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"E o Vencedor É..." na Rádio Observador e também em vídeo e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, o Anselmo Crespo e a Raquel Cassis. Já vamos falar sobre o Velódromo de Sangalhos, ou melhor, sobre o Congresso do PSD deste fim de semana em Anadia, mas vamos começar pela reforma laboral, o tema preferido do Anselmo Crespo. Anselmo.
Estava a ver que não.
É desta que te livras disto ou não?
Ontem aqui bufou. Vê lá o que é que vais fazer agora.
É desta que-
É desta que te livras disto ou não?
Espero que, pelo menos durante uns meses.
Mas isso não estava tudo tratado?
Eu vinha pra aqui à procura de uma expressão que pudesse qualificar o momento.
Vê lá, é que há crianças no carro.
Sim, eu sei. O momento político que nós estamos a viver, não apenas a propósito do Código Trabalho, mas no geral, e a única coisa que me vinha permanentemente à cabeça era: isto é um freak show. Eu sinto que estou num freak show permanente e que faço parte desse freak show, porque depois passo a vida a comentá-lo. Os flic flacs, a retaguarda do Chega vai, é a favor, é contra. O Chega começou por ser muito favorável a esta reforma laboral, depois era totalmente contra esta reforma laboral, depois apoiou uma greve geral, depois podia ser a favor se baixássemos a idade da reforma, depois deixou cair a idade da reforma e já podia ser a favor se acabássemos com as linhas vermelhas, depois as linhas vermelhas foram diminuindo progressivamente e acabou a chumbar a reforma laboral. Sobre isto, vou dizer uma coisa que já muita gente disse, que é: o Chega a ser o Chega. Uma coisa que me preocupou muito no que aconteceu hoje à tarde e que resulta da declaração do primeiro-ministro, e que eu não vi, pelo menos até agora, ninguém valorizar muito, entenda-se os partidos da oposição. Eu ouvi Luís Montenegro, com estes dois que até é errado comer, que não são os olhos, são os ouvidos, dizer que propôs uma comissão eventual pra estudar a descida da idade da reforma. Eu não ouvi mal, pois não?
Eu não ouvi.
Eu também não ouvi.
Ele acabou de dizer no noticiário. Como é que se chama o nosso colega?
Luís Soares.
Luís Soares disse isso no noticiário.
Luís Soares confirma, está lá fora a confirmar.
Obrigado, Luís Soares, porque de repente comecei a ficar mal.
Anselmo Crespo acaba de nos expor a todos.
A dar uma notícia.
Eu ouvi o Luís Soares dizer que o primeiro-ministro, em direto, propôs ao Chega a criação de uma comissão eventual para estudar a descida da idade da reforma, para logo a seguir dizer: "só por cima, quase do meu cadáver, é que eu admitiria pôr em causa a sustentabilidade da Segurança Social."
Essa parte é que eu não ouvi.
Vamos lá entender-nos. Ou bem que Luís Montenegro acha que o tema merece ser estudado, ou bem que Luís Montenegro tem dados suficientes para saber que baixar a idade da reforma vai colocar em causa a sustentabilidade da Segurança Social. As duas ideias não me parecem compatíveis, a não ser que Luís Montenegro tenha proposto essa comissão eventual pra usar como usou no passado o Tribunal Constitucional, que é: "sim, vamos estudar a descida da idade da reforma. Olha, afinal a comissão eventual diz que não é possível descer a idade da reforma, paciência, mas entretanto o código laboral já está aprovado." E achou que André Ventura nasceu ontem e que ia engolir isto. E André Ventura não engoliu. Como seria de esperar, mais ou menos. Não é preciso ser um gênio para saber que André Ventura quereria um bocadinho mais do que a eventual criação de uma comissão eventual para estudar a descida da idade da reforma. Por isso é que eu acho que freak show é mesmo a melhor forma de descrever o que nós estamos a viver, porque obviamente que Luís Montenegro só propôs essa comissão eventual para tentar iludir André Ventura. Obviamente que André Ventura não se deixou iludir e obviamente que Luís Montenegro não tem nenhuma intenção de mexer na idade da reforma, mas admitiu essa possibilidade. E portanto, se o código laboral tivesse passado hoje, nós provavelmente íamos andar aqui mais meio ano, um ano, à espera das conclusões de um comitê de sábios que iam estudar se era possível ou não era possível baixar a idade da reforma. Se isto não é o máximo de irresponsabilidade política, eu não sei o que é. Honestamente, não sei. Portanto, o código laboral está morto, paz à sua alma, venha o próximo tema para nós percebermos qual é o próximo coelho que André Ventura vai tirar da cartola. Porque na próxima coisa que for preciso aprovar, André Ventura há de inventar outra coisa qualquer. Eu tenho pena, como já disse aqui várias vezes, que não tenha sido possível avançar nas alterações às leis do trabalho. Tenho mesmo muita pena. Tenho pena que os partidos, não só o Chega, mas também o Partido Socialista, não tenham sido capazes de, no Parlamento, encontrar uma plataforma comum de entendimento, não precisando de concordar com tudo o que o governo lá tinha, para podermos efetivamente ter um código laboral mais moderno, mais virado pra frente, com algumas das medidas que o Partido Socialista, por exemplo, está agora a enunciar que gostaria de ver e que se adaptasse um bocadinho melhor à realidade. Não sendo possível, eu começo a achar que este vai ser basicamente o nosso futuro nos próximos tempos, a não ser em matérias como a da imigração, em que há um alinhamento praticamente total entre o PSD e o Chega, eu acho que o Chega vai sempre ver por onde é que está o vento do seu eleitorado e vai acabar sempre por roer a corda.
Já vou tentar perceber se tem outras vencedoras aqui.
Deixa-me só acrescentar aqui uma questão, porque em relação àquilo que estavas a falar da comissão eventual, a comissão eventual é para estudar a sustentabilidade da Segurança Social.
Mas essa já existe.
Essa já existe, já está a funcionar. Não é uma comissão eventual no Parlamento, mas já está a funcionar.
Há uma comissão eventual, não sei se chama eventual. Foi criada logo no início do mandato de Luís Montenegro para estudar a sustentabilidade da segurança social.
Que é um dossiê que, em princípio, também já foi anunciado pelo governo, ficaria para uma segunda legislatura, porque é um tema muito complexo.
Portanto, ou Luís Montenegro quando falou dela hoje está a falar da mesma e, portanto, não faz sentido, ou está a falar de uma nova.
Esta é no Parlamento.
Portanto, eu assumi que estava a falar de uma nova.
Sim, mas não diz, pelo menos não diz na mesma frase, que é para estudar a descida da idade da reforma.
É só para estudar a sustentabilidade.
É só para estudar a sustentabilidade, porque senão era um freak show.
Pronto. Eu continuo a achar que é.
Sim, e é, porque uma traição política em 30 minutos, de facto...
Mas houve uma traição política?
Exatamente. Houve uma traição?
Agora acabamos de entrevistar um deputado do PSD que nos disse que ontem estava tudo encaminhado para que o deputado Favario votasse.
Desculpem lá, é meter-me agora na conversa. Falem os dois, todos ao mesmo tempo.
Faz de conta que estás em casa.
Mas nós vimos todos o mesmo debate parlamentar que se passou ontem na televisão, não vimos?
Sim, vimos.
A expressão de André Ventura era: "É a maior vitória em décadas." Eu participei num painel de comentário na televisão, em que fui a única entre quatro que estávamos sentados à volta da mesa, a pôr a possibilidade de que, tratando-se do Chega, o melhor é esperarmos pelo fim da história. Porque toda a gente deu como adquirido, com base no discurso do André Ventura ontem à tarde no Parlamento, que o acordo estava mais do que feito.
O Hugo Soares estava convencido.
Está bem, mas podia ter sido como agora o André Ventura quer contar, podia ter sido o Hugo Soares que se tinha atirado para fora de pé e ele não tinha confirmado. Mas não, ele confirmou.
Ele disse que era a maior vitória em décadas.
Com berros e gritos que todos ouvimos. Aliás, a queixar-se dos berros dos outros, que eu também achei uma certa graça. Mas vimos todos. E portanto, queremos agora achar que, eu não estou aqui neste aspeto a querer defender o governo ou até a bancada do PSD e as bancadas da AD no Parlamento em relação a isto. Agora, parece-me que o que todos vimos demonstra que, de facto, houve o dito por não dito e que essa responsabilidade é de facto do André Ventura, que deixou crescer a convicção. A minha tese é a seguinte: eu acho que depois daquele show ontem no Parlamento, o André Ventura, que não é ingênuo, como todos sabemos, e tem a máquina bem oleada e a funcionar, deve ter ouvido nos vários canais e nos vários comentadores, toda a gente a perguntar: "Afinal, o que é que aconteceu à idade da reforma?" E portanto, ele percebeu que aquilo que foi encenado ontem à tarde no Parlamento era uma estrondosa vitória para o Luís Montenegro e que ele, por mais que gritasse que tinha conseguido grandes conquistas, afinal não tinha conquistas nenhumas e tinha dado o dito por não dito numa coisa que ele tinha dito que era linha vermelha. E portanto, de madrugada acordou, mandou uma mensagem para os seus deputados, que obviamente era para sair nos vários meios de comunicação social logo pela manhã, quando acordássemos todos, para lançar a dúvida e depois fez o que fez.
E acaba por ser ele o vencedor dessa história?
Em relação ao que se passou hoje, posso estar a ser muito pessimista, mas estou bastante convencida que se calhar para o ano, a esta hora, estamos a falar de eleições. Não por causa do pacote laboral em específico, mas por causa do que isto quer dizer. O que isto quer dizer é que reformista ou não reformista, este governo, mesmo que seja reformista, não vai ser.
Pronto.
O que isto quer dizer é que a tão proclamada pelo André Ventura, maioria de direita no Parlamento, que permitia uma mudança radical no país e fazer o que nunca foi feito, não existe.
A manobra pode ser arriscada, mas isso não encaixa também numa estratégia de Montenegro e do PSD?
Sim, já lá vamos ao congresso do PSD, que vem na sequência disto, mas o que eu acho, e é uma frase comum que todos dizemos, mas todos nós conhecemos pessoas que votam no Chega. As que eu conheço não são aquela grande maioria de esquerda que vota no Chega, mas são uma considerável maioria de direita que se iludiu com o Chega e que eu já ouvi comentar que se era para isto, então não valia a pena ter votado em André Ventura. Portanto, eu acho que André Ventura também se sentiu nesta questão posto à prova, porque ele sabe que uma grande fatia do eleitorado dele é de esquerda e não queria este pacote laboral. Mas também sabe que a sua representação na política é dizer que é de direita. E hoje, por mais que ele tenha tentado fazer de conta, aquela imagem que vimos no Parlamento com a esquerda ululante a festejar a derrota do pacote laboral, ninguém que olhou para aquilo não percebeu que foi o Chega que votou com toda a esquerda em bloco.
André Ventura ergueu o punho, não sei se foi por acaso.
Não, mas ficaram sentadinhos enquanto os outros saltavam e o senhor do CGTP chorava.
Isabel Mendes Lopes, lavada em lágrimas.
Sim, pronto, aquilo foi a loucura. Mas naquela loucura está o Chega, naquela fotografia está o Chega. E isso do ponto de vista reputacional, eu acho Acho que André Ventura vai tentar agora fazer as suas narrativas, mas foi o primeiro teste àquilo que ele sempre chamou a grande maioria de dois terços de direita que existe no Parlamento. Afinal, ele não é de direita.
Eu queria deixar a estratégia do PSD para a próxima parte, para o congresso do PSD, mas encontras aqui vencedores, Anselmo?
Não, é impossível. Eu não consigo encontrar nenhum vencedor, nem sequer os trabalhadores. Para já, a esquerda fez disto algo que parecia o Holocausto. Isto era o holocausto laboral. Que além de um exagero total, demonstra também muito um certo atavismo social. Pararam no tempo. O André Ventura, nós sabemos que tudo isto é tático, isto não tem nada a ver com convicções, nem com ideologia, é tática, é só tática política permanentemente. Mas à esquerda, a começar no PS e a acabar no Bloco de Esquerda, é de um atavismo. Os direitos dos trabalhadores, na cabeça da esquerda, são uma espécie de redoma que se coloca à volta de um trabalhador, em que não se pode mexer em rigorosamente nada, a não ser que seja para polir a redoma, não se pode fazer mais nada.
É o último reduto do seu poder.
O que eu acho que a esquerda não percebe claramente é que está, com isto, a prejudicar os trabalhadores, não os está a ajudar. E volto a dizer o que já disse várias vezes, eu não acho que este pacote laboral do governo fosse propriamente um grande contributo para a produtividade, mas também não acho que ele fosse um ataque que ia desgraçar a vida dos trabalhadores e a partir de agora seria impossível trabalhar em Portugal porque era uma exploração inaudita. Dito isto, eu acho que nós estamos progressivamente a caminhar para uma situação de ingovernabilidade. O governo está lá, está em plenas funções, mas está a gerir, porque depois da lei da nacionalidade e da imigração, eu não vejo propriamente onde é que o governo vai conseguir grandes pontos de entendimento e acho que quando chegarmos ao orçamento de Estado, isso vai ficar bastante evidente. By the way, um parêntesis, provavelmente vamos a isso daqui a pouco, eu acho que esta decisão do Chega criou um problema ao PS.
E Judite, ainda nesta lógica do código laboral, que estávamos a falar, tu encontras vencedores aqui? Ainda não demos notas.
Tenho alguma dificuldade em encontrar aqui um vencedor. Eu acho que o Chega vai ter muitas dificuldades em voltar a posicionar-se ao lado da AD. Prova que é tudo menos um partido de direita. Acho que está sentado no sítio errado, no Hemiciclo, porque votou ao lado da esquerda e acho que isso faz estragos no próprio Chega. Acho que a curto, médio prazo, isso faz estragos no Chega. Vamos ver amanhã no congresso, vai lá nas orelhas. Se havia dificuldade em ter um guião para este congresso, que ia ser pouco interessante, etc. Agora, não tenho dúvida absolutamente nenhuma que será muito interessante, sobretudo para ouvir o que o Luís Montenegro tem a dizer sobre o Chega. E agora aquilo que o Luís Montenegro vê é que não se consegue sentar nem com o Partido Socialista, nem com o Chega. E isso leva-nos àquilo que há bocado a Raquel estava a dizer, que é mais cedo ou mais tarde, o Luís Montenegro vai ter que pensar: "Eu não consigo fazer nada. Estou aqui, mas não consigo fazer nada."
Isso pode ou não pode ser-lhe útil?
Não sei se-
Hoje em dia ninguém sabe
Pois, exatamente
...olhando para as sondagens, diria que não. Mas acho que ninguém sabe. Acho que neste momento ninguém sabe.
Mas neste ponto da reforma laboral, vamos tentar olhar para isto na ótica do utilizador, sem esquerda, sem direita. Deixa-me tentar fazer aqui a pergunta desta forma. O coro, aquilo pelo menos que vamos sentindo nas conversas com muitas pessoas, é de que ninguém estava a morrer de amores por esta reforma laboral. Eu digo nas conversas, nas pessoas que têm as suas vidas normais. E além disso, esta história, calma, não matem o mensageiro, só estou a fazer a pergunta: por que raio é que eu não me posso reformar ao fim de 36 anos de trabalho ou ao fim de 40 anos de trabalho? Há muitas pessoas que não percebem estas contas. A minha pergunta aqui é: Ventura, que é um catavento, que sabe ler esta opinião, não acaba por sair vencedor aqui, apesar de ter votado com a esquerda? O eleitorado de Ventura vai fazer essas contas todas de que ele aqui votou à direita, votou à esquerda?
É para a Raquel?
É para todos. Quem quiser apanhar.
Eu posso apanhar. Eu acho que o Chega atingiu um patamar de votação que tem muitas camadas.
Uhum.
Era o que eu dizia há bocado.
Mas estamos sempre a dizer que atingiu o topo, não é?
Não tenho nada a certeza disso.
Exato.
Não tenho a certeza disso, porque eu acho que é muito difícil fazer esse tipo de ciência política hoje em dia em Portugal. Agora, acho que ele tem várias camadas de eleitorado Mas tem uma camada de eleitorado insatisfeito à direita, que não é de extrema-direita. Eram pessoas que estavam no PSD, que estavam no CDS ou que votavam regularmente nesses partidos e que se desiludiram, porque acharam que esses partidos não faziam mudanças e acharam que com o Chega havia aqui uma possibilidade de partir aloja.
De abanar o sistema.
Pronto. E acho que pra esse eleitorado do Chega, claramente, isto faz mossa. E não é tanto pelo conteúdo. Tu disseste duas coisas sobre as quais eu tenho dúvidas. Eu não tenho dúvidas que não há um português a atirar-se de paixão pro código laboral. Acho que nem sequer o presidente da CIP, que foi talvez quem mais o defendeu, nem se calhar a ministra. Mas as alterações à lei do trabalho, mudassem muito ou mudassem pouco, tinham um valor sobretudo simbólico, e caminhavam na direção de adaptar as leis do trabalho à atualidade do mundo do trabalho.
Mas tu achas que essa mensagem passou?
Eu acho que o governo geriu tudo isto muito mal, mas acho que ao longo do percurso, houve outros que agiram tão pior que o governo, apesar de tudo, não sai assim tão manchado no fim de todo este processo. Primeiro, com a forma como a UGT geriu as negociações e agora com a forma como o Chega geriu este processo negocial. Agora, o que eu quero dizer é assim, a ideia de que a grande maioria dos portugueses estava contra o código do trabalho, é uma ideia refletida em sondagens com amostras pequenas, que eu não tenho de toda certeza que seja uma ideia realista.
Que resulta muito da percepção criada com os greves gerais também.
Claro, exatamente.
Foram greves da função pública.
Eu acho que o líder da UGT hoje disse uma grande verdade: isto é uma grande vitória do mundo sindical. Sabemos quantas pessoas estão sindicalizadas em Portugal. E, portanto, a grande questão, mais do que esquerda-direita, a grande questão desta reforma do código de trabalho era o peso dos sindicatos enquanto tal. E os sindicatos perceberam isso e, portanto, agiram como agiram. Agora, se isso não faz diferença, eu acho que faz diferença, porque apesar desta ideia de que o país está parado, está no pântano, como dizia um antigo primeiro-ministro, que verificando o pântano decidiu ir-se embora. Eu acho que as pessoas verificando isso, verem uma oportunidade de uma reforma que nem sequer conhecem muito bem, cair desta maneira ao fim de um ano inteiro, torna o ambiente político, por isso é que eu digo, eu acho que não foi só uma votação hoje. Acho que foi o primeiro do resto dos dias deste governo. E a seguir, a próxima novela vai ser o orçamento.
Antes ainda temos a PSU.
Como dizia o Anselmo, também há alguém que não ficou muito confortável com a votação de hoje, que é o Partido Socialista, que fica com a sua vida muito mais dificultada.
Anselmo, se quiseres pegar.
Sim, pra dizer três coisas. Quando eu estava a pensar nas notas que ia dar, estava a pensar: vou dar três notas, quero dar uma nota ao governo, uma nota ao PS e uma nota ao Chega. E dou um sete, um seis e um cinco. Dou um sete ao governo em grande parte por aquilo que a Raquel disse, porque esta reforma em si era poucochinha, porque a explicou mal, e porque não a soube defender. Isto não se é Cavaco quem quer, é Cavaco quem pode. E pra citar uma figura que eu não sei se vocês conhecem vagamente, que é o Miguel Pinheiro. Há uma diferença grande entre a estratégia que Cavaco usou na década de 80 pra depois ter uma maioria absoluta e aquilo que o Luís Montenegro está a fazer, que é conseguir que o eleitorado saiba e perceba o que Montenegro quer fazer. Eu acho que Luís Montenegro não conseguiu fazer de 24 pra 25, não conseguiu fazer de 25 pra 26 e não está a conseguir fazer de 26 pra 27. Não basta vir pra televisão todos os dias dizer que se é muito reformista. É preciso que as pessoas percebam as reformas, percebam o que é que está subjacente às reformas que o governo quer fazer. Não basta vir dizer que se quer reformar o Estado, é preciso que as pessoas percebam exatamente de que forma é que o Estado vai ser transformado. E, portanto, Luís Montenegro não tem essa capacidade e o executivo dele não tem mostrado essa capacidade. E, portanto, um sete. O seis pro Partido Socialista é porque o Partido Socialista está claramente nas nuvens com as sondagens. E não é de agora, não é desta votação.
E temos mais sondagens agora.
Não é desta votação, nem da sondagem que saiu esta semana. É de há um mês a esta parte. O Partido Socialista, e José Luís Carneiro, em particular, convenceu-se, de fato, que podia começar a dar o grito do Ipiranga, e que se podia começar a afastar e que podia começar a encostar o Chega e a AD o mais possível um pro pé do outro. Por isso é que eu dizia há pouco que eu acho que este flic flac do Chega não é propriamente muito simpático pro Partido Socialista. A Raquel dizia ontem, estava num painel com quatro pessoas e era a única. Eu até sei quem eram as quatro pessoas, mas também é um bocado irrelevante. O ponto é: a narrativa que a esquerda estava a construir ontem era muito boa pra esquerda. Era: "Vejam, o não é não acabou, acabou o não é não, o não é sim, eles amam-se, andam aos beijos um ao outro." E agora já não dá Agora já não dá para dizer isso. E, sobretudo, não dando para dizer isso, eu tenho muita curiosidade para saber o que o Partido Socialista vai fazer no Orçamento de Estado para o próximo ano. Porque se André Ventura fez isto com o código laboral, imaginem o que ele não vai fazer com o orçamento.
Mas aí o Partido Socialista tem muita responsabilidade. Vai ficar com muita responsabilidade.
O Partido Socialista tem muita responsabilidade, porque se o Partido Socialista tivesse criticando este código laboral, tivesse ido a jogo desde o início, a começar pela UGT, e sim, eu estou a dizer exatamente o que eu estou a dizer, a começar pela UGT e depois a acabar no Parlamento, e não se tivesse balcanizado e não tivesse usado o fato de haver presidenciais e de António José Seguro se ter colocado de um lado da barricada e de não ter aproveitado toda essa onda política que José Luís Carneiro se convenceu que seria a onda política que o elevaria um dia a primeiro-ministro. E pode levar, atenção, isso é com os eleitores. Provavelmente, nós não estaríamos no ponto onde estamos.
Anselmo, mas é que a questão é que, e era bom que José Luís Carneiro pensasse nisso e o Partido Socialista também, é que José Luís Carneiro até pode chegar a primeiro-ministro, mas vai ser igual a Luís Montenegro.
Vai ser igual isto.
E é isto que ele quer, incompatibilizado com o PS. Ou seja, o meu tema é: se José Luís Carneiro e o PS não facilitam a aprovação, pelo menos de orçamentos de um governo minoritário da AD, esperam depois que isso possa acontecer no governo minoritário do Partido Socialista?
Sim, vão aprová-los com quem? Com o Bloco de Esquerda? Com o PCP?
A discussão do próximo orçamento vai ser muito interessante também para perceber isso, qual é a seda ao pote que o Partido Socialista tem e de que forma é que está a medir a consequência dos seus atos.
Não acredito que não deixe passar o próximo orçamento.
Quem, o PS?
O PS.
Mas eu?
Não acredito.
Não acreditas que não deixe passar?
Sim. Acho que há uma que é de borla para o governo.
Já deu uma borla o ano passado. O ano passado já deu uma borla.
Certo.
O ano passado quem viabilizou o orçamento foi o PS.
Foi o Partido Socialista, sim.
O que eu estava a dizer é que me parecia muito evidente, de há um mês a esta parte, que o Partido Socialista estava a começar a fazer a descolagem, estava a começar a preparar o caminho para chegar ao orçamento.
Mas por causa das sondagens.
Por causa das sondagens, por causa de António José Seguro, porque o pacote laboral dava imenso jeito como narrativa e como argumento, porque havia aqui um conjunto de fatores que estavam a contribuir para isso. Já agora, também por causa da pressão interna que José Luís Carneiro tem. Aliás, a escolha esta semana para o debate quinzenal foi bastante elucidativa.
Foi muito elucidativa.
Da forma como José Luís Carneiro passa a vida a atirar malabares ao ar dentro do próprio partido. Portanto, o que parecia-me e parece-me bastante evidente, José Luís Carneiro estava a começar a fazer uma descolagem e estava a lhe a dar muito jeito esta colagem da AD ao Chega. Se André Ventura fez isto com o pacote laboral e já fez isto com o Orçamento de Estado, nunca se esqueçam do famoso referendo à imigração que permitiria aprovar um Orçamento de Estado, e que acabou como acabou, também com reuniões, entra pela frente, sai pelas traseiras, declarações à imprensa de manhã, à tarde e à noite, entrevistas em barda. E portanto, se isso aconteceu, aconteceu agora outra vez com o código laboral, vai acontecer outra vez com o Orçamento de Estado.
Kelly, ainda tens aqui um minutinho para o teu prognóstico para o Congresso do PSD. Desculpa.
Não, fizeste bem.
Para entrar com os pés juntos.
O Congresso do PSD, como dizia a Judite, ganha novo interesse, embora eu acho que também Luís Montenegro não deve cair na ilusão de achar que tem o partido a seus pés. Primeiro, porque o partido não votou nele, maioritariamente. Quer dizer, ele vai consagrar uma eleição direta onde votou o menor número de militantes de sempre. É certo que eram circunstâncias especiais, ele é primeiro-ministro, lidera o candidato único, mas nada justifica aquela falta de interesse. E agora, por mais que tenha uma narrativa, também chega ao Congresso com uma derrota debaixo do braço. E é uma derrota que lhe permite uma narrativa nova.
A dúvida é se essa derrota não vai ser transformada em vitória, e dizer: "Eu quero trabalhar e ninguém me deixa."
Pronto, exatamente.
Vamos lá ver quem é que tem os escutários.
Mas essa narrativa tem que ter consequências e, portanto, das duas, uma: ou ele faz um anúncio, vai pôr uma moção de confiança no Parlamento.
Não te esqueças que a moção fala em maioria absoluta.
Pronto, ou deixa uns recados no ar que permitam começar a criar o cenário para uma crise política, ou se não faz nada disso, é uma derrota, é um governo que ainda não conseguiu fazer nada, como dizia o Anselmo, desde 2024.
Permitam-me citar Rui Calafate, eu disse há um mês que cheirava a eleições.
E amanhã há mais "E o vencedor é..." pela fresca. E vamos também acompanhar aqui durante o fim de semana na Rádio Observador a pari passu o Congresso do PSD.