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Gabinete de Guerra hoje com Azeredo Lopes, coordenador do International Studies Program da Faculdade de Direito da Escola do Porto da Universidade Católica Portuguesa. Foi também ministro da Defesa. Bem-vindo e obrigado por se juntar a nós. O nome chama-se Gabinete de Guerra, mas eu julgo que é mais ou menos incontornável darmos aqui uma pequena volta, porque há eleições que estão a marcar também e vão ter impacto na configuração política, sobretudo na Europa. Ia sugerir começarmos pela situação na Alemanha com mais uma derrota da CDU nas eleições regionais. Ainda assim, o chanceler mantém-se no lugar, mas a extrema-direita vai ganhando espaço e institucionalizando-se através dessas vitórias eleitorais. Isso pode ser um risco neste conceito de como a Europa se tem defendido e tem agido no que toca ao conflito na Ucrânia?

Boa tarde outra vez. Eu acho que, se me permite a sugestão, não se preocupe com a escolha deste tema, porque este tema está muito ligado à guerra, justamente. Está ligado a um conceito de guerra eleitoral, está ligado também, a meu ver, a um conceito de guerra sistémica e está ligado a uma revolução ideológica, societal, internacional que foi lançada pelo presidente dos Estados Unidos, por esta administração norte-americana. Portanto, nós muitas vezes gostamos muito de nos criticar. É bom termos presente que estas eleições alemãs correspondem, primeiro, a um ataque direto contra os sistemas europeus e, em particular, contra as democracias europeias por parte da administração norte-americana. E não é que eu queira estar centrado apenas em Donald Trump, mas porque isso significa que pela primeira vez não só estamos sozinhos, e é bom termos presente que a sustentação do próprio conceito de democracia liberal deve muito aos Estados Unidos e deve muito à influência política dos Estados Unidos. Eu não lhe escondo que não pareceria pensável este crescimento eleitoral se fosse outra administração e se não houvesse uma interferência direta no funcionamento das nossas sociedades. Nós esquecemo-nos sempre, mas no ano passado tivemos aqui o vice-presidente dos Estados Unidos a atacar-nos ferozmente e a defender justamente os projetos mais reacionários e perigosos das nossas sociedades. E este ano tivemos também, na Conferência de Segurança de Munique, Marco Rubio, em tom de licor doce, muito mais educado, mas também a mostrar-nos a nossa decadência. E, portanto, o pobre chanceler Merz depara com um processo que manifestamente o está a ultrapassar. Ele, aliás, reconheceu que se tratava de um desastre eleitoral. E pra quem nos está a ouvir, nós estamos a falar de um crescimento espantoso, diria eu, pelo pouco tempo em que ele está a acontecer e a repetir-se em vários Länder. Länder são os estados federados da Alemanha. Num deles uma vitória estrondosa há uns dias em Saxe-Anhalt e agora um resultado extraordinário também na Pomerânia-Meklenburgo e finalmente também um crescimento notável em Berlim. E portanto, isto significa o quê? Nós vivemos o tempo dos extremos, porque não posso esquecer que em Berlim, por exemplo, ganhou um projeto claramente de extrema-esquerda, se assim posso exprimir. O Die Linke é também um projeto de charneira, mas do outro lado do espectro ideológico e por isso é extraordinário pensarmos que o governo, que é suportado essencialmente pelo partido do chanceler, a CDU, não conseguiu sequer estar representado nas eleições de Meklenburgo e Pomerânia Ocidental. E isto é muito mau. É muito mau por duas razões. Primeiro, é bom termos presente que este Land está junto ao Báltico e, portanto, patentemente há muita gente na Alemanha que começa a estar farta do perigo da guerra, começa a estar farta de um engajamento, que eu defendo, evidentemente, de ajuda à Ucrânia, mas que tem sido aproveitado pelos mais radicais, pelos mais extremistas, por aqueles que defendem uma leitura exclusivamente nacional, intolerante para com os imigrantes, etc. Permito-me aliás lembrar que aqui há uns tempos juria-se no chanceler anterior, Scholz, viu-se Merz como uma hipótese fantástica para a Alemanha recuperar e está a ser aquilo que se vê. Mas numa altura em que tudo treme, parece-me que isto também está a confluir numa outra guerra, porque a frente política da guerra na Ucrânia faz com que a Rússia olhe pra nós como adversário de longe principal e olhe pra nós como alvo a abater e, sobretudo, o que é que a Rússia quer abater? Felizmente, não creio que queira abater Portugal, mas quer abater o sistema tal como está na Alemanha e está, infelizmente, de forma aparente a consegui-lo, porque tanto a AFD como o Die Linke são fortemente hostis ao apoio à guerra e fortemente a favor de cessar o apoio à Ucrânia. Olha pra França e vê o mesmo cenário preocupante com relação ao nacional, olha pra Itália e enfim, é o que é. E, portanto, nós podemos estar a assistir, infelizmente, e por isso é que eu utilizo a palavra guerra num sentido que não será tecnicamente próprio de acordo com a lei, com o direito dos conflitos armados, mas é claramente uma extensão política de uma guerra muito importante em que o continente europeu está envolvido, goste ou não goste, mas onde, repito, o elemento mais fundamental que está a acelerar esta nossa crise É certamente a ausência, o silêncio ou até a hostilidade daquele país que até agora sustentava o nosso modo de vida, o nosso próprio modelo ideológico e econômico de funcionamento das sociedades e que agora claramente entrou num processo muito radical.

Está em falta de comparência.

Quem me dera que fosse falta de comparência, se me permite. É que se ele fosse falta de comparência, ainda estou como o outro. Era só solidão. Mas não é só solidão, é também enfrentar uma hostilidade declarada que pode ter aliás episódios, a meu ver, muito tristes na história europeia. O que foi recentemente anunciado como acordo entre a Dinamarca e os Estados Unidos a propósito da Groenlândia, não é infelizmente acordo nenhum. É um acordo feito sob coação, que é formalmente um acordo e que infelizmente sem qualquer prazo, pelo que se diz, permitirá aos Estados Unidos transformarem aquele território colossal, que é a Groenlândia, e colossal a vários níveis, num protetorado em que ele tem o direito de dizer sim ou não a praticamente tudo o que lá se passa.

Nós temos aqui dois minutos, ainda assim perguntava-lhe só sobre esta questão de há pouco distinguia o conflito tradicional como o conhecemos deste conflito político que vai já existindo. Isso dá também força à Rússia para subir a parada no tal conflito tradicional, até um bocadinho à boleia daqueles incidentes que se vão registando cada vez mais nos países próximos da Ucrânia?

Sim, não tenho a menor dúvida quanto a isso. E aliás, acho que a Rússia encara com tanto empenho e tanto engajamento o que está a acontecer na frente política, e recordo que há um relatório do principal banco russo, o Sberbank, um relatório que foi hackeado e que agora conhecemos, que dizia que uma das dimensões mais fundamentais para uma potencial vitória da Rússia era justamente cair, colapsar o apoio europeu. E os pronuncios neste momento não são os mais entusiasmantes. Não sei é se, por exemplo, ao contrário do que muitos defendem, não me parece que a Rússia esteja a testar a nossa capacidade defensiva. Sem qualquer ironia, eu creio que a Rússia sabe tão bem ou melhor do que nós, quais são as nossas capacidades e também digo com alguma tristeza que nesta altura ainda não são as melhores, para dizer de uma forma politicamente correta. O que a Rússia está a testar-nos é politicamente. A Rússia está a conseguir efetivamente dividir-nos. Basta ver, aliás, as declarações deploráveis do primeiro-ministro eslovaco, que diz que sim, senhor, que apoia claramente o Tratado da NATO, mas que não contem com ele para qualquer decisão de artigo quinto, o que é no fundo dizer que gosta, mas não gosta ao mesmo tempo. E portanto, é isso que a Rússia está denodadamente a tentar conseguir. Infelizmente, não posso dizer que até agora não tenha já conseguido resultados pelo menos interessantes. E digo interessantes para não ser pessimista, porque acredito que no fim do dia vamos conseguir manter-nos no essencial unidos quanto a esta questão fundamental para a Ucrânia, mas sobretudo para a própria ideia da Europa, em que muitos, espero eu, quase todos nós continuamos a acreditar.

Azeredo Lopes, muito obrigado por se ter juntado a nós neste gabinete de guerra da Rádio Observador.

Obrigado