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E o resto é história. É a pedra pomba. Do incêndio de Poia, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Cá estamos nós, de regresso à nossa fascinante minimaratona sobre a independência dos Estados Unidos da América. Já deixámos dois episódios para trás, um sobre a chegada dos ingleses à América e outro sobre o descontentamento dos colonos e sobre a declaração de independência. Se ainda não ouviu esses episódios, vá ouvir, por favor. Hoje é o dia em que os canhões vão finalmente começar a troar neste programa. Vamos falar sobre a Guerra da Revolução, que se prolongou por oito penosos anos, desde o cerco de Boston, em abril de 1775, até ao grande ato final em Yorktown, onde o general George Washington, com a preciosa ajuda das tropas francesas e também da marinha francesa, conseguiu finalmente a rendição das tropas britânicas em outubro de 1781. A guerra foi ganha logo ali, mas ainda foi preciso esperar mais dois anos pelo Tratado de Paris, que a 3 de setembro de 1783 pôs um ponto final oficial na Guerra da Revolução, com a Inglaterra a reconhecer a independência dos Estados Unidos da América. Rui, quando hoje olhamos para o tamanho dos Estados Unidos e para o tamanho de Inglaterra, parece-nos óbvio que os ingleses não tinham quaisquer hipóteses. Mas naquela época não era bem assim.

Os tamanhos não eram exatamente... Os Estados Unidos já eram maiores que a Inglaterra.

Sim, mas havia diferenças.

Em termos de população era muito diferente.

Por um lado, os Estados Unidos, lá está, em 1776 não tinham nada a ver com os Estados Unidos realmente como hoje os conhecemos, em 2026. E por outro, porque o Império Britânico em 1776 também não tinha nada a ver com o Reino Unido como hoje conhecemos. Naquela época, Rui, quem é que era o Golias e quem é que era o David nesta história?

Pois, isso é uma questão interessante, porque não tem uma resposta única. Para muita gente parecia que o Golias era o Império Britânico e que o David eram as 13 colônias. A Grã-Bretanha, em 1776, tem oito milhões de habitantes, mais quatro milhões da Irlanda, portanto 12 milhões, de onde pode retirar soldados, etc. Os Estados Unidos têm muito menos, 2,5 milhões, talvez, de habitantes, dos quais 500 mil são escravos, portanto só 2 milhões é que são homens livres. A Grã-Bretanha, além disso, tem uma enorme marinha de guerra, a maior do mundo, e ainda tem acesso a uma fonte de recrutamento de soldados na Europa continental, sobretudo na Alemanha, onde recruta imensos soldados profissionais alemães. Às vezes são tratados como mercenários. Enfim, não é bem mercenários, são soldados profissionais. Por exemplo, só para dar uma ideia, no verão de 1776, a Grã-Bretanha ataca Nova York com 73 navios. Esses 73 navios têm tripulações que chegam aos 13 mil marinheiros e ainda estão embarcados 32 mil soldados, uma grande parte alemães. Portanto, é uma força muito grande. Aliás, conquistam Nova Iorque em 1776 e vão manter Nova Iorque ocupada até 1783. No entanto, por exemplo, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Benjamin Franklin, já tinha notado que a relação entre a Inglaterra e os Estados Unidos podia não estar a ser bem vista através destes números. Por quê? Porque as 13 colônias têm 2,5 milhões de habitantes, mas estão nas Américas, quer dizer, os outros têm de ser transportados ao longo do Atlântico. É gente que cresceu na América, a maior parte deles, está adaptada ao terreno, às guerras locais. E além disso, este David americano Tem um Golias por trás, que é a França.

Certo.

E isso faz enorme diferença. De repente temos um Golias a combater contra um David, mas esse David tem um Golias ao lado dele também a combater com ele.

Isso é muito importante.

A França e depois ainda tem uma outra potência, que não é tão poderosa como a França.

Está algures entre David e Golias.

Exato.

De média estatura.

Está algures aí, que é a Espanha, que também não se aliando aos Estados Unidos, está aliada à França contra a Inglaterra a partir de 1779. Portanto, a relação de forças é muito mais equilibrada do que pode parecer. Não é por acaso que a guerra durou oito anos, entre 1775 e 1783. Quanto às forças regulares, há números discutíveis, mas vou usar aqueles que são mais citados. Por exemplo, as forças britânicas na América do Norte, sem contar com a marinha e sem contar com os índios, talvez tenham chegado a cerca de 48 mil homens, 50 mil homens. As forças americanas são cerca de 60 mil homens, as forças convencionais, portanto estão mais ou menos equilibradas. Embora, por exemplo, George Washington, que é o comandante-em-chefe do exército continental americano, diga que o seu exército é "a rabble dignified by the name of an army", uma ralé dignificada com o nome do exército. Por que esta ralé? Porque basicamente, a maior parte eram lavradores, caçadores, mas muito eficazes na guerra. Por exemplo, eles não eram muito bons nos combates de linha, isto é, tropas a avançar, mas eram excelentes snipers. Tinham armas que permitiam disparar à distância, porque eram caçadores, a maior parte deles, e portanto faziam grandes estragos nas tropas britânicas, esta rabble, esta ralé dignificada com o nome de exército. Esta visão da ralé dignificada com o nome do exército explica também um pouco a opção britânica por tentar impor-se pela força, porque o comando militar britânico subestima imenso as tropas americanas. Eles acham as tropas americanas, as milícias, sobretudo as milícias dos estados, acham que só servem pra combater os índios, não servem pra combater um exército profissional, com experiência de guerra na Europa, como é o exército britânico e as suas tropas alemãs. Portanto, eles acham que em qualquer choque com este exército profissional, eles vão debandar, não têm capacidade pra isso. Isso era um pouco enganador, por um lado, pela maneira como a guerra vai ser conduzida, mas, por outro lado, também pela experiência de muitos oficiais americanos. O próprio George Washington tem experiência de guerra contra os franceses durante a Guerra dos Sete Anos, entre 1754 e 1763. É verdade que ele era um oficial das milícias do estado da Virgínia, mas teve essa experiência de combater contra tropas europeias. E por outro lado, há outros generais americanos que tinham combatido na Europa, no exército britânico, e portanto, tinham experiência da guerra moderna na Europa. Não eram propriamente apenas homens da floresta que de repente se vissem em frente de soldados profissionais. Esta guerra da revolução não é uma guerra de guerrilhas, isto é, os americanos não se limitam a fazer guerrilhas, nem os britânicos. Os americanos lutam como um exército, um exército dos estados, que são as colônias, que se tornaram entretanto estados, que estão a funcionar, que têm parlamentos, cobram impostos, etc. É uma guerra que combina, nesta época, o combate de infantaria armada de espingardas com baionetas e cavalaria com pistolas e sabres. A cavalaria é usada pra choque, a infantaria para o avanço em linha. Agora, a maior parte da guerra, tal como na Europa, também nos Estados Unidos, vai consistir em cercos a fortificações. Geralmente há fortificações em lugares estratégicos e a guerra funciona, sobretudo, através da ocupação desses lugares estratégicos. Por quê? Porque o segredo de ganhar uma guerra está na logística. Estes exércitos são muito grandes, dependem muito de abastecimentos, não são exércitos pequeninos que possam viver do terreno onde estão, isto é, de requisições ou de pilhagens, precisam de uma organização que lhes permita abastecimento em munições, em alimentos. E portanto, a capacidade de ocupar ponto estratégico e dificultar o abastecimento do adversário é talvez a coisa mais importante pra ganhar a guerra, mais importante até do que o choque direto. Aliás, os combates são limitados pelo clima na América do Norte, tal como eram limitados pelo clima na Europa. Portanto, isto é uma guerra de primavera e de verão. No inverno, os exércitos recuam para acampamentos de inverno, onde se tentam manter e evitar demasiadas deserções até à campanha de primavera. A guerra é muito determinada depois também pela sorte. Pela sorte no sentido de pelo sucesso no campo de batalha. E, por exemplo, os americanos têm em outubro de 1777, quase dois anos depois de começarem as hostilidades, um sucesso que é fundamental pra eles, que é o da Batalha de Saratoga. Saratoga fica na colônia de Nova York, naquilo que é o estado de Nova York. Os americanos conseguem aí a primeira rendição De um exército britânico que tinha vindo do Canadá, cerca de 7 mil homens, e é cercado pelos americanos, cerca de 15 mil americanos. A ideia dos britânicos, nesta altura, era descer do Canadá. Eles já tinham ocupado Nova York, portanto era ligar o Canadá a Nova York, através do vale do rio Hudson, e assim dividir os Estados Unidos em dois. Isso permitia-lhes conquistar o norte dos Estados Unidos e depois avançar para o sul. É essa manobra que os americanos conseguem impedir, impedem o corte de comunicações entre as colônias do norte e as colônias do sul. E, sobretudo, esta vitória americana credibiliza a causa americana. Credibiliza a causa americana, por exemplo, em França, em que de repente o governo francês, que obviamente era hostil ao governo britânico, mas não queria aparecer aliado a colonos que não tivessem hipóteses de vitória, isso era ridículo, começar uma guerra com a Inglaterra só para nada. De repente, viu bem, estes indivíduos são capazes mesmo de enfrentar a Inglaterra, vale a pena ajudá-los, vale a pena dar-lhes armas e munições. E, por outro lado, também faz o governo britânico perceber que não estava simplesmente perante o tumulto de uma ralé, mas perante tropas que eram capazes de enfrentar as tropas profissionais que os britânicos estavam a enviar.

Mas também houve grandes derrotas americanas.

Sim, as coisas não ficaram nada resolvidas em Saratoga. E só para dar um exemplo, não vou estar a descrever as derrotas americanas todas, dos generais americanos vencedores em Saratoga, um deles, que é o general Benedict Arnold, desertou para o campo britânico em 1780, passou-se para o lado dos britânicos. Tornou-se um traidor, o grande traidor, é a grande imagem do traidor hoje na história americana. E o outro general, que é o general Gates, em 1780, na Carolina do Sul, sofreu uma derrota enorme, ainda por cima estando em vantagem em número de tropas em relação às tropas britânicas, mas as tropas britânicas conseguiram derrotá-lo. Cinco anos depois, em 1780, cinco anos depois do início da revolta, o resultado da guerra ainda estava muito incerto. Os americanos ainda estão com grandes vantagens. Os britânicos ocuparam as principais cidades da América, ocuparam Nova York em 1776, Filadélfia, na Pensilvânia, em 1777, Savannah, na Geórgia, em 1778, Charleston, na Carolina do Sul, em maio de 1780. Isto são tudo cidades mais ou menos costeiras, mesmo Filadélfia, através dos rios, é fácil aceder a partir do mar, e cidades costeiras são cidades que estão ao alcance da Marinha Britânica.

Faz a diferença.

Sim, as tropas britânicas podem operar não só ao abrigo da artilharia naval, mas sobretudo também com os abastecimentos navais, com o abastecimento a partir do mar, que é disso que depende.

Mas o que é que os britânicos estavam à espera? Que os americanos desistissem?

Os britânicos estão à espera de derrotar o exército americano, o Exército Continental, comandado por George Washington, e a partir daí negociarem numa posição de força. Aliás, eles sempre que têm um sucesso, tentam enviar emissários para ver se os americanos finalmente reencontram o seu bom senso e decidem negociar. E por isso a estratégia de Washington é, sobretudo, a de manter o exército americano em existência. Não é tanto de vencer batalhas, mas é não perder muito quando perde batalhas e manter o exército americano ainda como uma força operacional capaz. E daí Washington preferir os movimentos, o Exército Continental está sempre em movimento para evitar choque com grandes concentrações de forças britânicas, ir atacando posições onde os britânicos estão em desvantagem numérica e evitar aqueles grandes confrontos. Como é notado, Washington, todos os recontros com os britânicos, a maior parte deles, ele perdeu-os. Mas teve a habilidade suficiente.

Ele ganhou a guerra tendo que perder uma enorme quantidade de batalhas.

Perdeu quase todas as batalhas, mas acabou por ganhar a guerra. Os britânicos tiveram uma espécie de vitórias de Pirro, como se costumava dizer nos Estados Unidos. Mesmo quando ganhavam, nunca era decisivo e também perdiam sempre imensa gente. E para eles era sempre muito mais difícil recuperar, porque era preciso mandar via tropas da Europa, era preciso abastecê-las por mar, era preciso ter a linha marinha, etc.

Era uma guerra de desgaste, não é?

Sim, isto é uma guerra, como aliás as guerras na Europa eram guerras de desgaste, sobretudo. Por exemplo, os prussianos eram adeptos da batalha decisiva, mas a maior parte das guerras na Europa, como esta guerra na Europa, eram guerras de desgaste, em que se tratava de desgastar e tratava-se de dificultar o abastecimento do adversário.

Muito bem. Nós voltamos já a seguir com mais o resto da história. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História", em que nós estamos no terceiro episódio dedicado à independência americana e estamos a falar da Guerra da Revolução e estávamos naquela fase em que os americanos faltavam levar pancada do exército britânico, mas que ainda assim resistiam e as batalhas nunca eram decisivas. Como se costuma dizer tantas vezes: a onda desde que bate muitas vezes na rocha.

Sim, e vai desgastando.

Vai desgastando e foi isso que aconteceu ao exército britânico.

É isso. No fim, é isso que vai acontecer. Mas vale a pena ainda referir um outro aspecto, que é quem é que está do lado britânico e quem é que está do lado americano ou do lado dos patriotas, como os americanos em rebelião contra o império britânico se chamavam a si próprios, eram os patriotas, the patriots. Nem todos os habitantes da América, nem todos os americanos estão do mesmo lado. Aliás, os historiadores, até baseados em impressões dos próprios líderes da independência americana, admitem que na população dos Estados Unidos, haveria talvez uns 20%, que é muita gente, que se mantém leal à coroa britânica, os lealistas. Haveria talvez 30% de patriotas. Portanto, 20% lealistas, 30% patriotas, independentistas.

Eram os mais numerosos.

E depois cerca de metade dos americanos que estava à espera de ver quem é que ganhava para tomar posição. Há muita gente que se mantém do lado britânico. Nós sabemos isso. No fim da guerra, entre 60 mil a 100 mil americanos, os números são discutidos, imigram para o Canadá e para a Inglaterra. É muita gente que imigra.

Por não quererem ficar na América independente.

E não poderem ficar, não lhes convém ficar, porque estiveram do lado britânico, as tropas britânicas agora em 1783 vão sair e eles ficam à mercê dos patriotas que querem vingar-se deles. O que é que fazia alguém ser lealista e manter-se leal? Havia uma questão de ideias. Não é por acaso que os lealistas são chamados Tories. Os Tories na Grã-Bretanha são os conservadores. Aqui também são associados a uma facção conservadora, a ideias conservadoras, aqueles que se mantêm fiéis à coroa britânica. Às vezes por situação, por exemplo, quem viveu em Nova Iorque ou na zona de Nova Iorque ocupada pelos britânicos, provavelmente percebeu que era melhor estar do lado britânico do que do lado americano. E outras vezes, por exemplo, as origens. Nós sabemos que os mais ferozes americanos antibritânicos são, não é surpresa, os irlandeses católicos. A população irlandesa católica nos Estados Unidos é aquela que mais ferozmente é patriota contra os britânicos. As religiões, às vezes, também dão uma pista. Por exemplo, os anglicanos, isto é, aqueles que seguem a igreja oficial da Inglaterra, que têm o rei como defensor, protetor, que também têm bispos, tendem a ser pró-britânicos. E isso também nos permite ter uma ideia da correlação de forças, porque as igrejas existentes na América, isto é, as comunidades religiosas com templos, há 406 comunidades anglicanas, mas depois há 495 presbiterianas e 749 congregacionalistas. Os presbiterianos e os congregacionalistas são calvinistas, são a igreja reformada, e são uma maioria em relação aos anglicanos.

Certo.

E estes tendem a ser patriotas, contra a igreja anglicana. Também sabemos que os franceses no Canadá, já falámos disso aqui, mantêm-se fiéis aos britânicos. Eles são católicos, mas receberam garantias do governo britânico e não confiam nada nos puritanos americanos. E depois temos os índios.

Que é para manter a sua independência disso.

Para manter a garantia que os britânicos lhes dão. Os britânicos deram-lhes a garantia que o Canadá é francês e é católico, e eles são livres. E eles têm medo de ficar sob a tutela daquelas colônias de puritanos da Nova Inglaterra.

Claro. Que está logo ali ao lado.

Estão logo ali, são aqueles que eles conhecem.

E que estão ali ao lado.

E que são os piores, os mais fanáticos.

E no meio disto ainda há os índios, não é?

Temos os índios. Nós temos que pensar nesta América, é uma América que vai até à cordilheira dos Appalachians. A oeste dessa cordilheira é o território índio, onde franceses e espanhóis só tinham tido algumas missões e alguns fortes. As populações índias ainda controlam esses territórios todos. Calcula-se que sejam cerca de 200 mil índios, que estão divididos em 85 nações com línguas, costumes, religiões completamente diferentes. Eles só são índios do ponto de vista europeu, entre eles são nações diferentes. Eles ainda controlam nove décimos dos atuais Estados Unidos. Os Estados Unidos ainda são só apenas um décimo do que é hoje, quer dizer, os próprios Estados Unidos. Muitas destas nações índias tentam manter-se neutrais, dizem: "Isto é uma guerra entre os europeus, nós não temos nada a ver com isto, são os colonos que estão a combater com as potências europeias." Agora, outros, e sobretudo aqueles que estão perto da fronteira das colônias, sentem que os britânicos os vão proteger mais do que os americanos Isto é, faziam o mesmo raciocínio do que os católicos, do que os colonos franceses no Canadá. Aliás, uma das causas da guerra era precisamente as dificuldades que o governo britânico estava a levantar à expansão dos americanos para o Oeste. Em 1763, o rei da Inglaterra tinha declarado todos os territórios a oeste do Mississippi como reserva índia onde os colonos não podiam entrar. Isso era uma coisa que revoltava os colonos. Eles queriam ocupar aquelas terras, os britânicos não deixavam. Os índios perceberam: se os americanos ganham a guerra, vão ocupar as terras todas. Há cerca de 13 mil índios que vão lutar ao lado dos britânicos. É muita gente. Eles fazem guerras de guerrilha ou acompanham o exército britânico em batalhas. Em 1779, por exemplo, os estados de Nova York e da Pensilvânia, a guerra que eles começam a fazer é uma guerra contra os índios, é uma ofensiva contra os índios, aliás, com massacres, extermínios, etc., para tirar os índios daquelas zonas da fronteira. E basicamente os índios são verdadeiramente os grandes derrotados desta guerra, da guerra da independência americana. São eles os grandes derrotados, por quê? Porque o governo americano entendeu em 1783 que a vitória significava o direito de conquistar o Oeste, isto é, de ocupar todas aquelas terras que os britânicos tinham declarado uma reserva índia. E agora deixaram de ser reserva índia, e portanto, os estados começaram a passar as montanhas, a entrar no vale do Ohio e do Mississippi, e a partir daí a avançar para o Oeste e a constituir novos territórios, estados e novos estados.

Não havia tribos índias do lado dos americanos?

Havia algumas, mas muito poucas. Por exemplo, havia até nações índias que estavam divididas entre os britânicos e os americanos, e houve também uma espécie de guerra civil dentro dessas nações entre índios que estavam do lado dos americanos, índios do lado dos britânicos, mas a maior parte dos índios que entraram na guerra, entraram ao lado dos britânicos. E depois ainda temos os escravos, para completar as populações que estão nas Américas. Meio milhão. São meio milhão, são sobretudo nos estados do Sul. E os britânicos iniciam imediatamente uma política de incitar revoltas de escravos. Isto é, começam a incitar revoltas de escravos. Logo em 1775, o governador britânico da Virgínia promete a liberdade a todos os escravos que se ofereçam para lutar ao lado do rei, das tropas do rei. E também sabemos que no fim da guerra, em 1783, os britânicos vão transferir cerca de 3 mil lealistas negros, isto é, que combateram nas tropas britânicas, para o Canadá, e vão ainda transportar outros mil para a Serra Leoa, isto é, devolvê-los à África, porque estes lealistas negros também não querem ficar sob tutela, receiam a vingança dos americanos por terem lutado ao lado dos britânicos.

Apesar de tudo, os americanos tinham muita gente contra eles.

Tinham muita gente.

Mas compensavam com a França e com a Espanha, não é?

Tinham os aliados, que são aliados absolutamente fundamentais. A França e a Espanha vão encarar a guerra da independência americana como um meio de reverter a guerra dos sete anos. A guerra dos sete anos eles perderam, agora veem aqui a possibilidade de recuperar algumas das coisas que perderam. Os americanos também percebem logo isso. O Benjamin Franklin é enviado à França em 1776 como embaixador dos Estados Unidos. Ele chega, faz uma grande sensação em Paris, ele chega vestido à homem de fronteira, portanto aquela ideia do americano como homem austero, um combatente da floresta, e os franceses que nesta época passam por aquela crise de acharem que estão excessivamente civilizados e que perderam as virtudes viris, etc. Portanto, veem este homem como a recuperação daquilo das virtudes que eles próprios queriam readquirir. Há um grande entusiasmo entre os jovens aristocratas da corte, que ficam entusiasmadíssimos com a ideia de combater ao lado dos americanos e, por exemplo, em 1777, um deles, o Marquês de Lafayette, com 19 anos, embarca para a América para lutar na América e vai se tornar um dos heróis da independência americana. Portanto, em fevereiro de 1778, há um tratado de aliança entre os Estados Unidos e a França. A França está sobretudo interessada em enfraquecer a Inglaterra. Está interessada também em arranjar um aliado para proteger as colônias francesas das Caraíbas, sobretudo Saint-Domingue. E depois arrasta quer a Espanha, quer a Holanda, para o lado da luta contra a Inglaterra. A ajuda francesa é fundamental. São 10 mil soldados profissionais que a França envia para a América, e são duas esquadras francesas que vão combater. Os americanos não têm marinha, de repente têm a marinha francesa a combater nas costas ao lado deles. Mas sobretudo, além da ajuda que os franceses e espanhóis dão, e sobretudo os franceses no teatro de operações da América, está o fato de a partir de 1778, 1779, a guerra tornar-se uma guerra mundial como a guerra dos sete anos. Faz parte da guerra da independência americana o cerco de Gibraltar. Gibraltar era uma colônia britânica desde 1713, a partir de 1779 fica cercada por tropas espanholas e a marinha francesa a tentar conquistar Gibraltar. Há batalhas no Canal da Mancha. Julho de 1778, uma batalha naval. Há batalhas navais nas Caraíbas em 1782. Há uma batalha Na volta no Senegal em 1779. Há batalhas na Índia, há o cerco de Pondicherry, que é a última colônia francesa na Índia. E em 1782, os franceses preparam mesmo um ataque à própria Grã-Bretanha, através do Canal da Mancha, para o qual preparam um exército de 40 mil homens para atravessar a Mancha e atacar a Inglaterra. Não chega a acontecer. Portanto, é uma guerra mundial em que de repente a Inglaterra não está só a combater na América contra os americanos e os franceses, mas está a combater no resto do mundo contra franceses, contra espanhóis, contra holandeses. E ainda há outras potências que de repente parece que estão interessadas a entrar também na guerra contra a Inglaterra.

E a verdade é que oito anos depois ganham, não é?

O pequeno Davi, de repente, tem uma quantidade enorme de Golias à volta dele. O que é que vai determinar a vitória americana? Eu diria que é a habilidade dos comandantes americanos. Washington mantém o exército disciplinado, abastecido, pago, umas vezes mais, outras vezes menos, mas quase sempre. Mesmo assim, tem uma taxa de deserção anual de 20%, que é uma coisa enorme. O exército é composto de muitos lavradores que entendem que quando chega o tempo das colheitas, saem, vão-se embora, e depois voltam a seguir. Aquilo é uma coisa um bocado difícil de manter, mas mantém o exército, mantém-no a funcionar.

Esse é o grande mérito dele. Não é como grande general na estratégia militar.

É um grande general nesse aspecto, manter o exército em combate muito difícil. Depois, as dificuldades logísticas dos britânicos. Os britânicos têm dois teatros de guerra na América, no norte a partir do Canadá, Nova York, e depois no sul, porque eles enviam, entretanto, um exército também para o sul para combater nas colônias do sul. Dois exércitos, é muito difícil, precisam de ser abastecidos por mar, quando têm a esquadra francesa a dificultar-lhes esse domínio do mar. Aliás, a Batalha de Yorktown, na Carolina do Norte, mas a Carolina do Norte é no sul, atenção, é acima da Carolina do Sul, é uma colônia do sul. A Batalha de Yorktown em 1781, o fator decisivo é a armada francesa, que impede o abastecimento do exército britânico que está nas colônias do sul. É um exército britânico de cerca de 8 mil homens e que vai ficar cercado por um exército americano e francês de 17 mil homens, que consegue cercar, não tem abastecimento e o general Cornwallis, que é o comandante britânico, acaba por se render a 19 de outubro de 1781. Não propriamente tivesse perdido a batalha em choque, mas pura e simplesmente percebeu que não tinha munições, não tinha abastecimento para manter o exército, não conseguia manter o exército porque a armada francesa cortava o abastecimento por mar e estava cercado por terra pelo exército americano e pelo exército francês. Em 1781, como que acaba a guerra na América, no sentido em que o governo britânico, que até então tinha conduzido a guerra, se demite, aparece um novo governo que é o governo daqueles que acham que não vale a pena continuar a guerra.

E o rei?

O rei é aquele que resiste mais, como ele diz depois ao embaixador americano, quando aparece o embaixador americano depois do fim da guerra: "É só para lhe dizer, eu fui aquele que, até o fim, quis continuar a guerra, mas depois também acabei por perceber que não valia a pena e agora sou o maior amigo que os Estados Unidos têm aqui em Inglaterra."

É o que se chama fair play.

O novo governo britânico, que era da oposição ao governo anterior, vai perceber que mesmo que se ganhasse, iria ganhar com um enorme custo e que iria continuar a ter os mesmos problemas que os americanos. E que quanto ao mais, é uma questão de fazer um cálculo sobre o que é que interessava. E o que é que interessava era o quê? Era as colônias do açúcar, as colônias das Caraíbas. Aliás, isso era uma das preocupações dos britânicos durante este tempo todo. Por quê? Porque havia colônias britânicas nas Caraíbas cujas assembleias tinham votado a favor dos americanos, isto é, eles temiam que uma vitória dos americanos significasse colônias como a Jamaica, a Granada, Barbados, passassem para o lado dos Estados Unidos. Eles queriam garantir isso, era isso que lhes interessava garantir. Na prática, já sabiam que o comércio com os Estados Unidos estava garantido, digamos assim, porque o grande mercado dos Estados Unidos era a Inglaterra e isso não seria possível modificar. Isso iria continuar fosse qual fosse o resultado da guerra. E, por outro lado, a guerra na própria Inglaterra, de acordo com alguns historiadores, dizem que não é uma guerra que apaixonasse ninguém, isto é, nunca suscitou à Inglaterra um grande movimento patriótico anti-americano. Não há grandes debates, não há nem comícios. Na altura, a política inglesa já está uma política de agitações populares, não há agitações populares para uma guerra contra a América, como tinha havido na Guerra dos Sete Anos, uma agitação para a guerra contra a França. Esta não suscita esse fervor. E a partir do momento em que eles percebem que podem garantir, o que a Inglaterra vai fazer entre 1781 e 1783 é continuar a guerra, não na América, mas uma guerra contra a França e contra a Espanha. Para quê? Para precisamente garantir que os franceses não vão dominar no mar, ou seja, destruir as armadas francesas, garantir Gibraltar e garantir as ilhas do açúcar britânicas. É isso que os ingleses conseguem no Tratado de Paris de 3 de setembro de 1783, oferecem toda a América, menos o Canadá, aos americanos e ficam com o açúcar e retiram depois Nova York. Basicamente, a Guerra da Independência Americana é fundamental para os Os Estados Unidos tornam-se independentes em 1783. Não apenas independentes, mas ficam com a maior parte das terras, não todas, porque ainda uma parte fica para a Espanha e que depois vai ser cedida à França e depois vai ser vendida aos Estados Unidos, mas ficam com aquelas terras, o Oeste, o vale do Mississippi e o vale do Ohio, têm acesso a isso. Não ficam apenas independentes, mas ficam maiores os Estados Unidos. Agora, a guerra tem custos para todos. Tem custos para a Inglaterra, tem custos para a França. É a razão pela qual em 1788 o rei vai ter de convocar os Estados Gerais e desembocar na Revolução Francesa de 1789. É o resultado da intervenção francesa na guerra da independência dos Estados Unidos, que ficou imensamente cara à França, uma França que já vinha debilitada financeiramente da Guerra dos Sete Anos. Isto é um esforço muito grande. É verdade, é uma grande vitória para a França, mas a um custo enorme. Aliás, o controlador-geral das finanças em 1778, Neckar, tinha avisado imediatamente o rei que a intervenção na guerra da independência americana ia ser um desastre para a França, mesmo que ganhasse. E foi. Quer dizer, ganhou, mas foi um desastre.

O homem das contas tinha razão.

É. Também tem custos enormes para a Espanha. Vai levar a revoltas no Peru em 1780 e na Nova Granada, na Colômbia, em 1781. São revoltas não é pura e simplesmente inspiradas pela revolta americana, mas são revoltas provocadas pelo aumento de impostos que o governo espanhol teve de levar a cabo para financiar a guerra contra a Inglaterra. Portanto, é também os custos da guerra, não apenas a inspiração, o exemplo dos americanos, mas é sobretudo o facto de os espanhóis terem de começar a aumentar impostos. E depois tem custos também para as colônias, para os novos estados. Por quê? Os novos estados ficam com enormes dívidas, com uma inflação gigantesca. A dívida pública, quer do Congresso, quer dos vários estados é enorme e isso vai ter de ser resolvido. E a tentativa de resolver esse problema vai levar ao processo que verdadeiramente vai constituir, a partir de 1787, os Estados Unidos como uma nova Constituição e com um novo governo federal, que os Estados Unidos ainda não têm em 1783. Portanto, quando chegamos a 1783, o que temos são 13 estados soberanos que têm um Congresso onde os seus delegados tratam dos assuntos comuns, mas são 13 repúblicas independentes umas das outras, com constituições diferentes, com leis diferentes, com governos diferentes, com assembleias, parlamentos diferentes. É isso que em 1783 temos e quatro anos depois, eles percebem que têm de mudar isso tudo. E uma das razões é também a guerra. Foi a guerra que os obrigou, isto é, as enormes dificuldades financeiras criadas pela guerra que os levam a ter de encarar uma outra organização dos Estados Unidos. Portanto, a guerra também criou algo que as 13 colônias rebeldes provavelmente não estavam à espera inicialmente. Enfim, havia alguns que queriam, mas uma parte não queria.

Certo.

E nem estava à espera.

Os Estados Unidos poderiam ter sido uma espécie de Europa, com várias nações independentes dentro daquele continente.

Sim, com várias nações, nós temos o Conselho Europeu, eles teriam o Conselho Americano, que era o Congresso, em que estavam os delegados deles a tratar de algumas coisas de interesse comum, como, por exemplo, a resistência durante estes oito anos de guerra à Inglaterra.

O caminho vai ser outro.

Os custos da guerra vai levá-los por outro lado.

Muito bem. Esse caminho vai ser o tema do nosso próximo e último episódio dedicado à independência americana. É já para a semana. Até lá.

E o resto é história. É apenas fumaça. 104 ainda na zona de Chiado. Aqui podemos acompanhar o desdobramento das forças de segurança. Quer transformar este país numa ditadura. Atento! Atento! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.