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E o Vencedor É, na Rádio Observador e também em vídeo. Também estamos disponíveis em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite de França, o Alexandre Borges e o Anselmo Crespo. Já está na estrada a pré-campanha para a segunda volta das presidenciais. Temos silêncios, temos endossos. Quem endossa quem? Quem não endossa?
A palavra preferida do Ricardo agora é endossa.
Sim, adoro endossar. Alexandre, quem não endossa não é fixe?
Sim. Não, espera, deixa-me ver. É chato vir-
Tu endossas ou não endossas?
Quando eu venho já demasiado preparado com um trocadilho ou uma metáfora, o Ricardo surpreende-me com as suas e eu fico: "ai, agora como é que eu encaixo isto?"
Sabes que foram muitos anos no Tibete a estudar para isto.
Acredito. Mestre do trocadilho. Sim, quem não endossa não é filho de boa gente. Muita gente dirá isso. E de facto, agora que já consegui começar a pôr o cérebro a trabalhar, vai na linha do trocadilho que eu também trazia, que é o silêncio dos inocentes. Que alguém deve estar prestes a pegar nele.
Hoje estão muito inspirados.
Desculpa, tens tempo, Anselmo. Eu falo aqui o que me der.
Eu tenho. Não estou é com inspiração. És tego.
Sim, muito criticado. Criticadíssimo o silêncio, incompreensivelmente. Isto é, entendo que não seja uma questão simplicíssima. O que é que está certo ou errado aqui? Depende de quem é o ator, onde é que se situa. Eu compreendo, por exemplo, que os partidos de esquerda prontamente, ou os candidatos que saíram agora, para continuar na minha analogia da semana passada, que saíram da casa, ficamos só com dois concorrentes, expressem a sua opinião, mas com os 38 mil votos de Jorge Pinto e os 116 mil de Catarina Martins, pode bem André Ventura. António José Ventura pode ficar. André Seguro.
Dava um grande título para este-
António José Ventura
Para o programa da Judite
Não percam. Como é que era o do António Sócrates? António Sócrates era o do "Homem da Guerra".
Vê bem. Dois homens, um lugar, uma corrida. António José Ventura.
Aqui está, não digas mais.
Meu Deus. Este "Vencedor" vai longe.
Se calhar temos de começar outra vez. Vá, este vai longe. Continuemos, retomemos, não faz mal. Porém, compreendo bastante melhor o silêncio, até agora, de Montenegro. Há um papel a que a esquerda às vezes se presta, particularmente a esquerda que escreve, que opina, que pensa sobre o assunto, não tanto os protagonistas políticos. Eu percebo perfeitamente que José Luís Carneiro tenha que fazer o seu papel aqui e que tenha que fazer pela vida enquanto líder do PS e que precise, naturalmente, aproveitar a oportunidade, não só para reforçar a sua liderança internamente, como parece querer fazer, convocando eleições e congresso, mas que naturalmente aproveita a boa oportunidade que tem de atacar o primeiro-ministro e o governo. É para isso que ele lá está. Uma coisa diferente é quem não está no lugar do José Luís Carneiro e tem que segurar a sua liderança no PS e afirmá-la no momento em que é o terceiro partido. Quando se tem um momento de fragilidade do maior partido e outro de enorme potencial de crescimento para o segundo, para quem o ultrapassou na liderança da oposição. Agora, quem pensa e escreve sobre o assunto, se passar estas semanas e aumentar de grau de intensidade, em princípio, como isto vai acontecer, a escandalizar-se, a indignar-se contra o facto de não ir toda a gente a correr em prol da democracia, está a fazer o mesmo papel que tem feito até aqui e que tem alimentado o crescimento de André Ventura. Porque dizer aquelas coisas da normalização, que é o fim da democracia, que é o fascismo, que é o não sei o quê, continua a ser não só facilmente descartável e desmentível por André Ventura, porque terá tudo o que há para criticar nele, mas continua a fazê-lo ao abrigo da lei, desta e desta que nós conhecemos, como é, sobretudo, aquele tremendo insulto às pessoas que votam nele. E é isto que continua a acontecer. Temos 1 milhão e 300, 1 milhão e 400 mil eleitores a votar André Ventura, consistentemente nas últimas legislativas e agora nestas presidenciais. Nós sabemos algumas coisas sobre esses eleitores. Sabemos onde é que eles estão, maioritariamente em termos de geografia, sabemos até onde é que eles estão, maioritariamente em termos de instrução. Sabemos o que aconteceu em França, o que tem acontecido no resto da Europa. Nós sabemos perfeitamente que são as classes mais desfavorecidas que se foram sentindo abandonadas pela esquerda e particularmente por algo que me parece que pode ser um argumento mais grave ou mais delicado, que são as elites. São eles que vão votar André Ventura. Lá está, não são os 38 mil de Jorge Pinto, não são os 116 mil de Catarina Martins que vão decidir isto. Por muito que eles não gostem. Quem vai decidir isto são as pessoas. E são as pessoas que se sentem insultadas, se continuarem a ser tratadas como sendo estúpidas, antidemocráticas, não compreendem o que se passa. Eu chamo-lhe a atenção para um pormenor, que é o da instrução. Provavelmente, quando se olha para esse tipo de estudo e se vê, por exemplo, que de longe as classes mais instruídas votam Iniciativa Liberal e que de longe as classes menos instruídas votam Chega. A tentação mais espontânea e natural será dizer: "Estão a ver? Eles são pouco instruídos, eles não percebem as subtilezas do que se passa e vão nisto." Quando, em princípio, o baixo nível de instrução está associado a pouco poder financeiro Lá está, a classes mais desfavorecidas. E portanto, não tem a ver muitas vezes com as pessoas quererem ou não estudar, tem a ver com poderem ou não estudar e com aquela que é a vida delas.
Não sei se isso não foi já mais assim do que é hoje. Não sei se esses votos não estão muito mais diluídos e são muito mais transversais.
Pelo menos no estudo que foi feito à boca das urnas para a CNN, é isto que aparenta de forma descarada. E portanto, é aqui que se tem que fazer o diálogo. Se a opção for apenas eu chegar lá e plantar a minha bandeira a dizer: "Eu sou a favor da democracia, eu estou com António José Seguro". Assim, pronto e fim de conversa, isto não vai funcionar. Parece-me que tem funcionado bastante melhor, e nesse sentido é interessante a posição, pelo menos de Luís Montenegro até aqui, de como governo não só ter que pensar no dia de amanhã e naturalmente o que já tem sido dito e redito com toda a razão, que é muito mais do que rasgar as vestes, só tem que saber que amanhã precisa de continuar a negociar com o Chega, porque é um governo minoritário na assembleia. Dar a liberdade tacitamente a qualquer militante do PSD ou qualquer figura do PSD para expressar a sua opinião.
Só viram a Selma também.
Desculpa, só terminando mesmo de dizer, um a um, estas pessoas que têm opinado, não só isto é mais forte do que um dia dizer: "Ok, está feito, nós estamos aqui", vão opinando e vão explicando o porquê da sua posição, que me parece que com argumentos e com o racional, aí estás a dialogar com as pessoas e não estás simplesmente a dizer: "Eu sou a favor da democracia e contra isto."
Selmo.
Eu gostava de pegar exatamente nisto, nós não combinamos, mas o que eu vinha pensar dizer cola perfeitamente com o que o Alexandre acabou de dizer. Tem a ver com a comunicação, a incapacidade muitas vezes de comunicar. Há uma realidade, gostemos ou não gostemos de André Ventura, há uma realidade nova que ele trouxe para a política portuguesa, que ele reinventou a forma de comunicação política e sobretudo a forma de comunicar com o eleitorado. E André Ventura comunica com o eleitorado de uma forma muito direta, com o eleitorado, com os adversários políticos, mas aqui o que me interessa é com o eleitorado. De uma forma muito direta. Ele diz coisas que as pessoas compreendem.
E querem ouvir.
E que querem ouvir. Ainda não estou na substância, estou na forma. A forma como André Ventura fala é uma forma clara. Eu gosto disto, não gosto disto. Eu critico este, elogio aquele. Toda a gente compreende o que André Ventura diz. Goste-se, não se goste, seja verdade, seja mentira, não é na substância que eu estou. E eu acho que nenhum dos outros atores políticos, sobretudo aqueles que andam nisto há mais anos, compreenderam ainda que essa forma de comunicação política mudou. E isto leva-me ao discurso e à intervenção de Luís Montenegro na noite das eleições, porque eu também compreendo que Luís Montenegro, do ponto de vista tático e do ponto de vista egoísta dele, esta seja a posição mais favorável para ele, é não tomar uma posição, porque ele não quer criar um problema ao governo que ele lidera, por um lado, e por outro lado, porque, na verdade, numa versão benigna da leitura do que Luís Montenegro disse, ele está a defender a estabilidade política. Criar um problema ao governo com o próximo presidente da República seria criar instabilidade política, mesmo que não seja o próximo presidente da República, mesmo que seja com André Ventura, é criar ali mais um fator de atrito e, portanto, todos nós compreendemos isso. Mas Luís Montenegro nem sequer foi claro a explicar esses motivos. Nem sequer foi claro.
Não se deu a esse trabalho.
E atenção, a expressão que eu vou usar é transversal à política em geral, que é: ele foi cínico na forma como colocou a coisa. Ele foi cínico, que é aliás uma ferramenta muito utilizada pelos políticos, é dizer as coisas por meias-palavras ou tentar fazer parecer que é uma coisa que não é, na verdade. É claro, Luís Montenegro não toma posição porque, por um lado, está a tentar proteger o governo que lidera, por outro lado, ele precisa do PS e precisa do Chega e, portanto, não quer hostilizar nem um nem outro e é isto basicamente que está na base daquilo que Montenegro disse. Eu, ainda assim, acho que a declaração dele demonstrou falta de coragem. E demonstrou falta de coragem, já o expliquei, por uma razão fundamental: ele podia, mesmo não tendo tomado posição, mesmo não tendo dito vamos apoiar este ou vamos apoiar aquele, ele podia ter falado qualquer coisa sobre política, sobre o cargo da Presidência da República.
Espero que ele ainda o faça ou vá fazendo ao longo destas semanas.
Sim, mas o que ele disse foi: "Eu vou me afastar, vou para ali para São Bento governar até isto acabar e depois apareço outra vez." Mas nada, nem isso. Nem sobre a estabilidade política, por exemplo, ele falou. E portanto, desse ponto de vista, eu acho que uma das explicações para este crescimento de André Ventura e do Chega tem a ver exatamente com essa clareza com que ele fala com o eleitorado. O eleitorado compreende. Tu falavas aí do eleitorado típico do Chega, esqueceste de falar dos jovens. Não é uma questão de instrução. No caso dos jovens, não é uma questão de instrução, é uma questão de mensagem. Eles percebem a mensagem. Como percebiam com o Cotrim de Figueiredo. Eles percebiam a mensagem de Cotrim de Figueiredo.
Aliás, lá está, continuando a ver as sondagens, os jovens maioritariamente estão com Cotrim de Figueiredo. Ou seja, estavam nestas presidenciais.
Agora eu ponho a seguinte questão: vocês imaginam André Ventura, primeiro-ministro, na posição em que Luís Montenegro estava, ter a posição que teve?
André Ventura? Não, claro que não.
Nunca na vida. Nunca na vida.
Mas isso não significa que o de Montenegro esteja errado.
Não, mas ele assumiria o risco. Ele assumiria o risco. Ninguém tem dúvidas sobre isso. O Passos Coelho era muito criticado por não ter problemas em dar más notícias ao país. Passos Coelho assumia os riscos que tinha que assumir. Não é que do ponto de vista de comunicação ele fosse brilhante, porque às vezes conseguia ser bastante maçador, mas ele dizia as coisas tal e qual como elas eram. E eu acho que o eleitorado valoriza isso, porque uma das percepções Provavelmente mais próximas da realidade que existe hoje em dia sobre a política e a forma como se faz política, e que leva à frase: "Os políticos são todos iguais." Por isso é que quando há um que não é bem igual, ele se destaca. Uma das percepções é que os políticos, um, não falam a verdade às pessoas, dois, têm uma linguagem encriptada, falam politiquês, enrolam para fazer parecer que as coisas são diferentes daquelas que são. E eu acho que nenhum ator político, bem, o José Luís Carneiro, então nem se fala, se Luís Montenegro não sabe comunicar, o José Luís Carneiro pior ainda, nenhum ator político ainda percebeu que tem que mudar a forma como comunica com o eleitorado, porque eles têm esse espaço, eles têm os microfones à frente, eles têm oportunidade para comunicar com o eleitorado mais do que qualquer outra pessoa na vida pública. Mas eles desperdiçam essa oportunidade num discurso que enrola, que fala com umas palavras muito caras, parecendo que estão a dizer coisas eruditas muito interessantes e que, na verdade, tudo espremido, o eleitorado olha pra aquilo e desliga, pura e simplesmente.
Só pra fecharmos esta primeira parte, vale a pena citar Telmo Correia, do CDS, quando era deputado do CDS e disse no Parlamento: "O senhor tire o equídeo da pluviosidade." Ou seja, tire o cavalinho da chuva. Já voltamos. Arranca agora a segunda parte de "Il Vence Toré", com Judite França, Alexandre Borges e Anselmo Crespo. E Judite, ainda não te ouvi sobre endossar.
Endossar.
Que hoje não fique ninguém endossado nesta sala. Isto é muito forte.
Não vou ajudar.
Esta não foi uma boa piada.
Não vou ajudar. Eu vou partir do princípio que Luís Montenegro fez bem, porque de outra forma significava que não punha em causa as minhas próprias análises. E ponho, sobretudo quando à minha volta, gente a quem eu dou tanto crédito, está tão certa de que Luís Montenegro fez aquilo que devia fazer. Não o que podia fazer, mas o que devia fazer do ponto de vista tático. Dito isto, continuo a achar que o primeiro-ministro prefere um presidente da República como Seguro e olhando para os estudos, e há pouco o Alexandre falava deles, a AD está mais próxima de Seguro do que de André Ventura. Muitos já votaram na primeira volta, mesmo com candidatos da sua área ideológica na lista da primeira volta, mesmo assim votaram em António José Seguro, o que dá algum conforto a Luís Montenegro, que mesmo não fazendo nada, ainda assim consegue o que quer e entretanto terá, como agora se diz muito nas questões internacionais, os seus proxies a fazer o trabalho. Pondo aqueles que são da área ideológica natural do PSD e da AD a fazer esse trabalho. Eu continuo a achar que Seguro é a escolha natural da Aliança Democrática e da Iniciativa Liberal. A seguir a Cotrim, muitos dos que votaram na IL nas legislativas votaram em Seguro, o que também é curioso. De outra forma, Seguro não teria ganho a primeira volta se não fosse além da esquerda. Seria impossível, não é?
Sim, ele foi buscar o eleitorado à AD.
Claro. Desculpa, agora não vamos ter Almirante. Almirante também retira aqui uma fatia, que é uma fatia que muito rapidamente vai mais para António José Seguro.
Isso pra mim não é evidente. Isso pra mim é menos evidente.
Eu sei. Pra mim não é tão evidente pra mim.
É autoridade.
Ele era o antissistema.
Exato.
Ele era o candidato que vinha de fora dos partidos.
Não por acaso se davam tão bem. Exato.
Eu acho que aquela frase do próprio Almirante a dizer que estava na área do PS, acho que o retirou ali da área.
Eu não estou a dizer que não há eleitorado do Almirante que venha do Partido Socialista. Não estou a dizer isso. O que eu estou a dizer é: o Almirante assumiu-se sempre como alguém que vinha de fora do sistema, que não tinha partidos. E, na verdade, eu não sei onde é que André Ventura foi perder 100 mil votos, mas-
Mas perdeu-os
...a verdade é que perdeu. Ou perdeu pra Cotrim, nos jovens.
Não, votou menos de meio milhão de pessoas.
Pronto. Sim, claro. Mas enfim, Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo eram os únicos que conseguiam disputar ali algum eleitorado com André Ventura. Um porque era o antissistema e o outro por causa dos jovens. Portanto, eu não sei qual é a porcentagem dos antissistema e qual é a porcentagem dos socialistas. Eu acho que há lá socialistas, como é evidente.
Mas nós tivemos nos jovens a votar mais em Seguro do que no PS nas últimas legislativas, por exemplo.
Também não era difícil.
Pois, ou seja, Seguro está a ir onde o PS não foi.
É verdade. E está a agregar.
E está a agregar. Conseguiu também o eleitorado do ensino superior, coisa que o PS também já não consegue há muito tempo.
Em princípio, estamos a falar das mesmas pessoas. Ou seja, essas pessoas mais jovens e desse nível de instrução vieram de algum lado. E já ontem eu chamava a atenção, desculpa só dizer isto, que tem a ver com o que tu dizes, que é no último estudo de opinião da CNN, da Pitagórica, que é aquele que acaba por ser mais parecido com o resultado final. Ventura tem 23%, o Almirante tem 12, Marques Mendes 11, mais coisa, menos coisa. A grande diferença é de sexta pra domingo, saltam 6% de direitinhos de Cotrim. Pra onde?
Pra Seguro.
Pra Seguro. É o que se vê ali.
E eu acho que a Iniciativa Liberal mais rapidamente vota no centro-esquerda do que vota na direita mais extrema. Aliás, vocês se recordam que a Iniciativa Liberal nem queria ficar ali sentada, porque não se considerava estar tão próxima da direita. E eu acho que um verdadeiro liberal não se sente tão à direita. Depois é preciso perceber o que cada partido tem lá dentro. E isso será uma amálgama de gente que nós não conseguimos perceber, muito menos nos simpatizantes. Mas eu acho que partindo do princípio que Luís Montenegro faz bem, então eu acho que haverá um Como diria o Ricardo Araújo Pereira, uma palete de sociais-democratas que vão apresentar o seu endosso a António José Seguro. E acho que isso é inevitável.
Eu acho que há aqui um fator que nós temos que ter em conta nestes apoios que vêm da Iniciativa Liberal e da AD, mas até mais da Iniciativa Liberal. Primeiro, isto são as eleições presidenciais, não são eleições legislativas.
E nota-se na forma como os votos se distribuíram.
Certo. E eu acho, sobretudo, que mais do que apoiarem Seguro, estes apoios estão a tentar evitar que André Ventura cresça. Não é que Ventura seja presidente, é que ele cresça muito. Porque toda a gente tem claro na cabeça que André Ventura está nestas presidenciais para fazer uma contabilização final de votos e perceber se é o líder da direita e que margem de manobra ele tem para derrubar o governo quando bem lhe apetecer. A Iniciativa Liberal é a primeira interessada que André Ventura não cresça.
Claro.
Porque a Iniciativa Liberal sabe que o crescimento de André Ventura também lhes vai roubar eleitorado a eles. E a Iniciativa Liberal, se há coisa que não tem conseguido fazer, é crescer.
Vamos ver o que a Iniciativa Liberal enquanto partido faz.
Aparentemente vai decidir, mas há várias vozes a decidir.
Estão à espera de Cotrim.
A partir do momento em que decidirem apoiar António José Seguro, Cotrim até devia deixar o partido, não é? Porque está em total desacordo, ouvindo aquela frase de que se estivesse numa segunda volta votaria André Ventura, não descartaria votar.
E agora disse que eram duas péssimas escolhas.
Pois.
Estaria em total dissonância. Deixa ver o que é que sai daí.
Sim, não sabemos, de facto, o que é que sai daí. Deixa-me só concluir com isto, que é a questão de Pedro Passos Coelho, que também tínhamos na lista para falar.
Está aqui.
Nós vamos ouvir a campanha toda André Ventura dizer que se Pedro Passos Coelho pudesse, que o apoiaria a ele. Vamos ouvir isto a campanha toda. E Pedro Passos Coelho sabe disso e deixa que isso aconteça. O que me leva a pensar que Pedro Passos Coelho votaria, de facto, em André Ventura.
Eu entendo agora que ele não diga nada, vamos ver se não diz, mas na primeira volta é isso. E acho que o discutimos aqui.
Mas é que aí Marques Mendes ainda se podia arregar. Agora só Ventura é que pode.
Mas agora percebo até que ele não opine. A questão nem foi ele ter apoiado ou não Ventura. A questão foi ele não ter apoiado o candidato do seu partido. Ele não quis expressar-se quando havia um candidato do partido dele, ele não quis mostrar o seu apoio a ele. Isso é muito expressivo, não é? Portanto, agora penso que em princípio ele não irá dizer nada, a menos que estivesse manifestamente chocado com esse tipo de frase de Ventura, mas penso que se não disse antes, agora é mais fácil não dizer.
Esse é exatamente o ponto sobre Passos Coelho. Passos Coelho sabe perfeitamente que, não se pronunciando, André Ventura vai usar o nome dele a torto e a direito, que já o fez na primeira volta, por que não vai fazer na segunda volta? Ponto um. Ponto dois: não é crime nenhum Passos Coelho apoiar André Ventura se for caso disso.
Seria uma machadada gigante em Montenegro.
Sim, mas repara, Montenegro, nos termos em que pôs as coisas no "Domingão à Noite", também disse que isto era uma corrida entre a esquerda do PSD e a direita do PSD. Então isto é o quê?
Também se pôs de parte completamente.
Não só se põe de parte tal e qual Passos Coelho, mas ele podia ter optado por dizer várias coisas. "Olha, o que está em causa nesta segunda volta é a estabilidade política do país, o que está em causa nesta segunda volta é a defesa da Constituição ou a escolha de um presidente." Ele podia ter dito qualquer coisa de política que não retirasse o governo da discussão e não retirasse o primeiro-ministro da discussão. Ele disse uma coisa de política: isto é uma corrida entre a esquerda do PSD e a direita do PSD.
E ideologicamente o PSD não está representado.
Eu se fosse um eleitor da AD, o que é que pensavas? Ui, credo na esquerda do PSD que não. Portanto, eu acho que quer Luís Montenegro, no espartilho em que ele está, e todos nós reconhecemos que ele está num espartilho. Não está Pedro Passos Coelho, apesar de ser legítimo, Pedro Passos Coelho não se vem a pronunciar. Eu acho que ele não se quer pronunciar na primeira volta, porque ele claramente não gosta de Luís Marques Mendes, mas ele numa segunda volta não se quer pronunciar por um outro motivo. É porque Pedro Passos Coelho está convencido, e eu acho que ele terá alguma razão, de que ele é o único que pode ter a capacidade de esvaziar o Chega. Porque, na verdade, é isso que o eleitorado do centro-direita anda órfão. O eleitorado do centro-direita anda órfão de alguém que o represente. O PSD era isso, toda a vida foi isso. O PSD era a grande casa onde estavam os liberais, os conservadores, os mais centro-esquerda, com várias tendências e normalmente, com altos e baixos, naturalmente, tinha lideranças que conseguiam agregar.
Aquele albergue espanhol, como se chamava.
Isso deixou de acontecer a partir de Rui Rio, fundamentalmente. Foi quando Rui Rio veio com o discurso de é preciso recentrar o PSD. E André Ventura viu ali uma oportunidade, correu em pista própria. Passos Coelho tirou a confiança política a André Ventura quando ele era candidato à Câmara de Loures e disse o que disse sobre os ciganos. Não, quem retirou foi o CDS. Portanto, por que diabo é que Pedro Passos Coelho não haveria de apoiar André Ventura?
Claro.
Com o que ele diz. Isto não é o Bangladesh, ou os ciganos têm que cumprir a lei.
Sobre isso, mas isso dava muita conversa, tenho toda uma opinião. É que as propostas do Chega deveriam horrorizar o Passos Coelho preocupadíssimo com o déficit, com a dívida pública portuguesa e com a sustentabilidade das contas. Mas pronto, ele aí não tem tocado muito.
Passos Coelho vai basicamente fazer o que André Ventura pediu aos partidos de direita, que é: não sejam um obstáculo à minha eleição. E é isso que os partidos de direita estão a fazer.
Eu queria acrescentar, se me permitem, que é a questão de que há mesmo silêncios bons, ou seja, o não endosso, para Ricardo, que é: o Seguro confirma que ainda não recebeu nenhuma mensagem de Costa. Há silêncios bons, há silêncios que vêm a calhar para os candidatos. E dizer outra coisa, falávamos há pouco da questão, eu acho que isto, no limite, vamos ver a evolução do discurso durante estas três semanas, mas mais do que ser o discurso direita-esquerda, mais do que ser o discurso democracia-extremistas, eu receio que isto vá para um discurso povo contra elites. Nos últimos dias da campanha da primeira volta, Ventura começou a sair com o cartaz "Presidente do Povo", que é talvez o exemplo mais acabado e melhor do que o Anselmo dizia há pouco, da linguagem simples e eficaz de André Ventura. E agora, justamente hoje estava a comentar: "Eu não quero notáveis, quero o povo português". E esse discurso eu acho que vai ser muito mais complicado de rebater, porque é muito mais transversal do que a questão esquerda ou direita.
Se bem que esquerda-direita, olhando para a esquerda da forma como está, também é uma divisão muito complicada para Seguro.
É difícil sustentar que tu és a direita quando vais ter todos os dias gente de direita a dizer que vota no Seguro.
Lá está, aí concordo.
Pronto, e aí ele vai ter que dizer outra coisa. Dizer: "Não, estas elites que não compreendem, que estão lá longe."
Nós há pouco ouvíamos uma apoiante de André Ventura, Felicidade Vital, dizer que o facto de os notáveis apoiarem António José Seguro, isso não interfere nada com aquilo que o povo decide.
Exato, é isso mesmo. Aí está.
Vamos às notas?
Dando o meu braço a torcer, vou dar um 10 a Luís Montenegro.
Eu também dou um 10 a Luís Montenegro, com uma recomendação que de facto ele arranje alguma coisa para dizer ao longo destes dias. Eu compreendo a posição dele agora, mas concordo totalmente com o que a Judite e o Anselmo disseram, isto é, ele tem que dizer que presidente é que quer, tem que ir falando.
Achas que vai dizer alguma coisa?
Eu acho que sim. Mas deixa ver, acho que ele vai ter que dizer, não tomar uma posição, mas dizer de que presidente é que Portugal precisa e ir dizendo estas coisas, traçando um perfil. Sobretudo, ele tem de arranjar qualquer coisa para dizer que é para não ser o bolo rei do cavaco. Questionado sobre isto, ele vai ser constantemente questionado sobre isto. Ele não se vai poder pôr a comer qualquer coisa, a relhar aquilo em frente às câmaras.
Eu vou baixar um bocadinho, vou dar um oito, mas só pelo cinismo, porque apesar de tudo, nós todos sabemos que o presidente que dá mais jeito a Luís Montenegro é efetivamente António José Seguro e, portanto, dou um oito só pelo cinismo.
Fica feito este "E o Vencedor É", que está de regresso amanhã, pela fresca, às 08h30 da manhã, nas manhãs de 360. "E o Vencedor É" está disponível na rádio e também em vídeo, no YouTube e nas redes sociais e regressa amanhã.