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O Vencedor é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje, com a Judite França, Raquel Bocasis e o António Costa, vamos olhar para as propostas de Bruxelas para tentar mitigar os aumentos dos preços dos combustíveis, para aquilo que disse o governador do Banco de Portugal e a crise no setor dos restaurantes. E há mais: a possibilidade do Chega avançar com uma comissão parlamentar de inquérito perante o anúncio de derrapagem no valor das obras do metrô de Lisboa, que pode chegar aos 80%. E ainda, e é por aqui que começamos, a visita de António José Seguro à Espanha, a primeira visita oficial do novo presidente da República, que entretanto terminou. Já deverá estar a iniciar seu regresso a Lisboa. Raquel Bocasis, fazes alguma avaliação positiva ou negativa desta primeira visita de António José Seguro à Espanha?
Nem sim, nem não. Acho que decorreu como seria normal. E o "nem" é porque eu acho que a grande notícia desta visita tem a ver com a política caseira e não com a política internacional. Tem a ver com o Código do Trabalho, que é claramente uma questão incômoda para o novíssimo presidente da República. Ele, pra além desta conferência de imprensa final em que decidiu não dizer o que vai fazer, porque claramente está apertado com aquilo que lhe possa chegar à secretaria.
Ia dizendo.
Exato. Ia dizendo, mas depois calou-se.
Tem muita graça.
Mas muito apertado com o que é que lhe possa chegar à mesa do Palácio de Belém e com a imagem que vai ficar, porque há sempre estas questões das coerências, há sempre a percepção daquilo que ele disse e depois a olhada mais vista do ponto de vista da afirmação que fez o slogan e que fez o título dos jornais e menos vista em profundidade. E, portanto, ainda que o presidente possa vir a alegar para aprovar a proposta que ela está claramente mudada em relação àquilo que era quando ele foi questionado sobre o assunto, obviamente que ele sabe que isso não lhe vai cair bem e que pra opinião pública vai ficar a imagem de que deu o dito por não dito. Dito isto, também achei curioso que ontem, não sei se foi no encontro da embaixada com os jovens, pra além de eles ter feito um apelo pra voltarem, esse apelo veio atrelado à ideia de que é preciso mudar a lei do trabalho. E, portanto, num certo sentido, António José Seguro não está mesmo satisfeito com o mau desfecho nas negociações da concertação social. Ele considera que deve haver mudanças na lei do trabalho, aí sim, ao contrário do que defende o seu partido de origem, que acha que essas mudanças não são precisas pra nada. E, portanto, eu acho que os próximos dias vão ser intensos nos bastidores de Belém.
Na quarta-feira há uma reunião.
Com António José Seguro a querer dar o tudo por tudo com os parceiros sociais, nomeadamente com a UGT, para que isto não tenha um mau desfecho. Como eu já disse aqui noutras ocasiões, o timing é péssimo. A reunião da Comissão Nacional da UGT esta semana, no sábado, é o 25 de Abril, e no sábado seguinte é o 1º de Maio. E, portanto, era bom que tudo isto saltasse para depois dessas datas, sendo que também percebemos pelas notícias que dentro da UGT, o braço de ferro é enorme para que a central sindical não aprove nada deste pacote laboral. Portanto, eu acho que quem está aqui com maior incômodo, mais do que o governo, é claramente António José Seguro.
E pra quem está a ouvir, não se assuste, o 1º de Maio é na sexta-feira, desta sexta à noite, e não no sábado. No 25 de Abril é que é no sábado. É mesmo feriado desta sexta à noite. António.
Eu tenho uma coisa pra dizer, mas acho que não vou dizer. Vou dizer.
Diz. Isto é uma graça com aquilo que disse António José Seguro esta tarde em Madrid, disse exatamente isto.
O presidente da República está a pagar exatamente o único compromisso político que assumiu em campanha eleitoral de uma forma tão clara, porque é evidente que o presidente da República considera que é preciso mudanças na lei laboral. Depois podemos discutir se são mais, se são menos, se são mais profundas.
Se são estas, se são outras.
Mas é neste sentido, e por isso é que diz aos jovens: "Vocês têm que regressar, vamos lá ver se temos melhorias e se o país consegue pagar melhor." Eu acho que é mais ou menos a informação oficiosa, não oficial, de que terá havido uma tensão entre António José Seguro e o líder da UGT, precisamente pelas posições que foi tendo nas últimas semanas de continuar a rejeitar os esforços do governo de ceder ou até de modelar algumas cedências no contrato de trabalho, nos contratos a prazo, na modulação do banco de horas, e que isso terá causado algum mal-estar entre a UGT e o presidente da República. E agora o presidente da República tem, de fato, um problema Porque o governo também já se percebeu qual é a estratégia, é muito simples. O governo já está por tudo em relação à UGT. Já dá o caso, eu diria quase, por perdido. Acho que ficou claro que avançou e cedeu e quem não sai do sítio é a UGT. E do ponto de vista da perceção, isto não é obviamente irrelevante, do ponto de vista político, o que torna ainda mais difícil a decisão de veto do presidente da República. E o que o governo vai fazer é mandar uma versão, aliás, já foi dito, pontuei o contexto político desta afirmação. Vai mandar para o Parlamento uma versão que não é exatamente esta, a que chegou neste processo negocial final por pressão do presidente da República, é preciso reconhecê-lo, na concertação, mas uma versão a meio termo para transferir os ganhos de causa da UGT para o Chega, para o Chega poder aprovar isto no Parlamento. O presidente da República hoje também disse uma coisa interessante: quem negociou a responsabilidade é dos partidos. Ele só pediu que negociassem. Não lhe venham dizer que se não há acordo, que a derrota ou que o insucesso da negociação também é de Belém. E é justo que eu diga, de facto, quem se sentou à mesa das negociações foi a UGT, não foi o presidente. Portanto, o presidente tem, de facto, aqui um problema. E veremos que, parece-me, embora seja difícil, tendo em conta o compromisso político da campanha, parece-me que se encaminha ou que se está a tentar encaminhar para uma justificação sobre a disponibilidade do governo para negociar e para comparar o que era o projeto inicial e o que está agora em cima da mesa, para poder viabilizar ou deixar passar, mesmo apelando à paz social, com certeza, e este contexto. Percebe-se a iniciativa do presidente de falar com a UGT antes do secretariado. Eu confesso, tenho alguma curiosidade em perceber, porque o secretariado da UGT tem muita gente. Como em todos os centros de poder.
Tem várias sensibilidades também.
Tem muitas. E é mesmo muita gente, mas como em todos os centros de poder, haverá duas a três, a quatro fontes de poder que são decisivas no meio daquela negociação. Eu não tenho a certeza que o secretário-geral da UGT não esteja do lado dos que querem uma aprovação. Admito que esteja, no contexto interno, numa situação difícil para viabilizar esta negociação. Portanto, eu diria que são 48 horas, 72 horas decisivas. Enfim, passa a publicidade, devo dizer, o ECO amanhã promove uma conferência precisamente sobre o trabalho, que já estava marcada há muito tempo. Mais de dois meses. E contará com a ministra do Trabalho. Portanto, vamos ver o que a ministra dirá sobre isso.
Pensavas que isto já estaria resolvido a esta altura.
Exato. Mas dificilmente poderia ter pedido.
Tiveste sorte.
E a ministra do Trabalho.
Dificilmente poderia ter pedido um melhor timing.
Exatamente. Eu estava aqui a ver o que disse exatamente o presidente da República em relação à questão da UGT e disse que ficou feliz quando a UGT teve uma posição mais definitiva de abandonar as negociações e depois do apelo que fez, regressou às negociações. Portanto, percebe-se, se juntarmos a essa frase, a frase que disse aos jovens, que foi: "A lei laboral tem de mudar para Portugal ser mais atrativo", percebe-se que apesar de ser o árbitro que não pressiona ninguém, que não está aqui a pressionar os atores em jogo, percebe-se que claramente tem uma preferência. E a preferência é que a UGT aprove em concertação social um código de trabalho, um pacote laboral que seja passível de ser querido pelos trabalhadores. Acho que o facto de nos ter deixado a pensar no que queria dizer, eu vou ficar a pensar no que queria dizer e não disse, porque objetivamente, como falou tão pouco nesta viagem, e agora é isso que nós vamos ter que nos habituar. O presidente da República não fala em todas as ocasiões, só fala de vez em quando, só fala quando quer. E dito isto, não falou muito. Portanto, as frases são para ser escalpelizadas. Uma das coisas interessantes é que, ao contrário dos outros presidentes, pelo menos dos últimos dois, que são os que eu me lembro em trabalho, fala de questões nacionais em solo estrangeiro, que já é uma mais-valia.
Deixe-me só acrescentar um ponto sobre o código de trabalho, porque a discussão está a afunilar-se para aí, eu acho que é muito negativa, que é esta ideia de que há medidas a favor das empresas, deixando implícito que são contra os trabalhadores. Eu rejeito esta tese.
Mas essa dicotomia maniqueísta existe sempre nestas discussões.
Sim, mas nós já deveríamos ter ultrapassado isto, porque vamos lá ver. Eu admito que há mesmo patrões que obviamente aproveitam tudo e mais alguma coisa para explorar, mas numa economia competitiva com empresas, vou dizer assim tão coloquial, em condições, mudanças que sejam boas para as empresas, são boas para os trabalhadores. Não é possível no longo prazo. No curto prazo, esses maus empregadores, maus patrões, até podem aproveitar para ganhar ali um bocado mais à conta dos trabalhadores, mas isso obviamente tem perna curta.
E é um contexto num mercado de trabalho que não é o que nós temos atualmente, que atualmente há falta de mão de obra, e o que os patrões querem é conservar.
Boas para as empresas são as medidas que permitem pagar mais aos trabalhadores.
António, vamos à tua nota.
Pois.
Queres dar uma nota a António José Seguro, ao rei Filipe VI?
Ou ao Rei Vai Nu?
Não, eu vou dar uma nota à resistência da ministra do Trabalho, neste caso, porque acho que a ministra teve momentos politicamente difíceis e nem sempre conduziu da melhor forma politicamente o tema. Mas eu acho que, de facto, apresenta uma proposta que devia ser discutida noutros termos, apesar destes nove meses.
Dá uma nota.
Dou um 12 à ministra, veremos o que é que vai acontecer.
Raquel.
Eu dou um 10 a António José Seguro, que está a passar uma fase difícil. Vamos ver onde vai chegar.
Difícil.
Eu, por esta forma de mostrar a sua arte de não pressionar ninguém, mas estar a torcer muito, vou lhe dar um 12.
Ainda estou aqui, quatro minutos para falar sobre as 55 medidas.
As 55 medidas, vamos a isso.
Pode elencá-las todas, uma a uma, que Bruxelas sugere aos Estados-membros para ajudar a mitigar o aumento de preço dos combustíveis.
Sugere uma série de coisas interessantes, tendo em conta que em 40 dias a União Europeia já gastou 22 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis.
Mais, não é?
Os últimos números que eu encontrei eram estes 22 mil milhões. Podem perca por desfaço.
É mais?
É mais.
Sim, é o que faz sentido.
A verdade é que um pacote de medidas que tenha pernas para andar não pode ser só um pacote de medidas que se centre na fiscalidade, que é aliás uma coisa que parece que os partidos políticos nacionais estão muito centrados na questão da fiscalidade e não falam do resto, nomeadamente no andar de carro. A Ursula von der Leyen tem uma frase engraçada que é: qualquer coisa como energia mais barata é aquela que não se consome. É um facto. Se ninguém andar de carro ou se-
Diminuir.
Diminuir. É evidente.
No fundo, é como as bolachas, se não tiveres em casa, não comes.
Não comes. É fácil falar em Bruxelas, onde o sistema de transportes é inacreditável e onde tu andas com a bicicleta em todo lado e não precisas de carro pra nada. Portanto, é fácil falar quando está-
Só que cá precisas de carro.
Pois, esse é o problema. A questão é: vamos voltar outra vez à questão do teletrabalho. Parece que é um assunto que as pessoas agora não querem discutir. Muitas das empresas que estavam em teletrabalho estão agora a regredir. Pra mim é uma regressão, porque o que é bom para os empregadores é bom para os trabalhadores e vice-versa. Se os trabalhadores estiverem contentes, isso é bom pro empregador. E muitos trabalhadores descobriram uma nova forma de organizar a sua vida no teletrabalho e de ter uma outra qualidade de vida que não tinham. Agora, esta é uma boa medida para não se gastar combustíveis fósseis ou para o caso de quem tenha que apanhar andar de carro, porque o sistema de transportes em Portugal funciona mal e porcamente, nomeadamente nas grandes cidades. Fora disso, nem funciona. E, portanto, eu acho que reduzir a procura é a única medida que não depende de ninguém, não depende se o Estreito fecha, se o Estreito abre. E, portanto, esta ideia de reduzir o consumo parece-me óbvio, e parece-me que Bruxelas está a olhar para o problema e não está apenas a pensar: então vamos reduzir impostos para as pessoas continuarem a usar combustíveis fósseis. Não faz sentido.
Eu acho que é uma boa iniciativa, embora também porque-
Porque as medidas vão desde os impostos às janelas, aos veículos elétricos, enfim, são 55.
E é, sobretudo, uma boa medida, porque nós vamos vendo governos e a oposição cá em Portugal a pedir isso, para manter tudo como está, subsidiando. E subsidiar de forma cega, como, por exemplo, o governo espanhol está a fazer, é caro. Distorce o preço final, não ajuda a mudar os comportamentos, nem os modelos da economia. Nós, Portugal e Espanha, até estamos em situação favorável, por causa das renováveis, sabemos, temos vento, temos sol, temos água. Agora, é preciso dizer também outra coisa, é que este anúncio foi, diria repentino.
Veio há um mês a Agência Internacional de Energia fazia os apelos.
Mas mostra a gravidade da situação. Isto é, nós temos que olhar pra isto, por um lado, é preciso mesmo mudar, por outro, é a Comissão Europeia a dizer mesmo: nós temos mesmo um problema na Europa e no contexto, não só de uma incerteza absoluta na guerra, como da reconstrução, não podemos continuar a depender de combustíveis fósseis como estamos a depender e um dia destes. Neste contexto, olhamos pra aviação, isso já é um caso muito evidente. Vamos ter mesmo um problema de racionamento. Isto é pra evitar racionamentos. É uma forma simpática de dizer isto.
Vamos começar agora a sentir a falta dos barcos que não partiram há seis semanas do Irão. Eles demoram seis semanas a dois meses a chegar à Europa.
A câmara do racionamento.
Uma das medidas claras é subsidiar, patrocinar, a palavra não é certa, mas a compra de bicicletas, por exemplo. É tão evidente, é tão simples e é muito mais barato do que continuar a-
Já esgotámos o plafond para este ano das bicicletas elétricas.
Pensei que ias dizer que já ajustámos o prazo aqui a esta hora.
Também. E eu próprio, que utilizo uma-
Uma bicicleta
Exatamente, uma bicicleta elétrica. Eu costumo dizer que tenho um veículo híbrido de tração animal, que sou eu e a bicicleta. E agora vamos olhar para a possibilidade do Chega avançar com uma comissão parlamentar de inquérito perante o anúncio de derrapagem no valor das obras do metrô de Lisboa, que Raquel Bocasis, a derrapagem, portanto, aquilo pode ficar um pouquinho mais caro, cerca de 80% É isso? 80%?
Exato. Infelizmente, não é uma novidade. E eu acrescentaria que está muitíssimo atrasado, até porque eu sou vizinha, paredes meias das obras do metro.
Da tuneladora.
Daquele alargamento completamente absurdo que foi decidido de fazer uma linha circular em Lisboa, em vez de alargar a linha para quem vem de fora de Lisboa, mas pronto, já nem vou entrar nessa discussão. Mas essas obras já deveriam estar completas. Para quem passa ali no Largo da Estrela, está lá um cartaz a dizer que deviam estar completas, não te sei dizer agora a data exata, mas há dois anos. E continua tudo, enfim, aparentemente na mesma. Mas eu também escolhi este tema porque eu acho que André Ventura tem razão e acho que este é, se calhar, um dos temas que merece uma comissão parlamentar de inquérito para se perceber o que se passa aqui. O problema é que eu acho que ele é capaz de chegar à conclusão que isso entra em contradição com outra parte da conferência de imprensa que ele hoje deu, a dizer que é contra estas medidas da reforma do Estado apresentadas pelo governo, porque, diz ele, diminui significativamente os mecanismos de controle à corrupção, de controle à despesa pública e de fiscalização de conluios de financiamento de indivíduos na administração pública, e isso atenta estruturalmente contra a história do Chega. Ora, o problema é que eu acho, não será o único, mas os mecanismos que existem em Portugal para tornear as questões que existem, os vistos prévios, os tetos orçamentais, para que eles possam caber dentro de determinadas aprovações, etc, são muitas vezes motivados pela própria legislação que existe. Os tais vistos prévios, a consulta pública, tudo isso, como nós sabemos, até em processos que estão a ser investigados, acontece porque há obrigações legais que depois também levam os interessados nessas obras a inventarem empresas fantasmas para concorrerem na consulta prévia, fazerem orçamentos mais baixos para não terem que ter vistos do Tribunal de Contas ou para serem escolhidos num determinado concurso. E nestes casos em que os orçamentos ultrapassam estes níveis de previsibilidade, como é o caso das obras do metro, muitas vezes tem a ver com o facto de que uma determinada empresa apresenta um orçamento mais baixo sabendo que não o vai cumprir e que depois vai ultrapassar todos estes tetos. E, portanto, o que eu acho que vale a pena discutir a sério é se esta desburocratização que o governo neste momento pôs em cima da mesa e que, obviamente, deve também vir acompanhada de medidas de controle e de controle até a posteriori daquilo que vai ser feito, não é mais útil combater a corrupção do que manter tudo de acordo com as regras que existem, supostamente, são regras de transparência e que depois são violadas toda a maneira e feitio e dão origem aos mais variados processos, aquelas que dão, porque muitas outras não dão, e então nas obras públicas grandes, estes excedentes de 80% acima do orçamento previsto, infelizmente, são mato, não são uma exceção. Portanto, acho bem, de facto, que haja uma comissão parlamentar de inquérito, mas acho que no que diz respeito à reforma do Estado, acho que muitas vezes a demagogia é que nos traz ao ponto em que estamos neste momento. E, portanto, enfim, acho que o Chega devia pensar muito bem se quer mesmo combater a corrupção e como é que isso se faz.
António, queres dizer alguma coisa sobre isto? Já vamos aos teus restaurantes.
Não, depois quero ir aos restaurantes. Eu concordo, eu sou totalmente a favor das propostas de reforma nesta dimensão. É evidente que é preciso fiscalização, mas esta ideia que o país tem de que muita burocracia, muito controle a priori, que se garanta a transparência e a legalidade é um eufemismo que nós sabemos que infelizmente não funciona.
Judite.
Eu concordo. Acho que de facto somos tão transparentes e depois temos estes números que a Raquel apresenta, acho que isso não faz o mínimo sentido e se há comissão de inquérito que faz sentido, são essas.
Queres deixar uma nota, Raquel?
Olha, eu dou um 10 a esta conferência de imprensa do André Ventura e não dou uma nota superior por causa da contradição. Acho, de facto, que uma comissão de inquérito para avaliar o que se passou é importante.
Sim, isso também me parece positivo.
António, vamos falar sobre restaurantes. O setor tem se queixado de crise, tem se queixado de dificuldades, temos ouvido apelos lancinantes. O chefe Rui Paula tem sido um dos protagonistas desses apelos e agora Álvaro Santos Pereira, o governador do Banco de Portugal, foi olhar para os números.
Em cima da mesa.
E está a crescer.
Está a fazer uma piada e tu nada.
Nada.
Em cima da mesa, sim. Desculpa.
Tentei duas vezes.
Desculpa. É segunda-feira, António.
Vamos lá ver, agora seriamente, com todo o respeito, obviamente, pelos empresários e investidores que entraram no setor e estão sob pressão e sob dificuldade, seguramente haverá. A questão é saber se o setor ou se empresários Que têm restauração e empresas de restauração estão em dificuldade ou não. Esse não é o ponto. Em muitos setores, infelizmente, nós sabemos que há dificuldades. Como em tudo, o mercado funciona. O ponto é saber se se justifica, e a que título, qualquer tipo de ajuda pública para lá daquela que já existe, que é bom recordar que a restauração tem IVA reduzido. Por sinal, esta tarde dei por mim a pensar o que é feito de uns anúncios que depois não tiveram o devido acompanhamento de umas linhas de crédito e de uns apoios financeiros à restauração, há meio dúzia de meses, anunciadas pelo ministro Castro Almeida e que eu não sei se chegaram a entrar em vigor ou se ficaram no tempo.
Aí seria mais dívida, não é?
Não, mas também havia fundo perdido. Para já, tem-me surpreendido a assertividade de Álvaro Santos Pereira nestas intervenções nas redes sociais, que eu acho até positivas, porque têm trazido dados à discussão. Não foi uma intervenção política. Eu acho que foram muito importantes os pontos que o governador trouxe acima da mesa e a verdade é que traz dois números que eu gostava de recordar. Um crescimento desde 2019 no setor de 69%, mas também é preciso dizer em termos reais, de 25%, portanto, descontada a inflação, de 25%. Ora, desde 2019, um crescimento de 25% no negócio é um crescimento muito robusto. O volume de negócio terá subido neste período. Perdão, em maio de 2025, 2,9 e o aumento de 6% nos preços, obviamente, significou uma perda real de negócio. Mas vamos lá ver. Como em outros setores, não há setor turístico em geral, setor de restauração em particular, que tenha beneficiado mais da explosão do turismo que nós tivemos. Talvez a ANA e os aeroportos.
Uhum.
Enfim, os aeroportos talvez tenham beneficiado da mesma forma.
Avancim.
Sofreram. Os aeroportos sofreram.
Avancim também não se queixa.
Não sofreram quem?
Sofreram no sentido do utente. O utente nos aeroportos sofreu.
De tantos clientes, e bem. Foi um setor que, obviamente, porque houve muita procura, levou a que muitos empresários, talvez de forma excessivamente otimista, acreditassem que era possível continuar a crescer em número de clientes, investindo e entrando no setor. E portanto, nós continuamos a perceber, restaurantes de gama média, média-alta e alta continuam a abrir muitos em Lisboa e no Porto, obviamente, com preços a aumentarem muito. O que é que o setor está a assistir nos últimos meses? E obviamente, já vinha nos últimos meses, a guerra, o conflito, as notícias, a inflação, os preços vieram pressionar ainda mais. Obviamente, uma contenção do consumo, nomeadamente das famílias portuguesas, o turismo até teve aqui algum aspecto positivo, porque houve gente a não ir para zonas mais próximas dos conflitos e a vir para zonas do sul da Europa. Mas as famílias portuguesas, com os combustíveis, até com a expectativa de que isto vai ser pior antes de ser melhor, deixam de ir aos restaurantes. E, portanto, há um setor que depois de tanto investimento, de ganhar tanto durante tantos anos, está agora sob maior pressão. Mas estamos todos, nós estamos aqui sentados num grupo de mídia. O setor de mídia é um setor evidente de pressão e de quebra. Ora, é isso que deve fazer com que o Estado vá usar fundos públicos para acudir a um setor. É evidente que não. E, portanto, o setor, como o nosso, como tantos outros, como o têxtil, o calçado, tem que se ajustar à realidade. E espero que, obviamente, o governo não ceda esta pressão, porque é evidente que o setor tem uma grande capacidade de pressão pública e mediática. E portanto, eu aqui dou mesmo um 15 ao governador por assumir até uma discussão que podia não ter assumido, podia estar descansado no seu canto e não se meter nesta discussão. Se calhar, não pode ir jantar aos quantos sítios.
Também queres meter a tua colherada?
Queria meter a minha colherada, porque eu, para já, acho que o governador fez muito bem e acho que fez muito bem em pôr isto no Twitter, porque ganha logo uma tração.
No X.
No X.
Ex.
Nisso. Ganha logo uma tração enorme e porque Álvaro Santos Pereira desde sempre que teve muito jeito para escrever naquele modelo. Agora, se existe pressão sobre a restauração, existe, mas a verdade é que os apoios que foram prometidos pelo governo no início do ano ainda vão chegar e devem chegar, porque também já foi prometido. Portanto, agora também não faz muito sentido, porque alguém lhes mostrou os números, não dar essa ajuda. Podem assumir esse risco, mas parece-me que seria bastante difícil, é uma questão de cumprimento da palavra. Agora, este diagnóstico que foi feito importa, e tratar crescimento sob pressão como crise estrutural, dá jeito para quem está à espera.
E mesmo que fosse, é preciso é apoiar, é outra coisa, os trabalhadores, que eventualmente, neste contexto de crise, se fosse uma crise estrutural, se de repente metade do setor fechasse e houvesse um nível de desemprego absolutamente-
Metade não, mas nós nos tempos da troika vimos bem o que é que aconteceu nesses restaurantes.
O que é preciso garantir são apoios, a existirem, especiais, no contexto de uma crise estrutural, que estamos muito longe disso, os números não mostram isso. É preciso garantir é que os trabalhadores são apoiados na situação de desemprego, como outros, e é preciso que tenham formação, eventualmente, porque já não vão poder estar naquele setor, porque aquele setor, se tiver essa crise estrutural e metade da restauração fechar, é porque não há procura. Portanto, terão que procurar e o Estado terá que garantir ou ajudar, contribuir para dar formação para que possam ir para outros. É apoiar não os empregos artificialmente, os trabalhadores para encontrarem outros postos de trabalho.
Vamos tirar notas.
Eu vou dar um 16 ao Álvaro Santos Pereira por ter feito esta papinha toda. Já que estamos a falar de restauração. Fez a papa toda.
António?
Eu dei um 15 ao Álvaro Santos Pereira e espero que o governo não ceda a esta pressão, que vai ser muito forte, como já se percebeu. Esta conversa de que o setor não é homogêneo, mas qual é o setor que é homogêneo? Agora vai começar a dar-se apoios públicos dos contribuintes a restaurantes que estão com problemas e não se dá a outros? Enfim, veremos.
E amanhã há mais. E o vencedor é: nas manhãs, 360. Ao Jamail Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral junta-se amanhã de manhã a Alexandra Machado.