Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E neste início de semana estão conosco para pontuar os principais protagonistas da atualidade, o Miguel Pinheiro e o Ricardo Conceição e, claro, sempre o José Manuel Fernandes. Para além da rádio, também nos pode acompanhar no YouTube, Facebook e site do Observador. A moderação do e o vencedor é da Carla Jorge de Carvalho.

A semana começa com um novo recorde do número de utentes sem médico de família, já lá vamos. Vamos começar pela Marcha da Habitação, que no sábado saiu à rua em várias cidades do país. Ricardo, quem é o teu vencedor?

Bom dia. Eu tenho três notas. Tenho um seis para a colagem dos partidos a esta manifestação, um um para os confrontos com a polícia e um 12 para quem saiu à rua. Isto porque eu acredito que a vitalidade da democracia também se mede pela participação dos cidadãos que procuram e exigem soluções para os problemas que têm. Acho que uma sociedade plural e democrática pode e deve ter manifestações, não tenho nada contra isso, daí o meu 12 para quem saiu à rua no sábado. E só 12 porque os principais alvos deste protesto, para mim, não são os mais certos ou os mais corretos. Acho que as pessoas se deixaram manipular por extremistas que acham que o grande problema do mundo é o capital, e os proprietários são o grande problema que atravessa o mundo e, neste caso, a habitação. Vimos cartazes lamentáveis e, na maior parte dos casos, em Portugal, e se calhar as pessoas também se deviam lembrar disto, os proprietários são pessoas que trabalharam uma vida inteira para comprar uma casa para eles ou para os filhos, num país que incentivou a compra de casa e não o arrendamento. As pessoas foram incentivadas a comprar casa. O Estado até financiava através do crédito bonificado e ajudava as pessoas a comprar casa. E as razões que levam as pessoas à rua para querer que o Estado resolva um problema que não é do Estado, radica numa ideia de que o Estado tudo resolve, o Estado é um saco sem fundo, com fundos infinitos, e isto não é verdade. Portugal é um país pobre, onde aquilo que produzimos não produz a riqueza suficiente para que as pessoas tenham uma vida melhor. E no meio disto tudo, ninguém fala disto. E é isto que me causa estranheza e me perturba, que as pessoas não pensem nisto, que sem trabalho, sem criação de riqueza, sem empresas fortes, sem uma sociedade civil dinâmica e capaz de criar riqueza, não vai haver habitação e não se consegue resolver com passe de mágica ou com uma varinha de condão os problemas. E o governo não diz isto. O governo volta a assumir aquele papel do Estado papá, o Estado que vai resolver tudo, mas depois também não é capaz de resolver nada e depois empurra tudo contra os proprietários, é incapaz de apresentar um plano que envolva os proprietários. É impossível resolver o problema da habitação sem ter os proprietários do lado da resolução do problema. As pessoas pagam imensos impostos para arrendar uma casa, têm problemas infinitos com inquilinos que não pagam ou destroem casas e depois, ao contrário do que é a narrativa, não basta estalar os dedos para pôr uma ordem de despejo e as pessoas vão embora. Há N situações que precisavam de ser resolvidas e não são resolvidas. E depois, no meio disto tudo, temos os partidos do costume, que estiveram com este PS e estiveram com o governo, que saem à rua indignados, a manifestarem-se, a colarem-se a movimentos extremistas e a organizações extremistas, só para tentar retirar mais um voto ou mais um benefício político, sem no fundo apresentarem soluções verdadeiras para aquela que é a raiz do problema. E tudo isto depois acaba com aquelas cenas lamentáveis que nós vimos no Martim Moniz e fomos vendo ao longo da Avenida Almirante Reis neste desfile, e um um para esse final. E são os mesmos extremistas de sempre a dizer que a culpa é da PSP, a culpa é da polícia, a culpa é sempre dos outros, mas nunca é deles. Há destruição, há grafites, há pancadaria, há garrafas voar.

Garrafas atiradas, exatamente.

Exato, mas a culpa nunca é deles. A culpa é sempre da polícia. Um para este final desta manifestação.

Aqui várias notas atribuídas pelo Ricardo à mesma manifestação. Miguel, que ângulo é que queres para pegar no mesmo assunto?

O Ricardo falou dos partidos do costume. Eu gostava de falar dos partidos que não são os do costume, porque esses é que tinham a obrigação de vir explicar que aquilo que foi defendido naquela manifestação são tudo receitas para agravar os problemas da habitação. Eu gostava de ter visto os outros partidos a participarem nesta discussão. Ouvi Carlos Moedas a dizer que está de coração com todos os que saem à rua, todos O Carlos Moedas tem um coração muito grande, mas eu fiquei a pensar: se Carlos Moedas tem que escolher qual é a parte do seu corpo que está com os manifestantes, é porque há outras partes do corpo que não estão. Imagino eu que nomeadamente a cabeça, porque Carlos Moedas não concordará com muitas coisas que foram ali ditas e convinha que além de nos mostrar o seu coração, mostrasse a cabeça e explicasse, por exemplo, àqueles manifestantes que dizem que o problema são os bancos, de onde é que acham que vem o dinheiro para construir casas. Vem de onde? Do céu? Não, vem de bancos. De onde é que acham que vem o dinheiro para algumas pessoas comprarem casas? Porque isto de resolver o problema da habitação é com renda, com arrendamento, mas também quem puder comprar casa, compra casa. De onde é que vem esse dinheiro? Naquela manifestação foram contra os fundos imobiliários. Ora, nós precisamos de mais casas. Para termos mais casas tem que haver quem as construa. Para serem construídas é preciso dinheiro. E uma das formas de haver dinheiro para construir casas é termos fundos imobiliários que querem investir em Portugal na construção de casas. Os fundos imobiliários servem é para isso. Defendeu o congelamento das rendas. Bem, isso já foi experimentado ao longo de décadas e acabou com as pessoas que teriam casas para arrendar a fugirem do mercado de arrendamento. O Ricardo estava aqui a explicar que durante anos houve incentivos à compra de casas. Por quê? Porque não era possível arrendar em Portugal. Durante anos, em Portugal, a única solução era comprar casas e daí haver incentivos à compra de casas, porque o mercado de arrendamento não funcionava. Uma das razões pelas quais o mercado do arrendamento não funcionava era por causa do congelamento das rendas. Naquela manifestação defendeu-se também o fim dos despejos. Bem, até custa ter que explicar, se não é possível despejar alguém que deixe de pagar rendas. Nem vale a pena vir com as situações. Claro que há situações dramáticas, problemáticas, não é disso que estamos a falar. Tem que haver, obviamente, uma solução de terminar um contrato em que uma das partes não paga, senão não vai haver casas. As pessoas não vão pôr o seu dinheiro ali, não vale a pena. E finalmente, na manifestação houve cartazes a defenderem a morte dos senhorios. Bom, eu suspeito que se os senhorios morrerem, se calhar deixa de haver casas para arrendar. Eu tenho essa ideia. Suspeito que é isso. E portanto, esta manifestação cria um ambiente em que quem tem dinheiro para pôr em algum sítio prefere abrir uma confeitaria ou prefere abrir uma loja.

Desde que não fique no caminho da manifestação. Pode correr o risco de ser grafitada.

Claro. Agora, é evidente, numa sociedade democrática, há opiniões divergentes e há confronto de ideias e há quem defenda o congelamento das rendas, há quem defenda que não deve haver incentivos a fundos imobiliários. As pessoas podem entender tudo o que entenderem. Agora, o que é preciso é que os partidos que não defendem isto tenham a coragem de aparecer, falar e explicar estas coisas simples, porque se se refugiam numa atitude de estar em decoração com toda a gente, de facto, sobra o palco só para quem defende estas coisas. E assim não se resolve problema nenhum. Eles julgam que toda a gente defende isto. É isso que me deixa perplexo. Julgam que toda a gente acha isto? Não. Há aí milhares e milhares e dezenas e centenas de milhares de eleitores que acham que estes argumentos não fazem nenhum sentido. E é para eles que eles têm que falar e têm que também dar voz a essas pessoas. Portanto, para os partidos que ficaram calados, um três. Porque de facto, assim a discussão fica totalmente enviesada.

E portanto, sobre a manifestação da habitação, a marcha pela habitação, tivemos notas para os partidos, os outros partidos, os confrontos e para quem saiu à rua. São assuntos que o José Manuel Fernandes vai seguramente falar no Contracorrente depois das 10:00. Por isso, antes, José Manuel, queres avançar aqui com um número novo dos utentes sem médico de família em Portugal.

É verdade, Carla. É verdade, e não é um número bom. Nós tínhamos 1.500.000 utentes sem médico de família no princípio do ano. Já subimos para 1.600.000, apesar de entretanto ter havido um concurso para a colocação de médicos de família. Há um ano, precisamente em abril de 2022, eram 1.300.000, o que quer dizer que há mais de 300.000 utentes sem médico de família. Isto não é surpreendente. No ano passado ter-se-ão reformado 1000 médicos de família e só terão entrado para o sistema cerca de 300. Todos os anos se formam à volta de 400, 500, mas o Estado nem sequer esses 400, 500 consegue contratar. As pessoas não querem aceitar as condições existentes e o Estado não cria novas condições para eles poderem aceitar isto. Aqui não é fácil ter tarefeiros como nos hospitais para garantir as urgências. Não há médicos ucranianos, brasileiros, cubanos, seja lá quem for que vão fazer essas tarefas. É uma relação diferente com as pessoas. A situação é particularmente complicada em Lisboa e Vale do Tejo, portanto, na maior região do país. Na maior região do país estamos, neste momento, com 28% dos utentes sem médico de família, quase um terço. É quase tão mau no Algarve, mas de facto Lisboa e Vale do Tejo é a pior zona de todas, sendo que em Lisboa e Vale do Tejo há algumas das Das sub-regiões ainda estão pior. A zona do chamado Arco Ribeirinho Sul, que se falou tanto semana passada, está com 40% dos utentes sem médico de família. Sintra está com um terço dos utentes sem médico de família, 33% dos utentes sem médico de família. Há centros de saúde que chegam a ter metade dos utentes sem médico de família, sendo que, aspeto importante, no ano passado, quando se discutiu isto, foi referido que se as USF, as Unidades de Saúde Familiar, que na região de Lisboa e Vale do Tejo a maior parte delas são modelo A, passassem para USF de modelo B, todos a nível nacional. Há várias diferenças, mas entre uma e outras é que no modelo B é possível pagar de forma diferenciada aos médicos e ir buscar outros médicos que não estão disponíveis.

Tem mais capacidade de recrutamento.

E há mais capacidade. Se isso fosse assim, destes 1.600.000, talvez haveria médicos para mais 900.000 e reduziríamos a menos de metade o número de utentes sem médico de família. Exige-se capacidade de atuação, gestão, dinamismo da parte do Ministério da Saúde.

Decisão.

Decisão, exige bastantes coisas, mas a indecisão, a ineficácia e a inoperacionalidade leva a isto. Em Portugal, apesar de tudo, a maior parte das pessoas querem ter médico de família. Os dados disponíveis indicam que são muito poucos os portugueses que optam simplesmente por desistir, por não ter médico de família. Só para se ter uma ideia, a nível nacional, sem médico de família por opção, há apenas 30.000 pessoas, 30.398 utentes, mais exatamente. Há 1.603.113 que gostariam de ter médico de família e não têm. Nós já estamos com bastante tempo do novo Ministro da Saúde, quase um ano.

Não houve uma segunda-feira, talvez, em que o primeiro-ministro disse que o assunto estava resolvido? Há uns meses.

Houve uma segunda-feira dessas, houve uma promessa que até o fim da primeira legislatura. Atenção, depois da troica ter ido embora, porque a troica foi em 2014 e o governo anterior durou até 2015. Em 2015 eram 1 milhão de portugueses sem médico de família. Agora têm 1.600.000. É bom as pessoas terem noção do que está a acontecer ao Serviço Nacional de Saúde e ao fim de tantos meses de Manuel Pizarro. Penso que ele entrou em setembro, iremos perto dos nove meses. E com o diretor-geral do SNS também já nomeado há para aí meio ano, é a altura de começar a ver alguma coisa mudar e não se está a ver, infelizmente. Continua a rampa deslizante no que respeita à situação dos portugueses sem médico de família, que tem uma consequência: as pessoas dizem que não querem que as pessoas vão para as urgências hospitalares.

Faz lembrar aquela frase imortal: "Está tudo tratado, só falta o dinheiro."

Só falta resolver.

O problema nem é falta de dinheiro, porque dinheiro tem-se visto.

Sim, claro.

Nas horas extraordinárias que depois é preciso pagar nas urgências.

Esta manhã, não é por acaso, há um protesto de utentes no Centro de Saúde de Marvila, que é ali na zona oriental de Lisboa. Vi há pouco a reportagem da SIC Notícias está lá. Eu fui aqui pesquisar e de facto, das 30 mil pessoas que o centro serve, 18 mil, mais de metade, não têm médico de família. Mas olhando para isto e juntando agora aqui os dois temas, com a saúde não se está a passar coisa diferente do que se passa com a habitação, que é falta de decisão, incompetência do Estado em ter uma política pública, afastar muitas vezes aqueles que podem, do setor privado, ajudar a resolver os problemas e depois chegamos a uma explosão. Basicamente é isto. Mas por que na saúde não há manifestações visíveis e por que as pessoas não vão para a rua como estão a ir por causa da habitação? Há pelo menos uma coisa que é consensual, que é: há um problema enorme para resolver na habitação. Depois podemos discutir as medidas.

Também é consensual que há um problema na saúde.

Na saúde. Mas por que as pessoas não vão para a rua na saúde também? Eu tenho aqui algumas explicações. Primeiro, porque afeta sobretudo os mais velhos e há um segmento em que são os mais velhos, menos dados a estas coisas, eventualmente menos radicalizados em termos ideológicos, que recorrem mais, que precisam mais e que sentem mais na pele o falhanço tremendo da saúde e este nível de falta de médico de família e de centros de saúde. E depois, porque houve até há pouco tempo, mas deixou de haver na saúde grupos bem identificados que possam ser acusados de serem os malandros do setor. Nós tivemos durante três ou quatro anos a guerra aos privados por causa das PPP. As PPP acabaram, deixou de haver aquele odioso para se colocar um alvo para atirar setinhas. Na saúde, o Estado neste momento está entregue a si próprio. Acabou com as PPP e agora muitos autarcas comunistas e socialistas de Loures ou de Vila Franca de Xira até suspiram pelo regresso das PPP que tinham. Mas deixou de haver, não há alojamento local, que são privados, não há vistos gold, não há nómadas digitais, fundos de investimento imobiliário para colocar o odioso e ninguém vai para a rua, pelos vistos. As pessoas só vão para a rua quando têm um ódio de estimação, que é mais ideológico do que real, o seu contributo para o problema, para combater. Neste caso não há na saúde, portanto as pessoas não vão para a rua, sendo que o problema, se for preciso, é pior ainda e afeta mais pessoas, sendo que aqui até provocará seguramente a morte precoce de muita gente. Há só um Estado incompetente, com um governo de esquerda, um governo que foi apoiado também pelo Bloco e pelo PCP durante quatro anos e aqui, de facto, não há ninguém para combater. É pena, porque a saúde é mais um assunto e depois há mais um ou outro. A Segurança Social e a demografia também são outros problemas que nós temos aí muito graves, mas que não explodem como a habitação. E é pena que haja esta seletividade e que as pessoas não olhem para os problemas gravíssimos que nós vamos acumulando.

Só falta a tua nota, Paulo.

A minha nota, a esta seletividade, a esta cegueira, dou um quatro. Pessoas que só olham para um problema e não olham para os outros problemas.

Falta olhar para a floresta. José Manuel Fernandes, a tua nota vai para quem?

A minha nota não vai tão baixa, porque vai para a equipa do Ministério da Saúde, Manuel Pizarro e diretor-geral do SNS. E como não quero continuar com o costume direto, vai um seis, porque já começa a ser tempo de se ver mais do que apenas encontrar soluções pontuais para problemas, como por exemplo das urgências e aquela rotação que nós sabemos que vai acontecer este verão. Começa a ser tempo de ter coisas mais estruturais.

E por isso o seis estende-se a toda a equipa do Ministério da Saúde, ministro e diretor-executivo do SNS. Está feito o "E o Vencedor É" desta segunda-feira. Até amanhã.