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Foi uma maratona de debate dividida por dois dias, no que toca a esta proposta do governo para o orçamento do Estado para o próximo ano. Sem surpresa, acabou aprovada pela maioria absoluta. Temos agora nesta edição especial do Vencedor É, conosco a editora de economia Alexandra Machado, também o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes, o adjunto Miguel Santos Carrapatoso e está por cá também o painel da tarde em direto, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Nem podemos dizer se dúvidas houvesse, porque estava mais do que pré-anunciada a aprovação deste orçamento, com o PS isolado e votos contra de todas as bancadas. Os deputados únicos do PAN e do LIVRE são as únicas exceções. Sem surpresas orçamentais, o debate político esse aqueceu entre governo e oposição e com um ausente presente, Passos Coelho, e um presente muito presente, mesmo sem discursar, Pedro Nuno Santos, e o sucessor João Galamba, o ministro que ficou no governo e que Marcelo Rebelo de Sousa não queria, a encerrar o debate. Quem esteve no Parlamento a acompanhar o debate orçamental de hoje foi a Alexandra Machado, editora de economia do Observador. Alexandra, vamos começar por ti. Quem é o teu vencedor?

Não é bem o vencedor. Até poderia pôr vencedor o novo aeroporto de Lisboa, com a veemência com que João Galamba disse: "Sim, decidiremos mesmo a localização do novo aeroporto". Felizmente, alguém que vai decidir o novo aeroporto. Não, estou a brincar, porque eu escolho que o protagonista, como não, o João Galamba, o ministro das Infraestruturas, pelo simples fato de António Costa querer desafiar o presidente da República ao pôr João Galamba a encerrar este debate na generalidade do Orçamento do Estado. Recordo que Marcelo Rebelo de Sousa, já em maio, fez questão de salientar isso várias vezes, que disse que João Galamba deveria ter saído do governo. E disse-o várias vezes. Portanto, António Costa, parece-me que quis desafiar Marcelo Rebelo de Sousa com esta escolha para o encerramento do debate do orçamento. Não contente, João Galamba cita o presidente da República no seu discurso, que mais parecia feito por Fernando Medina, mas cita o presidente da República para depois concluir que o orçamento era bom. Como não escolher João Galamba como protagonista deste debate na generalidade, um debate que, quanto a mim, foi fraco nestes dois dias. Não foi um debate muito centrado no orçamento, parecia um debate quinzenal. Muitas das intervenções foram na linha do que tinha sido feito na retoma, no debate quinzenal, que permitiu retomar essa fórmula de debate parlamentar. Mas no geral, estes dois dias de debate não foram muito ricos. Mas escolho o João Galamba como vencedor QB, até porque é curioso, quem viu, e é giro ver Pedro Nuno Santos a ouvir o seu sucessor a falar dos projetos, alguns deles, projetos que lançou ele próprio. E foi engraçado, porque enquanto a bancada aplaudia, Pedro Nuno Santos foi mais comedido também a aplaudir João Galamba. O ponto destes dois dias de debate pra mim foi este encerramento de João Galamba, que teve um discurso. Nada de espetacular, mas só pelo fato de João Galamba ter sido o escolhido pra encerramento. Só uma última nota, o encerramento que faz o discurso e já não tem direito a perguntas. Portanto, João Galamba leu o discurso, foi pra casa sem qualquer resposta ou pergunta dos outros deputados e claro, sem falar da TAP.

A TAP foi o elefante na sala e aqui a Alexandra Machado a ter como vencedor João Galamba, porque António Costa quis desafiar Marcelo. Que nota é que dás, Alexandra?

Vou dar uma nota fraca, mas positiva. Dou um 10, só porque acho que o fato de João Galamba só por si ter sido escolhido pra o encerramento, já vai dar muito o que falar.

O Rui Pedro Antunes tem aqui outro vencedor e é precisamente, Rui, Marcelo Rebelo de Sousa. O microfone está com um problemazinho, mas Miguel Santos Carrapatoso, vamos a ti. Não é Marcelo Rebelo de Sousa, mas é António Costa.

Sim, é António Costa. Só para também sublinhar as palavras que a Alexandra nos deixou, ainda num aspecto mais geral, que é para avaliar a qualidade do debate que tivemos ao longo destes dois dias. Mais uma vez, um debate centrado no ano de 2015 e tudo o que antecedeu o ano de 2015, a Troika, Socrates, Passos. Isto só um ponto geral. PS e PSD continuam a dar péssimos exemplos e a comportar-se muito mal neste tipo de debates. Esperava-se outra elevação e PS e PSD não perceberam ainda a responsabilidade que têm neste tipo de momentos, que são momentos nobres do nosso debate democrático. Eu, pra fazer alguma batota, escolhi três vencedores, mas vou ser muito breve. O primeiro vencedor é a dupla Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Nuno Santos. Foram os únicos que efetivamente conseguiram condicionar António Costa ao trazerem o tema da TAP e por isso estão de parabéns, os dois por motivos muito diferentes. Pedro Passos Coelho, pelo que eu dizia há pouco, continua a ser o grande protagonista deste tipo de debates.

Mesmo estando já há oito anos fora do governo.

Mesmo estando há oito anos afastado do governo e há muito tempo sem fazer declarações públicas de algum destaque, embora sempre que fale, naturalmente causa algum impacto, continua a ser o grande alvo da esquerda e em particular do PS, o que demonstra bem o respeito e talvez receio que tem Pedro Passos Coelho e claro, o meu vencedor oficial, António Costa. António Costa há meia dúzia de meses, a conversa sobre António Costa e sobre o seu governo era se estava prestes ou não a cair. Falávamos muito também da aproximação do PSD ao PS nas intenções de voto. E hoje, como explicavas e bem, até se dá ao luxo, talvez por ser véspera de Halloween, de escolher um ministro zumbi, João Galamba, para encerrar o orçamento do Estado. António Costa só pode mesmo ser um vencedor nestas circunstâncias, porque oito anos depois de ser primeiro-ministro, meses depois de ter sido dado como defunto político, apresenta mais um orçamento do Estado que não dá respostas a uma série de problemas estruturais, a começar na saúde e a acabar na habitação, e continua a dizer que os problemas estruturais são da responsabilidade de todos, menos dele. Por que ele é um vencedor? Porque conseguiu aprovar um orçamento do Estado nestas circunstâncias, porque as urnas lhe deram razão e porque as sondagens aparentemente também lhe dão razão. Aparentemente, os portugueses estão, não diria satisfeitos, mas conformados em ter António Costa, em ter um governo que apresentou um orçamento do Estado numa altura em que a saúde e a habitação estão como estão. Se os portugueses estão conformados e satisfeitos com as escolhas que António Costa está a fazer, só pode ser vencedor. É assim mesmo a democracia.

E é uma nota alta.

São 120 deputados que tem o PS e 120 deputados que parece, olhando para as intenções de voto, estar em condições de pelo menos garantir uma grande parte deles.

Rui Pedro Antunes, juro que não quis silenciar-te, até porque ias falar de alguém que gosta muito de falar, Marcelo Rebelo de Sousa, que é o teu vencedor.

Na verdade, não foi o microfone que falou. Eu estava só a imitar António Costa, que no segundo dia fica sempre em silêncio, como é normal, porque falou muito no primeiro dia. Há quem diga que António Costa calado é um poeta. O ministro da Economia, por exemplo, é um poeta quando fala, porque tem vários livros de poesia. Foi só pra tentar exemplificar isso e para aproveitar um pouco o silêncio. Eu estava aqui, ia pra dizer que eu é mais bolse, porque eu acho que tantas também aqui na questão da manicure, de duas mãos, três mãos, quatro mãos, ou então especialista em anatomia, isto às vezes parecia um pouco o debate que já cria algum desgaste. O próprio modelo de debate está ultraesgotado. O Miguel agora falava dos 120 deputados do PS. Se calhar foram 120 deputados que falaram, depois falam todos à vez com pedidos de esclarecimento das áreas temáticas. Eu sei que querem provar que são 130.

Isso deve ter sido o debate do orçamento mais entusiasmante que eu me lembro nos últimos 15 anos.

Não sei, porque no tempo de Jerónimo de Sousa era engraçado com aqueles panos que ele puxava.

Recordas quem ano passado fechou o debate? Foi o Adão e Silva. Ministro da Cultura pra fechar o debate do orçamento.

Mas há um ponto em comum relativamente a esse encerramento, e é este, que em vez de se centrarem apenas nas áreas deles, fazem um discurso mais genérico, e isso foi o que aconteceu. Mas como dizias há pouco, eu era um pouco o yang do yin da Alexandra, porque se ela dava boa nota a João Galamba, a minha ideia é dar má nota a Marcelo Rebelo de Sousa. Por quê? Deixa-me só dizer isto.

Tu também te contentas com notas baixas. Eu fui boa nota, um 10.

É uma nota positiva que deste a João Galamba. Temos que ver que é uma nota positiva. Mas ia eu dizer, eu sei que é a aprovação do orçamento da Generalidade e mesmo fazendo honra a isso, eu acho que João Galamba fez uma espécie de encerramento nas generalidades, porque o discurso teve muitas generalidades, como de resto todo o debate. Mas dito isto, Marcelo Rebelo de Sousa acaba por ser derrotado por quê? Eu acho que também aqui nesta fase do Halloween, há pouco também o Miguel fazia essa referência, de estarmos nesta altura e os próprios deputados fizeram, eu acho que ali na zona centro, o Pão por Deus também se chama Bulinhos e Bulinhós. Eu diria que o debate é mais bulings e bulings de buling e bulinhós, porque Marcelo Rebelo de Sousa acaba por ser mais uma vez completamente humilhado. Ele travou a TAP. Travou a TAP por decreto, mas se ela vier por via da assembleia, obriga a esquerda a tomar uma posição e o PS a tomar uma posição, mas pode ser forçado a privatizar a companhia se assim for. E por que eu acho que foi humilhado? Primeiro, na escolha de João Galamba, que já aqui foi referida, e era o ministro que para o presidente da República nem sequer devia estar no governo. E que provocou dois conselhos de Estado pra discutir o estado do governo, precisamente, e centrado acima de tudo naquele governante. Depois, o presidente da República tenta impor o debate da TAP, de facto, força o primeiro-ministro a falar disso no primeiro dia, e o ministro das Infraestruturas dá-se ao luxo de encerrar o debate.

Sem sequer tocar na TAP.

Não fala uma única vez na TAP, não diz nem ai nem ui. E num tom desafiante e altamente provocador, até pode ser uma questão de estilo, João Galamba diz: "Permitam-me citar Sua Excelência ao Presidente da República". Depois o Chega até faz ali os números do costume, que não deixa ninguém falar, e diz: "Este orçamento segue a única estratégia possível", que foi o que Marcelo Rebelo de Sousa disse. E pediu permissão pra acrescentar: "E é um bom orçamento". Mas isto é na boca de João Galamba, pede permissão a quem? Marcelo Rebelo de Sousa não disse isto. Marcelo Rebelo de Sousa o que disse foi que é preciso ir além mais longe um do outro, não é um orçamento inspirador, há aspetos estimulantes, mas isto é o que é possível. A linha é esta, a estratégia é esta. Não é nada disso que Marcelo queria dizer. Queria dizer é que o orçamento não tem nenhum rasgo, nem em termos daquilo que o governo podia mudar é bom. E ainda se dá o trabalho de fazer aqui, e permitam-me a expressão, turbinar um pouco aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa disse a favor do PS. E isto é mais uma humilhação, é mais um buling e um bulinhó, neste caso, dada a data, em cima do presidente da República, que, a meu ver, neste debate acaba por ser um dos derrotados por isso. Eu dou-lhe um oito, porque ele obviamente não é interveniente direto, mas também se estivesse lá e se tivesse que falar, provavelmente faria o que faz sempre, que é estar bem com Deus e com o Diabo, e vai-se permitindo que o governo vá fazendo isto, porque também jogou alto a cartada de fazer uma comunicação ao país e o mundo vai acabar e eu vou utilizar o meu poder e não me peçam pra abdicar do meu poder de dissolução. E afinal de contas, o senhor ministro João Galamba não só está no governo, como encerra um debate de gala, que é o debate do orçamento de Estado

E não fala na TAP.

É caso para dizer, Alexandra, que não laza e não é que é.

Correu mal a caça às bruxas.

Sim.

A caça às bruxas do presidente correu muito mal e, portanto, é um oito para o presidente da República precisamente por isso. Acho que neste aspecto sai fragilizado mais uma vez, porque não estou a ver como é que vai dar a volta ao texto. E se António Costa estiver no governo até 2026, eu acho que ele vai ter que ter João Galamba como Ministro das Infraestruturas até 2026 e, portanto, a menos que haja aqui uma ida para a Europa, e pode ser num voo da TAP, da Lufthansa.

Ou que vá na remodelação de janeiro, de fevereiro.

Não me parece que está agarrado a ele e nem que seja mais para provocar Marcelo Rebelo de Sousa, vai sempre acontecer. Aqui o presidente foi totalmente, não manipulado, mas totalmente ultrapassado porque a ideia de António Costa conseguiu impor a sua ideia e nem sequer dispensa estas pequenas provocações a Belém.

Temos aqui ainda outros vencedores da Judite França e do Bruno Vieira Amaral. Judite, o líder da bancada parlamentar do PSD, Miranda Sarmento.

É vencedor para mim. Miranda Sarmento tem melhorado na sua performance. Falávamos disto em off com o Bruno Vieira Amaral, que concorda que a questão não é nunca de conteúdo, é de forma, e conseguiu arrancar umas palmas ao Partido Socialista, que tem sempre graça, porque é o líder da bancada parlamentar do PSD que votou contra o orçamento, por ter falado que o Chega faz stand up. O Chega foi o partido que antecedeu e diz: "Pronto, agora vamos falar a sério depois de ter havido aqui uma espécie de palhaçada ou de paródia." E fez esta dicotomia, o Chega é uma paródia e o PSD é a sério. Eu destaco não só Miranda Sarmento, mas destaco também Hugo Carneiro. Acho que a intervenção do Carneiro foi uma boa intervenção. Claro que Miranda Sarmento fez um soundbite, a maioria absoluta do habituem-se. Ainda bem que vai aprendendo estes truques que são importantes, mas eu também vou fazer uma batota e vou dar outro vencedor. Isto porque quando o Chega fez questão de fingir-

Vocês parecem aqueles deputados que pedem as interpelações à mesa para fazer intervenções. Aproveitou um para dar outra.

Vários. Sabes que eu já não estou habituada a fazer o vencedor. Isto para mim era um sinal verde.

Mas sabes, também temos o sinal do relógio.

Também temos o sinal do relógio. O Chega, que fingiu ironicamente espanto quando Rui Tavares, do LIVRE, disse que se ia abster e fez uma pateada e muito barulho. E Rui Tavares foi logo aplaudido pelo Partido Socialista depois de acusar o Chega de enxicalhar o debate. E vencedor é o vice-presidente da Assembleia da República, Adão e Silva, que conseguiu dizer: "Haja respeito pelo trabalho não só dos colegas, do Parlamento, dos partidos." Ao contrário, lá está, do que faz normalmente Augusto Santos Silva, que foi mais uma vez fazer aquele número quando André Ventura disse que Lula da Silva era bandido. O presidente da República disse que não admitia que se dirigisse assim. Eu aposto que se o bandido fosse o Bolsonaro, Augusto Santos Silva não teria dito nada. Falta-me só o meu perdedor. E o perdedor é claramente André Ventura, que conseguiu ser gozado por todos. Até a Brilhante Dias disse que a agressividade da extrema-direita era prova de que o orçamento de Estado era um bom orçamento contra o populismo. Dois verdes e um vermelho, dois vencedores e um vencido.

E conseguiu pôr quase todo o hemiciclo a aplaudir Miranda Sarmento.

Exatamente. E o próprio Rui Tavares também foi aplaudido pelo Partido Socialista. Todos os que estiverem contra o Chega são aplaudidos.

Acho que se o senhor que está a servir as águas for lá e criticar o Chega, aplaudem todas as bancadas, menos para os do Chega.

Bruno Vieira Amaral, um aplauso para ti desde já, que vais conseguir em um minuto dizer aqui qual é o teu vencedor e perdedor.

Estamos perdendo tempo. Da Alexandra para o Miguel, do Miguel para o Rui Pedro e agora sobra-nos a nós.

O meu vencedor também é Miranda Sarmento. Este orçamento é um orçamento de desesperança, de resignação. É um orçamento que se parece muito com esta maioria absoluta, anémica, conformada. Nunca tivemos uma maioria absoluta assim em Portugal. E o orçamento está de acordo com isso. E Miranda Sarmento, para já, começou muito bem, de facto, pondo o Chega no lugar e aquele número de André Ventura no devido lugar. Foi a palhaçada do costume, o stand up, o número de circo do costume. E depois vamos lá falar de coisas sérias, por que este é um orçamento de desesperança. E aí esteve muito bem, a Judite já referiu, tem melhorado neste aspecto da forma, não tanto do problema da substância, do conteúdo, porque acho que nunca foi esse o problema, mas agora na forma também consegue encontrar o tom certo para apresentar as suas ideias. E ao resumir em quatro pecados capitais os problemas deste orçamento, conseguiu passar essa mensagem dos problemas do orçamento. Um orçamento que se parece muito com o estado em que vivemos, que é de resignação e de um conformismo que não se deveria coadunar com uma maioria absoluta. Não é isso que se espera de uma maioria absoluta. Uma nota negativa também para o resto da oposição. Acho que isto foi terrível para a oposição, sobretudo a oposição à esquerda, mas a Iniciativa Liberal também passou praticamente despercebida.

A Iniciativa Liberal levou com uma resposta que não deve ter gostado do ministro João Galamba a dizer que vão além daquilo que tinha pedido a Iniciativa Liberal em relação à redução do IRS. Não é agradável.

Está feito este e o vencedor é especial, como sempre, com muitos derrotados também. Quinta-feira vamos atribuir mais notas nas Manhãs 360, e como sempre, com a Carla Jorge de Carvalho.