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E o vencedor é, a partir do Congresso do PSD, no Velódromo Nacional de Sangalhos, no Conselho de Anadia. Uma intervenção que, ao contrário do que é hábito, aliás, o vencedor é com a presença do Miguel Pinheiro e também do Rui Pedro Antunes. Uma intervenção, Miguel Pinheiro, que ao contrário do que é hábito, deu já todas as respostas, só procurou dar as respostas políticas, intentando falar para dentro do partido, enfim, com um toque ou outro do que é que pretendem para a estratégia futura, mas sobretudo a atirar ao Chega, que equipara aqui ao PSD, ou seja, ao PS. Não há um líder de oposição, há dois partidos que estão abaixo do PSD.

Sim, mas eu estou um bocadinho confuso. Eu acho que Luís Montenegro tem que se decidir, porque a primeira parte do discurso era Luís Montenegro a dizer: "Nós estamos a fazer coisas incríveis. Eu vou dar-vos aqui uma lista das reformas que nós estamos a fazer. Nós prometemos reformas e estamos a concretizar. Isto, aquilo, aqueloutro, mais isto". Aliás, no ecrã ia passando uma lista que ninguém consegue ler, porque aquilo está em letras minúsculas, não sei qual é a ideia, mas uma lista gigantesca das concretizações do governo. E, portanto, a primeira parte do discurso é: nós estamos a cumprir e estamos a mudar Portugal. A segunda parte do discurso é: não nos deixam mudar Portugal. Quer dizer, vamos ver. Ou o governo está a fazer muita coisa e está a cumprir as promessas, ou o governo está a ser impedido de cumprir as suas promessas pela oposição. As duas coisas é que não dá. Ele até enunciou: nós com o PS chegamos a acordo sobre o novo aeroporto, chegamos a acordo sobre o Tribunal Constitucional, a eleição dos órgãos externos. Vejam, isto não é um bloco central, mas nós dialogamos com o PS e cumprimos isto. Com o Chega, estamos a manter o não é não, mas chegamos a acordo para a PSU, para a redução de impostos. E logo a seguir diz: mas o PS e o Chega não querem conversar conosco. Então, afinal, está a conversar com o PS para cumprir as reformas e com o Chega para cumprir outras reformas, ou o Chega e o PS não querem falar com o PSD? As duas coisas não batem. E se o objetivo de Luís Montenegro é dizer duas coisas totalmente contraditórias, não se pode espantar que as pessoas em casa pensem: "Hã? Como assim? Não percebi". Porque realmente não se percebe. Luís Montenegro tem que se decidir. Ou o Luís está a trabalhar, ou o Luís está a ser impedido de trabalhar. As duas coisas ao mesmo tempo não dá.

Nem como estratégia de vitimização pode funcionar este discurso.

Mas como vitimização? Se ele até está a reformar o país, está a ser vítima de quê? Se ele até chegou a acordo com o PS numas coisas e com o Chega noutra, então está a ser vítima de quê? Eu pensei que Luís Montenegro vinha com uma mensagem clara para este congresso.

Continua a aplanar.

Continua a aplanar. Boris Johnson costumava dizer aquela expressão, nós não usamos em português, que eles têm que é ter o bolo e comê-lo. Ou tens o bolo, ou podes comer o bolo. E Boris Johnson dizia: não, eu quero ter o bolo e comê-lo, quero as duas coisas. Luís Montenegro também quer as duas coisas, mas nós sabemos como é que o Boris Johnson acabou, não é? Não acabou muito bem. E por isso não estou a perceber muito bem qual é o ponto. Acho que vamos ter que esperar pelos discursos dos outros ministros e de outros altos dirigentes do PSD para perceber se existe uma estratégia clara ou se só existe uma confusão. Com generosidade, eu ia dizer que vou dar um não, mas não vou, vou dar um sete. Esqueçam a generosidade. Não é possível. Não consigo. Desculpem.

Que entusiasmo neste arranque de congresso. Rui Pedro, houve aqui uma mensagem...

Estava a ver que o Miguel ia pedir para remodelar o primeiro-ministro.

Vamos lá ver onde é que isto vai acabar. Ainda faltam quase 48 horas. Rui Pedro, foi aqui uma mensagem cacofónica de Luís Montenegro neste arranque de congresso?

Não, eu aí concordo com o Miguel na questão de que não se pode dizer que se está a fazer muita coisa, inclusivamente a negociar com o PS e com o Chega, porque esse é um mandato democrático e porque eles tiveram os dois empate técnico e o governo tem essa obrigação de negociar com os dois e que até tem conseguido fazer coisas, e dizer que o país não está igual e depois, ao mesmo tempo, estar-se a queixar que o país não consegue avançar e que não consegue fazer nada precisamente pelo bloqueio desses dois partidos estarem interessados mais naquilo que é o interesse partidário e pessoal de cada um do que propriamente no interesse nacional. Há depois um ponto, Miguel, e acho que tu que foste na MUS, tem a ver com a questão da vitimização. Eu acho que todo este discurso é um discurso que assenta na queixa, na vitimização. Não é só dos outros dois partidos, o que faz sentido, atenção. Eu acho que estrategicamente faz sentido que Luís Montenegro diga: eu não consigo governar, não consigo ir mais longe, porque o PS e o Chega não me deixam. Mas essa vitimização vai mais longe, é mesmo uma espécie de todos contra nós, porque ele criou aqui um conceito dos comentadores mentores do PS. Vamos lá ver Obviamente que há comentadores próximos do Partido Socialista, obviamente que também há comentadores próximos do PSD. Há uns que são mais próximos dele, outros que são menos próximos dele. Também ajudou a desgastar o governo de António Costa, comentadores que criticavam o governo de Costa. Isso é da vida.

E Luís Montenegro não tem um comentador ao domingo à noite.

Exatamente. Agora, vamos imaginar os comentadores mentores. Também aí entra nesse plano da vitimização, que é: tentam desviar-nos do nosso caminho, não me deixam trabalhar, mas nós sabemos bem para onde vamos. Depois, o Luís Montenegro diz uma coisa: "Estou menos preocupado é com o meu futuro político." A expressão é: menos preocupado é com o meu futuro político. Faz mal. Quem é o político que não está preocupado com o futuro político? É a mesma coisa. Agora estamos em época de Mundial, que um jogador de futebol esteja a dizer: "Eu não estou preocupado com a minha carreira, estou preocupado com a minha equipa ou com a minha seleção." Não faz sentido. Porque para ele jogar bem pela seleção nacional dele, ele tem que estar ativo na carreira política dele. Portanto, se ele der cabo da carreira política, acabou-se o montenegrismo e é preciso ir outro para o lugar dele.

É um bocado a tentativa de reedição do que se lixe em as eleições.

Sim, o que se lixe em as eleições, o Saca Ner de primeiro o país, depois o partido, depois eu. São lugares comuns na política, mas não vale a pena. Dizer que ele está muito preocupado com o interesse nacional e não com o futuro dele. Claro que ele tem que medir bem as duas coisas, que é a gestão da carreira dele e da popularidade dele e do valor eleitoral dele com aquilo que é o país, porque senão não pode continuar. Se é verdade que os outros dois partidos se juntam muitas vezes para aprovar coisas que o governo não quer, aconteceu, por exemplo, com o subsídio de mobilidade das regiões autónomas, o PSD ficou e gritou muito alto que estava a haver um descontrole orçamental com base nessas alterações ao antigo subsídio de mobilidade. Mas, na verdade, esqueça-se dizer que os deputados do PSD na Madeira e dos Açores votaram a favor, ou seja, o PS e o Chega não votaram sozinhos. Mas também é verdade que esses dois partidos, no dia em que quiserem e que for útil, podem mandar o governo abaixo.

Ia perguntar se estas puxões de orelhas a André Ventura, da história do não é preciso ter muita coragem para ir ao sabor das redes sociais, tudo isso. Isso é uma tentativa de controlar a narrativa para fora, porque do ponto de vista de puxar as orelhas a André Ventura, não vai resultar, porque não tem resultado nos últimos anos.

Sim, também acho que não. Imagina, Luís Montenegro, se quisesse, podia ter sido mais duro, mais corrosivo com André Ventura. Eu acho que devia. Houve muitas matérias esta semana em que André Ventura foi altamente populista. Eu acho que as negociações político-partidárias devem ser secretas até ao fim ou devem ser discretas até ao fim. Quando está terminado o processo negocial, compete às duas partes, até em nome da transparência e perante o seu eleitorado, explicar o que se passou. Luís Montenegro podia ter exposto aqui André Ventura. Não é em questões menores. É: "Ele deu-me a minha palavra, eu conversei com ele, ele foi lá a São Bento e disse-me isto, e fez o contrário. O Soares negociou com Pedro Pinto e até ao dia anterior disseram que iam aprovar e mudaram de um momento para o outro." Isso não foi dito aqui. E depois, vamos dizer assim, foi um discurso que animou, exaltou completamente o Congresso. Claro que foi muito aplaudido, de pé por todos, é o líder do partido, é primeiro-ministro. Mas não foi um discurso que fica para a história do PSD, nem de perto nem de longe. Alguém dizia que uma das surpresas do Congresso podia ser aparecer Pedro Santana Lopes, que é sempre uma incógnita permanente e dá-lhe o cartão de militante desta vez, porque Luís Montenegro faz sempre uns happenings. Primeiro foi o Cavaco Silva que apareceu, creio que no Congresso de Almada. No último congresso foi a vez de Sebastião Bugalho receber o cartão de militante das mãos do líder do partido.

Tivemos também aquele congresso com Luís Marques Mendes a testar a candidatura presidencial, em que apareceu também Santana Lopes.

Exatamente. E o Luís Montenegro gosta muito desses happenings. Mas eu tenho a certeza que o Pedro Santana Lopes agora chegava ali e fazia um discurso que ficava para a história dos congressos ou pelo menos fazia um discurso com alguma graça. E a Luís Montenegro falta um bocadinho isto. Isto era o discurso para dentro, era o discurso de falarmos sobre o nós e eles.

Fazer o partido acreditar que ele é o futuro.

Sim, e há essa ideia da vitimização. Até percebo qual aqui entre as pessoas, o PS e o Chega não nos deixam fazer, etc. Mas não acrescenta muito. O que é que impediria Luís Montenegro ter feito este discurso há três meses? Claro que agora fica mais comprovado que o Chega falhou mais em cima, etc. Mas nada. Portanto, eu acho que acaba por não haver uma grande novidade. E depois, há uma grande dificuldade de Luís Montenegro de reconhecer os erros. Também há coisas que falharam nestes dois anos por culpa própria do governo. Nós há pouco falávamos dessa grande desorganização interna. Claro que ele disse três vezes as intrigas, mas ele é que está a perder parte do discurso com isso. Com os comentadores, com as intrigas, com a politiquice. E pelo meio podia estar a dizer outras coisas. Eu espero é que esta tenha sido a primeira parte e que propositadamente para irem crescendo, Luís Montenegro tenha entrado aqui um bocadinho mais reativo, até fazer um discurso que poderia ter feito num qualquer evento partidário e que, de facto, no domingo, amanhã, no discurso de encerramento Tenha propostas para o país, tenha uma jogada a monte negro de antecipação, seja do que for, para tentar, de alguma forma, reganhar a narrativa e comprometer os outros dois partidos. Ele precisa de fazer isso. Ele ensaiou aqui quando disse que os dois tinham ficado empatados, era para menorizá-los. Mas falta ele dizer mais vezes: "Nós ganhamos. O mais votado fui eu". E quando ele diz: "O mais votado fui eu, porque foi boa a governação", eu não tenho a certeza disso. Obviamente que se o primeiro ano não lhe tivesse corrido bem, levando com o Spinello vivo em cima, ele não teria vencido as eleições. Mas os sinais que há neste momento é que as pessoas estão muito descontentes com a governação. Ele pode até culpar o Kleko Mene, pode culpar Donald Trump, o fecho do Estreito de Ormuz e até o empate contra a República Democrática do Congo, também não ajuda ao estado anímico do país. Mas vamos lá ver. Luís Montenegro é o principal culpado desta espécie de marasmo. O Miguel há pouco dizia isto, que na altura assumiu-se a questão dos polícias, dos vários setores. Até se dizia que o governo dava tudo a todos. Na verdade, neste segundo governo Montenegro, é verdade que mandou as reformas com grande impacto mediático, uma delas mais, a reforma laboral e a reforma da modernização administrativa, que se fala muito, mas a ideia é que o governo não consegue arrancar e falta reconhecer essa culpa própria.

Para ganhar ímpeto para o futuro. Rui, só para fecharmos, que nota é que dás a esta intervenção inicial?

O Miguel deu sete, não foi? Eu vou dar um nove, porque ainda dá para fazer uma revisão a Luís Montenegro para conseguir ter positiva e vou deixar esse nove para ver se, de facto, no encerramento, de alguma forma, consegue um discurso melhor do que este, porque não entusiasmou as massas. Pode ter entusiasmado o Congresso, mas estas pessoas aqui são as que estão quase todas alinhadas com o líder, é normal que batam palmas.

Não precisam de ser convencidas. Expectativa de um congresso em crescendo durante este fim de semana aqui em Sangalhos. Foi a intervenção inicial de Luís Montenegro. Nesta altura estão a ser apresentadas as moções setoriais. Vão passar por este palco nos próximos minutos, nas próximas horas, o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, também, por exemplo, Cristóvão Norte, líder distrital do Algarve, uma figura do PSD, Bruno Ventura, líder distrital de Lisboa. São intervenções que vamos acompanhando também ao longo de todo o dia aqui no Congresso do PSD e estaremos para já de regresso quando for 12h30 para a entrevista com o Ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida.

Rádio Observador, Lisboa 92.8.