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E o resto é história. É a terra a fumar. Do incêndio em Tourra, ainda na zona de Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 316 de "E o Resto é História", com a dupla que já conhece, Rui Ramos e João Miguel Tavares. Estamos no verão de 2025 e há precisamente 50 anos, o verão de 1975 entrava pra história como o célebre Verão Quente, o momento em que o processo revolucionário em curso mais aqueceu, com a aceleração da ocupação de terras no Ribatejo e no Alentejo. Esse verão foi marcado por muitos acontecimentos revolucionários, mas talvez o mais emblemático tenha sido a reforma agrária, que colocou mais de 1 milhão de hectares, ou seja, cerca de 25% da terra arável em Portugal, na mão de camponeses e trabalhadores, na sua esmagadora maioria alentejanos. Por isso, antes de falarmos da reforma agrária propriamente dita, talvez seja útil falarmos do Alentejo, Rui. Essa grande região que ocupa mais de 1/3 do território nacional, mas que produz menos de 5% da sua riqueza. E exatamente por isso, nunca faltaram planos para o Alentejo ao longo da história de Portugal e tivemos ouvintes a perguntar-nos por eles. O David Miguel Ribeiro Vieira Santos, um nome comprido, enviou-nos um e-mail a questionar-nos sobre a campanha do trigo do Estado Novo, quais as suas consequências pro Alentejo. E o ouvinte João Silva perguntou-nos se é verdade que Salazar proibiu a plantação de vinhas no Alentejo e se existiu uma má gestão da região durante os 40 anos do Estado Novo, o que poderia, de certa forma, justificar a reforma agrária de 1975, da qual se calhar falaremos mais em detalhe na próxima semana.

Na próxima semana.

Desta vez, o Alentejo e por onde é que tu queres começar, Rui? Este Alentejo, o nosso Alentejo, já agora. Eu sou de Portalegre e parte da tua família também.

Também é de Portalegre.

Este nosso Alentejo é o patinho feio de Portugal, sempre foi o patinho feio de Portugal. Por que os planos para o seu desenvolvimento parecem ter sempre falhado ao longo da história?

Sim, é uma boa pergunta.

Um alentejano honorário a carpir as mágoas sobre a sua região.

Sim, os planos pro desenvolvimento do Alentejo não começaram com o Estado Novo, também não começaram com o século XIX, mas por questões de economia de tempo e de argumento, vamos fixar-nos no século XIX, porque é aí que começa a fase que explica a chamada reforma agrária da Revolução de 1974, 75.

Portanto, a reforma agrária começa no século XIX.

Aquele ambiente intelectual e político que leva à reforma agrária, eu acho que se pode argumentar que começa aí.

Ok.

Em meados do século XIX acontecem duas coisas no Alentejo. Vou falar delas rapidamente, sem muitos pormenores, mas apenas pra terem os traços gerais desses processos. Por um lado, consolidou-se uma grande transferência de propriedade dos mosteiros, das ordens militares, da nobreza, para a mão de uma nova classe de lavradores. A maioria desses lavradores que se tornam proprietários são antigos rendeiros que vão agora comprar as terras que até aí tinham arrendado. Este processo foi estudado por Hélder Fonseca, que é um professor da Universidade de Évora, num livro que se chama "O Alentejo no Século XIX", que foi publicado em 1996.

E dizem que é fundamental e está esgotado.

É fundamental e está esgotado, para não escapar à regra infeliz da edição em Portugal. Portanto, remeto para esse livro, aqueles que o puderem descobrir em alfarrabistas, talvez.

Ou algum editor que nos esteja a ouvir e que queira começar a editar coisas importantes.

Vale a pena, porque é uma história muito importante. Temos essa nova classe de proprietários no Alentejo e esses lavradores vão desenvolver inicialmente uma agricultura bastante diversificada, combinando árvores como a oliveira, o sobreiro, portanto, produção de azeite e de curtice, criação de gado, porcos, vacas e cereais. Esta economia é estudada também num outro livro.

Fundamental e esgotado.

Fundamental e esgotado. Jaime Reis, também no "O Atraso Económico Português", de 1993, que aliás, até vou seguir na história da evolução depois da agricultura alentejana no fim do século XIX, princípio do século XX. É sim, infelizmente, mais um livro esgotado. Mas o ponto importante aqui é que nesta fase, o trigo, cereal que depois vai ser identificado com o Alentejo, não tem um grande significado. É uma percentagem pequena daquilo que se estima ser o produto agrícola do Alentejo, cerca de 1/4, 25%, não é mais.

Mas é significativo.

Sim, mas não é um domínio. Aquilo que os alentejanos fazem não é produzir trigo, fazem muitas outras coisas. Portanto, é uma economia rural bastante variada. Ora bem, isto vai começar a mudar a partir das décadas de 1870 e 1880. E por quê? Isto tem a ver com um processo global, que é aquilo que é a chamada primeira globalização do fim do século XIX. Portanto, uma primeira integração das economias internacionais numa espécie de sistema comercial muito aberto, de circulação de capitais, de mercadorias e de pessoas, que se desenvolve na segunda metade do século XIX. E um dos aspectos desta globalização é o modo como os barcos a vapor e, sobretudo, barcos a vapor com meios de refrigeração e a telegrafia põem em contacto viável e rápido as terras da América e da Austrália com os mercados europeus. A partir da década de 80, a Europa começa a se alimentar em grande medida com o trigo, com a carne norte-americana, argentina e australiana, que chegam aos mercados europeus a preços muito mais baixos do que as produções europeias. Isto é, o trigo americano, a carne australiana é mais barata do que a carne e o trigo produzido na Europa.

Apesar da longuíssima viagem.

Das longas viagens, é muito mais barato. Isto provoca uma enorme crise da agricultura europeia, ainda por cima agravada pela imigração europeia para as Américas e para a Austrália. Esta imigração europeia para as Américas e para a Austrália, na segunda metade do século XIX, faz subir os salários nos campos da Europa, porque diminui a força de trabalho disponível e, portanto, os agricultores europeus subitamente são confrontados simultaneamente com preços que estão a descer e com salários que estão a subir. É uma tenaz que está a apertar os rendimentos que eles podem tirar da terra. E portanto, muitos agricultores europeus, neste momento, na França, na Alemanha, na Espanha, em Portugal, vão formar ligas, associações e exigir proteção alfandegária. Isto é, impostos sobre os trigos e as carnes que estão a chegar à Europa vindos dos Estados Unidos, da Argentina, da Austrália. Repare-se que a agricultura, segunda metade do século XIX, tirando a Inglaterra e a Bélgica, é ainda o setor com mais mão de obra empregada em todos os países europeus. Portanto, a maioria dos alemães, franceses, espanhóis e portugueses está empregada na agricultura. Portanto, uma crise da agricultura é uma crise da economia. Aliás, na história econômica europeia, este período de cerca de 1873, 76 até 1896, é conhecido como a Grande Depressão. É o período da Grande Depressão, preços baixos, mau ambiente nos países europeus. O desemprego não há porque as pessoas estão a emigrar em massas, em milhões para as Américas. Há mesmo falta de mão de obra. E a outra coisa que os agricultores às vezes pedem é limitações à imigração, não deixar sair as pessoas. Em Portugal começas a discutir isso, pôr passaportes, já ninguém pode ir para o Brasil sem ter um passaporte, etc., para tentar evitar que as pessoas se vão embora. Portanto, há aqui um choque que afeta depois os sistemas políticos representativos dos Estados liberais europeus. E é neste ambiente que o Alentejo, nas décadas de 1880 e de 1890, se vai tornar um grande tema de discussão. Aliás, de várias discussões.

Mas por que especificamente o Alentejo?

Já vamos explicar isso. Aliás, eu disse tema de discussão, são duas discussões paralelas. Vamos falar da primeira discussão sobre o Alentejo. Bem, por que o Alentejo, perguntavas tu. Porque os lavradores alentejanos vão ser dos primeiros a organizarem-se em lobby para fazer pressão para obter a proteção do Estado.

Porque tinham terras mais tensas também. Certo.

Eles vão organizar um lobby, a Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, que apesar de não ter referência geográfica, repare, isto é a Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, mas é agricultores alentejanos.

A RACAP?

A RACAP é agricultores alentejanos. A RACAP exige que o Estado lance impostos sobre a importação de trigo americano. E por quê? De repente, por que esta fixação no trigo? Basicamente, o Alentejo produzia trigo. O trigo é muito usado na fabricação do pão que é consumido na cidade de Lisboa. Os lisboetas tinham se habituado a comer pão de trigo, ao contrário, por exemplo, do norte do país, em que se come pão de milho, a broa e pão de centeio. Em Lisboa, as pessoas gostam de pão branco. Na segunda metade do século XIX, querem pão de trigo. E Lisboa é um grande centro de consumo. 350 mil, 400 mil habitantes, cerca de 8% da população nacional, portanto, é um mercado muito importante. E o cálculo dos lavradores é que se fosse instituída uma proteção à produção de trigo no Alentejo, eles passavam a ter o exclusivo do mercado do pão em Lisboa e passavam a ter praticamente uma receita garantida. Sabiam que iam vender o trigo todo que podiam produzir, porque o trigo todo que o Alentejo produzia nesta altura não era suficiente para abastecer Lisboa. Eles sabiam que iam escoar todo o trigo deles antes de De haver a possibilidade de recorrer a trigo estrangeiro. O que eles estão aqui a fazer é o seguinte: eles estão a ter problemas de escoamento das outras produções do montado que tinham e a ideia é: se nós nos concentrarmos na produção de trigo, podemos nos concentrar na produção de trigo desde que tenhamos um mercado reservado para essa produção de trigo, que é Lisboa, e passamos praticamente a ter a garantia que vamos vender tudo em Lisboa. Agora precisamos é de ter um exclusivo em Lisboa, isto é, precisamos é que o nosso trigo seja o trigo que possa entrar em Lisboa. Na prática, o que eles estão a fazer não é apenas dizer: "queremos proteção ao nosso trigo". É: se nos derem essa produção, nós tornamos numa região produtora de trigo, como não somos até agora. De repente vamos produzir muito mais e vamos dedicar muito mais à produção de trigo. Que até então era uma produção que tinha alguma importância, sim, mas não era a principal ou a produção prioritária no Alentejo. A Real Associação Central da Agricultura Portuguesa faz tudo para conseguir esta proteção alfandegária, eles promovem congressos, fazem congressos da agricultura, fundam jornais em Lisboa, o jornal A Época, que é um jornal importante, é fundado pela Real Associação para promover a causa protecionista, patrocina candidaturas à Câmara dos Deputados e elege deputados. Deputados protecionistas aparecem na Câmara dos Deputados.

Lobby mesmo.

É mesmo um lobby à séria. É talvez um dos maiores lobbies em Portugal neste momento para exigir uma mudança de políticas e consegue. Os governos, obviamente, quando começam a perder deputados no Alentejo, etc, de repente começam a dar muita atenção.

Ficam mais solícitos.

Começam a dar muita atenção. Começa em 1889 e depois são reforçadas em 1899, 10 anos depois, vêm finalmente as chamadas Leis dos Cereais ou Leis da Fome, como se chamavam em Lisboa.

Mas por que Leis da Fome?

Já vai ver porque é que são as Leis da Fome. Os governos, na prática, estão a tentar chegar a um compromisso. Por um lado, satisfazer os agricultores, mas também têm de pensar nos consumidores, daí as Leis da Fome, porque têm de pensar também nos consumidores do pão em Lisboa. O que eles queriam era, por um lado, como o trigo alentejano não basta ao consumo de Lisboa.

Precisavam na mesma de importar.

Precisavam de importar, mas importar de maneira que não prejudique o escoamento do trigo alentejano. Aquilo que os governos acabam por propor é uma escala de direitos alfandegários, que basicamente o que faz é encarecer o trigo americano importado, de modo a ficar a um preço próximo do trigo alentejano, porque o trigo alentejano era mais caro. Repare, o trigo alentejano chegava a Lisboa mais caro do que o trigo que vinha dos Estados Unidos. Atenção, chegava mais caro. Tratava-se de fazer levantar o preço do trigo americano para não deprimir o preço do trigo alentejano. Por outro lado, também, as moejeiras, os grandes fabricantes de cereais para a panificação, que eram aqueles que importavam o trigo americano, só podiam importar o trigo americano quando tivessem comprado determinadas quantidades de trigo alentejano. Precisavam de comprar trigo alentejano, que era para depois dizer: "a partir desta quantidade, eu também posso importar trigo americano."

Passou a ser um setor hiperprotegido.

Dos mais protegidos que se pode imaginar. Praticamente, eles passam a ter uma receita garantida pelo Estado em Lisboa.

Como todos nós sabemos, quando há receitas garantidas, o negócio despanca, é isso?

Isto transformou completamente a agricultura do Alentejo num sentido cerealífero. O trigo passa de 25% do produto agrícola bruto para cerca de 50%, para mais da metade deste produto agrícola do Alentejo. De repente, aquilo tornou-se mesmo uma zona de produção de trigo. A expansão do trigo fez-se à custa dos pastos, fez-se à custa do montado e criou esta situação que depois espantou alguns economistas no fim do século XIX, princípio do século XX. Era que um dos países da Europa menos aptos à produção de trigo, que era Portugal, era o país em 1900 que mais trigo produzia per capita na Europa. Produzia 118 quilos de trigo por habitante, depois da França, 223 quilos. E era um dos países em que a cultura do trigo era a menos vantajosa de todas.

Portanto, o que tu estás a dizer é que os solos do Alentejo não são espetaculares para a produção de trigo.

Não, os solos não são bons para a produção de trigo. A economia alentejana estava muito mais equilibrada e era muito mais eficiente antes, mas aqui os agricultores, os lavradores alentejanos têm a garantia de que estão a produzir algo que têm venda garantida a um preço garantido pelo Estado. O Estado, na prática, diz: se vocês produzirem trigo, recebem X por tonelada, está garantido. Se começarem a produzir porcos, vacas, azeite, isso a gente não sabe. Isso aí vocês depois têm de vender isso, não se sabe onde. Ora bem, isto vai gerar duas situações complicadas no princípio do século XX.

Mas eu vou te interromper, que são duas situações complicadas e, portanto, não há nada como ficarem para a segunda parte deste programa. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História", em que estamos a falar do Alentejo antes da reforma agrária. Vamos falar da reforma agrária no próximo programa, mas aqui estamos a dar um enquadramento do que era o nosso Alentejo. Neste caso, estávamos ainda no século XIX, Rui, e tu estavas a falar que havia duas situações complicadas no princípio já do século XX.

Sim, nós estávamos a falar exatamente do Alentejo, estamos a falar agora de Lisboa, que era a cidade que comia o pão feito com o trigo alentejano.

Que comia o pão que o Alentejo amassou.

Que o Alentejo amassou. Por acaso era amassado em Lisboa.

Era amassado, é verdade. Porque havia os moinhos e o vento.

Lisboa, no princípio do século XX, era a cidade onde o pão de trigo era o mais caro de toda a Europa. E daí as leis da fome. As pessoas sabiam disso.

Tinham dificuldade.

Por causa desse sistema protecionista, o pão de Lisboa era o mais caro da Europa. As pessoas sabiam e chamavam àquelas leis, à lei de 1889, depois reforçada em 1899, chamavam-lhe as leis da fome. Quer dizer, eram as leis dos cereais, mas as pessoas chamavam de as leis das fomes.

Mas havia protestos mesmo em relação à pobreza do pão?

Sim, havia de vez em quando manifestações. Mas claro, as pessoas reagiam, sobretudo era quando faltava pão. Reagiam mais violentamente, como vão reagir em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando aí falta pão. Mas há um mal-estar, há protestos, há queixas, há políticos que trazem esta questão ao Parlamento e aos editoriais de jornais, este pão caro. Ora bem, obviamente, os políticos sabem isso. E portanto, já no tempo depois da República, depois de 1910, o que é que os governos fazem? Os governos passam a subsidiar o pão em Lisboa.

A sério? Isso é mesmo boa política económica.

Reparem isso. Os impostos alfandegários encarecem o preço do trigo e depois o governo usa o dinheiro dos impostos pra embaratecer o pão em Lisboa. Este era o sistema que existia durante a Primeira República e era o sistema do chamado pão político, era assim que se chamava, era o pão político.

É que a gente não acreditava em mercados livres.

Era um pão político. Era um sistema que toda a gente educada achava completamente absurdo, mas que era a maneira de, ao mesmo tempo, subsidiar a agricultura alentejana e não deixar os lisboetas continuarem a tratar pão como se fossem bolas de Berlim ou uma coisa qualquer, como se fosse um bem de pastelaria.

Sim.

Agora, ao mesmo tempo que os lavradores do Sul, sobretudo os lavradores do Alentejo, estão a descobrir o trigo, há também muitos lavradores do Sul, não apenas o Alentejo, o Ribatejo, que estão a descobrir outra produção, que é a vinha e o vinho.

Ok. Como perguntou um dos nossos ouvintes.

Exatamente. No princípio do século XX, já há uma grande extensão de vinha no distrito de Setúbal, no Ribatejo, a norte de Lisboa. Esta produção de vinho ainda não tem grande qualidade ou não tem a mesma qualidade do vinho produzido no norte do país, mas era competitivo por ser muito mais barato. Era muito mais barato e tinha também vários usos, como por exemplo, poder ser usado como aguardente para a produção do vinho do Porto.

Ok.

Ora bem, o que isso faz? Isso faz com que os produtores do vinho do norte do país protestem imediatamente com esta concorrência do Sul. Até porque eles têm dificuldade já em escoar o seu vinho, por causa da concorrência nos mercados internacionais, etc. A história é complicada.

E deixa-me adivinhar. Eles então decidiram pedir proteção ao governo.

É uma daquelas ideias geniais, com um rasgo enorme, que só aqui em Portugal nós temos. Sim, a partir de 1905, 1926, os produtores de vinho do Norte passam a pedir proteção contra a concorrência dos protetores do Sul. Neste caso aqui é uma proteção interna. Esta produção, obviamente, é conseguida através das regiões demarcadas. Isto é, de regiões demarcadas, por exemplo, a primeira região demarcada do Douro, impedir a entrada de aguardentes vindas do Sul, que são muito mais baratas, para a produção de vinho do Porto. Em 1906, 1907, há essa limitação e depois há uma limitação também à cultura da vinha. Não se pode cultivar vinha a partir de determinadas extensões. Isso, aliás, revolta imenso os agricultores do Sul. É uma das razões pelas quais, a partir de 1907, 1908, o Partido Republicano passa a ter um grande apoio no Ribatejo e nas regiões de Setúbal, porque os agricultores estão furiosos por não lhes deixarem expandir a vinha. Ou seja, Portugal começa a ter uma economia agrícola Completamente dependente de proteções, de intervenção do Estado, de direção do Estado.

Já para o trigo e para o vinho.

Para o trigo, para o vinho e para outras produções. Todos os produtores de todas as coisas começam depois a tentar obter exclusivos, monopólios, se alguém produz melancias, a sua ideia é tentar proibir que na região ao lado se produza também melancias e fazer lobbies junto dos políticos. E a política em Portugal começa a se tornar uma política que é gerir estes interesses econômicos. De repente é gerir isto, é gerir os produtores de trigo do Alentejo, os produtores de vinho do Douro.

Isto hoje em dia pareceria uma ideia estranha, mas o que tu estás a dizer é que naquela altura era o centro das conversas econômicas, é isso?

É, este centro é este de todas estas: que leis é que nós vamos conseguir para impedir outras pessoas de produzirem o mesmo que nós produzimos.

E isso estava no coração da discussão política.

Isto era a política, isto começa a se tornar a discussão política, porque é a maneira como os políticos em Lisboa têm de se relacionar com as várias regiões do país, obterem votos e terem apoio político.

E com efeito nos consumidores, como tu disseste.

E depois é preciso compensar isso nos consumidores, inventando estes esquemas de tirar dinheiro de um bolso e metê-lo no outro, e fazer de conta que isso é uma criação de riqueza.

E era o pão e o vinho.

Uma das pessoas que notou que tudo isto era absurdo chamava-se António de Oliveira Salazar, e ele era, ainda nesta altura, professor na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Ele vai escrever um livro sobre a questão do trigo em 1916 e vai dizer: "Isto é um sistema absolutamente deplorável." Ele nota a agricultura portuguesa não está em condições de produzir trigo de maneira competitiva e era um erro econômico insistir nisso. Ele diz: "Isto é um erro econômico que custa imenso ao país." Aliás, ele até conta terras que podiam ser mais vantajosamente utilizadas para outras produções e que estão a ser utilizadas para a produção de trigo e com desvantagem. Por exemplo, em Espanha, havia um cálculo que um hectare de laranjas, um laranjal, gerava um rendimento que era 17 vezes o de um hectare de trigo.

Certo.

Agora, claro, para os agricultores alentejanos, como já disse, isso era indiferente, porque para eles o que interessava era que o trigo que produziam tinha uma venda garantida, enquanto outras produções que eram muito mais valiosas, mas que não estavam com vendas garantidas, portanto eles não arriscavam isso e preferiam o trigo.

Mas se Salazar estava contra essas medidas, não houve também já quando no tempo da ditadura, campanhas do trigo?

Sim. O mesmo Salazar que em 1916 é o Salazar que diz que isto é tudo um disparate, é aparentemente o mesmo Salazar que enquanto ministro das Finanças da ditadura militar em 1928, vai receber e aparentemente promover a chamada Campanha do Trigo no Alentejo. É sobretudo no Alentejo. É uma campanha iniciada por decreto 16 de agosto de 1929, mas que já vem de 1928, já tinha sido lançada, aliás, antes de Salazar ter chegado ao governo. E a ideia é esta, desta campanha do trigo, a ideia é tornar o país autossuficiente. Aliás, a campanha do trigo não é só lançada em Portugal continental, é também lançada em Angola, nos planaltos de Angola. Curiosamente, não é lançada nos Açores, que era uma das regiões tradicionalmente também produtoras de trigo em Portugal, mas não é lançada nos Açores. Portanto, Angola e Portugal, e em Portugal, sobretudo no Alentejo. E basicamente, o que é esta campanha do trigo? A campanha do trigo assenta não apenas na proteção, mas num subsídio para quem substituísse vinha por trigo ou cultivasse trigo em terra desaproveitada. E daí a ideia de arrancar vinhas para cultivar trigo, para fazer seara de trigo.

Aconteceu.

Esta é a campanha do trigo. E de onde é que vem esta campanha do trigo? Esta campanha do trigo primeiro é uma moda, vem lançada, aliás, pela Itália fascista, há uma campanha anterior na Itália de Mussolini, que causa logo uma emulação em Portugal e noutros países. E depois também há quem fale de o país estar com dificuldades de pagamentos no exterior, pagar importações. Isto era uma forma de substituir as importações de trigo por produção nacional. E claro, havia estes interesses todos investidos na sericultura alentejana, os lavradores, e nessa altura já não apenas os lavradores, mas por exemplo, também os industriais dos adubos, a CUF, Companhia União Fabril, que produzia adubos para o Alentejo, também está interessada no desenvolvimento, na expansão do trigo alentejano, porque é um mercado onde vende muitos adubos. Também os vendedores de maquinaria agrícola também estão interessados nisso. Há muitos interesses associados a uma expansão do trigo. E além disso, depois em 1929, 1930, 31, que são os anos da grande crise financeira e econômica mundial, e há o fantasma do desemprego, a sericultura no Alentejo, a produção de trigo no Alentejo, era uma forma também de garantir emprego naquela zona, sobretudo, reparem que nesta altura, nos anos 20, nos anos 30, já estamos numa situação completamente diferente em termos migratórios. As Américas fecharam a porta aos imigrantes e a população está a crescer e a acumular-se em Portugal de uma maneira nunca vista, e é preciso garantir emprego e desenvolver atividades locais é uma forma de garantir emprego. Mas nesta campanha do trigo, o mecanismo protecionista em vigor é o mesmo De 1889. Não há mudança, o mecanismo de proteção alfandegária é o mesmo. Não é com a ditadura militar e o Estado Novo que muda a política, com a ditadura militar e com o Estado Novo continua a política vinda do século XIX de proteção à produção de trigo no Alentejo. Além disso, Salazar, que aparentemente aceita esta campanha do trigo quando se torna Ministro das Finanças em 1928, aquilo já estava em andamento. Aquilo que Salazar vai fazer é verdadeiramente acabar com a campanha do trigo, não é projetar muito a campanha do trigo. Aquilo já tinha começado antes dele, no governo da ditadura militar, já tinham começado aquilo, portanto ele recolhe aquilo. O que é que ele vai fazer? Primeiro vai dar muito pouco dinheiro pra campanha do trigo. As verbas são muito pequeninas. Ele não vai dar muito dinheiro pra subsídios. Sim. Depois, à medida em que ele vai aumentando o seu poder no governo, ele em 1932 torna-se chefe do governo, aquilo que ele vai fazer, basicamente, é fazer recuar a campanha do trigo. Ele em 1932 extingue a junta central da campanha do trigo. E depois vai dissolver os vários organismos da campanha do trigo. Ou seja, aquilo que Salazar verdadeiramente faz é acabar com a campanha do trigo devagarinho, a partir de 29, 30. A campanha do trigo é lançada em 29 e ele começa imediatamente a limitá-la, dá muito pouco dinheiro e depois vai tentar acabar com a campanha. Por uma razão que se percebe muito bem quando se nota que em 1932, em 1934 e 35, há uma produção excedentária de trigo, isto é, produz-se mais trigo do que é necessário. Aquilo é um excesso enorme. Não há racionalidade econômica em estar promovendo um setor excedentário. A partir de 1932, aquilo que Salazar faz no governo verdadeiramente é tentar diminuir a produção do trigo, baixar os preços. Começa a baixar os preços e a promover até o uso, o recurso ao milho e ao centeio na produção de pão. Tenta baixar os preços. Nós temos nos libertar daquela ideia de reduzir o passado todo ao Salazar e ao Estado Novo. A campanha do trigo não começou com o Salazar e aquilo que Salazar verdadeiramente faz é acabar com a campanha do trigo, não foi lançá-la. Muito importante. Este é um lado importante da política salazarista do trigo, que não é aquela que ficou na mitologia, na associação entre campanha do trigo e a ditadura militar e o Estado Novo. É um projeto que tinha começado antes de Salazar, que Salazar recebe, não pode acabar logo porque não tem força pra isso, mas tenta diminuir o seu alcance. Mas ele acaba de vez no Estado Novo. A partir de 32 acaba e começa a baixar os preços e começa-se a tentar diminuir a produção de trigo, que era um disparate. Era um disparate imenso. Aliás, uma das coisas que ele faz, menos pro trigo inicialmente, é liberalizar muito a importação de alimentos. Na prática, as ideias que ele tinha em 1916, ele não mudou de ideias, ele percebeu que aquilo era um disparate enorme condenar o país a comer o pão mais caro da Europa. Decidiu eliminá-las de forma incremental. Devagar, porque os interesses são muito grandes, têm uma grande influência política, há uma mitologia associada ao Alentejo e à produção de trigo. Uma das conversas é esta de produzir, fazer do Alentejo uma espécie de grande celeiro do país. A outra conversa é uma conversa sobre o Alentejo, também iniciada na década de 1880 e tem uma outra dimensão. Essa é a de fazer do Alentejo a solução pra questão da imigração do norte do país. A maior parte da imigração portuguesa pro Brasil vem do norte, sobretudo do Minho, depois de Trás-os-Montes, no fim do século XIX, vai pro Brasil. E qual era a explicação pra esta imigração? A explicação era que no norte haveria muita gente, muito mais gente do que havia no Alentejo. A terra estava muito aproveitada numa agricultura de pequena escala, estava muito dividida entre muitos proprietários e era por causa disso tudo que as pessoas iam para as Américas. Ora bem, no sul, no Alentejo, havia pouca gente, a terra parecia desaproveitada, porque as pessoas não percebiam o que era o pousio, o que era o montado e tudo aquilo que não estivesse cultivado com trigo parecia que estava desaproveitado. Estava nas mãos de poucos proprietários, ao contrário do que acontecia no norte, e portanto a ideia surge quase que natural. Por que não migrar pro Alentejo? É, por que não canalizar esse excesso demográfico do norte para o Alentejo? E pra quem propunha isto, como por exemplo, foi o caso do escritor Oliveira Martins, em 1887, ele a essa altura era deputado também. Quem propunha isto, obviamente, tinha ideia de que as condições de clima e de terreno no sul eram diferentes das do norte, não era o mesmo ambiente, e que por isso o sul não era tão propício àquela cultura de pequena escala que existia no norte, mas também pra isso estava previsto Ocorriam ideias que era a ideia de: "Mas então vamos transformar o Alentejo. Vamos torná-lo mais parecido com o norte." E mais parecido com o norte como? Com um plano de barragens, reservatórios d'água para viabilizar uma agricultura de regadio e aí sim, mais condizente com a agricultura de pequenos cultivadores em pequena escala a que as pessoas do norte estavam habituados.

Mas aí tinhas o problema da propriedade. As terras eram latifundiárias, como é que se fazia?

Os grandes proprietários e estes proponentes destas ideias, como Oliveira Martins, não queriam de maneira nenhuma violar o direito de propriedade. Então qual era a ideia?

Qual era o milagre?

A ideia era que o Estado, mais uma vez, claro, levasse os grandes proprietários a arrendar as terras a pequenos agricultores em contratos com prazos muito longos. Isso era uma coisa que existia também no norte, esses prazos muito longos, prazos de vidas, que era uma espécie quase de uma propriedade imperfeita, digamos assim. E, portanto, a ideia era entusiasmar esses grandes proprietários a arrendar essas terras com prazos enormes e assim se poderia estabelecer no Alentejo uma população rural muito maior, estabelecida na terra. Ocupar o Alentejo, portanto, iria deixar de ser aquele deserto, como eles diziam, o deserto populacional do Alentejo, aquelas charnecas sem pessoas. Quem saía de Lisboa, por exemplo, em direção a Évora, no princípio do século XX, a sensação que tinha era que estava a atravessar terras desabitadas. Isso impressionava muito os lisboetas e a ideia era: "Por que isso não está tudo cheio de gente como no Minho? No Minho os vales são todos cheios de gente e aqui também devia estar cheio de gente." Fazia-se cálculos, Portugal podia ter o dobro da população que tinha e portanto, logo podia ser muito mais rico, podia produzir muito mais, etc. Portanto, estas são as ideias que estão na cabeça das pessoas. Ninguém quer violar o direito de propriedade, mas vamos estabelecer aqui imensa gente.

E o que falhou nessa colonização interna?

Era a chamada colonização interna, era a ideia de em vez de estarmos a mandar gente pro Brasil ou até também gente pra África, não, temos aqui um Brasil e uma África para colonizar, que é o Alentejo. O Alentejo é a terra de colonização e vamos aqui instaurar uma grande população e vai tornar o país mais rico. O que falhou? Primeiro, porque os famosos planos de rega demoram, não há investimento suficiente para desenvolver as culturas de regadio no Alentejo no século XX. Em 1970, só 5% das terras é que eram irrigadas no Alentejo. Aí está a ideia da limitação dos planos de rega. Mas mais do que isso, a ecologia do Alentejo não foi transformada como estes planos visionários queriam. Por outro lado, eles esqueciam uma coisa, é que os portugueses quando emigram, a ideia deles não era ser cultivadores, cavadores. A ideia deles é subir na vida, é ocuparem-se noutras coisas. Eles vão pro Brasil, sobretudo para se tornarem empregados do comércio no Rio de Janeiro. É isso que a maior parte dos portugueses vão fazer.

Que é uma vida mais agradável do que trabalhar de sol a sol.

Era uma vida muito dura, que também, atenção, não vamos dizer isso, mas era uma vida que garantia mais rendimentos e perspectivas de promoção social muito mais óbvias. A mesma coisa os colonos que iam pra África. Às vezes até criaram-se também colonatos agrícolas em Angola, por exemplo, mas uma grande parte desses colonatos as pessoas estavam lá um ano ou dois e depois iam pras cidades e dedicavam-se ao comércio. Porque aí havia muito mais possibilidades de se ter sucesso, de se ficar rico. As histórias que vinham do Brasil, da África, não era de alguém que chegou lá, fez uma pequena horta e uma pequena fazenda, uma pequena roça, ali a cultivar umas coisas e tornou-se rico. Não. Foi servir de marçano para o Rio de Janeiro, numa loja de um compatriota, aprendeu as regras do comércio, poupou dinheiro, abriu depois uma loja para ele, e aí ganhou bastante dinheiro, investiu em prédios, ficou com as rendas dos prédios, de repente ficou rico. É assim, é isso que as pessoas percebem que é a forma de promoção social, não é propriamente irem para o Alentejo, obviamente, ter uma pequena agricultura.

E, portanto, assim o nosso Alentejo continuou vazio.

Sim, vamos chegar aos anos 70 com o Alentejo que corresponde a 45% da área cultivada e só produz 29% do produto agrícola nacional. Embora a produtividade do trabalhador alentejano fosse superior, porque era uma agricultura muito mais mecanizada do que outras agriculturas. Mas o ponto aqui é este, é que isso que estás a dizer, essa ideia de fracasso, isso não impressionou ninguém. As pessoas em Portugal, ao contrário do que se pensa, são pouco impressionadas com os fracassos e insistem. E, portanto, o Alentejo continuou associado no imaginário nacional. Não foi bem, não se insistiu, não se fez as coisas como deve ser, mas agora nós vamos fazer outra vez e desta vez vai resultar. A ideia é sempre: desta vez é que vai resultar, vamos fazer a mesma coisa e desta vez é que vai resultar. E portanto, o Alentejo fica associado a esta ideia de que há ali aquela grande região, um terço do país, que pode ser a nossa futura galinha dos ovos de ouro, o meio de aumentar a população, aumentar a riqueza e também aumentar a igualdade social no país. O Alentejo, desde o fim do século XIX e ao longo do século XX, está associado a esta ideia de aqui é que está a ponta por onde temos de pegar no país para criar um país completamente novo, mais rico, mais igual, mais povoado.

Daí tu dizeres que as sementes da reforma agrária estão ali.

Estão associadas a esta ideia de que temos aqui isto, e isto não parece muito.

Não está bem aproveitado.

Mas não está bem aproveitado e quando o aproveitarmos, vão ver.

Aí é que vai ser.

Aí é que vai ser. É isso.

Bom, e este aí é que vai ser, que também não correu muito bem. Enfim, já estamos a adiantar, mas acho que toda a gente sabe. Vai acontecer no próximo episódio em que nós vamos falar da reforma agrária, aquela do verão quente. E portanto, até lá, contamos consigo.