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Miguel Pinheiro está também conosco em mais uma edição de "E o Vencedor É...". Oito e meia, arranque para "E o Vencedor É...". Esta rubrica da Rádio Observador tem estado em destaque nas últimas semanas aqui num olhar e numa avaliação aos candidatos presidenciais. As eleições já lá vão, mas este formato vai manter-se aqui nas manhãs 360, porque todos os dias temos protagonistas na atualidade que merecem notas de 0 a 20. "E o Vencedor É..." hoje com José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro, Rui Pedro Antunes. De resto, juntam-se aqui à equipa das manhãs 360 com a Judite França, Paulo Ferreira e Carla Jorge de Carvalho.

Então bom dia a todos. Marcelo reeleito, esquerda a cair, a direita a reconfigurar. Vamos às notas depois de uma grande noitada que todos tiveram. José Manuel Fernandes, e o teu vencedor é?

Acho que o meu vencedor é inevitável, é Marcelo Rebelo de Sousa e com uma nota alta, 18.

Pensaste no 19, mas reconsideraste.

Não, eu ia dizer 18, mas disse saiu um 19. Era uma tentação. Bem, mas por que uma nota alta? Eu acho que é uma nota alta, e não é um 19, porque a abstenção, apesar de tudo, foi alta, mas é uma nota alta porque apesar dessa abstenção alta, Marcelo consegue ter uma votação boa, uma votação acima de 60%. O risco que Marcelo corria era com uma abstenção alta, como foi, ter uma votação mais baixa e inclusivamente correr o risco de ir à segunda volta. Mas numa situação em que muitas pessoas ficaram em casa, em que muitas pessoas não foram votar por razões que podem ter a ver com a pandemia ou por razões que podem ter a ver com estarem convencidas que Marcelo Rebelo de Sousa estava reeleito, mesmo assim, ele conseguiu aumentar a sua votação relativamente há cinco anos, conseguiu ter uma das melhores votações de sempre de um presidente da República, conseguiu ultrapassar a fasquia dos 60%, evidente que ficou longe da votação de Mário Soares em 1991.

Mas não havia a pandemia.

Amém, mas não havia pandemia, não havia uma quantidade de outras coisas que existem hoje. E depois há outra questão que eu também acho que é importante. Marcelo fez um bom discurso de vitória. E é mais uma razão para não dar 19. Fez um discurso de vitória que podia ter sido um discurso de candidatura, em muitos aspectos, porque revelou o seu programa para o segundo mandato, um programa que os portugueses votaram em boa parte desconhecendo, porque ele não o foi revelando durante a campanha.

Mais do que devia, José Manuel, ele devia ter feito esse discurso quando apresentou a candidatura.

Devia ter feito esse discurso quando fez a candidatura, fê-lo agora e ficámos a saber que pelo menos nas intenções, ele vai ser mais exigente ou promete ser mais exigente e mais rigoroso e tem um programa de mais intervenção para este seu segundo mandato. Trouxe ali um caderno de encargos para o Executivo cheio de rigor e de pontos que é necessário cumprir e não trazendo bicadas diretas, como houve noutras ocasiões, trouxe uma quantidade de pontos em que veio dizer aos portugueses que não podemos estar assim daqui por alguns meses, daqui por alguns anos, temos definitivamente que mudar para melhor.

Paulo Ferreira, esperavas que este discurso de vitória tivesse acontecido como discurso de apresentação?

Era mais lógico que quando se apresenta uma candidatura ou uma recandidatura, mesmo já toda a gente conhecendo Marcelo Rebelo de Sousa e seu exercício presidencial, que ele dissesse logo no início ao que vinha. Ok, pode sempre dizer: "Estou aqui há cinco anos, vocês já sabem com o que contam". De alguma forma, isso é verdade. Mas o discurso de ontem, que foi muito bom, de facto, tinha feito mais sentido, porque é muito programático, de facto. Tinha feito mais sentido tê-lo feito um mês antes, quando apresentou a candidatura. Mas de qualquer maneira, penso que é impossível hoje não concordar que Marcelo é o grande vencedor e que não tem menos de 17, como eu lhe daria.

É o teu vencedor, Paulo, só agora pra virarmos aqui o disco, ou não?

É o meu vencedor, claramente.

Vira o disco e toca outra.

Exatamente. E depois ele é o dono dos próprios votos, sozinho, sem máquinas partidárias.

Com o mínimo esforço.

Mínimo esforço, tem todo o mérito. Ele construiu a popularidade ao longo de muitos anos e agora está a tirar partido dela, pô-la a render de alguma maneira agora. E depois num país moderado, que é relativamente centro, bloco central, que não gosta de fricções nem de conflitos, é o país do vamos andando, que prefere ir aguentando algumas coisas que não correm bem, mesmo à míngua do país do que rupturas ou murros na mesa ou discursos mais duros, Marcelo ganha. E hoje é o pai e o avô simpático e afetuoso que o país tem, em termos políticos, e que provavelmente nunca teve. Mário Soares talvez se tenha aproximado disso, mas com outro perfil, claramente. Também era outro tempo, outro tempo de afetos. Depois toda aquela imagem de modéstia que ele passa, o desapego a bens materiais, a frugalidade, não há assessores ali à volta. As pessoas gostam disto. Ele conduz o seu carro, vai ao restaurante do bairro buscar o bitoque no dia da reeleição, janta sozinho. De facto, é quase imbatível.

Andar para todas ao cortejo é um pouco vergonha.

Porque é simpático para não pisar, entre aspas, as outras candidaturas, outros candidatos.

Paulo, estás a ir muito na linha do discurso de ontem do Rui Rio. Os portugueses são moderados, são do centro e é por isso que Marcelo vence.

Sem dúvida, portanto, é uma vitória do bloco central, Marcelo, basta ver de onde é que vêm os votos dele. Uma grande parte do PS, a maior parte do PS deve ter votado nele.

Sim, mas essa análise não é confirmar o discurso do Rui Rio, porque o discurso do Rui Rio é uma coisa diferente.

O Rui Rio tem dois pontos: um é desse, da estabilidade, e depois é a justificação também dos problemas, se o Chega cresce à custa do PSD, se cresce à custa da esquerda. Agora mudando um bocadinho de tema, esta vai ser a próxima batalha dos tifosi partidários de direita e de esquerda, que é: a culpa é tua, a culpa é tua. A esquerda a dizer que o crescimento de André Ventura se deve à fraqueza da direita e a direita a apontar pra o mapa, a falar do Alentejo e dizer que é da esquerda. E, portanto, enquanto andarem os dois campos nestas guerras de trincheira, André Ventura vai ganhando, porque isto é o sistema a funcionar de alguma maneira e ele está contra o sistema. E, portanto, eu diria que o crescimento de André Ventura, o aparecimento, neste caso, nas presidenciais de André Ventura, requer um bocadinho mais de ponderação pra se perceber o que é que está a falhar e por que os tais meio milhão de pessoas que de repente se descobre que levanta-se uma pedra da calçada e sai de lá um fascista. Não, não é bem assim.

Miguel, vira o disco e toca o mesmo? Tens o mesmo vencedor para apresentar hoje?

Sim, o grande vencedor da noite é Marcelo, não há nenhuma dúvida sobre isso. Agora, a minha grande dúvida é o que ele vai fazer com estes votos. O discurso de ontem indiciou que ele pode querer usar os votos para apertar com António Costa, foi o subtexto que saiu dali, mas eu não sei. Vou esperar para ver, porque acho que Marcelo tem a noção muito clara de que o seu poder se baseia na sua imagem, e a sua imagem se baseia realmente na afabilidade. Marcelo é popular porque é uma pessoa simpática, não apenas com os portugueses, com os eleitores, mas com toda a gente. É simpático com o governo, é simpático com o PC, é simpático com o bloco, é simpático com toda a gente. E ele sabe que se a sua imagem deixa de ser uma imagem de simpatia e passa a ser uma imagem de exigência, confronto e combate a António Costa, obviamente, vai perder uma parte significativa destes 60% de votos que conseguiu ontem. Eu não sei se ele vai resistir a tentar manter-se como unanimidade. Vamos ver, porque realmente o que saiu daquele discurso é um arregaçar de mangas em direção a António Costa. Não sei se ele vai conseguir levar isso até ao fim. Vamos ver. Pode ser que sim, pode ser que consiga, pode ser que não fique preso à popularidade.

E, portanto, o Miguel dá essa deixa, adivinhamos um segundo mandato de Marcelo diferente, tal como têm sido os segundos mandatos de todos os presidentes. Judite.

Sim, pensei a mesma coisa. Calha perfeitamente naquilo que eu queria dizer, porque ontem Carlos César, no discurso de fim de noite para se congratular com a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, dizia que o primeiro e o segundo mandato são iguais. Não são, nunca foram. E claramente, eu acho que isto era o que Carlos César queria, que entre o primeiro e o segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa não houvesse alteração. Mas há, e eu acho que vai haver, acho que Marcelo vai ser mais exigente, tem mais poder, e acho que a cooperação estratégica entre Belém e São Bento não vai ter a harmonia que temos visto. Até porque em termos de pandemia, de facto, Marcelo Rebelo de Sousa tem que ser mais exigente e de alguma forma pode agora, estando à vontade, não tendo que pensar numa próxima eleição, estar mais à vontade para fazer aquilo que provavelmente se conteve muitas vezes para fazer. Porque Marcelo dos afetos, que foi o Marcelo que conhecemos nos últimos cinco anos, não era o Marcelo que conhecíamos antes disso. Marcelo era uma personalidade diferente, mesmo no combate político, e depois também sendo comentador. Enfim, não ficava em cima do muro nos seus comentários. E, portanto, eu acho que Marcelo ganhou uma garra e não precisa, objetivamente, do PS para a próxima eleição e eu acho que vai ter aqui um papel muito mais exigente. E António Costa preferia, de certeza, hoje, olhando para as votações, preferia que Marcelo tivesse vencido por menos. Isso aí acho que não há dúvida.

Marcelo é também o teu vencedor? Com que ponto avalias?

Marcelo é o meu vencedor e eu dou um 18 sem qualquer tipo de problema, porque acho, de facto, que com uma campanha como Marcelo a fez, aquele apelo ao voto na reta final terá sido importante, mas mais do que isso, as pessoas procuraram uma estabilidade. Até porque sabendo que havia uma franja, que não é uma franja assim tão pequena, porque são meio milhão de votos, é uma franja que iria votar e que votou no Chega. E eu acho que Marcelo fez mais por retirar votos ao Chega do que provavelmente os partidos mais à esquerda que, ainda assim, foram derrotados claramente em toda a linha.

Então 18 para Marcelo Rebelo de Sousa. Miguel Pinheiro, ficamos sem saber a tua nota quantitativa. 16.

16 ainda não é mau.

É sempre o professor mais exigente.

Sempre com a fama da exigência. Rui Pedro Antunes, tens um vencedor diferente para nos apresentares hoje?

Gostava, mas não. Não é que tenha sido o único a vencer, mas é porque esta é mesmo incontornável e de vez em quando até fazemos justiça ao nome do programa. Mas o meu vencedor é Marcelo Rebelo de Sousa e para tentar aqui distanciar um pouquinho ou dar uma nota diferente, eu diria que é um 19. Acho que ele teve uma vitória clara.

É tudo à grande.

Hoje estamos mãos largas. Exatamente.

Hoje é mesmo o vencedor, não é o perdedor esta rubrica.

É verdade, hoje é mesmo. Eu diria que ele desde logo conseguiu a proeza de estar toda a gente a dizer que ele foi eleito à primeira volta, quando eu pelo menos vi que ele deu para aí 19, depois descer a cinco. Essa é logo a grande primeira vantagem de Marcelo. No próprio discurso ele diz um pouco ao que vem nas entrelinhas, que de fato os portugueses fizeram uma escolha, e ele enumera uma série de coisas que dá para perceber que ele vai tentar influenciar mais a governação, ou seja, coloca-se quase como uma figura que faz parte da gestão da pandemia e que os portugueses validaram isso com esta votação. O que quer isso dizer? Quer dizer que na leitura de Marcelo, os portugueses deram uma espécie de carta-branca para interferir mais quando assim entender, porque gostam disso. Ou seja, gostam de ter uma figura quer na gestão do país, quer em particular na gestão da pandemia. E nesse aspecto, acho que Marcelo Rebelo de Sousa sai muito reforçado deste resultado de ontem e que nos próximos meses, se vinha a perder alguma da interferência ou uma esteira de influência que tinha junto ao governo, por exemplo, antigamente bastava Marcelo dizer uma coisa menos simpática para o ministro que ele ficava logo na corda bamba. Nos últimos meses vimos que Marcelo Rebelo de Sousa atirou com violência contra alguns ministros e não lhes aconteceu nada, e António Costa desviou. Eu acho que a partir de agora isso não vai voltar a acontecer, ou pelo menos não vai voltar a acontecer da mesma forma. E não há um sistema de impeachment como há nos Estados Unidos, Marcelo Rebelo de Sousa tem o melhor emprego do mundo, que é: ninguém o pode despedir. Entrando no segundo mandato.

É mesmo líder e não há cartão vermelho para Marcelo. E isso é curioso, e gostava de nos ouvir sobre isso, porque Marcelo até na conversa que teve com o Observador poucos dias antes do final da campanha, dizia à Rita Tavares que olhando até para o que tinha acontecido no resto da Europa, poucos líderes políticos sobreviviam às eleições neste contexto de pandemia. Eram o rosto visível do combate à pandemia, das medidas desagradáveis e que caíam que nem tortos, foi a expressão de Marcelo. Por que Marcelo não caiu que nem um torto? Miguel, tens alguma explicação?

Não caiu porque António Costa se agarrou a ele. Quer dizer, na realidade não havia alternativa nenhuma a Marcelo Rebelo de Sousa nestas eleições, não havia nenhuma alternativa séria a Marcelo Rebelo de Sousa. Se estas eleições fossem perdidas por Marcelo Rebelo de Sousa, então mais valia entregar as chaves e irmos todos embora. Isso não existia. Isso é uma ficção que Marcelo criou. Marcelo criou essa ideia de que ele estava na mesma posição que qualquer responsável político em qualquer país do mundo que tenha perdido eleições durante a pandemia, porque estavam os dois maiores partidos do regime de braço dado a apoiá-lo. Portanto, isso é pura fantasia. Agora, nós tivemos outros sinais. Eu sei que já são 20h46 e ainda não tínhamos falado dele.

Vamos lá então.

Convém olhar para o resultado de André Ventura. Convém perceber que-

Que também é um vencedor

...claro, que é um vencedor, mais do que o meio milhão de votos que conseguiu. Temos meio milhão de votos espalhados pelo país inteiro. Não estamos a falar já de bolsas eleitorais muito circunscritas. André Ventura só não chegou aos dois dígitos em dois distritos do país, e mesmo nesses dois distritos ficou muito perto. Foi por muito pouco que não chegou aos dois dígitos. E onde teve melhores resultados foi naquilo que se costuma designar pelo Portugal esquecido.

O interior esquecido e ostracizado.

Certo, ele aqui segue a rota de todos os políticos deste gênero lá fora. É exatamente o mesmo percurso, não há nenhuma dúvida. E havia um país que até hoje tinha votado no mais do mesmo, que era o PCP. De fato, aquilo que o PCP representava para aquelas pessoas era: "Deixem estar aí onde estão, deixem estar isto como está, que assim é que as coisas resultam". Havia esta coisa do PCP, os sítios onde o PCP mandava, se manterem sempre na mesma e isso ser uma alimentação de votos, um círculo vicioso. E agora essas pessoas disseram que ao invés do mais do mesmo, estão na fase do chega do mesmo. E, portanto, vai ser preciso olhar para aqui e estou muito curioso para tentar perceber o que os partidos tradicionais vão dizer a estas pessoas, se vão fazer de conta que não se está a passar nada, se vão simplesmente indignar-se com o regresso do fascismo ou se vão fazer qualquer coisa efetivamente para resolver isto. E aí Marcelo Rebelo de Sousa também poderia ter um papel, mas ele tem que perceber uma coisa: é que não é retórica, porque Marcelo Rebelo de Sousa falou muito do interior. Quando foi dos fogos, foi para o interior e disse que o interior era muito importante, mas a verdade é que o interior percebeu que a retórica não muda nada. Por isso, se é para continuar a falar do interior com enorme devoção, mais vale estar quieto. Se for para fazer alguma coisa...

Pagando em André Ventura, eu acho que o importante é saber de onde é que vem aquele meio milhão de votos, aqueles 500 mil votos

Lá está, vêm da direita, vêm da esquerda. Mesmo no Alentejo, se olharmos para os resultados no Alentejo, João Ferreira tem resultados muito semelhantes àquilo que teve Edgar Silva há cinco anos. Portanto, não haverá uma transferência directa de voto.

Só um detalhe sobre isso. Eu acho que mais importante do que saber se vieram da direita, da esquerda ou da abstenção, acho que é importante perceber que vieram de pessoas que se deram ao trabalho de ir votar.

Exatamente. Tal e qual.

Isso é que é uma mudança grande.

É o porquê. O que leva este meio milhão de pessoas, que não serão todos, nem sequer a maior parte, os tais fascistas, perigosos fascistas, saudosos de Salazar ou de uma coisa qualquer do género, racistas, xenófobos.

Muitos vieram da abstenção.

Certamente.

É bom ter isso em consideração. Alguns seguramente vieram da abstenção. É bom ter em consideração que nós tivemos só 1,1% de votos brancos e 0,9% nulos, e nós tínhamos tido uma percentagem nas últimas eleições muito distinta disto, muito mais elevada, salvo erro entre os dois tínhamos tido mais de 5%. Portanto, o que quer dizer que o voto de protesto através de nulos e brancos, diminuiu muito. E portanto, também temos aqui uma justificação para a Agatha. Havia também aqui uma bolsa importante de votos. Atenção, o voto branco e o voto nulo é um voto relativamente sofisticado. É alguém que se dá ao trabalho de sair de casa para ir lá fazer qualquer coisa. Não é apenas o voto dos desistentes.

É verdade. Mas olhando aqui para os resultados de 2016 versus os de ontem, onde é que para o milhão de votos de Sampaio da Nova? Meio milhão foi para Ana Gomes, meio milhão e mais aos outros.

Boa parte deles são votos que foram claramente para Marcelo Rebelo de Sousa.

Alguns, 100 mil. Mas e os 300 mil votos que Marisa Matias perdeu de uma eleição para a outra?

Alguns foram para Ana Gomes, outros...

E foram para Marcelo, também.

Alguns para Marcelo, mas Marcelo consegue mais 100 mil votos. Não justifica esta...

Há uma coisa muito significativa. Tiago Maia tem em Lisboa praticamente 7% dos votos. E são 7% de votos jovens, pessoas novas. Alguns desses votos vieram seguramente do eleitorado de Marisa Matias. Em áreas urbanas, o eleitorado do voto liberal de Tiago Maia, é eleitorado que também era do Bloco. Não estou a dizer que sejam 7% de todos. Mas se calhar 1 ou 2% destes votos são votos que vieram de antigos eleitores do Bloco de Esquerda. As coisas de voto, vamos vê-las depois mais detalhadamente, mas tenho esta apreciação. É surpreendente como é que, por exemplo, Tiago Maia fica em Lisboa à frente de Marisa Matias e sobretudo João Ferreira. É um resultado que no Porto ficasse, esperava-se. Agora, no Conselho de Lisboa, com as Casaloeiras, talvez já se estivesse à espera. Agora, no Conselho de Lisboa, é um resultado bastante significativo.

E portanto aquela palavra que ouvimos muito ontem, reconfiguração, vamos ter que olhar para ela com mais atenção. Há muita coisa que está a mudar. Há peças muito dinâmicas que saíram da noite eleitoral.

Eu acho que sim.

Sim, Rui Pedro. Rui Pedro Antunes, sim.

Sim, vou ser muito rápido. É que nós antes tínhamos um país muito, não é unânime, mas com muita unicidade no sentido de que tínhamos sempre um mapa mais ou menos comum. E agora começamos a ver o mapa da faixa litoral e das grandes zonas urbanas no voto e depois o resto do país, porque André Ventura não é só o Alentejo. Ele vai de Faro a Bragança e entra muito para dentro até à faixa litoral, só vai a Leiria, mas o resto perde naquilo que é a faixa litoral e as grandes zonas urbanas. Ele esteve em segundo lugar até se começarem a fechar as grandes freguesias, os grandes centros urbanos. Nós temos isto noutros países, por exemplo, nos Estados Unidos, o Norte e o Sul. Há muito essa diferença entre não é o mundo rural, mas um mundo menos urbano e o mundo urbano. E pela primeira vez, se calhar, desta forma, não sei se antes isto já tinha acontecido, se calhar é a minha memória que me falha, memória histórica, mas eu acho que se vê pela primeira vez marcadamente aqui dois países. O que em Portugal, sendo um país não tem a fragmentação social que tem outros países, como por exemplo Espanha, e isso é muito interessante de ver. Era só isso que eu queria dizer.

O voto do André Ventura é um voto muito, apesar de tudo, bastante homogêneo. André Ventura, a não ser nalgumas regiões do país onde claramente tem voto abaixo da sua média nacional, como por exemplo Porto, onde ele tem um voto claramente baixo.

Pior resultado, não é?

Que é o pior resultado. Por exemplo, ele no Conselho de Lisboa tem 11,8%, que é uma décima abaixo da média nacional.

Um ponto percentual.

Depois há algumas regiões do interior onde pontualmente ele tem votações muito elevadas, como Portalegre, com 20%.

É muito transversal.

Mas é muito uma coisa que oscila ali entre os 10, 11 e os 14. Anda sempre por ali 10, 11, 14, num sítios mais intensos, nuns sítios menos, mas não é assim uma coisa, por exemplo, uma votação como tradicionalmente tinha o PCP, que podia variar entre quatro e 30. Não, é uma coisa muito homogênea, muito bem distribuída.

Estamos no último minuto e essa nota é importante. Miguel, no último minuto, o que é que querias acrescentar?

Só muito rápido para completar aquilo de há pouco. Uma coisa que sempre me irritou nas eleições em Portugal foi a forma como se descartavam os abstencionistas. As lideranças políticas tinham sempre esta superioridade moral de dizer: "Enfim, quem não votou, quem não quis ir votar, não conta." Como se pudessem deitar fora metade do país, como se perceber essa metade do país não fosse relevante. Nós andamos há 40 e tal anos em que os responsáveis políticos só se preocupam em perceber o que quer a parte do país que foi votar. E portanto, há de se chegar à altura em que uma parte substancial ou uma parte que se torna significativa daqueles que foram sendo abstencionistas e foram sendo desprezados eleições, após eleições, após eleições, decidem ir votar, arranjam alguém a quem vão votar.

E terá acontecido isso.

Olhem para os 60% de abstencionistas e tentem perceber o que se passa com essas pessoas para não se darem ao trabalho de ir votar. Não são todos preguiçosos nem desleixados. Se olharem para ali, talvez tenham a solução para alguns dos problemas.

Ora, o nosso vencedor é unânime esta manhã, Marcelo Rebelo de Sousa. Paulo Ferreira, já temos saudades das tuas médias, vamos a elas.

Então pronto, conta feita aqui é fazer as contas. 17,6% a média de Marcelo Rebelo de Sousa.

Passado com distinção.

E o vencedor é todas as manhãs na Rádio Observador, nas últimas semanas dedicado às eleições presidenciais, mas esta rubrica vai manter-se no alinhamento das manhãs, 360, porque todos os dias temos protagonistas da atualidade que merecem uma nota de zero a 20.