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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Olá, Eduardo. Que diferença há entre trabalhar muito e estar em burnout?

Olá, Judite. Em primeiro lugar, há pessoas que gostam mesmo de trabalhar. E eu não acho que sejam doentes por causa disso. Muitas vezes fala-se desse trabalho como uma adição, enfim, como outra qualquer. Não estou a dizer que nalgumas pessoas não possa ter um colorido semelhante a uma adição, claro que sim, mas também há pessoas que adoram trabalhar e que se divertem em trabalhar. E mais, eu tenho pena que muitas delas não sejam o exemplo acabado daquilo que é transversal a todos, porque todos vamos ouvindo por aí que há uma diferença significativa entre ter um trabalho e ter um emprego. Ou seja, há pessoas que não podem ou que não conseguiram, pelo menos não conseguiram ainda, ter uma área de trabalho que tivesse tal forma ou que fosse tal forma uma encruzilhada de tudo aquilo que são as suas qualidades, que de repente trabalhar as faça levantar voo, crescer e ter novas qualidades pessoais, sociais, cognitivas, inevitavelmente, por aí adiante. Agora, é verdade que o trabalho também tem um cadinho as costas largas. Verdade que muitas vezes o trabalho se vai estendendo de uma forma muito glutona na vida das pessoas e que vai exigindo isto e aquilo, e que vai ocupando horas quase intermináveis e não tem regras. Sempre com uma ideia, que eu acho muito escorregadia, de que vestir a camisa, ou isso mesmo, é uma pessoa dedicar-se ao trabalho acima de todas as coisas. E, portanto, há, de facto, pessoas que à medida que vão trabalhando dessa forma mais febril, digamos assim, vão ficando quercomidas pelo trabalho, com tudo que isso implica, e serem incapazes de corresponder a tudo aquilo que a vida também lhes traz ali à volta. E, portanto, é como se, por um lado, fossem tentando corresponder aos desafios que lhes chegam do trabalho e, ao mesmo tempo, fossem dilapidando recursos familiares, recursos sociais e até os pequenos nada, que acabam por dar um colorido às pessoas em relação à sua relação com a vida. E, portanto, o burnout é um esgotamento que em determinada altura surge e que vai no sentido das pessoas se deixarem engolir e, de certa forma, quercomir pelo trabalho a ponto de irem ficando mais alheias do mundo, mais rendidas aos dados da realidade, mais vencidas, mais doentes. Atenção só num pormenor: eu acho que, às vezes, o trabalho também ajuda que o burnout não aconteça, porque, como estávamos a dizer, às vezes, o trabalho tem as costas largas e há muitas pessoas que vão encontrar no trabalho um reconhecimento, um espaço para se manifestarem mais livremente e até, de alguma forma, atitudes mais afetuosas que não têm no seu dia a dia. E, portanto, nem sempre quando nós falamos de burnout estamos a dizer: "bom, o trabalho tem esse lado que engole tudo que nós temos de vital", às vezes também protege. Mas o burnout quer dizer, acima de tudo, uma coisa: é que nós vamos sentindo, pensando, gerindo toneladas de informação e gerando ainda mais informação. E em muitas circunstâncias pensamos pouco sobre as coisas e, portanto, nós de alguma forma ficamos abatidos e vamos por ali abaixo num esgotamento grande quando vivemos e não pensamos tanto ao nível daquilo que vivemos.

Onde é que entra o silêncio nisso tudo? Por que é o melhor amigo do burnout?

Judite, porque nós vamos sendo muito funcionais, vamos correspondendo àquilo que nos pedem nos vários lugares e nas várias relações e temos muita dificuldade no trabalho. Todos nós conhecemos isso. Não sei se uma redação no jornal é assim, mas sei, por exemplo, que muitas escolas são assim. Nós não temos muito espaço para dialogar sobre o que tem sentido, o que não tem sentido. E, portanto, vamos nos adequando a uma espécie de tiraniazinha de silêncio daquelas pessoas que nos impõem um conjunto de coisas e que nós percebemos que não têm pés nem cabeça, mas que de uma forma um cadinho medricas, evitamos, de alguma forma, pôr em questão. E, por outro lado, nas nossas relações, a mesma coisa. Todos nós vamos percebendo que uma relação, se calhar, já não está com a pujança que tinha É uma tragédia. Chegamos sempre àquela fórmula que tantos já ouvimos: "Não vale a pena falar, porque não vai entender." E portanto, vamos desistindo devagarinho de fazer lamúrias, de fazer queixinhas, de protestar, de falar daquilo que sentimos. E, portanto, é porque nós, no contexto do trabalho e no contexto das nossas relações, vamos engolindo as coisas e não falamos delas, que o silêncio depois tem este aspecto que podia ser muito expansivo, mas que no fundo nos vai retraindo e nos vai levando a que cada bocadinho de silêncio fiquemos mais perto de explodir mais depressa.

Há sinais precoces que aparecem antes deste colapso?

Dito mais simples de tudo, é aquele que faz com que nós tenhamos uma ideia, que se calhar já experimentamos todos um bocadinho. De estarmos a funcionar lindamente, às vezes funcionar de uma forma exagerada, mas que no fundo, se assemelha muito a estar a surfar as ondas sem que coloquemos os pés no chão e pensemos por um momento: aquilo que eu estou a fazer tem sentido, é aqui que eu me reconheço, etc. E portanto, funcionar ao invés de ir refletindo sobre aquilo que se faz, pode ser o primeiro sinal de que nós estamos a escorregar perigosamente para territórios que mais tarde ou mais cedo se encaminham para o burnout.

Falar resolve?

Falar ajuda. Resolve quando nós temos com quem falar e pessoas que nos ajudam a arrumar por dentro. E eu não estou só a falar de profissionais, estou a falar de pessoas importantes na nossa vida, sejam amigos ou familiares. Falar ajuda muito, porque depois no meio das pessoas com quem nós falamos, há sempre alguém que nos interpela e que nos ajuda a ligar as pontas e aí sim, que nos ajuda a crescer e, portanto, pensar é sempre o melhor remédio. Sem dúvida, absolutamente nenhuma. Falar ajuda, sem dúvida, também.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada. Até amanhã.

Um abraço, Tita, e até amanhã.