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Euvenço Dorena, Rádio Observador, com Júlio de França e hoje Anselmo Crespo e Nuno Gonçalo Poças. Vamos falar de 2024, esse ano de boa colheita para os vistos gold, já vamos perceber por quê. Da Tagline, o sistema de comunicação que afinal custou 652 mil euros, mas que ainda assim ninguém usa, e também da proliferação de candidatos presidenciais à esquerda. Ainda temos tempo, e vamos já a este assunto, falar de Carlos Moedas e a Carris. É por aqui que começamos, Anselmo Crespo.
Sim, na verdade, para despachar mesmo uma parte deste assunto, porque eu acho que ele é demasiado sério para o metermos debaixo do tapete, mas para despachar toda esta novela em que Carlos Moedas decidiu enfiar-se sobre a administração da Carris. Recapitulando muito rapidamente: Carlos Moedas, depois do acidente, decidiu que ninguém fugia. E eu, tendo dúvidas sobre a decisão que Carlos Moedas tomou na altura, percebo o fundamento. Ainda não sabemos o que é que aconteceu. Percebo que o importante agora não seja estarem a rolar cabeças, o importante agora é percebermos exatamente o que é que aconteceu. Ora, nós agora já sabemos o que é que aconteceu. E perante o que aconteceu, o que é que Carlos Moedas decidiu fazer? Demitir a administração da Carris? Não. Decidiu não renovar o mandato da administração da Carris, que termina agora quando termina também o mandato do atual executivo camarário e começa um novo mandato. E a minha pergunta é: o que passou pela cabeça de Carlos Moedas para achar que a responsabilização possível neste momento passava por não renovar, ou seja, que basta não renovar? Como assim basta não renovar? O que ele está a fazer na prática? O que ele está a fazer na prática é a prolongar ou a tentar prolongar, felizmente não conseguiu, porque a própria administração da Carris teve dois dedos de testa e achou que não fazia sentido, está a prolongar, a arrastar esta situação com a atual administração para se defender ele próprio. Eu não tenho Carlos Moedas por uma pessoa pouco inteligente, pelo contrário, tenho até Carlos Moedas em boa conta desse ponto de vista. Portanto, eu esta semana farto-me de dar voltas à cabeça a tentar perceber que gestão política é esta? Qual é o ponto na forma como Carlos Moedas está a gerir isto?
A primeira reação foi: "Viram? É uma questão técnica." Essa foi logo a primeira.
Mas isso foi para Carlos Moedas poder dizer: "I told you so." Como se alguém achasse que aquele elétrico tinha caído porque Carlos Moedas tinha tomado uma decisão política no seu gabinete. Obviamente, tinha que ser um tema técnico.
Não houve pouca gente a sugeri-lo.
Não é isso. Tinha que ser um tema técnico. Podia ser um tema técnico, resultante de uma má decisão política, mas não foi que Carlos Moedas lá no gabinete tinha um botão a dizer: "Agora vou descarrilar um elétrico." Está aqui, pumba! Portanto, como é óbvio, toda essa linha de argumentação não fazia muito sentido. Mas o ponto aqui é: se Carlos Moedas não é propriamente uma pessoa desprovida de alguma experiência política, por um lado, e inteligência, o que está aqui subjacente? A única explicação que eu encontro é: ele está a ser muito mal aconselhado, não há outra hipótese. Porque a única leitura que eu consigo fazer disto é: a administração da Carris serviu ali um bocadinho como barreira, um para-raios para Carlos Moedas. Serviu durante a campanha eleitoral e aparentemente continua a servir depois da campanha eleitoral. E portanto, toda esta forma meio ardilosa de gerir a demissão ou a saída da atual administração da Carris só pode continuar a justificar-se para servir como para-raios de Carlos Moedas. O que me indigna nesta forma de gerir este tema é que ele seria grave em qualquer circunstância, mas numa circunstância em que morreram pessoas, eu acho mesmo que a forma como o executivo camarário tem gerido este processo do Elevador da Glória é desprestigiante, por um lado, mas é quase indigno para quem perdeu a vida, para os familiares das pessoas que perderam a vida. Nós devíamos, obviamente, estar a discutir as falhas técnicas que aconteceram ali. Não há falhas técnicas só dos últimos quatro anos ou dos últimos 10 anos. Há falhas técnicas com 100 anos. Não havia sistemas de travagem, não havia redundância nos sistemas de travagem. Não foi só o cabo. Aquele relatório é muito mais grave do que um cabo.
Dos procedimentos de fiscalização.
Nós devíamos estar a debater isso e retirar o tema da administração da Carris da frente. Vamos retirar o tema de uma vez por todas e Carlos Moedas não o retirou da frente, está a arrastar isto. Parece que anda a arrastar pela rua o presidente Pedro Bogas, não é? Anda a arrastá-lo pela rua com uma trela pra ver se não chegam a ele ou se não o criticam a ele. E eu acho isso indigno.
Nuno Gonçalo Poças.
Eu não discordo. Pelo contrário, como dizia o outro.
Antes pelo contrário.
Antes pelo contrário. Parece-me um bocadinho evidente esta tentativa de, no fundo, usar esse biombo para-raios da administração. Na altura já tinha ficado claro e agora continua a sê-lo. Antes das eleições era muito evidente e agora continua a sê-lo. Eu acho que nós falámos sobre isto aqui na altura, eu pelo menos tenho a ideia de ter falado sobre isso. Essa não é uma técnica exclusiva de Carlos Moedas. Durante oito anos, António Costa fazia o mesmo com os ministros, que os deixava a queimar em lume brando, poupando-se a si mesmo e depois quando aquele já não interessava, trocava-se, vinha outro e a coisa passava.
Azeredo Lopes.
Azeredo Lopes, Eduardo Cabrita.
Constança Urbano de Sousa.
Constança Urbano de Sousa. E também havia muitos mortos relacionados com isto. Aquele rapaz ucraniano, os mortos dos incêndios, etc. Tal como não me agradava naquela altura, também não me agrada desta. Portanto, sim, há aqui uma questão de princípio. Acho que não se está a gerir isto como deve ser.
Eu também não sei se agora há uma grande dificuldade, desculpa interromper, em encontrar alguém que queira ser presidente do conselho de administração da Carris.
Para já, esta administração tem que ficar em funções.
Sim, esta fica em funções até se encontrar uma nova, fica gestionária.
Eu arriscaria que há sempre alguém disponível. O problema é aquilo que nós estávamos a falar na terça-feira. Mas há uma degradação tão grande das coisas que quem começa a ficar disponível para este tipo de cargos e de funções-
Tem que ser alguém com perfil.
Cada vez pior.
E conhecimento.
O problema é que pode ser o inverso.
O problema é esse, quem está disponível é cada vez pior. Pode ser que não.
Anselmo, queres dar uma nota?
Eu vou dar uma nota Zé Manuel Fernandes, vou dar um 4 à gestão política que Carlos Moedas tem feito disto.
Judite?
Eu vou deixar a minha nota para depois. Já dei nota a isto.
Nuno?
Vou dar uma negativa também, vou dar um 8.
Pronto, então vamos falar de outra casta de problemas e de um ano de boa colheita. 2024 foi um ano feliz para os vistos gold, Nuno?
Sim, aparentemente sim. E há pelo menos dois indicadores que eu acho relevantes. Primeiro, 2024 acho que foi o melhor ano de fundos de investimento que foi feito em Portugal. Curiosamente, numa altura em que o golden visa para os investimentos imobiliários já tinham acabado. E é uma coisa fantástica que isso esteja a acontecer. Eu reparei, por exemplo, numa notícia do Jornal do Centro, que diz que nos últimos dois anos, presumo que seja 2024 e 2023, o Museu do Caramulo, que é um museu que fica em Tondela, recebeu 20 milhões de euros provenientes de doações para efeitos de golden visa, de obtenção de visto gold, porque há várias modalidades e uma delas é essa.
20 milhões?
20 milhões em dois anos. A notícia não era muito aprofundada, mas normalmente aquilo a que nós chamamos o golden visa cultural, ou seja, para investimento em património e desenvolvimento de criação artística, etc., nós costumamos dizer que o ticket é mais curto, são 250 mil euros, e portanto ainda mais notável isso se revela.
E há muita gente que gosta de carros também, não é?
Como assim?
O Museu do Caramulo. Não estás a falar do Museu do Caramulo?
Sim.
O Caramulo tem arte também. Tem arte.
Sim, exatamente.
Só estava aqui a situar os nossos ouvintes.
Este momento foi muito engraçado.
"Como assim?"
Distrais-me.
Nós estamos aqui para distrair as pessoas.
O Ricardo até sentiu um arrepio na espinha.
Vamos lá.
Acho que desta vez não te enganaste. Acho que é uma boa notícia, é dinheiro que está a entrar. E a mim, objetivamente, não me incomoda que Portugal tenha uma política de captação de investimento através da política migratória, e que seja mais fácil ter autorização para residir em Portugal, com base neste fundamento, que são pessoas que estão cá a deixar dinheiro.
Mas o que é que isso provoca em termos de inflação do preço das casas?
20 milhões de euros. Já não há golden visas em imobiliário.
Não, mas o que isso provocou?
Este é o meu segundo ponto.
Estás a falar de 2023, 2024.
De 2024. 20 milhões para o Museu do Caramulo foi em 2023 e 2024.
Certo.
Em 2024 já não havia golden visas para o imobiliário.
Para o imobiliário, certo. Pensei que estavas a falar de 2023 golden visas.
Não, o que eu estou a dizer é que em 2024 já não havia golden visas para investimento imobiliário. Os golden visas tiveram o seu maior ano de sempre, portanto, houve mais gente do que nunca a ter direito a um visto gold e poder residir em Portugal, através de outros investimentos que não o imobiliário. E, pasmem, as casas não pararam de aumentar.
Mas aí podes usar o argumento: já estavam lançadas.
Sim, mas as coisas não aumentam até à eternidade. Houve vistos gold há muito tempo. Vamos imaginar que tinham sido congeladas as rendas na Primeira República. Se elas tivessem sido descongeladas há 50 anos, se calhar evitava-se muita coisa para agora, mas as coisas mudam. Este seria um ponto interessante de discussão, de reflexão e de perceber o que é que aconteceu e o que conduziu ao aumento tão brutal das casas. Eu não ponho aqui fora de hipótese o facto do golden visa na altura, em determinados momentos, há 10 anos, nos primeiros anos, porque o golden visa quando acabou representava 3% do volume de vendas. Já não estávamos aí. Com outra questão aqui por cima, os golden visa vieram, foram feitas muitas aquisições de imóveis naquela altura, mas aquele dinheiro ficou cá.
Certo.
Houve muitos portugueses a ganhar imenso dinheiro a vender casas a chineses, americanos, brasileiros e não sei quê.
E convém explicar porque o golden visa foi criado. Ele foi criado exatamente porque era preciso escoar imobiliário também.
Certo. E houve muito dinheiro em IMT, em imposto de selo, que entrou nos cofres do Estado. A minha pergunta é sempre a mesma: esqueçam os golden visa no imobiliário. A minha pergunta é: o que é que o Estado fez relativamente ao mercado de habitação com o dinheiro que recebeu em impostos desde 2015?
Boa pergunta.
Agora ficou aqui o gri, gri, gri.
Porque aparentemente continua a haver imensa gente com interesse.
Eu digo-te, 17 mil milhões, toma saúde
Queres que eu continue? É verdade. O orçamento de saúde não parou de subir.
Não, mas o IMT é receita municipal.
Sim, claro, o IMT é receita municipal, mas isso foi só a parte que o Golden Visa do imobiliário.
Sim. Mas quantas casas é que as câmaras construíram?
Isso podia ser uma boa questão.
Mas eu acho que não, a questão não é essa.
A partir de agora o IMT só pode ser usado para construção.
Não podes fazer isso.
Não, é um princípio de consignação.
Não podes alocar diretamente um imposto para um determinado fim.
Certo. Embora eu ache que aquelas coisas da receita do imposto do tabaco também é para a saúde, supostamente. Mas não se pode dizer.
E o açúcar.
Sim. Mas eu acho que essas perguntas são as que devem estar em cima da mesa, porque eu acho que há dois anos estava-se: "Não, se nós acabarmos com os Golden Visa, isto volta tudo." Não, não volta.
Mas, Gonçalo, eu não tenho nada contra os Golden Visa, pelo contrário, mas o fato de não haver Golden Visa para imobiliário não significa que havendo Golden Visa para outras coisas, quem obtém um visto de residência em Portugal não tenha poder de compra para comprar casas a um preço bastante superior àquele que um português tem.
Sim, pode ter, mas qual é o problema? Acho que Portugal não precisa de ricos.
Não é isso. Eu comecei por dizer. Eu não tenho nada contra os Golden Visa, pelo contrário, o que eu estou a dizer é que o preço das casas não deixa de ser afetado só porque acabaram os Golden Visa do imobiliário. É só isso que eu estou a tentar dizer.
Mas é que não foi isso que foi prometido com a política pública. Ou seja, o fim do Golden Visa imobiliário tinha por base o: "Nós vamos acabar com isto e as casas vão voltar a baixar de preço", e não baixaram.
Não foi feita a habitação pública, foram feitas 10 rotundas. É um ponto. E ganham-se mais facilmente eleições. Mostrando outro tipo de obra do que mostrando casas.
É nós não termos a capacidade de fazer as perguntas. Não é nós, mas que na política não exista isso.
O país não tem capacidade de discutir os temas de uma forma profunda.
E de fazer prestação de contas, quer dizer, foi implementado X e Y, teve resultados ou não teve resultados? Foi bom ou foi mau?
Vamos continuar a conversa na segunda parte do "E o Vencedor É", mas só a tua nota, Nuno.
Não, eu ia dar aqui uma nota bastante positiva, um 13 ou 14. Meio milhão. 20 milhões para o Museu do Caramulo. Muito bom.
Pronto, o Museu do Caramulo, no horário de inverno, está aberto das 10:00 às 13:00 e depois das 14:00 às 17:00, e no horário de verão, das 10:00 às 13:00 e das 14:00 às 18:00. Fecha à hora de almoço, segundo o site, e um bilhete para um adulto são 9,50 €. Quem tem seis a 15 anos paga 5,50 € e os mais de 65 pagam 8 €. Também há bilhete de famílias e sabe sempre bem ir ao Caramulo. Um abraço para o Caramulo. Judite de França, o que é a Tagline e quanto custou a Tagline?
Diz lá mais uma vez.
Tagline.
Ok.
Não confundir com a marca de automóvel que pode ser visitado no Museu do Caramulo. Um automóvel clássico.
É uma espécie de WhatsApp interno. Nós já falamos aqui deste WhatsApp interno do governo, que afinal ficou mais barato do que se pensava inicialmente. Ficou pela módica quantia de 652 mil € mais IVA.
Portanto, ficou mais ou menos 1 milhão mais barato do que se julgava.
Sim, 1 milhão mais barato do que se julgava. Agora, ninguém usa. Custou 652 mil € e ninguém usa. Ontem ficamos a saber mais pormenores por uma notícia publicada ontem no Observador, assinada pela Cátia Rocha, que para quem não está por dentro do tema, é uma plataforma que foi mandada fazer pelo governo anterior ainda, pelo governo de António Costa, e que deveria servir para comunicar internamente de forma segura. Internamente entre ministros, assessores, membros do governo. Nós já tínhamos noticiado que o anterior executivo já usava pouco esta plataforma. O atual nem sequer sabia do que se está a falar. Foi questionado pelo Observador no Parlamento, o ministro da Reforma do Estado, que dizia que não fazia ideia do que era a Tagline e que garantidamente ninguém usava no governo. Depois, a notícia do Observador despertou a Secretaria-Geral do Governo, que veio dizer que o contrato da Tagline terminou em agosto deste ano e que atualmente não está em utilização. Portanto, é uma confirmação. Isto nasceu em 2022 e passado três anos continua a não servir para nada, com um pormenor interessante, que é: só foi durante meses verdadeiramente seguro porque nunca teve a devida certificação.
Pensei que era porque não tinha tido utilização.
Não foi certificado como verdadeiramente seguro e, portanto, em fevereiro saiu a certificação, em agosto acabou a concessão e nunca se usou. Não se usou mais. Havia, de facto, um secretário de Estado no governo de António Costa que usava e que achava muito útil. De onde é que vem o dinheiro? Perguntas tu.
De onde é que vem o dinheiro?
Vem do PRR. E quem lidera a Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, que é Pedro Dominguinhos, e que faz o controle se o dinheiro está a ser usado, bem usado, se não está a ser usado, etc, disse ao Observador, e eu passo a citar, que se não está a ser utilizada, pode significar que o instrumento que foi criado não está a ter utilidade. E ainda disse: "Um investimento não está a ser utilizado, no limite, pode ser considerado desperdício." Pois, no início e no fim, pode ser considerado desperdício. No limite, pode ser considerado desperdício. Pode sempre ser considerado desperdício quando não é usado. Portanto, 652 mil € mais IVA deitados ao lixo, vindo desse saco que é o PRR, que por algum motivo as pessoas acham que é dado, que o dinheiro é dado, e que nós podemos utilizá-lo
Como quisermos, nomeadamente, por exemplo, a queimar para acender charutos, tipo atinhas.
Mas Anselmo, nada disto nos espanta.
Eu ia dizer, estava a ouvir, as pessoas acham que é dado. Eu não tenho ouvido o Presidente da República dizer outra coisa que não seja que é dado e que não nos voltam a dar.
Não, isso não nos voltam a dar.
Não, mas há uma parte que de facto é dada e há outra parte que não é dada, que é paga. Há uma parte a fundo perdido e há uma parte que são empréstimos. Mas de facto, a própria elite política tem vendido a ideia do: "Temos que gastar. Temos que gastar porque não voltamos a ter caminhões de dinheiro a entrar pela fronteira tão cedo." E de facto, ainda hoje, acho que era o Miguel Pinheiro hoje de manhã aqui na Rádio Observador, dizia uma coisa com a qual eu concordo em absoluto, que é: às tantas, o Estado, como não sabe onde gastar o dinheiro, parece que dá uma ordem ao serviço a dizer: "Por favor, gastem onde quiserem. Olhem, vão ali abaixo ao quiosque e comecem a comprar tudo o que houver no quiosque." É a sensação que nós temos neste momento em relação ao PRR, que não há nenhum plano. E dizem assim: "Mas foi porque não tivemos tempo para planear." Tivemos tempo de sobra. Tivemos tempo de sobra para planear o que fazer com o PRR. Mas à boa maneira portuguesa, não só não planeamos, como aquilo que planeamos tipicamente não cumprimos, porque há calendários, mas os calendários não são cumpridos e, portanto, estamos sempre com atraso. Depois chegamos ao fim do prazo e começamos a esbanjar em qualquer coisa, nem que seja para comprar clipes para o Estado. E eu acho que isso, em grande medida, explica o atraso da economia portuguesa, porque nós nunca tendemos a pensar como é que vamos investir o dinheiro de uma forma que ele se possa reproduzir. Nós pensamos como é que podemos gastar o dinheiro, porque não sabemos quando é que vem a seguir. É um bocadinho como duas formas de dar educação aos filhos, que é: "Está aqui a tua mesada, podes gastá-la toda numa semana ou podes geri-la durante um mês." Nós tipicamente gastamos tudo numa semana e depois logo se vê.
Nuno.
O PRR tinha sido muito criticado logo no início, precisamente porque estava maioritariamente vocacionado para não gerar propriamente grande retorno e, no fundo, era quase para substituir investimentos que deviam- Investimento do Estado que não foi feito. Investimento do Estado que não foi feito e, portanto, despesa que devia recair sobre o orçamento de Estado. E depois há a despesa que é bem feita e a despesa que é mal concebida. Uma delas, aparentemente, é essa. São só € 600 mil. Estou aqui a tentar ser positivo. Dava para dois vistos gold agora. Se fosse um visto gold dava para apoiar.
E mais um bocadinho.
Cultural.
E mais um bocadinho.
Dava um visto gold cultural. Tens uma nota, Judite?
Eu vou dar um cinco a isto, dos € 525 mil. Dou um cinco.
Ainda temos que ouvir o Anselmo Crespo sobre Jorge Pinto.
Vamos falar das eleições presidenciais.
Sim, sobre o Jorge Pinto, não especificamente sobre a escolha do LIVRE, mas sobre esta tendência suicida da esquerda em geral, sobre a qual eu não percebo qual é a estratégia e o que é que a esquerda, quantas eleições é que têm que existir mais para a esquerda perceber que esta estratégia não está a funcionar. E eu diria mais, que se não funcionou nas autárquicas, dificilmente vai funcionar nas presidenciais. Esta ideia de que a melhor forma de combater a direita é cada um segurar o seu próprio eleitorado numa eleição, onde se está basicamente a tentar perceber quem é que vai à segunda volta.
Não faz sentido.
Não faz sentido, desafia a lógica. O meu ponto é esse, desafia a lógica. E na verdade, isto torna-se ainda mais incoerente no caso do LIVRE, porque o LIVRE, e Rui Tavares em concreto, tem sido o porta-voz de uma esquerda que acha que se deve unir. Não tem dito outra coisa, Rui Tavares. Quando o Bloco de Esquerda não se queria unir, quando o PCP não se queria unir, o LIVRE era o único que dizia: "Temos que nos unir."
Para aumentar a eficácia.
Aliás, Rui Tavares reivindica para ele a autoria da geringonça. Não a que existiu, mas a que nunca chegou a existir. Ele diz: "Eu fui o primeiro, o LIVRE foi o primeiro a falar da geringonça." Lamentavelmente, nesse ano, o LIVRE não foi eleito para a Assembleia da República, portanto, não integrou essa coligação de geringonça. Ora bem, Rui Tavares e o LIVRE, que defendem que a geringonça foi a melhor coisa que aconteceu ao país, chegam às presidenciais, onde já temos um cardápio de candidatos que nunca mais acaba, onde a esquerda já está hiper representada ou sobrerepresentada. O que o LIVRE decide fazer? Apresentar também um candidato. Se a ideia é que não vai nenhum candidato de esquerda à segunda volta, eu acho que o LIVRE está a seguir uma ótima estratégia.
Se calhar, o LIVRE gostou mais da união das esquerdas quando precisava da união das esquerdas e agora que já não precisa, se calhar já não lhe faz assim tanta diferença. Mas mesmo durante a conversa das presidenciais, queriam essa união de esquerda, desde que se arranjasse um nome que os fizesse- Queriam, mas tem que ser um candidato... Vamos lá a ver, mas o LIVRE é um partido fofinho, que é perfeito e que é moralmente superior a toda a gente. E eles são ecologistas e mais ninguém é, e são progressistas e mais ninguém é, e são europeístas e mais ninguém é, pelo menos como eles são e como toda a gente devia ser. O esquerdismo é a doença infantil do comunismo. O LIVRE é a doença infantil do esquerdismo. Acontece. Jorge Pinto, eu não sei quem é.
Mas vai estar.
Boa sorte.
É deputado.
Boa sorte. Eu sei que é deputado.
Estavas a continuar a ser irónico.
Mas boa sorte. Ainda podia haver aqui uma expectativa. O LIVRE, OK, não gostam de ninguém. Eu percebo que a Catarina Martins está aqui a tentar fazer a afirmação do Bloco de Esquerda, o António Filipe está a ver se o PCP não desaparece de vez. OK, percebo que os dois não queiram ter um candidato próprio ou apoiar o candidato do PS, que ainda por cima há imensa gente que não gosta dele, que não devia. Há muita gente que gosta dele e não devia. Gosta dele e não devia. Qual é o problema do Livre? Ter tantas divergências com a Catarina Martins ou com o António Filipe? Ou até mesmo com o António José Seguro? Faz assim tanta diferença?
O que é que o Livre prefere?
Pois é isso, ninguém percebe. Se quisessem ao mesmo tempo ter um candidato próprio, fazer a mesma coisa que o Bloco de Esquerda e o PCP, que era no fundo afirmar-se mais uma vez eleitoralmente, etc., e afirmar ali a força do partido, aquilo que nós esperávamos era que o candidato fosse pelo menos o Rui Tavares. Não era o Jorge Pinto. Se eu chegar a Vila Franca e perguntar quem é o Jorge Pinto a todas as pessoas que encontrar na rua, eu acho que ninguém me vai saber responder.
Fica aqui o desafio para os nossos ouvintes em Vila Franca. Um abraço também para Vila Franca.
Repara uma coisa, a única explicação para o Livre fazer isto é querer aproveitar o tempo de antena. Os debates. As televisões são obrigadas a meter-nos também nos debates, que é uma guerra que o Rui Tavares tem há muitos anos, que é o do patinho feio, que é sempre excluído.
Mas isto não é um jardim infantil.
Está bem, mas a política em Portugal lamentavelmente muitas vezes parece um jardim infantil.
Vamos ir a notas.
O ponto é este: onde é que o Livre acha que um eleitor do Livre estava na dúvida entre votar entre Catarina Martins, António Filipe, António José Seguro ou se calhar vou ali votar no André Ventura ou votar no Marques Mendes? Qual é o racional? Portanto, a única conclusão é se António José Seguro não for à segunda volta, pode a seguir ir agradecer ao Livre, ao Bloco e ao PCP.
Vamos à nota, Anselmo, para fecharmos.
Quantas são? Um, dois, três, quatro. Dou nota 4 à esquerda.
Dos pequeninos à esquerda.
Dos pequeninos.
Eu só queria dizer uma coisa, porque hoje isto fez-me lembrar a corrida mais louca do mundo, em que vai tudo, mesmo os que não têm carro minimamente apto para concorrer à Presidência da República.
Podíamos ir nós também.
Podíamos também. Arranjamos um carro.
E depois é que falte carros. Wacky Races.
Depois a ver se arranjas um bilhete de borla para o Caramulo.
Sim, um grande abraço para o Museu do Caramulo e para o vencedor, que regressa amanhã nas manhãs 360 depois das 08h30.