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Começa agora o "Youven Soré". Além de nos ouvir na rádio, também nos pode acompanhar com vídeo em direto através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta manhã estão conosco o José Manuel Fernandes e também o Rui Pedro Antunes.

Esta manhã falamos das políticas públicas de habitação, de jobs for the boys, mas começamos, naturalmente, pelo mau tempo, pela tempestade que atingiu sobretudo o centro do país e que, Rui Pedro, também afetou a campanha eleitoral.

Sim, queria falar um bocadinho sobre essa resposta política. O Miguel já falou no Bom Dia Vilão sobre a resposta do governo, em particular do primeiro-ministro. Há sempre uma postura de wait and see, ver qual é a dimensão do estrago pra depois haver alguma ação mais profunda.

Hoje há Conselho de Ministros, pode ser que entretanto saia alguma coisa.

O que aconteceu no verão foi que o primeiro-ministro acabou por interromper as férias no dia em que houve a primeira morte.

Nos incêndios. Muito criticado na altura.

Na altura. E só ontem, pelo menos à hora em que ele falou, achavam que eram quatro ou cinco pela primeira vez e, portanto, já havia um drama, uma tragédia suficientemente grande para exigir talvez um outro tipo de resposta. Nesse aspecto, às vezes, vale mais ter excesso de zelo do que o contrário e parece-me que desejavam mais ação, como aliás o Miguel Pinheiro já disse. Por outro lado, a campanha eleitoral das presidenciais parece que está continuamente, a segunda volta, a ser suspensa ou passada pra segundo plano, primeiro pelos próprios candidatos, que não parecem ter grande entusiasmo em fazer uma grande mobilização pública. Até ver, obviamente que as coisas agora vão, hoje até era extra tempestade, um dia em que aumentava significativamente a agenda. Por exemplo, o António Rêgo Securo tinha quatro ou cinco ações, tinha e tem, e também André Ventura, os dois definiram finalmente as agendas pros próximos dias, com mais algumas ações, até pra começar a arrancar pro fim de semana e depois ganhar balanço pra segunda semana, mas tá tudo muito parado. Não tenho memória, nasci em 86, da segunda volta, a única vez que houve, nós estávamos todos meio a perceber o que vai ser. Havia aqui até às vezes duas teorias, uma que ia ser uma loucura, iam estar sempre na estrada, ia ser até o último voto e outra era que se calhar não, tavam tão cansados da primeira volta e é um bocadinho isso que tá a acontecer. Acho que os candidatos tão cansados, os portugueses tão cansados.

E não há muitos indecisos, será isso também?

Sim, há uma saturação mediática.

Também, mas eu acho que o cenário que se coloca do resultado das eleições vai sendo confirmado dentro daquilo que são sondagens. Atenção, as sondagens tão todas mais ou menos alinhadas. Se tiverem erradas, são todas erradas. Eu acho que desmobiliza de alguma maneira. Ao contrário do que aconteceu em 86, porque a vitória de Soares foi por uma unha negra, como se diz em bom português, um ponto e meio, dois pontos a separar os dois candidatos. Neste caso, as coisas parecem relativamente decididas, e isso é de alguma forma desmobilizador. Uns porque vão vendo a vitória antecipada, outros porque acham que independentemente da velocidade a correrem agora, já não chegam lá de alguma maneira.

Claro. Eu tava a inclinar o plano pra ir a esse ponto, e depois ontem, naturalmente, o mau tempo tomou conta do espaço midiático e, portanto, depois dum dia em que foi debate, está a demorar ainda mais a arrancar. Mas ia chegar ao ponto final, que era: os dois candidatos falaram no mau tempo, e isso parece-me bem, com preocupação, etc. Genericamente, depois, houve aqui uma pequena nuance que eu acho que mostra a diferença de quem pode estar mais bem preparado pras circunstâncias. António José Seguro disse que iria ponderar e ia ver onde é que iam os sítios. E é verdade que isto até cola a sua imagem de alguma indecisão, ponderação, mas é uma postura, uma posição muito mais avisada do que a de André Ventura, que hoje ou ontem à noite ainda, já tinha previsto pra agenda pras 16h02 uma visita a um local qualquer no distrito de Leiria, ainda não identificado, aliás, ainda não foi identificado ainda esse local, pra visitar as áreas. Não estamos aí, ou seja, não é o momento de ir visitar as populações.

Mas ele vai hoje?

Ele vai, às 16h00 está marcado.

Ok, está marcado. Ontem assumi pelas declarações dele que ele ia ter um compasso de espera pra saber quando é que era oportuno. Afinal, não resistiu à tentação.

Não, e ainda ontem à noite ficou pré-agendada a saída, tem hora e tudo, é às 16h00. Ele vai andar pelo distrito de Coimbra e, portanto, depois fará uma deslocação a Leiria. Parece-me que Ainda é cedo para visitar. Não estou a dizer que não mostre, não alerte para essa situação a visita dos candidatos presidenciais a essas zonas. Principalmente, há uma grande atenção mediática quando as coisas estão a acontecer e passado dois ou três dias, as pessoas muitas vezes ainda não têm condições, tiveram prejuízos elevados, não sabem o que fazer e é preciso chamar a atenção mediática. E os candidatos presidenciais podem aproveitar a segunda semana para isso, quando as coisas estiverem estabilizadas, quer em termos de socorro, quer em termos de restabelecimento da vida normal das pessoas.

Até de comunicações, porque será muito difícil fazer a cobertura desse momento, a cobertura jornalística, porque está a ser muito difícil ter a comunicação com os nossos jornalistas.

Daqui para o apagão é que às vezes passa-se num distrito ou num concelho e as pessoas que estão lá e depois podem sair. Ou seja, não está o país todo. Mas para as pessoas também perceberem um bocadinho o que estão a passar e o apagão foi generalizado, quem não está nessas zonas, parece-me que basta projetar aquilo que sentiram no dia do apagão, mas de forma mais prolongada, porque há ainda centenas de milhares de pessoas sem eletricidade e, portanto, também isso exigiria talvez uma outra solenidade por parte do primeiro-ministro. Mas o ponto que eu queria ir é-

E rapidamente, Rui Pedro. Estamos a ficar sem tempo.

É que parece mais avisado o que o candidato António José Seguro fez do que propriamente André Ventura, porque hoje é muito cedo para ele ir para o terreno. Ele disse que não queria atrapalhar, mas acho que não há forma de não atrapalhar indo lá hoje.

Claro. Se o fizer, já agora, deixar aqui um conselho, tal como aconteceu com os incêndios, ele colocou naquele ramo para apagar o incêndio, basicamente foi ele que apagou aquele incêndio.

Agora não vale a pena tentar parar o vento com as mãos.

Não, mas eu acho que ele deve levar um copo ou um jarro ou qualquer coisa para ajudar as terras alagadas. Uma colher de sopa, quem sabe. Que não se esqueça de levar esse utensílio e de filmar para o TikTok, já agora.

Rui Pedro, vais dar nota a André Ventura?

Sim, posso dar um dois a António José Seguro por ser mais ponderado. Não lhe dou mais, porque depois também passa sempre aquela ideia da ponderação ponderada. E dou um oito a André Ventura, porque acho que é muito cedo para ir ao terreno.

Ficam as primeiras notas dadas. O Bruno quer trazer aqui, eu concluo que são histórias de jobs for the boys?

É, jobs for the boys.

And girls.

And girls. É um mal antigo.

Para quem não se lembra, uma expressão que António Guterres tornou muito célebre quando foi eleito primeiro-ministro.

Dizendo que com ele não havia.

Com ele não havia.

Não havia, mas continua a haver sempre, independentemente de partidos e de acordo dos governos. E mesmo quem não está no governo, quem depois assume outras responsabilidades. O Chega tem sido o grande campeão da denúncia da corrupção, do compadrio, mas o que vemos pelos primeiros sinais é que não é diferente dos outros, é apenas mais recente. Esses sinais dão a entender que quando chega a lugares de poder, o comportamento não é diferente e lá aparecem os tachos para amigos, familiares, conhecidos. Nem sempre é crime e toda a gente percebe isso. Aliás, raramente é crime. No caso da irmã do presidente da Câmara Municipal de Albufeira, e sobre essa câmara, é preciso dizer que o próprio Rui Cristina, o presidente da câmara, quando foi eleito, falou com o Observador e disse que sabia que ia estar sob escrutínio. Talvez a câmara mais importante que o Chega conquistou. E é natural, ele próprio admitiu isso. Tudo aquilo que o Chega fizer nessa câmara tem um impacto diferente, até para avaliação de como é que o partido se comporta quando tem responsabilidades executivas, neste caso, numa câmara. Nesta câmara, a irmã do presidente pediu mobilidade. Ela é técnica superior na Câmara de Loulé, pediu mobilidade para a Câmara de Albufeira, para o gabinete de apoio à vereação. Lá está, numa câmara que é curiosamente liderada pelo irmão. Haverá aqui algo de ilegal? Possivelmente não, é muito provável que não.

Se a contratação for feita de acordo com os procedimentos normais, não é ilegal.

Mas ter a irmã a trabalhar no gabinete de apoio à vereação será uma coisa tão transparente quanto isso? Está de acordo com o discurso que nós ouvimos tantas vezes ao líder do Chega.

É legal e imoral. Acho que é um bocadinho.

É eticamente questionável, pelo menos. E também temos visto no caso da Câmara de Lisboa, outros exemplos, aliás, que resultaram na saída, na desfiliação da segunda vereadora do Chega. Havia aqui o caso da contratação da filha do coordenador nacional autárquico do Chega, que foi contratada como jurista, ela que é recém-licenciada em Direito. Há distribuição também de lugares para quem concorreu nas listas do Chega. Por exemplo, o caso de uma senhora cabeleireira, que era o quarto nome da lista à freguesia de Arroios e que agora vai assessorar a área dos espaços verdes. Isto tem sido noticiado pela revista Sábado. É um comportamento comum em todos os partidos. E depois há tachos e tachos. Também a revista Sábado fala do caso da mudança nas administrações das ULS por este governo. Desde outubro de 2024, foram 19 as mudanças e em 14 delas foram para lá militantes, autarcas e gestores ligados ao PSD. Não será também crime na maior parte destes casos, mas, por exemplo, o Xavier Barreto, o presidente da Associação dos Hospitais, disse que em alguns casos não se percebe porque havia bons resultados. As administrações estavam a apresentar bons resultados, como é no caso de São José e em Coimbra. Ora, o que é que isto demonstra? Que de facto há muito por fazer, e há muito por fazer nestes casos da administração pública, em que continua a imperar esta regra dos jobs for the boys, e há muito por fazer não só no discurso, mas também na prática e daqueles partidos que se propõem renovar e mudar completamente essas práticas

E que, na verdade, quando têm responsabilidades, mantêm o mesmo tipo de prática.

A tua nota, Bruno.

É um cinco.

Um cinco. Tu queres ir por aí, não é, Paulo?

Sim, muito rapidamente também, o Bruno já explicou o que se passa. O Bruno acabou de dizer que há partidos que têm o discurso e para chegarem à prática basta começarem a ter poder. É um clássico, não vale a pena estarmos com coisas.

Estás a dizer que são todos iguais.

De alguma maneira. Então e cá está, o Chega a ser igual aos outros. Ainda em janeiro, André Ventura acusa o PS e o PSD de, e cito: "Distribuírem lugares e tachos por toda a gente". Certo, é verdade. Ele também o está a fazer. E portanto, bastou começar a ter poder para isso, neste caso, nas autarquias. E se chegasse ao governo, ia ser a mesma coisa. E nós encontramos exemplos desses também noutro espectro político. O Bloco de Esquerda e a questão das mães despedidas, foi só o Bloco de Esquerda estar numa situação de aperto financeiro para fazer aquilo que critica a qualquer empresa.

Quando confrontado.

Quando confrontado com a situação. O PCP também tem despedimentos.

Não só despedimentos e transferência de pessoas, por exemplo, que ocupavam lugares numa junta de freguesia e depois não são eleitas e aparecem a trabalhar como assessores noutra autarquia.

E, portanto, o grande problema de todos os discursos moralistas é este. Esse é um dos grandes problemas do Chega, é que vem e aparece como uma superioridade moral e ética, que acusa toda a gente de tudo. E agora, quando mete as mãos na massa do poder, tem práticas rigorosamente iguais ou piores ainda, em termos de percentagem de incidência do que os outros partidos. Portanto, mais vale não terem esse discurso altamente moralista em que acusam toda a gente.

E por isso uma nota negativa.

Sim, o Bruno deu cinco. Eu dou um quatro só para ser mauzinho.

Só para aqui apertar ainda mais. José Manuel, queres olhar para um barómetro, um estudo hoje divulgado e que tem a ver com uma pouca confiança em relação às políticas públicas de habitação que têm os CEO do setor da construção?

Sim, há dois ou três pontos importantes nesse barómetro. Esse barómetro basicamente é um estudo de uma fundação que faz um inquérito a quem constrói casas, no fundo. A quem constrói casas, a quem constrói infraestruturas. E tem dois aspetos que eu queria muito rapidamente destacar. O primeiro é, de facto, a pouca confiança que eles têm relativamente à política de habitação. E percebe-se que em boa parte isso sucede por causa dos solavancos que essa política tem tido ao longo dos últimos anos. Ainda esta semana tivemos um indicador muito claro disso. Repara, aquela política Primeiro Direito, que foi lançada por António Costa em 2017, portanto há nove anos, eu sei que ela só entrou verdadeiramente em vigor um pouco depois, mas foi lançada em 2017, previa passar o parque público, como se dizia na altura, que era a solução milagreira para tudo, de 2% para 5% do total de casas construídas. Ao fim de oito anos, construiu quantas casas? Bem, 1500. É ridículo, como é óbvio. É ridículo, mostra que houve muitos solavancos, muitas mudanças políticas. Parece que finalmente, com a ajuda da PRR, alguma coisa está a ser feita, mas o custo da habitação pública está tão elevado que muitas vezes os concursos ficam desertos. Sabemos que, deste ponto de vista, apesar de haver dinheiro do PRR, isso não resolveu os problemas. O Primeiro Direito basicamente ajudou a reabilitação. Já não é mau. Muitos dos casos de reabilitação eram habitação pública que estava em más condições e, portanto, foi reabilitada. Ainda bem. Só que não aumentou o parque. O parque continua a ser o mesmo e nós sabemos que um dos problemas do preço da habitação é o custo do parque. O que os empresários dizem é que o único setor que está, de facto, com dinamismo, apesar de tudo, é o setor da habitação privada. Eu nem sei o que hei de dizer. Toda a gente achava que era aquilo que não ia acontecer. Apesar de tudo, tem algum dinamismo. E depois identificam um dos problemas que também, curiosamente, está sempre fora do debate público, que é: falta mão de obra, mas não falta mão de obra desqualificada, essa há. Falta é mão de obra qualificada. E sabemos que para construir o que quer que seja, ou mesmo para reabilitar, há um conjunto de profissões nesta área. Quando às vezes temos uma pequena avaria em casa, quando às vezes precisamos de uma pequena reparação, sabemos que é difícil e caríssimo contratar bons profissionais. E desse ponto de vista, raramente este assunto é abordado, diria mesmo que nunca, designadamente formas de conseguir. Agora não temos, mas daqui a uns tempos possamos passar a ter. Nós já tivemos aqui, até em programas aqui na rádio, um antigo contra-corrente sobre habitação, um antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, que retrata o que se passou nos últimos 20 anos e como este setor foi destruído, em boa parte porque houve exageros, em boa parte porque a crise bancária foi verdadeiramente um tsunami, e também porque não há ninguém que resista a um setor que chegou a construir 120 mil habitações por ano, e houve uma altura em que construía pouco mais de 10 mil e agora está nas 20 mil. E assim não vamos lá.

José Manuel, vamos precisar muito de reconstrução agora numa zona do país.

Sim, ajuda as empresas, mas não ajuda o problema. Quer dizer, ajuda as empresas e seguramente que vai ajudar todos aqueles que ficaram em situação dramática, mas o nosso problema de falta de oferta não é resolvido por repor em condições aquilo que foi estragado. Precisamos mesmo de coisas novas. Acho que vale a pena olhar para aquilo que dizem quem está no terreno e também por ser outra coisa que também é relevante, e acabo por aqui, porque já estamos em cima da hora, que é a maior parte destas empresas, quase todas essas empresas, são empresas muito pequenas. E portanto, são empresas que não conseguem integrar tecnologia, designadamente tecnologia, por exemplo, inteligência artificial, mais moderna. E nós em Portugal temos um horror às grandes empresas. E as grandes empresas é que conseguem, nessas circunstâncias, não só pagar melhor, como integrar tecnologia, como aumentar a produtividade, como fazer tudo aquilo que nós dizemos que nos falta, mas depois não deixamos que seja feito porque achamos que tudo isto se resolve com pequenos negócios, porque os grandes têm lucros muito grandes e isso é horrível. Eu dou a este estudo uma nota positiva, estou a dar notas positivas, que é para não ir para o lado negativo.

Vês, é possível.

É possível. Dou uma nota positiva à existência deste inquérito e deste estudo feito pela Fundação Casais. E dou-lhe um 14. A ver se isto faz abrir as pestanas, abrir os olhos de algumas pessoas, que estão literalmente a olhar para outros lados e há discussões públicas que só veem fantasmas, em vez de verem os reais problemas.

Nada como conhecer a realidade. Um 14 para este estudo, e o "Venceré" regressa mais logo na tarde política.

Que começa a seguir ao jornal das 18h. Esta quinta-feira dão notas a Judite França, a Helena Garrido e o Nuno Gonçalo Poças. Assim que acabar o e o "Venceré", chega Alberto Gonçalves com a Ideias Feitas. Começa às 18h50 na tarde política.