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Yuven Touré na Rádio Observador, em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, Anselmo Crespo e Alexandra Machado. Tema praticamente único, embora aqui com vários ângulos, e um tema exatamente original. Os casos à volta de Luís Neves. Ontem, André Ventura confirmou a marcação da moção de censura. Hoje já ficou agendada para terça-feira, dia 8 de setembro. Anselmo, há também um nome que tem vindo à baila, que é o do presidente da República, que hoje já sentiu necessidade de dizer que não tem porta-vozes e que já fez também alguns desses supostos porta-vozes, como Álvaro Beleza, dizerem que não falam em nome do presidente.
Mas demorou uma semana. Ponto prévio, eu acho que na fase em que estamos da novela Luís Neves, ou da série, como quiserem, obviamente, o presidente da República torna-se aqui uma peça-chave, porque a opinião dele, quer a que dirá em privado ao primeiro-ministro, quer a que ele eventualmente possa vir a dar em público, tem peso. Ainda mais um presidente da República que foi eleito há pouco tempo, com a votação com que foi, ou seja, não é um presidente em segundo mandato, já com desgaste, como Marcelo tinha, por exemplo, quando foi do caso João Galamba. O Marcelo com Constança Urbano de Sousa não era o mesmo Marcelo do caso João Galamba, e isso pesou, provavelmente, na decisão de António Costa, num caso e noutro. Mas dito isto, eu nos últimos três dias, sobretudo, fiquei particularmente indignado com a forma como António José Seguro permitiu que o nome dele fosse instrumentalizado no espaço público. Por André Ventura, desde logo, mas isso não é propriamente surpreendente. Mas não só por André Ventura. E eu aqui tenho que dizer uma coisa com alguma dor. Eu ouvi muitos colegas nossos, jornalistas, comentadores, comentadores que são jornalistas, assumirem que a posição do Presidente da República era aquela que estava implícita, é o mínimo que eu posso dizer, na notícia do Sol. Ora, esta notícia do Sol saiu na sexta-feira da semana passada. E além da manchete com as parangonas que tinha, era uma notícia com três parágrafos na última página do Sol. E eu vou ler, porque eu acho que vale a pena nós irmos à origem de uma semana a comentar o que pensa o Presidente da República sem o Presidente da República ter aberto a boca. Foi basicamente isto que aconteceu. O Presidente da República considera que o Ministro da Administração Interna não pode estar sob suspeita permanente e a continuidade no governo de Luís Neves nestas condições é insustentável, apurou o Sol. Não é fonte de Belém, não é fonte próxima do Presidente da República, apurou o Sol. E a segunda frase diz: "E já o comunicou ao Primeiro-Ministro Luís Montenegro, que lhe pediu tempo para resolver a situação." Portanto, eu li esta notícia e pensei: se o Sol apurou uma coisa que resulta de uma conversa entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, isto tem que ter vindo de um de dois lados, ou do Presidente da República ou do Primeiro-Ministro. Como é pouco provável que o Primeiro-Ministro, o gabinete do Primeiro-Ministro, alguém próximo do Primeiro-Ministro, tenha algum interesse em que esta notícia saia, sobra a Presidência da República. Ou alguém da Presidência da República que disse a uma terceira parte qualquer coisa deste gênero, que depois disse ao Sol. Está tudo certo, faz tudo parte das regras do jogo. Andamos todos aqui há anos suficientes para saber que estas coisas se fazem assim. Os critérios diferem de órgão de comunicação social pra órgão de comunicação social, de jornalista pra jornalista, mas nós sabemos que já se fizeram notícias e manchetes por menos. Mas daí a dar o salto que foi dado na última semana, é que isto que eu acabei de ler em momento algum diz: "António José Seguro deu um prazo ao primeiro-ministro para demitir Luís Neves." Em lado nenhum está aqui isso.
Nem fala em prazo. Aí o que está dito é tempo.
Que o primeiro-ministro lhe pediu tempo, que se transformou em Seguro deu um prazo. E depois transformou-se em Seguro deu um prazo para demitir o ministro. Que André Ventura pegue nisto, embrulhe, faça um croquete e diga: "O presidente da República está preocupadíssimo e até já deu um prazo." Nós não estamos habituados a que André Ventura se preocupe com factos. Agora, que a opinião pública e publicada, incluindo pessoas que são jornalistas, assumam isso como uma verdade absoluta e partam para um comentário aceitando que é verdade que António José Seguro deu um prazo pra demitir Luís Neves, já me faz mais confusão. Mas o pior de tudo é o próprio presidente da República ver a tenda arder, ver o circo montado, ver isto tudo acontecer, porque depois a seguir, como a notícia do Sol tinha um prazo de validade, passamos para os amigos de António José Seguro e os conselheiros de António José Seguro. E começou-se a interpretar as palavras dos próximos de António José Seguro. E portanto, montou-se um caldinho esta semana em que toda gente estava a dizer e a comentar o que António José Seguro pensava, sem nunca ninguém ter ouvido António José Seguro dizer nada.
Mas há aí também uma culpa do próprio, ou não? Por ter deixado que o silêncio...
Era aí que eu ia chegar. Eu sou mais adepto e mais fã do registo de António José Seguro do que do registo de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas havia uma coisa que Marcelo me disse logo no primeiro mandato a propósito de uma notícia que citava a fonte de Belém. A única fonte de Belém, dizia-me Marcelo, sou eu. E, na verdade, isto correspondeu ao mandato dele. A única fonte Belém era ele. Nós ao menos sabíamos quando se citava a fonte Belém, sabíamos quem era a fonte. Agora, António José Seguro permite que quase durante uma semana se ande a dissertar sobre o que ele pensa e o que ele disse ao primeiro-ministro e o que terá dito, e não diz rigorosamente nada. E hoje diz em off, não percebi bem se era em off.
Não deixou gravar.
Não deixou gravar.
O que também é um recado.
Mas reparam, uma semana depois.
Sim, estou de acordo.
E depois vem me falar da...
Só estou a dizer é que Seguro mandou o recado de que não manda recados.
Pronto.
Apenas.
Há só uma coisa.
Não desmentiu o conteúdo do dito recado.
Há só uma coisa que se confirma aqui: é que o regular funcionamento das instituições começa, de facto, a estar em causa, mas já não é só a Polícia Judiciária e o governo. Eu acho que há também aqui um problema com a Presidência da República, porque se é este o padrão que António José Seguro vai seguir daqui pra frente, eu fico preocupado. E eu espero mesmo que António José Seguro, porque o caso Luís Neves não precisava ter assumido esta dimensão e esta gravidade, mas a verdade é que assumiu e chegou a este ponto, eu espero que António José Seguro daqui pra frente faça uma gestão um bocadinho mais cuidadosa deste caso, porque senão, daqui a pouco, nós nem para Belém nos podemos virar. Quer dizer, já não sabemos em quem é que havemos confiar.
Deixa-me só enfatizar aqui uma coisa. Tu leste, e bem, a notícia do "Nascer do Sol", mas o título, e como se sabe, muitas vezes só os títulos é que contam, infelizmente, dizia claramente: "Seguro deu um prazo a Montenegro."
Pronto, mas convinha ler a notícia.
Pois, não, eu também acho. Acho que deviam ler sempre as notícias todas até o fim.
Que o leitor não vá ler a notícia, eu já acho mal. Agora, que os jornalistas não vão ler a notícia.
Mas eu até estava a pensar em André Ventura, que claramente só lê títulos e interpreta os títulos e as notícias da realidade.
E acrescentar só que ontem, por exemplo, o Hugo Soares bate na notícia também por não ter sido assinada. E com isso ter feito.
Mas pronto, lá está.
Se não fosse por isso, era por outra coisa que ele iria bater na notícia.
Lamentavelmente.
O Hugo Soares também disse que não acreditava em notícias.
Sim, não acredita em notícias, exceto quando são favoráveis ao PSD ou ao governo. O ponto aqui é: não é a primeira vez que isto acontece, em todas as profissões, em todas as áreas, há coisas mais bem feitas e coisas mais mal feitas. Não me interessa estar aqui a debater a ética e a deontologia do jornalismo, ainda que eu acho que isso é um tema importante pra debater um dia destes. Não estou a desvalorizar o caso Luís Neves, não estou a desvalorizar nada disso. Acho inacreditável que durante uma semana, pessoas com responsabilidade política e não só, tenham permitido que isto aconteça desta forma, porque, de facto, acho que estamos todos a contribuir para um lamaçal do qual eu não sei como é que vamos sair.
Só antes de passar aqui também outras reações, nomeadamente a do Luís Montenegro, pra esta atitude de António José Seguro pode também contribuir esta necessidade que ele tem de mostrar que é antagónico face a Marcelo Rebelo de Sousa.
Isso seguramente, e nem precisa de se esforçar muito, porque ele, de facto, tem um registo muito diferente.
Mas aqui caminhou pro lado.
Basta falar só duas ou três vezes por semana, já é suficiente.
Mas neste processo foi um bocadinho Marcelo Rebelo de Sousa.
E eu não desvalorizo sequer o facto dele, por exemplo, estar de férias. Ele tem direito a estar de férias. Agora, desculpem lá, há mil formas de travar o comboio. Havia mil formas de travar o comboio, desde logo na sexta-feira, porque como é óbvio, o silêncio serviu para dizer. Aliás, várias vezes aqui no Vence Doré eu vi várias pessoas dizerem isso. O silêncio serve um bocadinho de corroborar a teoria. Então, Seguro não disse nada, não desmentiu, como não desmentiu. Aliás, André Ventura disse esta frase não sei quantas vezes esta semana. O Presidente da República e não desmentiu. E eu acho que o Presidente da República, por muito que queira ter um registo diferente, quererá manter e preservar o seu espaço de atuação, quer em privado com os partidos e com o primeiro-ministro, quer em público, quando tiver que falar, pra quando falar, ter peso. António José Seguro, a última vez que falou em on, de facto, teve peso.
E foram declarações.
E foram declarações. Agora, ninguém leu, está dado um prazo pra demitir, certo?
Está, mas a leitura evidente é: estou atento.
Claro.
E estou expectante, não é? No mínimo, estou expectante.
E há problemas.
E há problemas.
Cada um assuma a sua responsabilidade.
Posso só dizer mais uma coisa. Imaginem, agora do ponto de vista da interpretação. Eu nem sequer acho que faça muito sentido um presidente da República dar um prazo a um primeiro-ministro. Por quê? E se o primeiro-ministro não cumprir o prazo?
Esse é o problema, não é?
Quem entende na política...
E há jurisprudência sobre isso. António Costa não cumpriu.
Vamos imaginar que António José Seguro chamou Luís Montenegro e disse assim: "Olhe, tem até 15 de setembro pra demitir o ministro."
E ele não fazia.
E o primeiro-ministro diz: "Senão faz o quê?"
Exato. Despenteia-me?
Despenteia-me. Ele pode, claro, dissolver a assembleia. Jorge Sampaio fê-lo e, aliás, esta semana quando ouvi falar no irregular funcionamento das instituições, a primeira coisa que me lembrei foi de Jorge Sampaio. Logo, não é? É que não se usa essa expressão todos os dias. Ainda por cima dita por, lá está, um amigo próximo, um conselheiro de António José Seguro. Mas que diabo, vamos lá pensar bem. António José Seguro quer mesmo ao fim de três ou quatro meses de mandato implodir isto tudo por causa do caso Luís Neves?
Também convinha pensar um bocadinho nisso.
Nem criar essa cisão com o Governo, com o primeiro-ministro. Seria um cabo de trabalhos logo no início de mandato.
Dar um prazo seria fragilizá-lo também, porque Montenegro então aí é que não cumpriria mesmo. E como é que António José Seguro ficava? Não faz sentido.
Há também outras reações deste caso e desta moção de censura anunciada ontem. Alexandre, Luís Montenegro hoje já desvalorizou esta moção, diz que faz parte do jogo político. Também ontem, em reação ao anúncio de André Ventura, o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, disse que a moção ia ser apenas uma derrota para o Chega, porque ia ser chumbada. Mas ainda assim, há riscos também para o Governo e para o PSD, apesar de o chumbo estar à partida garantido.
Sim, há riscos, nomeadamente de desgaste, obviamente, e acho que Luís Montenegro faz mal em desvalorizar tanto este caso todo em torno de Luís Neves. E eu roubando aqui um bocadinho o título do livro de Miguel Carrapatoso, "Na Cabeça de Montenegro", vou tentar pôr na cabeça de Montenegro, se calhar era melhor chamarem o Miguel Carrapatoso. Já agora, em relação a Sebastião Bugalho, a cartilha é igual à do Hugo Soares. Houve ali claramente WhatsApps trocados.
Esqueceram-se de mandar ao Luís Neves.
Pois, que tinha falado antes.
Claramente.
Claramente não alinha com nada, é um desalinhado. E é ele, só ele. Mas em relação a Luís Montenegro, o que me parece é que tanto a moção de censura, como a comissão de inquérito, como todo este bruá à volta de Luís Neves, o está a fazer manter ainda mais a defesa de Luís Neves. E acho que isto vai ajudar bastante a ir prolongando o prazo de vigência de Luís Neves no governo. Não estava à espera que Luís Montenegro ontem dissesse que esta moção de censura vai ser uma desgraça e que o governo vai cair. Não estava à espera, estava à espera exatamente das declarações. Hoje, não foi ontem, foi hoje, de Luís Montenegro, ainda para mais estava fora do território nacional, e estava à espera que ele dissesse o que disse, claramente a desvalorizar a moção de censura. Estaria talvez à espera que voltasse em defesa, e fê-lo também, defendeu Luís Neves, mas também estaria à espera que pelo menos alguém lhe perguntasse o que é que tinha achado das declarações de Luís Neves na terça-feira. Isso sim, eu gostava de ouvir Luís Montenegro falar sobre Luís Neves dizer que ficaria no posto e quase a assumir o seu próprio futuro. E o futuro não depende só de Luís Neves. Claro que ele tem sempre a opção de sair por pé próprio, mas o futuro de Luís Neves no governo depende, acima de tudo, de Luís Montenegro.
Toda a gente sabe qual é o mantra que se diz: o meu lugar está sempre à disposição do primeiro-ministro.
Sim, que não dissesse isso, mas que não dissesse o exato oposto disso, que é: "Eu fico e eu é que estou aqui para isto." Eu gostava de ouvir Luís Montenegro, de facto, referir-se a essas declarações do seu ministro que, aliás, já várias pessoas comentaram isso, que se sobrepôs ao próprio poder e ao próprio papel que Luís Montenegro tem na definição de um governo. E, portanto, vamos esperar que Luís Montenegro regresse a território nacional para ver se fala mais um bocadinho sobre este tema. Senão, dia oito lá estaremos à espera. Mas já agora, dia oito era o dia da audição.
E foi cancelada porque há uma moção de censura.
Dá tudo muito jeito.
À partida poderá até nem ser remarcada.
Pois é, isso dá tudo muito jeito.
O que só prova que está toda a gente muito interessada em explicações de Luís Neves. Sim, se calhar pensaram também que se André Ventura não quer ir ao frente a frente, não vale a pena.
Não vale a pena marcar.
Não vale a pena estarmos aqui a perder tempo. Judite, tivemos este recado hoje de António José Seguro, através da SIC, também Luís Montenegro com esta tomada de posição, sendo que o PSD, e nomeadamente Hugo Soares, como referiste, esteve ontem na SIC, hoje também estará na Visão Suave, têm procurado tirar pressão e tirar peso a estas palavras e a esta postura recente de Luís Neves. Há aqui uma tentativa de manter o ministro à tona?
Há, mas eu por acaso, ao ouvir as declarações hoje na Visão Suave.
Sim, a entrevista foi gravada ao final da manhã.
E, portanto, já passamos uma parte, algumas declarações nos jornais. Eu acho que se sente alguma incomodidade do Hugo Soares a defender Luís Neves.
Aquilo não é fácil.
Não é fácil. Sebastião Bugalho fez isso com mais facilidade ontem, por acaso, a defender aquele estilo.
Mas o Hugo Soares ontem na SIC também fez isso com bastante habilidade.
Não sei se foi das perguntas hoje.
Ficou um bocadinho menos.
Ou então ouviu menos fácil.
Ouviu as declarações de ontem à noite e disse: "Se calhar exagerei um bocadinho". Porque isto de ficar no meio da ponte também é melhor. Não se sabe o futuro. Eu achei piada porque hoje ao ler António José Seguro do "Não mando recados por ninguém" e ao ouvir o Luís Montenegro a dizer que não manda recados a ninguém, percebi que a diferença da proposição torna o significado muito diferente. E acho que o facto de Seguro ter dito que fala por si próprio e negar que está a enviar recados, não se distanciou do conteúdo, ou seja, não desmente o conteúdo. Podia ter vindo desmentir o conteúdo, podia ter dito: "Ninguém fala por mim e eu não disse nada aquilo."
Não é nada aquilo que eu penso. E não, desmentiu apenas a legitimidade de alguns poderem falar em nome do presidente. Dito isto, a interpretação de que tanto Adalberto Campos Fernandes como Álvaro Beleza falaram em nome do presidente é nossa. Os próprios não o disseram e têm espaço de comentários, nomeadamente o Campos Fernandes tem um espaço de comentário e, portanto, cada vez que fala não pode estar a ser colado a António José Seguro, senão isso não fazia o mínimo sentido. Já o fato de André Ventura ter falado, ao ouvi-lo parece que foi isto que conversaram ao telefone, é isso que uma pessoa tira daquelas frases de André Ventura. Era esse o objetivo. Eu acho que se o presidente quisesse apagar o incidente, teria desmentido o conteúdo. Acho mesmo, teria sido mais eficaz.
Qual deles? O do prazo ou o do recolher em função?
O da capa da notícia.
Acho sinceramente que a notícia não está no horizonte do presidente da República. Acho que nem pensou nisso. Eu acho que aquilo que o levou a falar foi Adalberto Campos Fernandes e Álvaro Beleza. Acho que sim.
Que também tiveram tempo para dizer que não estavam a falar em nome do presidente.
Álvaro Beleza já veio.
Não, veio hoje, mas as declarações creio que foi no fim de semana.
Ou no início da semana.
Sobre as reações ao caso de Luís Neves e também aos impactos que esta moção pode ter no desgaste de Luís Montenegro, que agora está quase numa de não o demito porque é o que estão a pedir. Eu acho que com Luís Montenegro isso normalmente funciona assim. E acho que funciona assim desde o início. O que eu acho é que o primeiro-ministro não esperava que isto se avolumasse desta forma, nem o primeiro-ministro nem ninguém. Com a quantidade de casos que foram aparecendo e depois com esta cereja no topo do bolo, que foi aquela intervenção anteontem, que de facto deixou toda a gente boquiaberta, nomeadamente os agentes da PSP, que entretanto os sindicatos da PSP já vieram falar a dizer que era inqualificável falar naquele tom sobre aquele conteúdo quando estava numa cerimônia protocolar de aniversário da PSP. Parece evidente.
Isso é a cereja no topo do bolo mesmo, falar naquela cerimônia sobre o seu caso pessoal.
Sobre a sua vida. Sobre as suas glórias enquanto Polícia Judiciária também. Deixou uma menção diminuta no fim a dizer que também gostava muito da PSP e da GNR, mas que a PJ era sempre a sua casa, que é aliás a polícia que ele não tem no seu ministério. Tudo isto não faz sentido absolutamente nenhum, mas ao que parece, o Luís Montenegro diz que a moção é jogo político e que basicamente está muito satisfeito com os membros do seu governo, onde se inclui Luís Neves, e chutou para canto qualquer hipótese de poder, num futuro próximo, dispensar Luís Neves. Foi assim que eu li estas declarações, porque mais uma vez, Luís Montenegro refere-se sempre muito à bolha e portanto faz sempre esta distinção entre eu falo para o povo, a bolha fala para a bolha e o que se diz na bolha não interessa. Não sei se as sondagens dizem isso exatamente, eu acho que não dizem, mas Luís Montenegro está convencido que este tipo de assuntos e que este tipo de enredo não interessa às pessoas. Que só interessa aos comentadores e aos jornalistas e que não interessa às pessoas. Talvez seja verdade quando estão muito no início, quando a coisa começa com pouco pó ainda, mas entretanto entrou aqui e foi uma rabanada de vento que trouxe imenso pó e imensa sujidade com casos e mais casos que se acumulam.
Mas se isso fosse assim, mais uma razão para Luís Neves, na terça-feira, não ter feito o discurso que fez perante as pessoas que fez. Ou seja, se Luís Montenegro sabia daquele discurso, aquilo foi falar pra bolha numa cerimônia pública, na Madeira, perante polícias e perante uma cerimônia de comemoração de polícias.
Sim, é verdade, mas eu acho que Luís Montenegro sabia. Podia não saber o conteúdo todo.
Não sei se ele saberia o conteúdo todo.
Todo. Acho que talvez não soubesse o conteúdo todo.
Se não sabia o conteúdo todo, então ainda são mais incompetentes do que aquilo que eu imaginava. Porque repara, o Luís Neves podia ter sido apanhado pelos jornalistas à margem de qualquer coisa e ter começado a devitar. Toda a gente, o primeiro-ministro é apanhado de surpresa. Luís Neves anunciou na véspera: "Amanhã vou esclarecer tudo." Tanto que nós começamos todos a olhar pra agenda e pensar: "Mas onde? Na cerimônia da PSP?"
Vai ser na Madeira? Vai voltar pra Lisboa?
Mas ele vai falar cá ou lá. No comentário já se estava a dizer: "Mas que estranho, mas ele amanhã só tem agenda na Madeira." E portanto, eu quero acreditar que alguém no gabinete do primeiro-ministro vê notícias e viu o ministro dizer que amanhã vai e no mínimo fez um telefonema a dizer: "Manda lá o que ele vai dizer." Qualquer coisa. Mais, o discurso foi distribuído pelo ministério, portanto o ministério estava convencidíssimo que aquilo era uma excelente estratégia de comunicação. Portanto, se o gabinete do primeiro-ministro não sabia, é grave. Se sabia... Não sei o que é que prefiro, se é sabia ou não sabia, porque eu acho que ambas as situações demonstram uma incompetência gritante.
Não, mas eu estava a dizer precisamente isso. Se sabia, ele estava a falar para a bolha, autorizou um discurso a falar para a tal bolha que Luís Montenegro critica tanto.
Mas naquele tom, é um tom, como Luís Montenegro gosta de referir, o povo ouve. Aquele tom é um tom indignado, de defesa da honra. E eu acho, sinceramente, que quando hoje Luís Montenegro dizia que o povo não está interessado na dinâmica do jogo político, referindo-se à moção de censura, dos bastidores e dos recados. A frase é esta. E depois é a altura em que diz: "Eu não mando recados a ninguém e falo com o povo." Eu acho que a intenção anteontem foi a de Luís Neves falar com o povo, se defender. Não sei se resultou.
Acho que foi muito falar com o povo do Chega. Eu acho que aquilo entrou finalmente ali no: "André Ventura, anda cá."
"Eu estou aqui pra ti."
"Eu estou aqui pra ti."
Em duelo.
Escolhe as armas.
Eu acho sinceramente que não sei como é que Luís Montenegro vai sustentar este ministro durante muito tempo, mas nós já vimos que Luís Montenegro, normalmente, então se puder, faz o contrário daquilo que a esmagadora maioria do comentariado lhe pede ou analisa como sendo o melhor para o funcionamento do governo. Mesmo que mais nada interesse nos dias que correm, a não ser isto. A ministra da Saúde fez declarações, ainda há dois dias, graves sobre o funcionamento dos hospitais, sobre a falta de enfermeiros, sobre as urgências. Tudo isso passou para segundo plano. E eu acho que isto é uma péssima forma de ver a vida política de um país, mas é o que temos.
Tu já reparaste que os dois guiões do Chega e do Luís Montenegro são exatamente iguais aos da Spin on Viva? É igual. O Chega, e já agora no caso do Chega, também é igual ao caso das gêmeas, com a diferença que não dava pra apresentar uma moção de censura ao presidente da República, porque senão também teria apresentado. André Ventura segue sempre o mesmo guião. Há uma notícia, há uma ação política. Primeiro é chamar o ministro ao Parlamento, depois a seguir é falar com o presidente da República, depois a seguir é uma comissão de inquérito, depois a seguir à comissão de inquérito vem a moção de censura. E o que Luís Montenegro fez com Luís Neves, que esteve 20 e tal dias calado, por ordens de Luís Montenegro, obviamente, depois daquelas célebres duas entrevistas desastrosas, foi exatamente o mesmo que Luís Montenegro fez com a Spin on Viva, que é primeiro chegou-se à frente e disse: "Eu esclareço tudo." Acabou de tentar esclarecer tudo e nós dissemos: "Não esclareceu nada." Ele disse: "Então agora vou ficar calado." E ficou calado durante uma eternidade, enquanto André Ventura foi escalando. E acabou como? Acabou com Luís Montenegro a fazer-se à falta. Eu não acho que desta vez acabe da mesma maneira, porque eu acho que Luís Montenegro terá aprendido a lição, que fazer-se à falta desta vez pode não correr tão bem como correu da primeira, e não correu da primeira como ele queria, que era a maioria absoluta, e não chegou à maioria absoluta. Agora, neste caso, isto está a escalar até o presidente da República. E lá está, já se está a falar do irregular funcionamento das instituições. Portanto, eu não sei que caldinha que se está aqui a montar. Há uma coisa que eu sei: não há nada que André Ventura tenha feito que não fosse previsível. E Luís Montenegro não chegou à política ontem. Portanto, agora façam as contas.
O que eu achava mesmo importante é que se concluísse estes inquéritos e aquela auditoria pedida pelo Ministério da Justiça sobre a PJ. Isso, sim, podia encerrar, pra um lado ou pra o outro, este assunto. E hoje Amadeu Guerra, o procurador-geral da República, disse exatamente o que é que está a ser investigado e garantiu que não tinha, pelo menos em dois deles, não tinha havido férias pós inquéritos e que tinha acelerado ou pelo menos colocado esses dois inquéritos.
Não estiveram parados dada a urgência.
A urgência, exato. E colocou esses dois inquéritos como urgentes e fez bem. O que me espanta nisto tudo é que Amadeu Guerra, já agora passei pra outro assunto, desculpa.
Não, fizeste muito bem.
Mas foi com muita suplesse, vou te dizer, foi uma grande passagem.
Eu prometi que ia falar de futebol. Amadeu Guerra falou em cinco investigações, inquéritos judiciais, e eu fiquei espantada de não haver um sexto em relação às transações em dinheiro. Confesso que fico.
Não consideras que estão incluídos nas questões relacionadas com a construção?
Não, porque ele falou administrativo. Falou no tribunal de Beja. Não sei se estará aí incluído.
Como era a investigação às obras no monte.
Ficaste com a sensação. Se está, mas se estiver, eu não o incluí aí, porque achei que seria uma investigação primeiro a ser feita pela autoridade tributária e depois transitar para outro inquérito. Mas achei estranho, de fato, não haver esse inquérito à transação em dinheiro vivo, pagamento de serviços. Mas Amadeu Guerra fez bem em vir dar o tom e espero mesmo que sejam rápidas e urgentes as decisões sobre esses inquéritos, como a auditoria do Ministério da Justiça.
Ontem tinha tido também agenda em Lisboa, optou por não falar, hoje já alguém lhe explicou que seria melhor dizer alguma coisinha. Ia perguntar-vos
Depois de terça-feira, como é que isto se faz? Vai haver tempo para esperar pelas cinco ou seis investigações? Luís Montenegro vai conseguir manter Luís Neves muito mais tempo para lá da discussão da moção de censura? O que é que depois de terça se pode esperar?
Eu diria que depois de terça-feira temos que esperar pelo presidente da República. Por dois motivos. Primeiro, por um que vocês falavam há pouco na conversa com António Capus, que é o dia da reunião.
Por acaso o dia da reunião é na terça-feira, com uma moção de censura na terça-feira.
Pois, exato.
Não sei se vai ser mudada.
Mas eu diria que António José Seguro agora não tem grande interesse em falar até ao dia do debate da moção de censura para não influenciar ou para não ser citado. Ele já é tão citado. Se ele agora vai falar publicamente, ainda se arrisca a ser citado durante o debate da moção de censura. Portanto, eu acho que será importante perceber a posição do presidente da República. Mas não é nada claro para mim que Luís Neves não se aguente mais algum tempo, até para Montenegro perceber exatamente como é que quer fazer o phasing out desta polêmica, porque eu concordo que as investigações era bom que viessem, mas isto é Portugal. Quer dizer, podemos pôr isso no sapatinho, mas até o Natal tenho pouca fé de que isso aconteça. Ou pelo menos as cinco, ou seja lá o que for, porque repara, mesmo que saia a conclusão de uma, vamos dizer: "Poxa, faltam quatro". Saem duas, faltam três. Portanto, acho difícil que isto se esclareça até lá.
Ou que o orçamento de Estado seja tão bom que permita fazer esquecer Luís Neves.
Não, isso então é impensável. E mais, onde eu achava que podia haver alguma possibilidade de termos todos um pouquinho mais de clarividência sobre estas polêmicas era na Assembleia da República. E ironicamente ou não, o PSD as primeiras tentativas que houve para chamar Luís Neves ao Parlamento, vetou-as todas. E agora, de repente, era o PSD que estava interessado e foi a oposição que passou por cima e já não quer ouvir Luís Neves e afinal só se vai debater uma moção de censura. Portanto, eu não estou a ver que depois de terça-feira, ato contínuo ao chumbo da moção, porque depois de terça-feira, o que vai ser o discurso do primeiro-ministro? Vai ser: "Houve uma moção de censura, nós ganhamos. Por que eu vou demitir o ministro?" Portanto, eu não vejo que haja um ato, a não ser que o presidente da República tenha uma posição dura e aí Luís Montenegro pode perder alguma margem, ou então decidir o que António Costa fez, que é ir ao confronto com o presidente da República, coisa que não me parece que seja do interesse dele.
Alexandra?
Eu concordo. Já o disse que acho que Luís Montenegro está cada vez mais empenhado agora em segurar Luís Neves, por mais não seja para não ir atrelado à agenda midiática, nem à agenda do próprio Chega.
Mais um passo a Bernardo Silva.
Que saudades.
Ao João Palhinha.
Não vou comentar. E, portanto, acho que Luís Montenegro está cada vez mais empenhado em manter Luís Neves. Já agora, pode tentar manter Luís Neves resguardado ou pelo menos que não faça aquele tipo de intervenções.
Nunca pensamos ter isso. Andamos a desejar que ele falasse, agora desejamos que ele não fale.
Um dos erros dos anteriores ministros da Administração Interna era a capacidade de comunicar.
Exatamente.
Nós queremos que ele se esclareça, não que se enfureça. Vamos cá ver, nada contra ele em fazer aquela comunicação, porque aquilo é uma comunicação fora daquele âmbito.
Sim, claro, uma conferência de imprensa marcada para o efeito.
Sim, eu estou contigo, também não percebo as críticas do: "Ele é ministro, não pode atacar o Chega." Desculpa, mas o ministro não é político? Então ou é político ou não é político.
Nada contra ele fazer aquela declaração, não naquele âmbito.
Judite.
Olha, eu tenho muita dificuldade em ver para lá do dia da moção, porque eu acho que se Luís Montenegro não fez nada até agora, muito menos vai fazer depois da moção de censura, porque a moção de censura, no fundo, até vem respaldar o fato de nada estar mal, porque vai chumbar. André Ventura tem sido um vencedor por marcar a agenda midiática, por ter uma estratégia sempre delineada e enfim, aparecer em primeiro plano, deixando o PS muito para trás. Mas a verdade é que no dia 8 vai ser derrotado. Portanto, no dia 8 o André Ventura passa a derrotado, inevitavelmente, porque a moção chumba. E portanto, eu acho que aí Luís Montenegro tem mais uma razão para continuar a apostar no seu ministro e continuar a fazer esta pirraça, que é quase uma teimosia, eu acho. É quase já uma teimosia.
E nota, para fechar.
Eu vou dar uma nota a Amadeu Guerra por ter vindo falar, porque acho que fez muito bem. A gente já se esqueceu, às vezes, como a PGR não falava e não dizia nada, e nós andávamos sempre à procura de declarações da PGR e ela não existia. Portanto, vou dar um 15 a Amadeu Guerra.
Alexandra. Perante isto?
Perante isto, nós temos notas mais elevadas à tarde.
Não é aquela depressão.
Podiam ter avisado. É que eu vinha dar um oito, só porque a moção de censura é debatida dia oito, vou dar um oito a todo o processo. E oito é bom, porque eu veio por causa do Amadeu Guerra.
Olha, eu dou um 10 a António José Seguro, que é um 10 de benefício da dúvida. Por um lado, eu não acho que ele ter permitido tudo o que aconteceu esta semana seja positivo. Por outro lado, eu tenho alguma esperança que António José Seguro, independentemente do que ele pense sobre este caso e do que ele venha a fazer, tenho alguma esperança que António José Seguro consiga restabelecer aqui alguma normalidade, se não publicamente, pelo menos nos bastidores, usando os poderes que tem.
São Pedro Crespo, Alexandra Machado e Judite França no "O Vencedor" que está de regresso amanhã nas manhãs 360.