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Todas as manhãs avaliamos e pontuamos os protagonistas da atualidade. Ao painel habitual junta-se hoje o Rui Pedro Antunes e também a Helena Matos. A moderação, claro, é do Luís Soares.

E hoje com a casa cheia e num novo ano que começa com um incidente, também com o fim de portagens em algumas auto-estradas e temos votos de ano novo e desde já notas para os principais líderes políticos. Mas começamos, Bruno, pela mensagem de ano novo de Marcelo Rebelo de Sousa. O que é que retiraste dessa habitual mensagem, que é a penúltima do atual presidente da República?

Bem, para além da habitual referência ao combate à pobreza, que é um combate que o país, não vou dizer que está a perder, mas claramente é um problema estrutural que não há maneira de ser resolvido, nem de ser mitigado, porque os problemas, os números continuam a demonstrá-lo. Mas parece-me uma daquelas partes do discurso de Miss Universo. O presidente tem de falar de coisas mais ou menos vagas, de paz no mundo e do fim da pobreza, e incluiu novamente. Aquilo que se retira de politicamente mais relevante é mais uma vez o apelo de Marcelo Rebelo de Sousa à cooperação estratégica com o governo. Não percebo esta insistência de Marcelo. O governo é o governo, o presidente da República é o presidente da República. São dois órgãos de soberania, têm a sua legitimidade. A situação do governo é difícil neste quadro parlamentar. O presidente tem a legitimidade do voto direto, mas não tem de haver aqui uma junção dos dois, do governo e do presidente da República.

Não têm que estar às vezes debaixo do mesmo guarda-chuva.

Não, não têm de estar. Eu sei que Marcelo Rebelo de Sousa esteve habituado a essa cooperação estratégica, mas estava habituado porque isso favorecia claramente o governo, quando Marcelo Rebelo de Sousa deveria ter tido uma intervenção mais vigilante em relação ao governo. O presidente também não tem de fazer oposição. O presidente tem de saber ler os momentos para saber o que é necessário. Se é necessário um presidente que exerça essa vigilância do governo, se em alguns momentos deve estar um pouco mais próximo da oposição, mas mantendo a sua independência, agora não tem de estar constantemente a apelar a um entendimento entre governo e presidência da República, como se os dois tivessem de estar no mesmo patamar. Não têm de estar no mesmo patamar, não têm de estar alinhados. O governo tem o seu papel. Luís Montenegro já se percebeu que não quer uma excessiva proximidade com o presidente da República, e o presidente também estando no último ano do seu mandato, devia respeitar essa separação que eu acho que até é higiênica e até é saudável, porque se viu nos anos do governo de António Costa que essa excessiva proximidade entre a presidência da República e governo muitas vezes não é saudável, não é salutar. Para os portugueses também não é bom que os dois órgãos de soberania se confundam, sobretudo numa altura em que, por exemplo, o governo do PS até teve uma maioria absoluta e foi apoiado por uma maioria parlamentar, uma maioria de esquerda parlamentar, cabia ao presidente da República equilibrar um bocadinho, não para fazer oposição ao governo, mas equilibrar um pouco as coisas, trazer esses avisos, esses alertas. Eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa habituou-se excessivamente a uma certa cumplicidade com o governo, beneficiando também da popularidade que sem dúvida o governo da Geringonça teve naqueles anos. E agora as coisas não são assim, e ele não pode querer que Luís Montenegro seja aquilo que não é e que tenha uma postura que não corresponda à sua maneira de entender a forma de exercer também o governo. E devia respeitar isso e deixar-se desta insistência, que eu acho que é injustificada e até se torna um pouco desagradável.

Mas tu estás a pedir ao homem que vá contra a sua natureza.

Pois, pelo visto sim, mas a natureza de Marcelo Rebelo de Sousa é um pouco antiinstitucional.

Claro.

Eu acho que devia contrariar um bocadinho a sua natureza e respeitar a natureza um pouco mais institucional, se calhar, de Luís Montenegro. Eu não lhe vou pedir que seja Cavaco Silva, que era até às vezes excessivamente institucional. E é verdade que o país também precisava, depois de Cavaco Silva, de uma certa distensão ou descrispação, como na altura se dizia. Mas há limites para isso. E Marcelo Rebelo de Sousa devia aceitar simplesmente que Luís Montenegro não é António Costa. E parece que está com muitas dificuldades em aceitar isso, mas devia, para bem de todos nós, acho eu.

Pois, por isso é que os portugueses, como ele diz, aprendem tudo. Agora se preparam, talvez pelo menos coloquem em primeiro lugar nas sondagens um militar.

Pois, também há essa particularidade que é o presidente da República que se segue serve sempre de contraponto ou de quase antídotos ao anterior. Portanto, depois de Cavaco Silva era preciso o descrispador e agora é preciso um bocadinho mais autoritário e isso também explica um pouco a vantagem, pelo menos nas sondagens, do almirante. Mas eu creio que Marcelo Rebelo de Sousa nesta altura Devia libertar Luís Montenegro, ou seja, devia deixar ir. António Costa já foi, esses tempos já acabaram, de facto, o tempo não volta atrás. Devia aceitar isso com naturalidade e também com alguma tranquilidade. Ele fez o seu papel, o governo está a fazer o seu papel e está tudo bem.

E que nota queres dar, Marcelo, por exemplo?

Não vou dar uma nota muito baixa, também acho que não se justifica. Não há nada assim de tão grave que justifique uma nota muito baixa. Vou dar um nove ao presidente da República.

Fica o nove do Bruno. E Rui, tu queres aproveitar e partir desta mensagem também das reações que se seguiram dos vários partidos para dar desde já notas para este arranque de ano.

Vou aproveitar que é dia dois e que nesta qualidade de editor de política, vou dar notas de lançamento do ano muito rapidamente.

E é para depois fazeres a revisão no fim do ano ou não?

Exatamente, pode ser. Mas partindo, obviamente, da mensagem de Ano Novo. O Marcelo Rebelo de Sousa entra no ano mais difícil da sua vida política. É como aquelas pessoas que estão a chegar à altura da reforma e não conseguem ver muito bem para além disso, e o último ano acaba por ser, faltam-lhe 15 meses, complicado. E portanto, está a dizer: "Eu ainda estou aqui." E Marcelo é o tipo de político que não pode ser desvalorizado. Isto não é para qualificar a idade do presidente, que ele ainda vai viver muitos anos, tem uma saúde de ferro, mas o Diabo não sabe muito por ser Diabo, sabe muito porque é velho. E a experiência política de Marcelo Rebelo de Sousa obviamente que é importante, mas mais do que isso, é importante não estar contra ela. Eu acho que se Maquiavel se cruzasse com o Marcelo, ia ter um bocadinho de medo, porque ia perceber que não há nada para aprender e para ensinar a um príncipe que Marcelo não saiba. E portanto, é bom que não estejam contra ele, ainda para mais se ele se sentir acossado e a poucos meses de se ir embora. Daqui a nove meses ele deixa de dissolver a assembleia, daqui a 15 vai-se embora. Pelo meio tem que lidar com um presidente eleito daqui a sensivelmente 12 meses e portanto, tudo isso vai mudar também um bocadinho a forma de ser do presidente. E ele é como dizia o Rui Rio de sobre si próprio, quando está picado vai melhor. E portanto, o que eu diria é que atenção a ideia de que um Marcelo com poder para dissolver a assembleia e que tenha que se limitar é menos perigoso do que um Marcelo livre, mesmo que já não tenha um poder efetivo da bomba atómica. Marcelo Rebelo de Sousa não precisa do poder efetivo para ser corrosivo. E nesse aspeto isso também é um risco.

Aliás, até se calhar pode ser mais corrosivo, isso tens razão.

Muita gente disse ontem o seguinte: este é o último discurso que o presidente pode ter força. Pode ter força de facto, mas o discurso daqui a um ano, em que ele está livre de tudo, que sai três meses, que está próximo de presidenciais, ele também pode ser muito complicado.

Mas aí ele já está meio fora, já está mesmo a fazer o balanço dos balanços. Nós estamos aí a um mês de eleições. Já estamos a falar de campanha, de candidatos.

Verdade, mas o Marcelo é o tipo de pessoa que não precisa do poder efetivo para o exercer.

Mas ele até nem deve querer exercer o poder efetivo de mais uma dissolução. Eu acho que isso deve ser a última coisa que lhe passa pela cabeça.

Mas consegue de outra forma.

Claro, mas é por isso mesmo, por ele não querer usar, mesmo que depois deixe de ter esse poder, agora que ainda o pode utilizar, eu acho que ele não deve querer isso.

O Presidente da República, por exemplo, lembramos como às vezes ajudou a afastar a ministra Costa Silva Baptista Sousa, etc. O presidente, se quiser estragar a vida a um governo, aliás, vimos isso entre Soares e Cavaco Silva, consegue. E portanto também é bom, e aí entro na avaliação ou na nota de partida de Luís Montenegro, que é: havia aquele sonho de sacar dar ter um governo, um presidente e uma maioria. Ele só tem o governo, não tem a maioria, o presidente está cada vez mais afastado dele e portanto também tem que entrar neste ano muito cauteloso, ainda para mais porque tem que ter muito cuidado na forma como escolhe o candidato presidencial e depois as autárquicas, que está sempre mais próximo de perder do que ganhar, não por culpa dele, mas porque o ponto de partida é mau para o PSD. Está a melhorar, mas mesmo assim é difícil. E nesse aspeto, Luís Montenegro tem um ano muito difícil e o facto de não ter o presidente do lado dele também vai ser aqui mais um grau de dificuldade. Vamos ver se eles fazem as pazes, Luís Montenegro às vezes também surpreende, apesar de não parecer uma pessoa muito empática quando quer passar a mão pelo pelo. Consegue e pode ser que o faça com Marcelo Rebelo de Sousa. Outra pessoa, e vou acelerar para não estar muito tempo, Pedro Nuno Santos também tem muitas dificuldades, começa o ano com muitas dificuldades, principalmente depois do líder da oposição Mário Centeno ter uma prestação tão boa, quer a atacar o déficit, quer a atacar o secretário-geral do governo, torna-se difícil para Pedro Nuno Santos ter um destaque. Tem um problema, ele pode ganhar as autárquicas, venceu as europeias e mesmo assim continuar até marginalmente à frente de Luís Montenegro ou passá-lo nas sondagens, e mesmo assim não existe uma maioria de esquerda e portanto tem a vida muito complicada. No próximo ano sabe que não vai ascender ao poder, pode começar a preparar eleições, umas eleições que pode ganhar e não governar, sejam elas quando forem. Portanto, começa um ano muito difícil para Pedro Nuno Santos, está meio que numa redoma e é difícil sair dali E por fim, André Ventura parece-me ter o ano mais tranquilo de todos, porque a bancada dele de 50 deputados vai continuar, vai conseguir chantagear o governo para o orçamento do próximo ano, mesmo que ele não seja o mais decisivo, porque não pode haver dissolução da Assembleia. Nas autárquicas vai subir, porque o Chega, ao contrário de outros partidos que já chegaram a estar no pódio do país, como por exemplo o Bloco de Esquerda, o Chega tem implantação nacional e ela cresceu e apesar de todos os problemas que vai ter nas autarquias, até pode ter uma ou outra câmara e vai crescer, certamente, em assembleias municipais, em câmaras municipais. O próprio pode ser candidato presidencial e num golpe de teatro, até ir a uma segunda volta, tendo em conta a proliferação de candidatos. Portanto, é um ano em que André Ventura pode ser tudo. O Luís Montenegro tem aquela frase: "O país está melhor, os portugueses estão pior". O André Ventura é curioso, porque ele supostamente é o mais patriótico de todos os candidatos e ele está sempre melhor conforme o país esteja pior. Portanto, se houver mais insegurança, se houver mais problemas económicos, se houver problemas com a imigração, melhor está André Ventura. Não sei se o ano vai ser bom ou mau para o país, mas quanto pior for para o país, melhor é para André Ventura e ele é destes todos o que tem o ano mais confortável, porque tem menos a perder.

E queres quantificar essas notas ou ficas só pelas notas?

Muito rapidamente. Marcelo 14, Luís Montenegro 13, Pedro Nuno Santos 11, André Ventura 15. Não é o desempenho deles, é o ano que se espera.

A perspetiva para este ano.

Exatamente.

E Paulo, este é um ano que começa desde já com o fim de portagens em algumas autoestradas. Queres aqui dar uma nota aos contribuintes? Por quê?

Vamos lá ver.

Dá notas aos contribuintes.

Quem são o elo mais fraco sempre no país? O contribuinte não é utente, portanto não tem aquele rótulo. Ele é isto tudo também, mas parece que quando chega a essa altura é uma espécie de soldado desconhecido. Não é utente, portanto não tem aquela reivindicação própria dos utentes do hospital A, do centro de saúde B, da escola C. Não é beneficiário. O legítimo beneficiário de apoios sociais também tem uma capacidade reivindicativa importante. Não é pensionista, não é de uma classe profissional como os médicos, professores, forças de segurança, o que quer que seja, que são representados por sindicatos. Não faz parte também de um movimento popular, como os também legítimos movimentos populares que regionalmente ou localmente se foram formando para acabar com as portagens nas SCUT. Portanto, o contribuinte é uma espécie de soldado desconhecido, que vai morrendo pela pátria. Não se sabe o nome dele, não está sepultado em lado nenhum. Eu diria que é uma espécie de mexilhão, naquela velha frase portuguesa. Portanto, o contribuinte é o mexilhão. Quando toda a gente vai buscar um bocadinho da sua fatia, com a capacidade reivindicativa, e essa fatia grande é lá colocada pelo contribuinte que não tem capacidade própria. Eu diria que faz-nos muita falta um sindicato do contribuinte com força reivindicativa para equilibrar um bocadinho isto. E depois a forma como estas coisas são comunicadas: fim das portagens. Temos o Chega e o PS com grandes campanhas outdoors no país todo. O Chega tem aqui, porque o cartaz está lá junto a algumas destas vias: "Aqui não vai pagar portagem graças ao Chega". O PS tem qualquer coisa parecida em todo lado, nomeadamente em Lisboa: "A partir de 1 de janeiro de 2025 deixa de pagar portagens nas dez SCUT", e depois vem a lista das oito estradas, "por causa do PS". Grande. Parece que estas coisas deixam de se pagar de todo e que passa a ser de borla. Portanto, os milhares de milhões que serviram de investimento e que foram investidos nessas portagens, independentemente de dinheiro público ou privado, têm que ser pagos. A grande diferença é que isto vai sempre parar ao contribuinte. O utente sabe que passa ali e no plim que faz o identificador da Via Verde ou no dinheiro que deixa através do cartão na praça de portagem, o utente sabe o que está a pagar. O contribuinte não sabe o que está a pagar muitas vezes, porque há uma iliteracia financeira muito grande, e estas são sempre a forma de dar uma anestesia aos contribuintes. Isto é, paga-se quando se vai ao supermercado e se paga IVA, paga-se com IRS, paga-se quando se paga o IUC, paga-se tudo.

Paulo, se estivesses a ouvir sempre um plim cada vez que pagas, ouvias um zumbido permanente.

Não aguentavas um dia.

Eram os utentes que pagavam, agora pagamos todos. É isso, não é, Paulo?

Sem dúvida.

E o que é mais justo? É pagar quem lá passa e utiliza aquela infraestrutura, de facto, ou pagar qualquer pessoa, independentemente de ter carro, de não ter carro. Independentemente disso, era importante é falar-se claro. Isto é pago na mesma e é pago pelos contribuintes, mesmo aqueles que fazem parte destas comissões de utentes que deixam de pagar diretamente e pagam uma ínfima parte desse custo. E portanto, olha, cá vamos nós, indo com esta ilusão de que há coisas que são de borla, mas a mesma coisa se aplica aos manuais escolares gratuitos. Tudo aquilo que é gratuito, vindo do Estado, não é gratuito, é pago pelos contribuintes.

E os concertos gratuitos de fim de ano.

Tudo, e o fogo de artifício que é gratuito, tudo. Pagamos todos.

Exatamente. Investimento.

Exato. Agora, era bom perceber isso, que é para não se cair nesta ilusão de que aquela estrada pode ser de borla. Não é de borla, estamos a pagá-la de outra maneira e era preciso muito mais literacia financeira para acabar um bocadinho com esta quase anestesia fiscal cada vez que se mexe nalguns impostos que as pessoas nem sentem, mas estão a pagá-los, como é evidente.

E que nota quer então dar ao contribuinte?

Ao contribuinte, é o nosso grande soldado desconhecido que está aqui para defender a pátria. Eu dou-lhe um 18, porque está ali, dá o peito às balas e paga e cala, basicamente.

O 18 do Paulo. Helena, o ano começou mal para um jovem de 19 anos que morreu na Amadora depois de ter sido baleado.

Bem, está tudo dito. É o jovem

O ano começou mal. Na verdade, não é nada assim. Ele tem um nome, ele chama-se Adilson. O fato de nós não sabermos o nome dele é muito significativo. E o ano não começou mal, porque o ano tem ido muito mal. Nós fixamo-nos na questão do que tinha acontecido com o Odair Moniz, que morreu na sequência de um disparo da polícia, e depois é como se não tivesse acontecido mais nada e tudo tivesse ficado bem. A verdade é que estive a ver nos últimos tempos, uma coisa muito rápida. No mesmo bairro do Zambujal, onde os jornalistas estiveram tão inebriados, a 21 de dezembro, aconteceu um fenômeno que foi o seguinte: há um grupo de homens que se dirige a um edifício e começam aos tiros contra esse edifício, fazendo dezenas de disparos, dos quais resultaram oito vítimas, tendo uma delas sido atingida com mais gravidade. Curiosamente, eu estava a citar o "Correio da Manhã" e o "Correio da Manhã", por seu vez, estava a citar um texto da PJ. Estou a citar o "Correio da Manhã" porque os outros meios de comunicação não dão esse tipo de notícias. Isto já de si é estranho, nós não nos imaginamos estar num prédio e de repente aparecer um grupo de pessoas e começar a disparar aos tiros contra a fachada do prédio, embora focando-se num determinado andar. Mas o que é estranho é que nós temos o seguinte: as autoridades só tiveram conhecimento disto porque há três vítimas, não sei se as vítimas eram os que estavam na rua a disparar, se eram os que estavam dentro de casa e que também responderam, não faço a menor ideia. Três vítimas deram entrada no Hospital São Francisco Xavier. Ou seja, ninguém chamou a polícia. O que acontece é que há pessoas que ficaram feridas e acabaram na urgência hospitalar. Se nós formos à morte deste jovem de 19 anos, na passagem de ano, na Amadora, o Adilson da Veiga, ele é deixado nas urgências do Hospital Amadora-Sintra. Também ninguém chama ninguém. Ele é levado por alguém, não se sabe por quem, é deixado nas urgências do hospital. Mais, neste momento a PJ está no local, porque estamos dentro de um homicídio, e até este momento, depois sabemos que em geral as coisas acabam a mudar, isto acontece numa festa na rua, fala-se em centena de jovens que estariam na Avenida de Lourenço Marques a celebrar a passagem de ano, coisa normal, ninguém diz nada. Ou seja, ninguém diz o que viu ou o que não viu. Logo, eu acho que os jornalistas têm de deixar de olhar para a segurança a reboque dos partidos políticos e têm de perceber que há zonas do país, nomeadamente a Grande Lisboa, onde a segurança é um privilégio de alguns. Acho que há aqui uma desatenção que me perturba sempre. O próprio fato de nós só termos sabido o nome do Odair Moniz porque ele morreu na sequência de um disparo policial, e aqui o que temos só é jovem. E há de facto um jornal, que é o do costume, que é o "Correio da Manhã", que tem o nome dele, que é o Adilson, mas é claro que ele vai desaparecer no anonimato das notícias e das não notícias sobre estes casos, porque realmente só há notícias nesta matéria quando se morre ou se fica ferido na sequência de um disparo policial. E depois, eu acho que, para lá disto que é uma tragédia, e grande, morreu um miúdo de 19 anos, com a vida toda pela frente, nós temos aqui um outro dado que eu acho que é muito preocupante, e que não é na primeira, nem segunda, nem terceira vez que acontece, e que é de pessoas que ficam feridas ou gravemente feridas e acabam por morrer, e que não se chama. Aquele gesto que qualquer um de nós faria numa situação deste gênero, que é chamar o 112, a polícia. Não, alguém pega no corpo ferido e vai levá-lo a uma urgência do hospital. Eu acho que há aqui vários indícios de uma situação grave, de insegurança, de medo, e há também uma situação muito grave de desatenção por parte de quem tem o dever de informar e que, em geral, nestas matérias, só informa quando os partidos começam numa luta de palavras sobre o assunto.

A quem queres dar nota em todo este caso?

Eu dou a idade do Adilson aos habitantes da Amadora, que convivem com isto.

19.

Porque é preciso muito, e dou um zero ao jornalismo.

Estas notas de Helena Matos no final deste "O Vencedor". Estamos de regresso amanhã.