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"E o Vencedor É", na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, Helena Garrido e o Alexandre Borges. Hoje vamos falar sobre a vitória da Flixbus, que foi autorizada a utilizar o terminal rodoviário de Sete Rios em Lisboa, uma longa batalha, mas temos de falar também sobre António José Seguro e do tiro ao lado na crítica ao Parlamento pelos atrasos na Comissão para Avaliação dos Incêndios, do pacote laboral e do que disse o ministro Castro Almeida sobre os bancos e sobre as autarquias, que culpou pelos atrasos nos processos de reconstrução das casas atingidas pelo mau tempo. E é por aqui que começamos, Helena. Vamos decompor Castro Almeida em dois momentos. Primeiro, sobre os bancos. Castro Almeida conseguiu acertar na mosca, disparou em várias direções.

Cada tiro, cada mel.

Exato, estava a faltar a expressão. Obrigado, Judite. Isto é quase um casamento. A Judite já sabe no que eu estou a pensar. Castro Almeida criticou os bancos de terem mais depósitos do que créditos, e os bancos não gostaram nada disso.

Absolutamente nada. Vamos começar por aí, depois falamos das críticas aos autarcas. Está imparável o ministro da Economia, numa lógica que parece ser a nova técnica do governo: se corre mal, a culpa é de todos, menos do governo. O ministro, só para dar algum contexto, resolveu criticar os bancos, considerando que concedem pouco crédito. Fez umas contas de algibeira para fundamentar a sua tese e disse que os depósitos das empresas são superiores aos créditos que os bancos recebem, o que acontece pela primeira vez em 45 anos, não sei qual a relevância disso, e acusou a banca de estar em retração excessiva. E fez isso no Fórum da Banca. Os banqueiros estavam a ouvir, estavam na plateia, e não gostaram. Não gostaram e responderam, o que me parece muito bem, que comecem a responder, porque durante muito tempo parece que tinham medo de responder. E eu vou destacar, sobretudo, a resposta do presidente do BCP, Miguel Maia, que mostrou-se admirado, obviamente, com as palavras do ministro, e desafiou que respondessem a outra pergunta ou a outras perguntas. Uma delas é: por que as empresas não investem? Porque as estatísticas mostram, todos os anos, o Banco de Portugal ou as entidades internacionais faziam previsões de que o investimento ia disparar, não disparava. Subiu um bocadinho mais o ano passado, mas foi sempre uma deceção. É uma pergunta: por que não investem? Há recursos, PRR, PT2030 e agora há até um PT-RR, que não sabemos se tem recursos. Por que não investem? Outras duas perguntas que ele colocou em cima da mesa é: por que se leva seis meses a obter um licenciamento, ou seis meses, isso a mim ainda me espantou mais, para obter uma autorização para mais um turno de produção? Nós esta manhã tivemos aqui um advogado no "Contra Corrente", que vai desculpar por eu não me lembrar o nome, e ele diz que pode ser até mais seis meses. Eu nem fazia ideia, confesso, ignorância, não sou empresária.

Nuno Morgado.

Nuno Morgado. Que pode ser mais que seis meses, pode ser um ano, mas isto é uma fábrica que está aberta e quer abrir mais um turno de produção. Está-se a imaginar por que não se investe e por que os bancos são mais prudentes com o dinheiro. Eu acho que o negócio da banca, penso que o ministro Castro Almeida sabe isso, é vender dinheiro. É verdade que nos compra o dinheiro muito barato, a 0% praticamente, mas o negócio deles é a intermediação financeira, é conceder crédito. Aliás, o presidente do BCP fez questão de dizer que eles não dão crédito, eles concedem crédito mediante determinados critérios. E eu imagino que o ministro não queira que a banca se torne muito menos prudente ou menos prudente por emprestar a empresas que não são viáveis ou cujo modelo de negócio não é viável, porque é dinheiro dos depositantes que está em causa e nós, se calhar a memória do ministro é curta, já recebemos uma dura lição do que é governos meterem-se nas decisões dos bancos. Não sei se o ministro Castro Almeida quer ser comparado às intervenções que ocorreram no tempo do José Sócrates. Imagino que não queira.

E Judite, também há declarações para os autarcas.

É, de facto, abriu a boca duas vezes, em dois dias, e em dois dias criou uma série de inimizades nos dois setores que criticou. Falavas, Helena, do Miguel Maia. Hoje, o Vítor Bento, o presidente da Associação de Bancos, esta manhã disse que tinha sido uma frase infeliz e que ninguém estava livre de dizer uma frase infeliz.

Desculpabilizou-o de alguma forma.

Exatamente. Mas enfim, não satisfeito com isso, foi atacar os autarcas para dizer que é culpa dos autarcas que as obras de reconstrução das casas afetadas pelas tempestades não se concretizem mais rapidamente. E os autarcas que viram os seus municípios completamente devastados. Se alguém consegue imaginar que são os autarcas que estão a arrastar os pés na reconstrução. Parece-me evidente que não é verdade, não faz sentido absolutamente nenhum. Basta pensar que um autarca é interpelado na rua pelo seu munícipe que ficou sem telhado. Os munícipes não têm acesso ao ministro, mas têm acesso ao presidente da Câmara. Mais parece Castro Almeida a sacudir a água do capote, porque o que as autarquias podem contra o poder central? Ou melhor, o que podem mais do que o poder central? Se a reconstrução não está a correr bem, o que as Câmaras podem fazer mais? Têm mais verbas? Têm mais apoio? Não têm.

E recursos humanos às vezes também.

Não têm. Dizem que já estão no seu limite. Se alguém pode fazer alguma coisa, e as Câmaras estão a trabalhar incansavelmente há mais de um mês e meio, desde que aconteceu. É preciso que, de facto, alguém ajude as Câmaras e tem que ser o poder central. Não é dizer que as Câmaras não estão a fazer o seu trabalho, que isso é injusto.

Diria que, francamente, correndo o risco de errar, porque vou ter de confiar nas palavras do ministro. Não sei exatamente de onde é que vem, não vi onde é que estão os números que fazem esta comparação para dizer que é a primeira vez em 45 anos que as empresas têm mais dinheiro depositado na banca do que créditos feitos junto da banca. Apesar de tudo, percebendo e concordando, e até admitindo que provavelmente a Helena hoje tem mais razão do que eu, a crítica à banca, pelo menos, não me parece totalmente injusta. Para já, o sítio em que é feita, se é à frente dos líderes dos bancos, parece-me o sítio certo. Não é uma boca para o jornal, não é uma coisa dita porque está a ser pressionado na rua pelas pessoas, não é uma coisa dita numa entrevista qualquer. Acho que é dita num ambiente relativamente controlado, perante as pessoas, perante os agentes que também têm que aceitar as críticas, se for o caso. A banca, e ainda bem, tem apresentado lucros muito bons, mas apresentou lucros record no último ano. Pelo menos o BCP, o Novo Banco e a Caixa. E a Caixa aqui tem mais responsabilidades.

São coisas que vão e vêm. Foi uma conjuntura muito específica.

São coisas que vão e vêm, e ninguém está a censurar que a banca tenha lucro.

Que ganhe dinheiro.

Que ganhe dinheiro. A banca está lá para ganhar dinheiro. Mas o ministro também disse isso, e disse uma coisa que também me parece importante. Disse que a banca passou de um problema nos últimos 10 ou 15 anos a um ativo, que tem uma capitalização segura, e que é com outros fatores. Se a economia portuguesa ainda apresenta algumas coisas boas neste momento, essa é uma delas. É ter uma banca capitalizada, ter um desemprego baixo, ter uma dívida pública que tem vindo a descer.

Mas a verdade é que as empresas também têm muita liquidez.

As empresas têm muita liquidez?

Precisam menos.

Houve uma enorme redução. A razão pela qual também há tantos depósitos é essa, se embora umas têm, outras não têm. Houve uma enorme redução do endividamento das empresas. Toda a economia se desendividou.

Precisam menos de pedir dinheiro. Ainda bem, mas pelos vistos pedem.

O problema são projetos.

Pelos vistos pedem.

É que não têm mérito.

Segundo o ministro, queixam-se de o pedirem e de apesar de haver garantias públicas de 80%, sentirem uma atitude sempre demasiado prudente ou retirada da parte da banca.

Que era uma coisa que normalmente nós deveríamos elogiar.

É prudência da banca. O dinheiro que eles emprestam é nosso.

E quando não há prudência, as coisas podem correr mal, como já correram no passado.

De acordo, mas acho que o que o ministro queria sinalizar é que nem tanto ao mar nem tanto à terra. É muito bom que a banca tenha lucros e seja equilibrada, mas particularmente no caso da Caixa Geral de Depósitos, que é verdade, é extraordinário que dê os lucros que tem dado, quase 2 bilhões de euros. Mas na minha perspetiva, um banco público tem de servir para financiar a economia real.

Eu não consigo concordar nada contigo.

Não concordas nada que o banco público sirva para financiar a economia real?

A economia real, todos eles financiam. O problema é que eles não podem financiar, não devem. É tipo para nosso bem, para o bem da economia, para não se andar a alimentar projetos que são irrealistas ou que não são rentáveis e que captam recursos, mas não são rentáveis. Não se pode estar a emprestar. Foi isso que aconteceu na era de José Sócrates, investir em setores estratégicos. Cada vez que falam em setores estratégicos, é melhor fugires.

Não sei, acho que estamos a falar de megainvestimentos que foram, de resto, iniciativa do próprio governo, do governo de Sócrates.

E que depois obrigaram a Caixa a financiar, e depois deu no que deu.

Exato, estamos de acordo, mas se é desses megaprojetos que estamos a falar, não foi isso que entendi da parte das empresas não capitalizadas que aqui estamos a dizer. Imagino uma coisa bem mais pequena do que esses superprojetos. Mas se é isso, dou-te toda a razão. Agora, acho que fica nesta história por perceber duas coisas: que números são estes dos 45 anos, porque acho que se isso for verdade, indicia alguma coisa, seria estranho que em tantos cenários que já passámos, económicos, em 45 anos, fosse assim.

Eu não fui verificar, mas vamos esperar.

De que projetos estamos a falar.

Vamos deixar as notas para a segunda parte. E se os nossos ouvintes acham que a conversa estava boa, eu só posso dizer que na segunda parte ainda vamos falar de terminais rodoviários. Atenção, terminais rodoviários

Segunda parte de "E o Vencedor É", com Judite de França, Helena Garrido e o Alexandre Borges. Ficaram notas por atribuir à prestação do ministro Castro Almeida. Alexandre, queres começar tu?

Vou ser trucidado pelas minhas companheiras de painel a seguir.

Nunca.

Sim, deste-me assim em sacrifício. Onde está a solidariedade masculina quando precisamos dela? Eu, apesar de tudo, concentrando-me só na parte da banca, não acho que o ministro esteja destituído de razão e dou-lhe 13.

E a Judite?

Eu vou me recentrar, sobretudo, na questão dos autarcas e dou-lhe um sete.

E Helena?

Eu dou-lhe um quatro.

Sem piedade.

Este tipo de mensagens são terríveis.

Até doeu.

É nós que somos o Castro Almeida.

Castro Almeida, que é nosso convidado amanhã, aqui no Explicador às 21h10, na Rádio Observador. E Judite França, queres falar sobre António José Seguro, que pegou na pistola, apontou e falhou?

E saiu um prego. Não saiu um tiro, saiu um prego.

Exato. Saiu aquelas bandeirinhas a dizer: "Bang!".

Exato. Porque ontem, António José Seguro tinha feito umas críticas a atirar ao Parlamento e aos partidos, e o Observador fez uma peça a explicar que o novo presidente da República apontou o dedo ao alvo errado, porque apontou o dedo ao Parlamento, falando no atraso do funcionamento de uma comissão técnica independente que foi aprovada, e foi votada, e vai ser constituída para avaliar os incêndios do verão de 2025. E em vez de ter apontado o dedo ao Parlamento, devia ter apontado o dedo aos reitores das universidades e aos politécnicos, que também têm de indicar quatro nomes para este grupo de peritos e que ainda não fizeram.

Têm muito o que fazer.

Têm muito o que fazer, estão muito ocupados. O gabinete do presidente da Assembleia da República respondeu ao Observador e explicou que já foram indicados os nomes dos grupos parlamentares, da Associação Nacional de Municípios e a Associação Nacional de Freguesias. Portanto, todos já fizeram o seu trabalho. Quem falta fechar são os quatro peritos do Conselho de Reitores das Universidades e outros dois do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Bom, e eu acho que assim se perde uma boa oportunidade pra gastar a primeira bala, e para causar uma boa impressão, porque de fato, atirar imediatamente ao Parlamento e aos partidos políticos como grandes responsáveis por uma coisa pela qual não são de todo responsáveis, indica que António José Seguro não se preparou. E tem que se preparar pra uma coisa destas. É a primeira vez que vai falar, é a primeira vez que vai apertar com o poder político, tem que ter a certeza do que está a dizer. Não pode falhar numa coisa destas. O Observador conseguiu esta informação falando com o gabinete do Presidente da Assembleia da República. Com certeza que o António José Seguro ou alguém do seu gabinete podia ter feito a mesma chamada, pra ter a certeza do que é que se passava. Partiu do princípio que o problema era do Parlamento e dos partidos políticos. Não é um bom começo. Objetivamente, não é um bom começo. Não é um bom começo. E há um ditado popular, vou ver se consigo dizer bem, que é: "Entradas de leão, saídas de sendeiro." Portanto, penso que António José Seguro é muito prudente, excessivamente até prudente. Veja se tentou não comentar em cima da hora, por exemplo, o colapso das negociações da legislação laboral, mas comete de fato aqui um erro de palmatória, que é não se ter informado devidamente sobre o que se passava com essa comissão, embora eu perceba que seja um bocadinho chocante que uma comissão de um acontecimento, já vai quase num ano, ainda não esteja constituída. Daqui a pouco é preciso constituir a próxima comissão. Mas também me parece que não lhe saiu bem.

Querem dar já uma nota?

Eu vou dar um oito ao António José Seguro. E é porque estou a ser simpática porque está a começar.

Helena?

Eu dou-lhe um 10. Para um princípio.

E o Alexandre?

Eu quero é falar de autocarros.

Pois, eu estou desejoso de falar do terminal rodoviário.

Não vá o senhor falar de autocarros.

Porque o que se passava, e em princípio vai deixar de se passar no terminal rodoviário de Sete Rios, em Lisboa.

Pode não se deixar de passar.

Exatamente.

Pronto. É que o que está aqui em causa é um monopólio de uso.

Pois, é que tu gozaste com o meu tema, mas eu vou tentar defendê-lo com uma coisa mais sexy desta tarde.

E é bastante sexy.

Isto é a Guerra dos Tronos, mas a possível, a que conseguimos ter cá, que é a guerra dos autocarros.

Foi uma das várias notícias que prenderam muito a minha atenção.

Exatamente. Das muito poucas, que prendeu mesmo a sua muito.

Alguma, mas não sabes que eu estou.

Tu estás por defeito profissional, tens que ter um espectro mais aberto. Mas é uma coisa Transformers, mas só com autocarros. Vamos imaginar. FlixBus, Rede Expressos, uma de cada lado.

De calções azuis. Não, calções verdes.

Pode ser.

FlixBus, calções azuis.

Ai, são azuis?

Rede Expressos, exatamente. Alemã versus Portugal, certo?

Sim.

Não escolham já o lado que querem estar a partir destes elementos. Sim, o Tribunal Administrativo de Lisboa

Deu ontem razão à FlixBus neste caso e ordenou a concessão imediata do terminal de Sete Rios, do espaço requisitado pela FlixBus no terminal de Sete Rios, e que está totalmente ocupado pela Rede Expressos, e acrescentou, limitada à capacidade efetivamente disponível no terminal. Isto é um caso que remonta, vamos ver. No verão de 2019, o governo de então decidiu-se, e bem, pela liberalização deste setor dos serviços de transporte rodoviário públicos intermunicipais. Isto é, até aqui só havia autocarros pra viajar para o estrangeiro ou dentro dos próprios municípios. O serviço intermunicipal não estava liberalizado. Em 2019, isto foi decidido. Desde então, a FlixBus, que está em todo o mundo, vale a pena dizer pra quem conhece da televisão, dos filmes, a Greyhound, que aparece muito no cinema americano, até a Greyhound é hoje em dia da FlixBus.

E tem comboios também na Europa.

Exatamente. Conseguiu chegar ao mundo inteiro, só tem uma certa dificuldade em entrar em Sete Rios. Por que tem uma dificuldade em entrar em Sete Rios?

A esta hora também deve estar difícil.

Deve estar difícil, lá estão as 17 entradas e saídas, é isso mesmo. Em Sete Rios, onde se dá o caso de haver, vale a pena também lembrar, um terminal provisório, construído em 2004, que é provisório há 22 anos.

Portugal tem aquela capacidade de construir coisas provisórias com caráter definitivo.

Exato. Devíamos também ter isso como património, algo entre o material e o imaterial da UNESCO, consagrado. Reparem, nós não conseguimos fazer um terminal rodoviário, quanto mais um aeroporto. Às vezes tenho saudades dos grandes investimentos públicos em Portugal, confesso. Às vezes arde essa fraqueza. É que passamos pra isto.

Estamos do 80 pro 8.

Do 80 pro 8, tal e qual, é mesmo isso. Este terminal, que é público, tem uma concessão entregue à Rede Expressos, que calha ser a entidade gestora do terminal e o operador que lá opera, passe o pleonasmo, e portanto, decide em causa própria sobre quem é que lá pode entrar. A FlixBus, em 2023, não conseguindo lugar naquele terminal, porque a Rede Expressos diz que está tudo ocupado e que não há condições para mais, recorreu à AMT, à Autoridade para a Mobilidade e Transportes.

Ao regulador.

Ao regulador, exatamente. O regulador demorou dois anos a decidir, mas lá conseguiu um bocadinho de tempo. E no ano passado, em 2025, decidiu a favor da FlixBus. Tudo resolvido? Não, como vimos. Portanto, há um regulador, mas pelos vistos, há um governo que decreta uma coisa que não é aplicada, depois há um regulador que decreta uma coisa que também não é respeitada, e então é preciso ir pros tribunais. O tribunal decidiu ontem, então pelos vistos, sim, senhor, não, a FlixBus mais uma vez tem razão, pode ir. Está resolvido? Não, não está. A Rede Expressos já emitiu uma nota dizendo que não depreende da sentença do tribunal que esteja obrigada a ceder espaço imediatamente, porque se agarra a esta passagem em que a sentença diz: "Limitada à capacidade efetivamente disponível no terminal", pra continuar a dizer que não existe capacidade, nem de espaço, nem de tempo pros 96 horários pedidos pela FlixBus. Já agora, há também 12 pedidos pela BlaBlaCar, uma empresa francesa. E aqui estamos nós, e eu vejo o caso, mais do que no fim disto, de querer dar uma nota à FlixBus ou à Rede Expressos. Eu acho que isto muitas vezes acontece em Portugal, tenta-se liberalizar e privatizar, mas depois há uma empresa privada que se aproveita, sobretudo do seu conhecimento do terreno e de ter recebido, em primeira instância, o monopólio.

Porque não temos reguladores fortes.

Exatamente. E depois também agarra-se ao conhecimento que tem do funcionamento da lei em Portugal, provavelmente pra esperar que simplesmente os concorrentes desistam.

Que nada aconteça.

Que nada aconteça. Neste caso, e vejo isto como um exemplo de tanta coisa que está mal entre nós, do excesso de burocracia e do que a reforma do Estado podia fazer ou não. Nós temos o ministério da tutela, temos tribunais, temos não um, mas dois órgãos reguladores, temos a AMT e temos a Autoridade da Concorrência.

Exatamente.

E ainda temos uma outra coisa, que não é um órgão regulador, mas que faz aquilo que eu às vezes me pergunto: para que serve a AMT, por exemplo? Se temos um IMT, que é o Instituto para a Mobilidade dos Transportes Terrestres, que é quem emite as licenças, as cartas de condução, de táxi, de mercadorias, essas coisas todas. A AMT não serve, portanto, pra licenciar. A AMT não serve pra investigar, como se viu no caso do Elevador da Glória, em que anunciou uma investigação da qual depois disse que afinal não fazia sentido, porque já estava o Ministério Público a investigar e a que ri. E ainda há o gabinete para os acidentes rodoviários, etc, que emitiu o único relatório preliminar que conhecemos até agora. E também não serve pra decidir. A AMT, como vimos, porque decidiu uma coisa o ano passado, que não foi colocada em prática, e ninguém ligou nenhuma.

Ninguém liga nenhuma e ela não tem capacidade de obrigar a cumprir a decisão.

Portanto, pra que serve esta imensa maquinaria burocrática em Portugal, quando, no fundo, eu volto ao ponto inicial. No verão de 2019, foi decidida a liberalização deste setor. Estamos em 2026, sete anos depois, a FlixBus queixa-se não só disto em Sete Rios, como em Coimbra, nas Caldas, em Fátima e em mais um ponto que eu peço desculpa, agora não me recordo qual é, e vai avançar com queixas também nestes terminais. Sete anos depois, aqui estamos, continuamos à espera do autocarro.

E em Lisboa, quem utiliza FlixBus, penso que terá de apanhar os autocarros na Gare do Oriente.

Na Gare do Oriente.

Na estação. Aí é o único sítio. Helena, eu acho que o pior de tudo isto é que nada disso nos surpreende, não é?

Pois. Eu lembro-me sempre daquela Da regra Marcelo Rebelo de Sousa: existe a lei? Existe. Cumpre-se? Não. Acontece alguma coisa? Não. É sempre na famosa intervenção que ele fez sobre a interrupção voluntária da gravidez.

Muitas vezes, ou quase sempre, quando é o Estado o protagonista. Porque o cidadão não tem essa capacidade de dizer: "Ok."

"Eu não faço." Mas a quantidade de exemplos que começam a vir ao de cima sobre regras que estão estabelecidas e que as pessoas, as empresas não cumprem e não lhes acontece absolutamente nada, começam a proliferar. Nós esta semana tivemos uma outra história, que foi a história de umas casas que estão a ser construídas num terreno da NATO. E parece que ninguém é responsável. E tudo isto revela bem que há aqui um problema gravíssimo, que começa a ser gravíssimo, de desmoronamento da estrutura do sistema. Uma coisa é nós fazermos uma graça e dizer: "As regras em Portugal são mais ou menos para cumprir", como eu vejo às vezes pessoas mais novas explicarem aos estrangeiros. Amigos, as regras em Portugal é mais ou menos para cumprir. Isso é uma brincadeira do estacionamento ou dos quatro piscas, que toda a gente acha que se pôr os quatro piscas, pode estacionar onde lhe apetece.

Às vezes também é de fazer uma parede, ou seja, não se pode fazer aquela parede, faz-se a parede ou abre-se uma janela e depois logo que se resolve.

Exatamente. E não acontece nada.

É que depois de estar feito, logo se resolve, porque ninguém vai mandar abaixo.

Este caso concreto é um caso especialmente grave, porque há um erro logo à partida de concessão da infraestrutura ao operador. Hoje de manhã, eu penso que era o Paulo Ferreira, que dava o exemplo de que era a mesma coisa que entregar o aeroporto à TAP.

E a TAP dizia: "Sou nós é que aterramos aqui."

Exato. É um belo exemplo. Isso é já um erro de partida, mas não era insolúvel, porque a rede de distribuição de eletricidade, por exemplo, é a rede de que tanto falamos, neste momento ainda está nas mãos da EDP. E não é por isso que ela deixa de abrir o sistema às outras distribuidoras de eletricidade. E esta nota, eu para já daria uma nota ao Humberto Pedrosa, começo eu.

Força, Filomena, por favor.

Quatro ao Humberto Pedrosa, mas um zero às entidades incapazes de impor as regras.

Exato. O Humberto Pedrosa, neste caso, sendo o CEO da Barraqueiro, que é o acionista principal da Rede Expressos. E eu diria, de facto, também ficaria pelo zero a esta nossa incapacidade de resolver, de colocar mais e mais burocracias no processo e não conseguir resolver. E receio que este seja um péssimo sinal para quando algum dia realmente se tentar efetivar a liberalização também do setor ferroviário. Do que é que algum privado vai conseguir fazer nas linhas. Sendo que no limite é isto, quer dizer, apesar de tudo.

Vai conseguir parar a estação.

Exatamente, isto no fim tinha que chegar ao cliente, ao utilizador. E a verdade é que não é por ser a Flixbus, é qualquer privado que tivesse. Estes privados que chegaram nos últimos anos a Portugal, tendo que parar noutros terminais, conseguiram descer muito o preço dos bilhetes e aumentar muito a procura dos autocarros em Portugal.

E amanhã mais Investorettes nas manhãs, depois das 08:30 da manhã, com os habituais José Manuel Fernandes, Bruno Vieira Amaral, Paulo Ferreira e amanhã, quinta-feira, a convidada especial é a Filomena Martins.