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Olá, sejam bem-vindos a mais uma edição de "Quente e Frio". Hoje vamos falar de uma mudança que pode estar a começar na circulação atmosférica europeia, uma mudança que poderá trazer chuva a algumas regiões de Espanha e mais tarde frio a outras partes da Europa, embora ainda haja dúvidas se quer a chuva, quer o frio vão chegar a Portugal. E vamos viajar até 1889 para descobrir como a equipe de cientistas acredita ter identificado a madrugada que inspirou uma das pinturas mais famosas do mundo: "A Noite Estrelada", de Vincent van Gogh. Olá, Filomena.

Olá, Beatriz.

Em novembro vai mudar o tempo?

Em novembro pode começar uma mudança importante na circulação atmosférica sobre a Europa e essa mudança pode trazer grandes mudanças para Portugal. Não significa que a chuva chegue logo em força a Portugal, nem o frio, nos primeiros dias de novembro, mas as últimas previsões do IPMA apontam para uma primeira semana de novembro ainda relativamente seca, em várias regiões do continente, não em todas, já haverá alguma precipitação, e depois na segunda semana de novembro, de 9 a 15, surge um sinal já muito consistente de precipitação, de chuva acima do normal, em grande parte do território do continente. Nas ilhas, as coisas são sempre diferentes.

E é aqui que está a novidade.

É, porque alguns modelos meteorológicos começam a admitir uma reorganização desta circulação atmosférica a partir de segunda-feira, dia 2 de novembro. O anticiclone, o famoso anticiclone dos Açores, poderá reforçar-se sobre as ilhas britânicas, muito acima do que é habitual, e a Escandinávia, e vão criar uma espécie de barreira à passagem das habituais depressões atlânticas pelo norte da Europa. Ora, se elas não passam pelo norte da Europa, quando isso acontece, elas são obrigadas a mudar as trajetórias mais pra sul, porque está aquela barreira ali, uma espécie de um muro, e aproximam-se da Península Ibérica e aqui do Mediterrâneo. E essa configuração pode favorecer o regresso da chuva a Portugal. Só que há aqui uma diferença entre abrir caminho às depressões e o fato de elas de fato chegarem cá. A posição do anticiclone, a trajetória das frentes e a localização das depressões, é impossível prever a esta distância, é incerto ainda. Alguns cenários que já estão a ser desenhados apontam para Portugal, outros concentram que essa instabilidade fica mais na Espanha e no Mediterrâneo, como tem aliás acontecido. O que podemos dizer agora, neste dia, é que a circulação atmosférica vai começar a mudar, de fato, já no dia 2 de novembro, mas a previsão alargada só identifica que exista um sinal de chuva acima do normal na semana de 9 a 15. Um outro pormenor importante: o IPMA aponta para essa semana, para anomalias positivas de precipitação que poderão até variar de 1 a 30 mm consoante a região. São diferenças já significativas em relação à média, mas não é garantido que venha aí temporal. São só simulações, são só previsões. E mesmo o frio e essa entrada de ar frio, que também está prevista, está neste momento centrada no centro e no leste da Europa durante a primeira quinzena de novembro, sobretudo também ali entre os dias 7 e 12, e pode estar associado também à mesma reorganização da circulação atmosférica, mas ainda há muitas divergências nos modelos quanto à intensidade, à duração e até onde é que é essa extensão. Não está confirmada uma vaga de frio, é provável que possa chegar, mas temos de ir acompanhando, porque neste momento, a questão é onde é que vai ficar mesmo o anticiclone e qual é o caminho que vão seguir as depressões.

E até lá, temos o final de outubro invulgarmente quente?

Sim, ainda podes ir até à praia, porque depois de uma descida temporária das temperaturas esta terça-feira, que ficou um bocadinho mais fresco, os termômetros amanhã vão voltar a subir e, sobretudo na sexta-feira, dia 30, e no sábado, dia 31, portanto, os últimos dois dias de outubro, o calor vai sentir-se mesmo com bastante intensidade. Para quem gosta, há quem já queira a manta. Algumas previsões admitem máximas ali entre os 28 e os 30 nas regiões de Beja, Évora, Santarém, Cubo e Mértola devem mesmo bater nos 30 graus. E no Dia de Todos os Santos, portanto, no domingo, primeiro dia de novembro, essa temperatura vai continuar ainda quente, embora já comece a haver aquela pequena descida, que depois se vai acentuar a partir do dia 2. E apesar destas tardes quentes de verão, atenção, as noites vão continuar muito frias, sobretudo no interior, sobretudo no norte e centro, e em muitas zonas vão estar abaixo dos 10 graus, em algumas até abaixo dos 5 graus durante a noite. Há aquelas diferenças que são às vezes de mais de 20 graus entre a tarde e a noite. Noites muito fresquinhas, com a opção de ir o tal edredom. Nos Açores, só uma nota, uma frente atlântica vai atravessar o arquipélago entre quarta e quinta-feira e vai haver muita chuva, muito vento, sobretudo nos grupos ocidental, central e depois no oriental.

Vamos agora aqui ao fenômeno. Como é que o ar pode aquecer sem receber calor do sol?

É um dos fenômenos com que estamos esta última semana de outubro quente. É bom imaginarmos uma bomba daquelas de encher os pneus das bicicletas, em que a gente tinha que fazer assim pra aquilo aquecer, tinha que andar pra trás e pra frente. Quando comprimimos o ar dentro dessa bomba, estamos a apertá-lo num espaço cada vez mais pequeno. E se fizermos isso depressa, com força, podemos até sentir que a bomba fica quente, que aquele metal da bomba ou o plástico fica quente. Na atmosfera acontece algo parecido. O ar está constantemente em movimento, umas vezes sobe, outras desce, e quando uma massa de ar desce, vai encontrando uma pressão atmosférica cada vez maior. Essa pressão comprime o ar e quando o ar é comprimido, a temperatura aumenta. O mais curioso disso é que aqui não precisa receber qualquer calor diretamente do sol pra acontecer, é apenas pela compressão do ar. O próprio processo dessa compressão provoca esse aquecimento e na meteorologia tem um nome, chama-se aquecimento adiabático O nome pode parecer muito complicado, não é. A ideia é muito simples: o ar aquece porque é comprimido sem precisar receber o tal calor exterior.

Quanto é que o ar pode aquecer?

É a conta. No caso de o ar não estar saturado, aproximadamente um grau por cada 100 metros de descida do ar. Ou seja, se uma parcela de ar descer 1000 metros, um quilômetro, pode aquecer cerca de 10 graus durante esse percurso. É muito. Claro que na atmosfera real há vários processos a acontecer ao mesmo tempo. O ar mistura-se com outras massas de ar, pode trocar e perder calor com o ambiente e nem sempre desce de forma contínua, não é mesmo por aí abaixo. Por isso, essa regra não significa que a temperatura à superfície aumente automaticamente 10 graus, se descer esses 1000 metros. Mas é um mecanismo fundamental pra compreender o tempo que estamos a sentir. É também um dos processos que ajudam a explicar a razão porque em determinadas situações anticiclónicas, como esta de agora, podemos ter temperaturas elevadas mesmo em pleno outono e às vezes até no inverno. Nos anticiclones, o ar tende a descer lentamente e ao descer aquece e a sua umidade relativa também diminui, o que dificulta depois a formação de nuvens e com menos nuvens a radiação solar chega cá mais depressa e contribui para o aumento também das temperaturas, portanto, tudo a ajudar a que fique calor. E há ainda outro fenômeno que também é interessante, quando o vento atravessa uma cadeia montanhosa, o ar pode ser obrigado a subir uma encosta e ao subir arrefece, porque o ar quando sobe, arrefece, e pode formar nuvens e precipitação, mas depois, quando passa a montanha, desce a encosta e volta a ser comprimido e a aquecer. Neste efeito do subir e descer, também tem nome, chama-se efeito Föhn, que provoca aumentos rápidos de temperatura e descidas acentuadas de umidade. E há, portanto, aqui uma série de regras que ajudam a explicar muitos fenômenos meteorológicos. Um dos principais é este, o ar que desce tende a aquecer, o ar que sobe tende a arrefecer e tudo isto sem que haja aqui qualquer interferência do sol. É uma das regras mais importantes da meteorologia e também das mais surpreendentes, na verdade.

Muito bem, vamos agora à curiosidade. Cientistas podem ter descoberto a madrugada que Van Gogh pintou há 137 anos.

Isto. Estás a ver o quadro, não é? É uma das pinturas mais famosas do mundo e pode esconder uma data que só agora os cientistas conseguem identificar. Estamos a falar da Noite Estrelada, do Van Gogh, e uma equipa de investigadores sul-coreanos publicou há poucos dias, na revista científica Scientific Reports, um estudo que aponta para esta hipótese fascinante. O céu representado naquele quadro poderá corresponder à madrugada de 22 de julho de 1889, no sul de França.

Estou agora aqui com uma questão: como é que é possível chegar a uma data tão precisa 137 anos depois?

Vamos ver. Os investigadores começaram por analisar a posição das estrelas, da Lua e de Vênus na pintura. Depois utilizaram simulações astronômicas para reconstruir o céu que seria visível naquela época em Saint-Rémy-de-Provence, que era o asilo onde estava Van Gogh internado naquela altura, e encontraram uma combinação muito particular. Na madrugada de 22 de julho de 1889, a Lua estava em fase minguante e só com cerca de 28% da superfície visível ou iluminada. E Vênus encontrava-se aproximadamente a 18,6 graus da Lua. E as Híadas, que são um aglomerado de estrelas da constelação do Touro, tinham uma disposição semelhante à que aparece no quadro. Só que a investigação não ficou só pela astronomia.

E então?

Isto inclui aqui registros meteorológicos de 1889, inclui meteorologia. Então eles foram consultar as observações históricas de várias localidades ali do sul de França, incluindo Avignon, Nîmes ou em Provence. Eles queriam perceber se as condições atmosféricas seriam compatíveis também com a observação daquele céu. E conferiu. Recorreram ainda a cartas do próprio Van Gogh, que fizessem referências ao calor, ao canto das cigarras, pra perceber se havia, de facto, verão. Todas essas informações ajudaram a contextualizar a hipótese de ser uma madrugada de verão. Naturalmente que isto não prova que o Van Gogh tenha pintado o céu só naquela data precisa, só o quadro naquela data precisa. Não foi num dia, claro. Os investigadores admitem que ele possa ter combinado as observações de várias noites e utilizado depois a imaginação pra criar toda a combinação e a composição do quadro. Só que a correspondência astronômica e meteorológica existe e é suficientemente interessante pra propor uma nova leitura de uma obra que ainda hoje fascina o mundo. Só um último pormenor, o quadro chama-se A Noite Estrelada, mas o céu que lhe terá servido de inspiração, terá sido observado já perto do amanhecer.

Uma pintura de 1889, uma investigação científica de 2006 e uma madrugada que talvez tenha ficado eternamente guardada na história da arte.

É isso. Viste?

Muito bem. Obrigada, Filomena.

Nada.

Mais uma edição de Quente e Frio.