa de Castela. A Coroa de Castela manteve a jurisdição sobre a empresa, isto é, enviava delegados e a partir de certa altura começou a constituir autoridades em nome do rei nas Américas, mas basicamente a conquista das Américas no princípio do século XVI, portanto as Américas descobertas por Cristóvão Colombo em 1492, começam a ser conquistadas ou ocupadas por europeus a partir do princípio do século XVI. Essa conquista das Américas é uma empresa quase privada de fidalgos de segunda linha, isto é, fidalgos pobres ou filhos segundos de famílias fidalgas, mercadores, missionários cristãos, missionários católicos, no caso de Castela. Por exemplo, sabemos como foi a conquista do México, como foi a conquista do Peru nas primeiras décadas do século XVI. A conquista do México é um empreendimento de Hernán Cortés, é uma espécie de empresa privada, e a conquista do Peru é de Francisco Pizarro, também são empresas quase privadas. Quem é que são estes conquistadores? Estes conquistadores são guerreiros profissionais, mas que se comportam um pouquinho como empresários para estas conquistas. Portanto, o que é que eles fazem? Tentam arranjar financiamento, depois quando chegam ao local tentam estabelecer alianças com tribos locais para lhes permitirem vencer forças mais fortes. Ora bem Quando nós percebemos que esta é a base da conquista, percebemos que é muito mais fácil arranjar empresas destas, isto é, convencer gente a dar dinheiro, convencer gente a juntar-se à expedição pra combater, quando há objetivos que são notoriamente rendosos, isto é, quando é óbvio que vai haver qualquer coisa que vale a pena arriscar a vida, arriscar dinheiro, arriscar o tempo também pra ir lá. Como são os grandes impérios que os castelhanos encontraram na América Central e depois na América do Sul, como o Império Asteca, na América Central, o Império Inca, no sul. Viram imediatamente as grandes construções de pedra, a riqueza em minerais, ouro e prata. Era óbvio que havia ali imensa coisa que valia a pena fazer uma empresa arriscada, juntar-se uma série de militares, arranjarem alguém que lhes pague pra arranjarem os barcos, irem até lá e tentar conquistar. Ora bem, isto que é óbvio pra América Central, no caso do México, e pra América do Sul, no caso do Peru, não é nada óbvio no caso da América do Norte.
Porque não houvera grandes civilizações.
A América do Norte também é reivindicada pela coroa de Castela, tal como o resto.
É tudo deles.
É tudo deles. Mas os espanhóis que começaram a explorar as costas do leste da América do Norte e depois do oeste, não encontraram traços de grandes impérios. Aparentemente, houve grandes impérios lá, mas já tinham acabado no século XVI, quando os europeus chegaram. Só os arqueólogos, séculos depois, é que descobriram os traços dessas grandes construções que faziam lembrar as construções astecas e dos incas, mas já não existiam quando os europeus lá chegaram.
E portanto, a lógica era: não há império, também não há riquezas.
Não há riquezas, eles descobrem tribos que lhes parecem muito primitivas pela tecnologia, muito pobres, pouco numerosas. Às vezes ouvem falar de ouro e de prata, mas nunca conseguem encontrar. De facto, aquelas terras estavam cheias de ouro e de prata, mas eles não conseguem encontrar na altura. Portanto, os espanhóis, na prática, o interesse concentra-se todo no México e no Peru. Também por uma outra razão: os conquistadores espanhóis não são colonos, não estão inicialmente a pensar estabelecer-se lá, estão a pensar conquistar, mas depois acabam por se estabelecer. Mas acabam por se estabelecer como? Acabam por se estabelecer, sobretudo, como a aristocracia militar. Aquilo que eles fazem é substituir os aristocratas incas e astecas e porem aquelas populações a trabalhar pra eles através do sistema de encomiendas, que torna estes conquistadores uma espécie de senhores feudais com uma série de indígenas em determinado território, que têm de lhes pagar por continuarem as suas culturas e a sua habitação. Ora bem, isso torna-se difícil, aliás, na América Central e no Sul, quando as populações indígenas começam a morrer com as doenças. E torna-se ainda mais complicado na América do Norte por causa da proibição do Papa da escravização dos índios. E também não há tanta população, não é possível fazer lá um sistema de encomiendas também na América do Norte. Portanto, nem essa outra atração existe lá.
E também não tens um clima tropical que permitia também o desenvolvimento.
Havia no sul dos Estados Unidos e aliás, depois os colonos ingleses vão fazer isso. Mas isso não ocorre inicialmente aos espanhóis. Os espanhóis estão mesmo perante aqueles grandes impérios, asteca e inca, eles estão interessados em conquistar aquilo, em dominar aquilo. Portanto, também não têm logo a criatividade dos portugueses no Brasil. Os portugueses no Brasil também vão encontrar uma situação parecida com a da América do Norte, tribos, não há traços de grandes civilizações. O que é que eles fazem, os portugueses no Brasil? Vão transplantar as plantações de açúcar que já tinham desenvolvido nas ilhas do Atlântico, sobretudo na Madeira e em São Tomé, vão transplantá-las para o nordeste brasileiro e vão começar aí. Têm ali condições também pra produzir açúcar. Vão depois levar pra lá escravos trazidos de África e vão desenvolver ali a produção de açúcar no nordeste brasileiro. Os outros europeus depois vão imitar esta iniciativa portuguesa, mas vão imitá-los onde as condições parecem melhores, que é nas Caraíbas, e sobretudo nas ilhas das Caraíbas. É aí é que se vão desenvolver a indústria açucareira.
Se tornam super prósporas.
A América do Norte, século XVI, princípio do século XVII, está fora deste mundo do açúcar, dos impérios, das conquistas de impérios.
Ok, mas não estava a passar nada na América do Norte?
Estava, a partir do México, sobretudo, há exploradores, há missionários espanhóis que chegam a entrar no Texas, chegam à Califórnia, chegam à Flórida, à Califórnia na costa oeste, à Flórida na costa leste. A mais famosa expedição é de um senhor chamado Francisco Vázquez de Coronado, entre 1540 e 1542. Ele vai à procura das sete cidades do ouro. Ouviu falar disso, alguns índios. Os índios a partir de uma determinada altura começam a perceber os europeus e quando os europeus chegam a um determinado local, os índios, pra se verem livres deles, dizem: "Bem, aqui não há nada, mas muito mais adiante, há uma quantidade de cidades cheias de ouro, etc. Vocês vão pra lá." E eles: "Exato, lá passam por lá." Esta expedição do Vázquez de Coronado chega ao Kansas, no centro dos atuais Estados Unidos, mas mais uma vez não encontra nada de entusiasmante. As aldeias não têm nada a ver com o México e com o Peru, tudo parece primitivo, parece pobre. São sobretudo os missionários católicos, os missionários das ordens franciscana e jesuíta. São esses, sobretudo, quem começa a frequentar mais, a partir do México espanhol, aquilo que hoje são o sul dos Estados Unidos, isto é, a Califórnia, o New México, o Arizona, o Texas. Vão estabelecendo missões. No século XVIII, na Califórnia, há 21 missões Espanholas. São hoje os mais antigos edifícios europeus da América do Norte, são estas igrejas e os palácios, algum ou outro palácio que foram também construídos. Entretanto, quando se estabelecem as missões, as autoridades espanholas da chamada Nova Espanha, que é o México, acabam por estabelecer uns fortes para apoiar as missões, etc. Mas tudo isto é uma rede muito ténue e que não se nota muito na imensa vastidão que é a parte mais meridional da América do Norte. Tem um impacto grande nos futuros Estados Unidos, porque são de facto os espanhóis que introduzem o cavalo, introduzem o gado bovino europeu também, aqui neste sul dos Estados Unidos, e desenvolvem a cultura dos vaqueiros, cuja tradução em inglês é cowboys, que é uma cultura espanhola, não é uma cultura americana.
Os vaqueiros vieram antes dos cowboys.
Os cowboys é uma tradução dos vaqueiros. É a cultura do rancho, do rodeo, a maneira de vestir, etc., tudo isso é espanhol. Não tem origem americana, o oeste americano é uma invenção espanhola, de facto, original. E são também os espanhóis que fazem uma coisa também extraordinariamente importante na América do Norte, são sobretudo eles. Eles espalham a cultura do milho, que vem da América Central e da América do Sul, e é adotada pelos índios e depois pelos colonos ingleses também, e dá uma grande explosão de produção de cereais na América do Norte. E são os espanhóis também que levam. Na costa leste, os fortes espanhóis vão até aos atuais estados americanos das Carolinas, mas o principal centro espanhol é o da Flórida. É aí que os espanhóis estão. E os espanhóis estão aí já a partir de meados do século XVI, sobretudo para vigiar a costa. Estão a tentar vigiar a costa e impedir os ingleses, franceses de começarem a estabelecer lá, o que é uma coisa historicamente difícil. Os portugueses no Brasil também têm grandes dificuldades em impedir holandeses e franceses de começarem a explorar e a instalar-se. É óbvio que franceses, ingleses e holandeses ouvem falar das riquezas que os espanhóis e os portugueses, sobretudo os espanhóis, estão a tirar das Américas, mas inicialmente pensam: "Bem, a melhor maneira de aproveitar essas riquezas é basicamente atacar as frotas espanholas."
É roubá-las.
É roubá-las. E é isso que eles fazem. Franceses e ingleses estabelecem uma pirataria no Atlântico e, por exemplo, uma das maiores cargas de tesouro enviadas por Cortés a partir do México em 1522 é capturada pelos franceses no Atlântico, pelos piratas franceses. Piratas que têm cartas de corso, isto é, são apoiados oficialmente pelos governos que estão às vezes em choque, em conflito com os governos espanhóis. Outra coisa que fazem a partir de determinada altura, os franceses, ingleses e holandeses, é começar a tentar se estabelecer em zonas um bocado mais afastadas das zonas onde estão os espanhóis, no caso da América do Norte. E aí têm a vida facilitada a partir de 1588, com a destruição da Armada Invencível, com que Filipe II tentou conquistar a Inglaterra. A Armada Invencível basicamente reúne as grandes forças navais de Portugal e de Castela. E quando essas forças navais são destruídas, é muito mais fácil para ingleses, franceses, holandeses irem mais seguros, mais à vontade para as Américas do que antes, sabendo que os meios navais que Castela tem para impedir essas viagens estão diminuídos.
Certo. Bom, nós ficamos aqui para esta primeira parte. Voltamos já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós vamos dedicar quatro programas à independência americana. Faz 250 anos, não é todos os anos.
E é um momento muito importante da história mundial mesmo.
E nós estávamos a falar da chegada dos ingleses, mas por enquanto os ingleses ainda não chegaram. Estamos nos espanhóis, está quase, o Mayflower está ali ao fundo.
E agora vamos falar dos franceses, porque os franceses chegaram antes.
Espanhóis, franceses, toda a gente chegou antes dos ingleses, basicamente. E os vikings também.
Sim, é provável. Hoje em dia é muito aceita essa tese. Bem, mas antes disso vamos falar dos franceses. Os franceses são, depois dos espanhóis, aqueles que se vão tentar estabelecer na América do Norte com mais sucesso. Eles interessam-se sobretudo, tal como aliás os outros ingleses, portugueses e holandeses, no caso da América do Norte, interessam-se sobretudo pela parte mais norte da América do Norte, isto é, pelo Canadá, por causa das pescarias, Labrador e Terra Nova. No Canadá, os franceses vão interessados também pelas pescas e depois interessam-se por uma outra coisa. Interessam-se pelo comércio de peles, sobretudo peles de castor, que não são eles exatamente que caçam, mas compram aos índios. E os mercadores, estes negociantes franceses que se interessam pelo comércio das peles, começam a entrar no território do Canadá, sobretudo ao longo do rio São Lourenço, para ir à procura de fontes de peles, isto é, de tribos índias que lhes vendem peles. E começam a se interessar também por explorar o Canadá, não só por ver o que é que há lá, mas também por um horizonte, uma lenda que se tinha criado na Europa e que se tinha falado muito, que era que havia uma passagem para o Pacífico no norte da América. Isto é, que era possível chegar Ao Pacífico, à China, ao Japão, à Índia, através do norte. Por exemplo, o rei de França, Francisco I, nos anos 20, 30 do século XVI, interessa-se muito por essa teoria ou alguém lhe vende essa teoria e ele diz: "Sim, senhor, então vão lá ver se é mesmo assim." E há um explorador francês que é muito conhecido ou fica muito famoso, que é Jacques Cartier, que entre 1534 e 1542 explora o Canadá. É ele, aliás, que arranja o nome de Canadá. Canadá é um termo índio, quer dizer, grande aldeia. Portanto, ele dá o nome de Canadá ao Canadá. Ele tem o apoio do rei de França, mas mais uma vez é uma decepção. Tal como o Vasquez Coronado, o Cartier também é uma decepção. Eles não encontram nenhum El Dorado, não há grandes riquezas, também não há nenhuma passagem. Repare, aquela zona do Canadá é tudo lagos, rios e aparentemente pode parecer que dá para passar, mas não, descobrem que aquilo são lagos e são rios, mas que não dão passagem para o Pacífico. Agora, o comércio das peles torna-se, de facto, historicamente importante, sobretudo no século XVII. E no princípio desse século, século XVII, os franceses fundam Quebec, a cidade do Quebec, que em 1663 fica sob a autoridade do rei. Este domínio francês não é de colonos, não é propriamente colonos, embora comecem a acumular-se franceses lá, são uns milhares, mas é sobretudo alianças com as tribos índias e na influência dos missionários católicos e dos comerciantes. Portanto, dos comerciantes de peles e dos missionários católicos. Os missionários católicos começam a contactar as tribos índias, a converter muitos índios e a estabelecer-se lá. Claro que há sempre a ideia de vamos explorar, vamos ver o que é que há mais. Em 1679, há um outro explorador francês muito conhecido, que é LaSalle, o senhor de LaSalle, que vai fazer uma viagem incrível. A partir do Canadá, ele consegue encontrar o rio Mississippi e ao longo do rio Mississippi vai chegar ao Golfo do México. Atravessa toda a América do Norte, é uma viagem incrível, uma viagem de milhares de quilómetros no desconhecido. São 20 franceses, uma coluna de 20 franceses a caminhar. O que é que eles estão a fazer? Eles estão a caminhar ao longo do rio Mississippi e ao longo de toda aquela bacia hidrográfica do rio Mississippi, que fica entre as Montanhas Rochosas e os Appalachian ao oeste. O LaSalle percorre na direção do Golfo do México e depois volta para o Canadá pelo mesmo caminho e vai reivindicar essa região com o nome de Louisiana. Louisiana refere o rei Luís XIV, o rei de França. Os franceses vão fundar o porto de Nova Orleães na foz do Mississippi, já no Golfo do México, e vão começar a criar um sistema de fortes, de missões, de entrepostos comerciais e de alianças com os índios no vale do Mississippi, isto é, no centro dos Estados Unidos. A área é impressionante quando se olha no mapa, a área que os franceses estão a ocupar, mas mais uma vez é uma ocupação muito ténue.
A ocupar com aspas.
É muito ténue, ainda mais ténue do que a espanhola. Eles ficam sempre ao pé dos rios, as linhas de progressão deles são os rios e o que lhes interessa é o comércio das peles e o comércio das madeiras que ou transportam pelos rios até ao Canadá, até Montreal e Quebec, ou então até New Orleans, cá no sul. No sul, na Louisiana, também experimentam algumas plantações de açúcar. Experimentam a produção de açúcar e a produção de açúcar obviamente traz os escravos negros, de repente é uma população relativamente importante na Louisiana. Mas aquilo que interessa mais aos franceses, de facto, em termos da produção de açúcar, é as ilhas das Caraíbas onde eles se vão conseguir estabelecer. Aliás, tal como acontece aos ingleses, que também se conseguem estabelecer nalgumas das ilhas das Caraíbas. É sempre importante ter presente as Caraíbas para perceber a América do Norte e o que vai acontecer à presença francesa e inglesa na América do Norte. Porque nós hoje pensamos nos Estados Unidos e dizemos: "Bem, como é que é alguém?"
Como é possível?
Como é que é possível? Mas naquela altura as pessoas olhavam para a América do Norte e olhavam para a ilha de Saint-Domingue, 20 mil km² e diziam: esqueçam a América do Norte. Isto é muito mais interessante, Saint-Domingue, com os seus 20 mil km² é muito mais interessante do que os milhões de quilómetros quadrados lá da América do Norte, onde aparentemente não parece haver nada de muito interessante.
E tudo por causa do açúcar.
E por causa do açúcar, claro. Agora nós estamos a falar de espanhóis e de franceses e agora finalmente temos que chegar aos ingleses, mas não, antes dos ingleses.
Ok, ainda não é agora?
Ainda não é agora. Vamos falar dos holandeses só um bocadinho. Falar só um bocadinho dos holandeses, porque os holandeses também se estabelecem na América do Norte, na Baía de Hudson, e depois vão fundar Nova Amsterdão, hoje mais conhecida por Nova Iorque, em 1626.
Comprada aos índios.
Comprada aos índios, alegadamente. Os suecos também lá tinham chegado, mas os holandeses vão expulsar os suecos, ficam lá os holandeses. Os mais importantes depois dos espanhóis e dos franceses, no caso da América do Norte, são os ingleses.
Ok, mas então o que têm os ingleses que são diferentes de todos os outros?
Os ingleses a princípio também são piratas em meados do século XVI é pirataria, atacar as povoações e as armadas espanholas nas Caraíbas e até no Peru, o Francis Drake faz isso com o apoio da rainha Isabel I de Inglaterra, mas no fim do século XVI e princípio do século XVII, aparece a ideia em Londres de criar estabelecimentos, povoações inglesas na América do Norte. Elas começam por ser empresas comerciais, são companhias que são formadas, companhias com acionistas nas praças, sobretudo de Londres e de Plymouth, que é um porto importante em Devon.
E o que é que eles querem?
A ideia aqui já é criar plantações de produtos exóticos, coisas que possam interessar à Europa. Há gente importante, até gente da cor, que investe nestas companhias, começam a meter dinheiro nestas companhias e começam também a desenhar a ideia do que seriam estas povoações. Seriam povoações que iriam ser governadas por conselhos com a aprovação do rei, mas que se comprometem a respeitar os direitos dos ingleses, por exemplo, o juramento por jury.
Os julgamentos, os tribunais.
Exatamente. Por quê? Para atrair os colonos, é dizer às pessoas eventualmente interessadas a ir para as Américas na Inglaterra, se forem para as Américas, vão ter o mesmo tipo de sociedade que têm aqui.
Ok. E isso foi importante.
Isso é muito importante para atrair ingleses. Vocês aqui vivem de uma maneira que consideram com direitos e se forem para as Américas, não vão perder esses direitos. Estas companhias comerciais garantem-lhes os mesmos direitos que a coroa britânica vos garante em Inglaterra, isto é, qual a coroa inglesa vos garante em Inglaterra. Qual é a zona escolhida por eles? A zona escolhida por eles é, muito obviamente, aquela que está entre os centros de ocupação espanhóis e os centros de ocupação franceses. Os franceses estão no Canadá, os espanhóis estão na Flórida e os ingleses escolhem a costa leste. Também a leste das montanhas dos Appalachian e do rio Mississipi, porque aí também há controle francês, é essa costa. E é em 1607 que uma expedição funda a povoação de Jamestown naquilo que eles chamam a colônia da Virgínia e que é o atual estado da Virgínia nos Estados Unidos. É incrivelmente difícil, as coisas são terríveis.
O que é que é difícil? Viverem ali?
Não, chegar lá e viver lá. Chegar lá, por exemplo, só para vos dar uma ideia, eles conseguem arranjar 144 colonos. 1607.
Portanto, gente disponível para ficar lá.
Para lá ficar. Dos 144 colonos, só 105 é que chegam vivos. Mais 30 morreram durante os dois meses de viagem. São dois meses de viagem. E eles não têm exatamente os meios necessários para saber exatamente onde estão e a possibilidade de errarem na costa é muito grande. E terem de navegar ainda mais e depois andarem. Reparem, não têm referências na costa, aquilo é uma selva, é uma floresta, não há ali referências para encontrarem coisas. Em terra, quando chegam, os índios, como eles lhes chamavam, porque é assim que desde Cristóvão Colombo, os primeiros habitantes das Américas são conhecidos. Os índios não parecem necessariamente sempre muito acolhedores, e eles têm de construir um forte para se defenderem de eventuais ataques de índios. As florestas são muito densas, há malária, não é fácil encontrar comida, ao contrário do que se possa pensar. E sete meses depois, eles já tinham esgotado os abastecimentos que tinham trazido da Europa. Já estão numa situação de fome, de começo de fome. E ao fim de dois anos, dos 105 colonos que tinham chegado, só 38 é que estavam vivos. Isto é uma mortandade enorme. Saíram 144, todos convencidos que iam para o Novo Mundo, e ao fim de dois anos são 38 vivos e vivem da caça, vivem de trocar com os índios, mas entretanto vão chegando mais colonos. A companhia aparentemente consegue convencer não só financiadores, mas também gente em Inglaterra que vale a pena ir para as Américas. Estes colonos vão começar a criar alianças com os índios. Em 1614 é o famoso casamento de John Rolfe com a Pocahontas.
Lá está, como todos nós vimos no filme da Disney.
Não exatamente como no filme da Disney.
Como não?
É curioso, ela casa com o John Rolfe e depois é trazida para a Inglaterra, precisamente como um chamariz para mais investimentos e mais colonos. Estão a ver aqui, os índios já estão a civilizar-se. E depois acaba por morrer em Inglaterra. Mas entretanto, há uma coisa mais importante do que a Pocahontas. Enfim, a Pocahontas é importante, como é óbvio. Mas há uma coisa tão importante, vamos dizer assim, que é a descoberta de que se pode cultivar tabaco. Aliás, o tabaco já existe lá Naturalmente, eles percebem que podem cultivar e os espanhóis tinham criado o hábito do tabaco na Europa Ocidental. Os ingleses tinham aderido a esse consumo. Aliás, já falamos aqui uma vez disso. Os ingleses tinham aderido ao tabaco, compravam aos espanhóis e de repente a ideia: nós na Virgínia, nesta nova colônia na América do Norte, podemos produzir tabaco e substituir os espanhóis como abastecedores de tabaco, pelo menos do mercado britânico. E as plantações começam a expandir-se, aproveitando uma coisa que nesta parte da América do Norte é uma grande vantagem para os europeus, que há imensos rios e é possível entrar em terra e os rios permitem depois o transporte dos produtos que se possam lá cultivar para a costa. O que acontece na Virgínia é que as plantações de tabaco vão se expandindo e a sua produção vai sendo escoada para a costa. Além do tabaco, eles também produzem anil, uma planta corante que produz a cor azul, que é muito importante para a indústria têxtil. É uma coisa muito importante mesmo. Como é que esta colônia da Virgínia funciona? Ela tem um governador que é nomeado pela Companhia de Londres, com autorização do rei, o rei autoriza, mas o governador é uma espécie de presidente, porque o governo pertence a uma espécie de assembleia de cidadãos, que aliás se reúne pela primeira vez em 1619, e que se propõe seguir, isso é o que eles dizem, as leis e os costumes da Inglaterra. Eles ali vão viver como ingleses.
Portanto, já havia uma cultura democrática.
Sim, ou representativa, de um governo representativo. Aquilo funciona um pouco como um parlamento, a que eles estão habituados em Inglaterra, onde o rei governa através do Parlamento, ali também este governador governa através deste parlamento e os membros deste parlamento, deste conselho, são eleitos por todos os homens adultos da colônia. Quando começa o tabaco lá na Inglaterra, quem começa a ver as Américas como um sítio interessante para ir, a ideia da oportunidade de enriquecer, porque aos colonos são-lhes atribuídas terras quando chegam, a possibilidade de se tornarem donos de plantação. Agora, muitos deles não têm dinheiro para pagar a passagem. O caminho para a liberdade americana é a servidão. O que é que eles fazem? Há a companhia ou senhores de plantações nas Américas que se propõem em Londres ou em Plymouth pagar as viagens para as Américas em troca de um contrato de trabalho de sete anos que as pessoas ficam obrigadas a trabalhar para aquele senhor. Eles vão como escravos, basicamente, para a América, mas ao fim de sete anos pagam a passagem e depois têm terra para eles e podem se tornar senhores de terra. No fim do século XVII, esse sistema de trabalho servil começa a ser ultrapassado na colônia da Virgínia pela importação de escravos africanos. A escravidão só se vai tornar significativa como força de trabalho nestas plantações no século XVIII e depois adquirir grandes dimensões. Em meados do século XVIII já há 260 mil escravos nas colônias da Virgínia e das Carolinas, no sul. Não é em todas, é só onde há este regime de plantações. Por quê? Porque as colônias inglesas na América do Norte não são todas iguais. Na Virgínia temos este regime de plantações. Estes donos das plantações de tabaco começam a comportar-se como fidalgos ingleses, isto é, a fingir que são fidalgos ingleses, é o mesmo tipo de vida, mas a norte da Virgínia há um outro tipo de colônias que começam em 1620, quando a Companhia de Londres, a mesma companhia que tem a tutela da Virgínia, autoriza um grupo de dissidentes a estabelecer-se nas Américas. Quem são estes dissidentes? Estes dissidentes são basicamente protestantes, calvinistas, para quem a igreja anglicana não está suficientemente reformada, isto é, ainda parece muito uma igreja católica. Eles são dissidentes da igreja anglicana, não gostam da igreja anglicana, não se sentem à vontade para viver em Inglaterra, muitos deles tinham ido para a Holanda, onde há um governo calvinista, onde há igreja reformada, mas também não se sentem bem na Holanda porque são ingleses e apesar de tudo estão na Holanda e de repente aparece esta possibilidade da América. Na América, a companhia o que lhes diz é: "Nós não vamos dizer que vocês têm liberdade religiosa, não está garantida a liberdade religiosa, mas não vão ser perseguidos se adotarem os vossos costumes diferentes". E é assim que em 1620, o navio Mayflower parte de Southampton com 149 pessoas e com uma carga de provisões, cabras, galinhas, para a tal viagem de 65 dias até às Américas.
Certo. Nós não temos mais 65 minutos, mas temos mais alguma coisa para contar acerca deste assunto, mas vai ter mesmo que ficar para o podcast. Para quem está ouvindo em direto, eu despeço-me até para a semana com o segundo episódio desta independência dos Estados Unidos da América. Até lá. Muito bem, Rui. 105 dias de viagem, muita cabra e galinha, então este correu-lhes melhor a vida do que aos outros em Jamestown?
Inicialmente, começou a correr-lhes mal. Por quê? Porque eles iam para a colônia de Virgínia, mas não acertam com a colônia de Virgínia e vão muito mais para norte, para lá da colônia de Virgínia, portanto para uma área que ainda não estava ocupada ou não era reivindicada pelos ingleses, no que é hoje o atual estado do Massachusetts. Eles acabam por estabelecer-se aí, dizem: "Vamos ficar aqui". Metade acaba por morrer no primeiro ano, as coisas começam mal. Mas eles vão muito convencidos, não apenas ao contrário daqueles que tinham ido para a colônia de Virgínia, que aquilo é uma empresa comercial, mas estes vão convencidos de que estão numa empresa religiosa. Eles querem ir criar ali uma terra de santos. Aliás, é santos que eles se chamam uns aos outros, são peregrinos, os pilgrims. Eles querem fazer uma cidade de Deus na América e essa ideia que estão a fundar uma comunidade religiosa, que estão a cumprir a vontade de Deus, anima-os perante a adversidade, isto é, as coisas são muito difíceis, mas eles vão resistir, vão ultrapassar as dificuldades.
A sua fogosidade religiosa.
Eles juram também um pacto quando chegam à vista terra para fundar uma comunidade política. Eles juram que querem fundar uma comunidade ali, um pacto entre eles para fundar uma comunidade. Eles têm um governador, que são eles que elegem. O de Virgínia era nomeado pela companhia, estes aqui são eles próprios que elegem todos os membros da congregação. Eles na prática funcionam como uma igreja, reparem o que estão ali é uma congregação religiosa, todos eles podem votar para eleger o governador. Agora, só os membros da congregação é que podem votar. E para ser membro da congregação tem de se passar num exame religioso, tem de se aderir à igreja, à religião reformada ou à religião cristã reformada, à religião calvinista. Só estes puritanos, como eles começam a ser conhecidos, é que podem ser cidadãos. Eles não estabelecem um regime de plantação tabaca, as condições não lhes permitem isso. O que eles fazem é um estabelecimento mais parecido com o dos franceses do Canadá. É o negócio das peles e o negócio das pescas do bacalhau, que é o grande negócio deles, e depois também o da madeira, aproveitando as florestas. A madeira é extraordinariamente importante. Uma das coisas que os colonos mais se impressionam e quando escrevem para a Europa mencionam é: "Isto está cheio de florestas e cheio de madeira". E depois dizem: "Nós podemos aquecer-nos no inverno, em vez de passar tanto frio como na Europa, onde há muito menos floresta e as pessoas pobres passam frio, nós aqui todos estamos quentinhos no inverno. Temos aqui madeira que nunca mais acaba." E repare, a madeira é o principal material de construção até ao século XIX, para construir casas, barcos, etc. Eles ali têm imensa madeira para construir tudo o que lhes passa pela cabeça. Só para vos dar ideia, em meados do século XVIII, um terço da Marinha Britânica, que é a maior do mundo, é construída na América. E a que não foi construída na América, às vezes também é construída por madeiras americanas. As florestas são um grande recurso que estes colonos ingleses nas Américas encontram e que vão consumir em grandes quantidades. Até ao século XIX, os americanos consumiram metade das florestas da América do Norte.
É impressionante.
É uma coisa impressionante, mas é um recurso incrível, impressiona imenso. Numa Europa onde as florestas já tinham desaparecido há séculos e a madeira era rara, era um bem precioso e era difícil chegar.
Portanto, a vida começou a correr-lhes melhor.
É. E para os puritanos, o fato de a vida lhes correr bem é um sinal muito importante de que estão a ser abençoados por Deus. O sucesso comercial para eles é um sinal da proteção divina. E só para vos dar um exemplo, em 1640, o governador de Massachusetts, que é um senhor também muito famoso, o John Winthrop, é demitido do lugar porque tinha empobrecido, o que era um sinal que Deus estava... não, isto é invocado para o demitir. Os cidadãos repararam que ele tinha perdido uns bens, tinha feito uns maus negócios, etc. Um sinal de que Deus o tinha abandonado e portanto é demitido.
É daí que vem o amor ao capitalismo.
Exato, ao capital. Aqui o capital é um sinal de santidade.
É o nome de Deus nas notas de dólar.
Agora, há também aqui uma grande intolerância religiosa em Massachusetts, que começa a levar ao estabelecimento de outros povoados nesta zona mais setentrional das Américas, da América inglesa. Aparece o povoado de Rhode Island em 1644, de gente que se sentia um bocado oprimida no estado de Massachusetts. E o Rhode Island é importante, hoje é uma coisa pequenininha, mas é muito importante porque em 1644 é o primeiro a estabelecer, por seus estatutos, total liberdade religiosa. Ninguém em Rhode Island pode ser incomodado por causa da religião, todas as religiões lá são livres. E é também o primeiro a declarar explicitamente que, e vou citar, a forma de governo da plantação de Providence, que é Rhode Island, é democrática O governo baseia-se no livre e voluntário consentimento de todos ou a maioria dos seus habitantes livres. Em 1644, Rhode Island diz isto: liberdade religiosa e governo democrático. Toda a gente participa e o governo baseia-se no consentimento dos cidadãos.
E depois pouco a pouco vão-se multiplicando as províncias.
Aparece New York, Pensilvânia, e por aí fora. Geralmente são mais tolerantes, eles começam a refletir até o pluralismo religioso que existia em Inglaterra, apesar dos constrangimentos anglicanos.
Mas cada colônia para sua religião, mais ou menos?
Não exatamente, mas às vezes sim. Por exemplo, a Pensilvânia é dos Quakers, que é uma seita religiosa bastante mal vista pelos outros e que se estabelecem na Pensilvânia. Maryland é para os católicos, são os católicos ingleses.
Maryland, como o próprio nome indica.
Sim. E estas origens começam a refletir-se também no tipo de sociedade. Por exemplo, na Pensilvânia não há escravos, os Quakers são absolutamente intolerantes em relação à escravidão. Acham que a escravidão é uma instituição diabólica e horrível e não aceitam a escravidão. Em meados do século XVIII há 13 colônias inglesas na costa leste da América do Norte, entre a Flórida espanhola e o Canadá francês. Estas colônias são muito diferentes umas das outras, têm economias diferentes, têm sociedades diferentes, têm formas de governo que às vezes têm pormenores diferentes, têm moedas diferentes, eles vivem todos com papel-moeda, cada um tem as suas moedas. São separadas por grandes distâncias, não são contíguas, o povoamento não é contíguo, há distâncias enormes. Por exemplo, as colônias do norte é mais rápido às vezes chegar à Inglaterra do que chegar às colônias do sul. Têm economias diferentes, o Massachusetts vive das pescas, das peles, da madeira, construção naval. As chamadas colônias do meio, como a Pensilvânia, é sobretudo agricultura de cereais e de gado, com muitos agricultores independentes. E depois as colônias do sul, como a Virgínia, é a cultura do tabaco, do arroz, do índigo, em regime de plantação com escravos. São colônias muito diferentes.
E não têm nada em comum?
O que é que têm em comum? Têm a tradição inglesa da "common law", que é o respeito pelos direitos individuais nos tribunais, o governo limitado pela lei e um governo representativo. Eles seguem estes costumes ingleses, embora também comecem a divergir um pouco daquilo que existe em Inglaterra. Por exemplo, no caso da Virgínia, eles não têm o Morgadio, isto é, proíbem que as propriedades sejam deixadas à herança ao filho mais velho, como acontece na aristocracia inglesa e na maior parte da aristocracia da Europa Ocidental. Impedem aqueles donos das plantações de se constituir totalmente como uma aristocracia de tipo europeu. Todos os magistrados são eleitos. Eles elegem a maior parte dos magistrados, a maior parte dos homens podem votar. Por exemplo, todos aqueles que estão nas milícias, isto é, no serviço militar a que os homens adultos são obrigados. Quem serve na milícia tem direito de voto. Há hábitos que os vigiantes europeus começam a notar. Por exemplo, estes americanos, estes colonos ingleses, têm o hábito de se cumprimentar apertando as mãos em vez de fazer vênias.
Não era habitual?
Não, é um hábito igualitário, de apertar a mão.
O bacalhau nasceu nos Estados Unidos da América?
Não nasceu, mas divulga-se aí como uma forma de cumprimentar gente até de classes diferentes, que é uma coisa estranha para europeus. E depois, ao contrário da Inglaterra, apesar dos costumes serem todos ingleses, tem uma coisa que é muito diferente da Inglaterra. A Inglaterra não tem uma constituição escrita, ainda hoje não tem. E estas colônias começam a ter o equivalente de constituições escritas. A primeira é de 1639, no Connecticut, que é a The Fundamental Orders of Connecticut, que é uma espécie de constituição escrita. Aí começam a tornar-se um pouco diferentes.
Mas a lealdade ao rei é indiscutível.
Claro. O que eles têm em comum? Basicamente, o que eles têm em comum é a sujeição ao rei da Inglaterra. A fidelidade, a lealdade à coroa britânica é o traço de união entre as colônias. Em meados do século XVIII, o rei já nomeia o governador em nove colônias, substitui-se às companhias comerciais e depois é o rei que nomeia o governador. Nas colônias em que ele não nomeia o governador, em quatro, em que o governador é eleito ou ainda nomeado por companhias locais, apesar de tudo, depende da aprovação do rei, a nomeação depende da aprovação do rei. Agora, estes governadores dependem das assembleias eleitas, porque são estas assembleias eleitas que pagam aos governadores. Os governadores são uma espécie de presidentes ou um pouco de reis nestas colônias. As assembleias legislam e depois o governador tem direito de veto sobre a legislação, isto é como o rei em Inglaterra com o Parlamento. O Parlamento faz as leis, o rei tem direito de veto sobre as leis feitas pelo Parlamento. O que é que ganha a Inglaterra com esta relação? Não cobra impostos nestas colónias cujo produto seja transferido para a Inglaterra.
Não há impostos?
Não há impostos. Há impostos, mas para sustentar o governo local. Qual é que é a vantagem?
Estás a dizer que não há transferência de dinheiro para o Império Britânico.
Isto é, há o pagamento das autoridades britânicas, os governadores são pagos localmente. O que é que ganha a Inglaterra? É o monopólio do comércio. Isto é, por um ato do parlamento de 1660, muitos produtos destas colónias só podem ser vendidos em Inglaterra. Isto é, estes colonos ingleses nas Américas não podem vender aos franceses ou espanhóis legalmente tabaco, índigo, peles, madeira, só podem vender a firmas inglesas. E quando entram esses produtos em Inglaterra, pagam impostos e esse é o rendimento que o governo britânico tira das colónias inglesas.
Estamos a falar de um ato de 1660, tinham passado 50 anos desde as primeiras instalações colonos. Significa que muito rapidamente aquelas colónias, apesar de tudo, começaram a prosperar.
Sim, muito rapidamente. É muito provável, alguns historiadores dizem isso, que cerca de meados do século XVIII, os americanos, estes colonos ingleses da América, já são a população mais rica do mundo. Isto é tudo cálculos estimativos, portanto é discutível. Mas a economia americana, a economia das 13 colónias inglesas na América, a taxa de crescimento terá sido do dobro da economia inglesa. Portanto, embora eles não tenham a indústria da Inglaterra, nem a indústria da França, ainda é uma economia rural, vive-se muito bem nas Américas. E isso explica a grande ligação entre a Inglaterra e a América do Norte, que é a migração enorme. No ano de 1700, as colónias inglesas têm 250 mil habitantes de origem europeia. Em 1750, já têm um milhão, quatro vezes mais. Em 1776, têm 2,5 milhões, isto é, multiplicou-se em 25 anos, dobrou a população. É verdade que estes 2,5 milhões incluem também 500 mil escravos no sul, nas colónias no sul. De onde é que vêm estes migrantes? Vêm, sobretudo, da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda, que são grandes fontes de migração, embora a liberdade religiosa que se vive em muitas das colónias inglesas da América atrai também muita gente do continente europeu, por exemplo, da Alemanha. Há muitos alemães que vêm também atraídos pela liberdade religiosa. Em 1790 é quando temos o primeiro recenseamento da população, portanto sabemos as origens. Em 1790, 85% dos habitantes das 13 colónias têm ascendência britânica, portanto vêm da Escócia, da Inglaterra, 9% têm ascendência alemã e 3% holandesa. Estes holandeses, em 1664, os americanos tinham conquistado Nova Amsterdã, mas os holandeses tinham ficado lá, a população holandesa ficou lá, porque isto era uma coisa que os ingleses tinham, deixavam as outras populações, tal como deixaram depois os franceses no Canadá, lá sob domínio britânico.
Não dava só a bandeira.
A vida era muito boa, é fácil adquirir terra, é fácil entrar em profissões. Isto é muito importante, talvez tão importante como adquirir terra. Na Europa, a maior parte das profissões, desde carpinteiro até advogado, são todas reguladas por corporações. Na América não existem corporações, as pessoas podem começar uma profissão, começar uma carpintaria sem pedir autorizações a ninguém. Existe a tradição legal inglesa que garante os direitos de propriedade, que garante os contratos, que protege contra os abusos do poder. Portanto, estas colónias da América são territórios onde quem para lá vai sabe que não vai ser espoliado das terras que adquirir, da fortuna que lá fizer, quer dizer, que não há gente poderosa para lhe tirar isso, porque há tribunais que os vão defender. E depois há imensos recursos. Há a madeira, há depois, tão importante como a madeira, os rios navegáveis. Reparem, esta parte das Américas tem mais rios navegáveis do que todo o resto do mundo em conjunto, é uma coisa espantosa. Isto quer dizer que em meados do século XVIII era talvez a parte do mundo onde havia mais vias de transporte acessíveis. E portanto, era possível produzir, mas também transportar para a costa e comercializar as suas produções. E depois há uma outra coisa, há muitos recursos para as pessoas que existem, o que quer dizer que as pessoas são muito bem pagas, a mão de obra é cara, é relativamente cara. Nós sabemos isso, por exemplo, em meados do século XVIII, o rendimento de um trabalhador na América é cerca de 14 libras por ano, que é a moeda inglesa. Em Inglaterra é 10. Portanto, um trabalhador na América é muito mais bem pago do que um trabalhador da Inglaterra. Isso explica esta imensa imigração. E depois paga muito menos impostos, porque basicamente na América não há impostos diretos Enquanto o rendimento do trabalho na Inglaterra é depois ainda é consumido em impostos, ali basicamente fica com o rendimento quase todo. E depois sabemos que eles vivem muito bem, porque temos informação sobre as alturas e podemos comparar os colonos ingleses, os colonos que vêm da Inglaterra e que se estabeleceram na América e começaram a viver na América, as suas estaturas com as estaturas da Inglaterra, e eles são muito mais altos do que os ingleses, têm uma muito melhor alimentação na América. São também muito mais instruídos. Esta é a estimativa: 60% dos homens adultos nas colônias inglesas das Américas sabem ler. E no caso da Nova Inglaterra, 90% dos homens sabem ler. Por quê? Porque, por exemplo, no Massachusetts, há uma lei.
Mas isso quando?
Em meados do século XVIII, 1750. Repara, 90% dos homens na Nova Inglaterra sabem ler, 80% das mulheres. Quando é que Portugal alcançou estas taxas de literacia? 250 anos depois, no fim do século XX. Em meados do século XVIII. Por quê? Porque no Massachusetts havia uma lei que obrigava todos os chefes de família a ensinar a ler os filhos, por causa de razões religiosas, isto é, para depois poderem ler a Bíblia. Portanto, em 1750, na colônia da Pensilvânia, já há uma cidade bastante interessante que é Filadélfia, com teatros, com clubes, etc. Há jornais e há depois uma rede de colégios universitários que é também das mais densas do mundo. O Colégio de Harvard, em Massachusetts, foi fundado em 1636.
Isto é 30 anos depois de terem chegado.
É. O Colégio William and Mary, na Virgínia, em 1693. Enfim, Yale, Princeton, Colúmbia, são tudo fundações do século XVII e do século XVIII, o que faz com que em meados do século XVIII, há cerca de nove colégios universitários nestas colônias inglesas. A Inglaterra só tem duas universidades, eles têm nove universidades. Há imensa gente formada nestas universidades, a maior parte dos líderes da independência americana são gente formada nestas universidades, que têm grandes bibliotecas, adquirem imensos livros, têm grandes fundações. A maior parte destes colégios começam a receber grandes fundações privadas, até por razões religiosas. Estes puritanos gostam de deixar as suas fortunas a centros, porque inicialmente são centros de formação de clero, digamos assim. E, portanto, eles gostam de deixar as suas fortunas a estas instituições.
E tu aqui estás a comparar as colônias com o país europeu, não é?
Sim.
Se compararmos estas colônias com as outras colônias.
Estamos em mundos completamente diferentes, exatamente. Isto é, estas colônias inglesas, quando comparamos com os estabelecimentos espanhóis da América do Norte e com os estabelecimentos franceses, a diferença começa logo no seu tipo de colônia. Portanto, estas são colônias que se governam a si próprias, basicamente. Enquanto as colônias espanholas e francesas da América do Norte são governadas diretamente por delegados das autoridades metropolitanas, isto é, em nome do rei de França e em nome do rei de Espanha, vamos falar-lhes assim, são muito mais homogêneas. Isto é, nas colônias francesas só há católicos e talvez também há protestantes, mas sobretudo há católicos. Nas colônias espanholas só há católicos, portanto, são muito homogêneas e não atraem o mesmo tipo de migração. Por exemplo, os franceses nunca migraram em grandes quantidades. É uma das características da população francesa. A França tem uma população muito maior do que a Inglaterra, mas não exporta gente. As pessoas ficam. Aliás, uma das poucas migrações de franceses, são protestantes franceses pra Inglaterra, é a maior migração francesa da história é pra Inglaterra. E portanto, a diferença começa a se notar por volta de meados do século XVIII, em 1750. Nas 13 colônias inglesas, há 1 milhão de colonos e no Canadá e na Louisiana francesas, há 70 mil colonos franceses, 50 mil no Canadá, 20 mil na Louisiana. Portanto, 70 mil comparado com 1 milhão. Na Flórida espanhola, não haverá cerca de mais de 5 mil espanhóis. Nós estamos a falar da América do Norte, 1 milhão de colonos ingleses, 70 mil franceses, 5 mil espanhóis na Flórida, porque depois no New México, no Arizona e na Califórnia, os colonos espanhóis também são muito poucos. Aliás, a Califórnia só começa a ser ocupada pelos espanhóis já no fim do século XVIII. Portanto, as grandes colônias espanholas estão na América Central e do Sul, são a Vice-Realeza da Nova Espanha, que é o México, e a Vice-Realeza do Peru. Na Nova Espanha há 5 milhões de habitantes, o Peru tem 1,5 milhões, portanto, são populações grandes. Mas agora repare-se nisto: destes 6,5 milhões de habitantes das vice-realezas espanholas da América Central e da América do Sul, só cerca de 700 mil é que são europeus ou descendentes de europeus As colônias inglesas da costa leste da América do Norte têm a maior concentração de povoadores europeus das Américas em meados do século XVIII, porque o Brasil também tem muitos europeus, os portugueses e descendentes de europeus são 250 mil, isto é, comparado com 1 milhão de ingleses.
Mas na altura, quando olhavam para aquilo, as potências europeias percebiam o que estava ali a nascer?
Não necessariamente, porque isto não impressiona muito as potências europeias. Só vou dar um exemplo para perceber isso. As colônias inglesas, 1 milhão de habitantes, naquela extensão enorme da costa leste da América do Norte, exportam produtos pra Inglaterra, etc. E depois a Inglaterra tem uma pequena ilha nas Caraíbas que é a ilha de Barbados. É minúscula. A exportação da ilha de Barbados é mais valiosa do que toda a exportação das 13 colônias americanas em conjunto, porque é uma exportação de açúcar.
O açúcar era uma espécie de ouro na altura.
É o petróleo da época. A ilha de Barbados tem 55 mil habitantes em poucos quilômetros quadrados, é uma coisa impressionante. Por exemplo, os franceses têm 50 mil colonos no Canadá, 20 mil lá na Louisiana. Vamos comparar isso com a ilha de Saint-Domingue, que é o atual Haiti, 21 mil quilômetros quadrados. Em 21 mil quilômetros quadrados vivem 50 mil franceses, isto é, naquela pequena ilha do Saint-Domingue, aliás, que é metade da ilha. E há 150 mil escravos. Isto é, no Haiti, vamos chamar de Haiti, vivem 50 mil franceses. Na Louisiana, que tem mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, vivem 20 mil franceses. Para o governo de França, quando olha para as Américas, a sua atenção não vai pro mapa e essas extensões gigantes de mapa. Não, vai pra ilha de Saint-Domingue. Saint-Domingue vale muito mais do que o Canadá e a Louisiana. E mesmo o governo inglês, quando olha pra Barbados e diz: "Isto é muito mais interessante, Barbados, a Jamaica, etc. Isso é muito mais interessante para nós do que aquela..." Enfim, aquela é também muito interessante. Agora, claro, a enorme diferença de população entre a América do Norte francesa e a América do Norte inglesa vai criar problemas na América do Norte, porque os colonos ingleses começam a sentir que têm o direito de avançar pro oeste, ir pra além das montanhas dos Appalachian e entrar no sistema da bacia do Mississippi e começar a ocupar terras aí, ainda por cima porque sabem que essas terras, já há notícias que são das mais férteis da América do Norte. Começa a haver infiltração aí e por volta de meados do século XVIII, em 1750, o governo francês vai reagir, vai mandar militares pra lá pra impedir os colonos ingleses de entrar no vale do Ohio, sobretudo. E isso vai dar origem a uma guerra, a Guerra dos Sete Anos, entre 1756 e 1763. Essa guerra é fundamental pra perceber a origem dos Estados Unidos, mas ficará pro próximo episódio.
Fica pro próximo episódio. Nós voltaremos pra semana e esperamos por si. Até lá.
E o resto é história.
É apenas fumaça do incêndio de obra ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Tu amendas, eu atendo.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.