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Há muita gente que me pergunta, ainda hoje, se eu sou sempre assim e eu digo a brincar: "Eles pagam-me para isso, eu faço o papel". Não é exactamente assim também, tem a ver um bocadinho com o meu feitio, mas fora das câmaras. E mesmo hoje, eu já faço o "Got Talent", já fizemos 10 temporadas. As coisas mudaram imenso. O tempo do "Ídolos" e daquele direto à cabeça, sem filtros absolutamente nenhuns, morreu. Morreu aqui e morreu no mundo inteiro, não foi só aqui. Seriam impossíveis. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso. As coisas mudaram muito. Hoje a ideia da inclusão não permite determinado tipo de expressões. Além disso, eu faço o "Got Talent" numa estação pública. É diferente de uma estação privada. Os parâmetros, as guidelines do "Ídolos", no princípio, eram extremamente, para os dias de hoje, violentas.
Durante anos, o país habituou-se a vê-lo sob a luz dos estúdios de televisão, de braços cruzados, olhar clínico e uma frontalidade cirúrgica, ganhou a fama de jurado implacável. O homem que se recusava a vender facilidades num mundo cada vez mais sedento de aplausos rápidos e efémeros. Mas a televisão é apenas uma parte da moldura. Muito antes de ser o rosto temido dos programas de talentos, foi e continua a ser uma das mentes mais influentes dos bastidores da música em Portugal. Produtor e manager, esteve por trás na construção de carreiras lendárias, ergueu supergrupos que marcaram gerações e assinou alguns dos maiores fenómenos de vendas da nossa história musical. Conhecido por ser frontal nas palavras, apaixonado e intransigente no futebol, bastante reservado na vida privada, hoje tiramos-lhe a armadura. Queremos perceber onde nasce esse filtro sem cedências, quem era o rapaz que cresceu e que se tornou neste homem que hoje vamos conhecer, como lida com as perdas dos companheiros de estrada, o que o faz rir longe das câmaras e no fundo vamos conhecer melhor Manuel Moura dos Santos. Seja muito bem-vindo aqui ao "Em 40 Minutos". É um gosto.
Olá, eu é que agradeço o convite da Rádio Observador, João.
Temos aqui uma longa conversa pela frente, com muitos planos para falar, mas desde já, Manuel, e permita-me esta ousadia, desconstruir esse homem, porque nós temos muito a imagem de um homem implacável, de poucos sorrisos, talvez até uma postura um bocadinho sisuda daquilo que conhecemos apenas e vemos só na televisão. Fora disso, é possivelmente uma pessoa muito ligada à família, daquilo que também sabemos, com os seus filhos. É realmente sisudo no seu dia a dia ou isso é algo que lhe tentaram colar também ao longo destes anos de televisão e não só, das suas performances também, que tem tido ao longo destes anos?
João, por norma, não. É claro, tenho os meus momentos, não passo a vida a rir ou com sorriso nos lábios, mas por norma, não. A exposição. Há muita gente que me pergunta, ainda hoje, se eu sou sempre assim e eu digo a brincar: "Eles pagam-me para isso, eu faço o papel". Não é exatamente assim também, tem a ver um bocadinho com o meu feitio, mas fora das câmaras. E mesmo hoje, eu já faço o "Got Talent", já fizemos 10 temporadas. As coisas mudaram imenso. O tempo do "Ídolos" e daquele direto à cabeça, sem filtros absolutamente nenhuns, morreu. Morreu aqui e morreu no mundo inteiro, não foi só aqui.
E tem consciência de que possivelmente muitas coisas que se calhar disse nessa altura, hoje, por exemplo, seriam altamente condonáveis ou impossíveis de se dizer?
Impossíveis de se dizer. Seriam impossíveis. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso. As coisas mudaram muito. Hoje a ideia da inclusão não permite determinado tipo de expressões. Além disso, eu faço o "Got Talent" numa estação pública. É diferente de uma estação privada e portanto, eu faço aquilo, não sei, há mais de 10 anos. Nunca tive problema de queixa nenhuma, de nenhum concorrente eu ter dito isto ou aquilo. É claro que se não gosto, digo. Os parâmetros, as guidelines do "Ídolos", no princípio, eram extremamente, para os dias de hoje, violentas. Isso hoje já não acontece.
E teve algumas repercussões depois com alguns casos que aconteceram. Não digo diretamente consigo, mas falava-se na altura de algumas polémicas que se calhar hoje, por exemplo, teriam outro tipo de eco ou mediatismo, não é?
Provavelmente, eu admito que sim, mas eu nunca tive, nem a produtora do programa, tanto do "Ídolos" como do "Got Talent", que é a mesma, a Mantle Media, tiveram qualquer queixa, pelo menos com andamento, sobre mim. E as pessoas encontravam-me na rua com frequência e eu tive um caso de uma pessoa que disse: "Você é muito desagradável". Uma pessoa, uma senhora
E o que é que o Manuel respondeu?
Não disse nada. Uma pessoa nesta situação está sujeita a ouvir todo o tipo de opiniões, que eventualmente pode gostar ou pode não gostar. Não vou agora replicar. Eu disse: "Pronto, senhora, olhe, eu tenho imensa pena".
O facto de, por exemplo, falávamos aqui do Got Talent, trabalhar ao lado de uma pessoa como a Inês Aires Pereira, ajuda também a desconstruir um bocadinho esse boneco do Manuel Moura dos Santos mais durão, entre aspas?
Já com os outros meus colegas era um bocadinho assim, mas a Inês é uma força da natureza. Independentemente daquilo que se possa achar dela como comediante, e eu adoro-a, ela tem um excelente ouvido. Mas excelente mesmo. Ela tem noção do que é cantar. A mãe é cantora amadora na área clássica. E ela tem voz, tem noção de afinação, tem colocação da voz, respiração, de tempo e, portanto, torna as coisas mais fáceis. Ela é extremamente divertida e isso é contagiante pra todos, não só pra mim, mas a Filomena também é uma figura. Eu gosto imenso dela. O Rui Massena é diferente, que é uma relação que já tivemos de trabalho. Eu fiz coisas com o Rui Massena ao longo dos anos, sobretudo quando ele era o mestre residente da Orquestra do Funchal. Fiz três ou quatro concertos com ele.
E portanto, há essa ligação.
Não, há uma relação muito boa, é uma dinâmica boa.
Que é muito importante num programa como este.
Num painel de jurados, há que haver uma boa dinâmica, sermos divertidos, termos noção que estamos a fazer televisão. E portanto, aquilo é pra entreter as pessoas, não é pra nos entreter a nós. E a Filomena tem noção disso. Muita mesmo. Assim como a Inês Aires Pereira e o próprio Rui Massena. Acho que o painel funciona muito bem. Nós temos uma relação ótima e, portanto, isso facilita tudo.
Manuel Moura dos Santos, se fizessemos aqui um inquérito aos seus amigos mais próximos e à sua família, como é que eles acham que o iam descrever em três palavras?
Epa.
Palavras como, sei lá, atencioso, doce, iam aparecer por lá em alguma dessas características? E estou a falar aqui das pessoas, nós, que não o conhecemos além deste mundo da televisão.
Eu tenho amigos muito fiéis e muito leais. Eu conheço milhares de pessoas, umas melhores, outras pior, mas amigos, amigos, que eu vou à casa deles, eles vêm à minha, eu não tenho propriamente nenhum exército de amigos, nem quero. E esses amigos, é uma relação muito afetiva, nós gostamos muito de estar juntos e, portanto, não sei se eles diriam doce. Talvez uma mistura. Talvez a minha mulher. Isso é uma relação diferente.
Quem é que tem acesso a essa faceta ou personalidade mais premium do Manuel Moura dos Santos? São os amigos, a família?
Os amigos e a família, sem dúvida.
Os filhos?
Os artistas com quem trabalho, com quem tenho uma excelente relação. Quando não há uma boa relação e não há uma relação de confiança com o artista, pura e simplesmente a relação profissional deixa de existir. Há sempre uma componente pessoal das pessoas, haver alguma proximidade com as pessoas com quem trabalhamos. Senão é impossível. A relação é profissional, basicamente, mas há uma componente também pessoal importante. Se não existe essa proximidade, é difícil trabalharmos juntos.
Falava aí dessa relação, porque acredito que sendo produtor e manager, há muitos amigos no mundo da música. Como é que se faz essa distinção entre aquilo que é o profissional, aquilo que é o lado da amizade, para, no fundo, também a carreira daqueles que está a ajudar nesse sentido, não ser beliscada de alguma forma?
Estamos a falar dos artistas ou estamos a falar dos meus colegas?
Dos artistas com quem trabalha e já trabalhou com muitos ao longo da sua vida.
Sim. A nossa relação é basicamente profissional, mas, como é evidente, a relação profissional não deixa nunca de ser influenciada pela vida pessoal. Se as pessoas têm um problema, se têm alguém doente, se o fisco lhes caiu em cima, há uma reação em nós. A nossa função é dar algum conforto às pessoas e estabilidade pra elas devolverem a sua atividade profissional como músicos. E, portanto, não há um entrar na vida das pessoas, mas há a tentativa, pelo menos, de estabilizar as pessoas, de lhes dar alguma confiança e dizer: "Epá, olha lá, eu já andei cá mais antes, isto resolve-se tudo". Portanto, foca-te no trabalho, senão vai ser muito difícil pra ti.
Nós já vamos aprofundar essas relações de amizade numa carreira que, lá está, passa pela televisão, mas acima de tudo, o Manuel teve e tem contacto com muitos artistas que estão agora no panorama nacional. Alguns deles também já partiram. Já lá vamos. Mas eu quero perceber também quem era este homem na infância, porque pelo que percebi e andei a pesquisar, tinha o sonho de ser piloto de aviões ou estou enganado?
Sim, o meu pai é oficial da Força Aérea.
E esse fascínio já vinha desde criança?
Sim. E de andar muito de avião
Para onde eram essas viagens?
Eu vivi os primeiros oito anos e meio da minha vida fora de Portugal. Não vivi cá. Vivi em Moçambique e depois nas Lajes, na Ilha Terceira. Meu pai estava lá na Base Aérea, na BA4. E passei os primeiros oito anos fora. Eu cheguei aqui para frequentar, na altura, a terceira classe, tinha nove anos.
Se eu lhe perguntar qual é a memória mais longínqua da sua infância, do que é que se lembra?
A minha memória mais longínqua são, de facto, dos Açores. A Terceira. Isso tenho memórias. Lembro perfeitamente as coisas, muito vívidas. Está ali, lembro perfeitamente. Naquele tempo, eu morava numa zona militar. Passavam dois ou três carros por dia.
Como é que era viver nessa realidade? Tinha que idade, na altura?
Na altura, eu estive lá entre os quatro e meio e os oito e meio. Aquilo era um jardim gigante. Não se passava nada. Os amigos, os filhos de outros oficiais da Força Aérea, que moravam ali ao pé de nós, com quem estávamos e brincávamos. Eu fiz lá nos Açores a primeira e segunda classe, na altura. Mas parte do tempo não andava na escola. O que é que um miúdo com cinco anos, seis anos faz? Brinca com os amigos, anda para ali. Tinha matas enormes, íamos à piscina lá acima, ao bairro americano, ao bairro dos oficiais americano, à piscina num clube. E disso lembro-me perfeitamente.
Ainda tem amigos dessa altura?
Houve um ou outro que eu fui encontrando ao longo dos anos. "Não te lembras de mim? Estivemos juntos nos Açores". Mas dessa altura, não. Os meus amigos mais próximos estão na cidade onde o meu pai é natural, e eu, em Santarém. E aí, sim, tenho amigos há 50 e tal anos.
Nessas brincadeiras de infância, em que, pelo aquilo que me está a dizer, havia muita liberdade, como é que ocupava então os seus tempos?
Nos Açores era total. Não se passava nada. Nós vivíamos numa zona reservada a militares.
Em que dizia que passavam só dois, três carros por dia, não é?
Passavam os três que estavam no ranking da Força Aérea lá, que viviam, que era o comandante Tavares, o segundo comandante e o comandante da zona aérea. Meu pai era o quarto, na altura era major. E estes eram os três carros que passavam, dos que moravam por cima de nós. E episodicamente, um carro, um veículo ou outro americano que ia para o bairro americano, que era por cima do bairro português, nas Lajes. Aqui praticamente não tinha trânsito. A estrada era praticamente igual ao relvado em frente. Não havia limitações, a liberdade era total. Eu cresci nesse meio, que eu acho que foi fantástico, porque de facto não havia limitações de espécie nenhuma. A minha mãe não tinha preocupações de espécie nenhuma.
Não se preocupava a hora com que chegava a casa ou não tinha que a vir chamar.
Não. Nós éramos filhos de militar, não se preocupava a hora. Não havia a disciplina, então isso é que era bom. Não, isso sempre houve e éramos muitos, éramos cinco irmãos. De maneira que isso sempre houve.
Mas quando falo em liberdade, é liberdade de poder fazer e ter espaço para poder fazer o que quisesse.
Sim, não havia limitações. "Cuidado com os carros, cuidado com isso, cuidado com aquilo". O único cuidado que nós tínhamos que ter era eventualmente a cair de uma árvore e partirmos todos, que passávamos a vida a subir e a descer árvores, aquilo tinha uma mata enorme e fora isso, não havia problema de absolutamente nenhum. Minha mãe estava perfeitamente descontraída. Cinco filhos é obra.
Quando é que esse sonho de ser piloto de aviões começa a desvanecer? Foi ainda nos Açores ou só mais tarde?
Não, mais tarde. Eu estava em Santarém a acabar o liceu. Naquele tempo não era como hoje, eu escolhia a alínea F, que dava para quase tudo. Não dava para tudo, mas para área da medicina, tudo que tinha a ver com ciências era alínea F, depois havia outras.
Estamos a falar na altura de decidir o que queria fazer.
O que queria fazer quando escolhia.
Sim.
As minhas cadeiras nucleares, básicas, eram físico-químicas, ciências naturais e matemática. Eram as três cadeiras do antigo sexto e sétimo ano do liceu, que hoje acho que é o décimo e décimo primeiro ano.
Dava-se bem com os números?
Dava. O meu problema era física. Eu precisava de uma nota muito alta à física, relativamente alta. E acabei física com 15. Não chegava.
Não, e mesmo assim não é mau, mas para a meta que era necessário.
Quando eu acabei o liceu, acho que coincidiu com a abertura da Academia da Força Aérea, porque antigamente os oficiais de carreira da Força Aérea formavam-se na Academia Militar, só que mais tarde é que havia a separação. Mas acho que coincidiu com a abertura da Academia da Força Aérea. E eu não tinha essa nota e depois fui fazer à doc Geografia. E depois fui melhorar a nota para entrar em Economia.
Muito bem.
E fiz.
Nós estamos aqui a ficar sem tempo na nossa primeira parte, mas vamos voltar ainda a esse tema. Na segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Manuel Moura dos Santos. Até já. Segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana estamos com Manuel Moura dos Santos. Ficámos aqui, neste final da nossa primeira parte, na físico-química, que lhe atrapalhou os planos, seguiu para economia. No meio disto tudo, a música já estava na sua vida ou quando é que ela entra definitivamente?
A música esteve sempre muito presente, meu pai é melómano. Lá em casa não se ouvia rock and roll, embora meu pai fosse fã dos Beatles, mas ouvia-se Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Peggy Lee, Frank Sinatra, Tony Bennett, Aretha Franklin. Eram as coisas que se ouviam, basicamente. Eu comecei a ouvir esse tipo de música muito novo. E sempre gostei muito e ainda hoje eu ouço com frequência.
Qual é que é a banda e artista da sua vida?
Não posso dizer isso. É difícil. Tenho memórias muito fortes ligadas a Pink Floyd, a Genesis, Eagles, Blood, Sweat & Tears, gente dos blues.
É difícil escolher um?
Não tenho, não consigo. E depois, quando ouço música, tenho fases. Tenho fases em que só ouço jazz, muito piano, Bill Evans, Herbie Hancock, Keith Jarrett, eu ouço muito. Acho o piano um instrumento extraordinário. E eu tenho fases que ouço mais rock e mais rhythm and blues. Eu ontem, por exemplo, estava com o meu filho, ele fez 29 anos e estivemos a noite toda. Ouvimos o Fat Freddy's Drop, Startanfield, Radio Tarifa, que é uma banda que ele não conhecia. É uma banda composta por espanhóis e marroquinos, não sei se já desapareceu, mas eu gosto muito. E ouvimos esse tipo de música, depois vinha no carro a ouvir Day Matters.
Fazer viagens consigo é ótimo porque conhecemos coisas novas.
Há uma coisa que eu tenho um certo orgulho: os meus filhos habituaram-se a ouvir música e hoje têm gostos musicais muito influenciados pela música que eu passava no carro. Isso sem dúvida nenhuma. Isso não tenho dúvidas. O meu filho Miguel gosta das grandes cantoras de jazz. Eu falei da Ella Fitzgerald, mas nem sequer é a minha preferida. Eu sou mais Dinah Washington. E Billie Holiday é a minha diva. Mas eles ouviram isso tudo pequenitos, nas viagens. Bruce Springsteen, muito, que eu sou fã. Mas ouviam música portuguesa. Eu trabalhava com o Rui na altura, quando eles nasceram, com o Veloso e com o Jorge Palma e com o Alos de Moraes, com o Rio Grande. Portanto, é música que eles conhecem, mas muita música que vem de fora. Hoje até, sobretudo o mais velho, o Miguel, que é músico, fala disso. "Eu ouvi tanta coisa que o meu pai punha, mesmo que gostasse ou não gostasse, eu aprendi a gostar".
Claro. Aqui falamos de grandes referências, de grandes nomes da música. Possivelmente muitos ouvintes vão ouvir e até se vão lembrar de nomes que se calhar, entretanto, vão ter vontade de voltar a ouvir. Agora, na atualidade, não me restringindo só a Portugal, também lá fora, há algum fascínio por algum artista que tenha aparecido agora recentemente?
Fascínio não posso dizer que tenha. Já me pediram várias vezes fazer rankings de artistas, eu não faço nada disso. Há artistas que para mim são referência e que eu gosto muito de ouvir, eu ouvirei a vida toda. Agora, essa coisa dos rankings, para mim não existe. Mas eu faço questão de ir ouvindo coisas que vão saindo aqui em Portugal, Ganso, o Miguel Luz, o Valter Lobo, a Bia Caboz, vou ouvindo.
O Valter Lobo, que é um grande compositor também.
Quem?
O Valter Lobo, que é um grande compositor, tem músicas excelentes.
Eu quero ouvir, quero estar a par. Perceber o que se está a passar e vou ouvindo. E lá de fora também. A mesma coisa, as coisas que vão surgindo, o meu Spotify está programado para me dar as novidades todas as semanas. Portanto, eu vou ouvindo aquilo. Há coisas que gosto, há coisas que não gosto, há coisas que pura e simplesmente não sigo, não me interessa, mas há muita coisa que gosto e ouço. Eu sei, por exemplo, o meu filho disse-me ontem que os Fat Freddy's Drop vêm cá. E é uma banda extraordinária. E eu sigo. Mas sigo e ouço as coisas que vão aparecendo de Lake Street Dive, Mama's Guns e coisas do gênero. Sou muito ligado ao rhythm and blues. E o artista que eu acho mais interessante dos últimos 20 anos é provavelmente o Bruno Mars.
Que agora voltou, passado 10 anos.
Ele foi beber muito aos velhinhos de rhythm and blues ou Marvin Gaye, essa malta toda.
Gostou deste álbum que saiu este ano?
Gostei.
"The Romantic".
E gostei muito do dueto dele com a Lady Gaga.
Sim, "Die With a Smile".
Havia uma artista que eu gostava muito e cuja morte prematura, mas isso já aconteceu com vários, que era a Amy Winehouse. Eu era fã. Por acaso o único concerto que vi dela foi desastroso, a todos os níveis, desastroso.
Ela na fase final de carreira já.
Foi aqui no Rock in Rio.
Foi uma fase muito difícil.
Foi um concerto desastroso e eu era fã dela, gosto muito e ouço com frequência a Amy Winehouse. Talvez ela e o Bruno Mars. O Bruno Mars é um artista que eu sigo e gosto de saber o que ele está a fazer. E mesmo o álbum que ele fez com outro músico norte-americano.
Agora estou-me a tentar lembrar do nome também.
Que é genial.
Sim.
Tem coisas maravilhosas. É talvez dos artistas mais interessantes. Em vida, eu tenho 65 anos.
Silk Sonic.
Silk Sonic é o álbum.
Anderson .Paak, desculpe.
O Anderson .Paak.
É isso mesmo, desculpe.
Continuo a ouvir velhas referências. Agora quando morreu, o ano passado, o David Crosby. David Crosby, o Graham Nash e o Stephen Stills, Crosby, Stills & Nash. Aquilo são enciclopédias de cantar e de fazer música. Depois quando acrescentaram o Neil Young. A grande parte, 90% da carreira destes três senhores é Crosby, Stills & Nash, não é? Crosby, Stills, Nash & Young fizeram um disco ou dois de originais. Eu adoro aquelas harmonias de vozes. Eles cantavam, tocavam. É uma coisa que eu não perco, vou ouvir a vida toda. É uma música absolutamente extraordinária. Esse tipo de música hoje ainda se faz. Se faz, eu não tenho conhecimento, mas sou fã. Sou muito fã desse tipo de gente que continua aí, alguns ainda em atividade. A cantora canadiana, que já está com perto de 80 anos. Agora falha-me o nome. Isto a idade é lixada.
Estou aqui para esclarecer, enquanto se tenta lembrar. Silk Sonic é o nome desse grupo entre Bruno Mars e Anderson .Paak.
Eu tinha ideia que era o disco.
Por isso é que não me pareceu estranho o nome, e ter dito esse nome, porque de facto é a junção dos dois enquanto grupo.
É um grande disco.
Silk Sonic.
Mas o Bruno Mars faz grandes canções há muito tempo.
E já não vem aqui a Portugal também há algum tempo. Agora está em tour, mas não passa cá por Portugal.
Esteve no Rock in Rio.
Já em 2018, penso eu.
No Parque da Bela Vista. Esteve lá, eu vi. A cantora canadiana, caramba, que gravou o Mingus e que viveu com o Graham Nash.
Vamos tentar nos lembrar até o final?
Vamos.
Fica aqui essa promessa.
Eu vi a nota, já muito, como é que eu hei de dizer, depauperada. Ela deve estar com, veja, anos 80.
Joni Mitchell, não?
Joni Mitchell.
Ok.
Que é uma referência também.
Acho que ela tem precisamente agora 80 anos.
E é dessa geração do Crosby, Stills & Nash, tal como o Jackson Brown. Eu vi um documentário penso que no Canal 2, sobre um grupo de músicos que viveu numa zona muito específica de Los Angeles, uma encosta, que é um documentário com três ou quatro episódios, aquilo era maravilhoso. Vivia lá também o Frank Zappa, é outra dos músicos que eu gosto muito. Vivia lá o Zappa e vivia esta gente toda. E mais, a Mama Cass, dos Mamas and Papas. Vivia lá uma série de músicos. E aquilo era muito engraçado a dinâmica entre eles. Pronto, naquele tempo, um gajo não se vai centrar naquilo que nem interessa, se consumiam mais droga ou menos droga, isso a mim não me interessa absolutamente nada, nem dos de lá, nem dos de cá, zero. Nunca me interessou a vida privada das pessoas.
Manel, isso será sempre pela música e por aquilo que o artista nos faz sentir.
Não me venham fazer perguntas sobre a vida privada dos artistas que a minha resposta até pode ser bem mal-educada. Porque eu não falo da vida privada nem do Rui Veloso, nem do Jorge Palma, nem da malta da Alves Namorados, nem das pessoas com quem trabalhei no Rio Grande ou nas Cabeças no Ar. Não falo! E outros, trabalhei com a Aldina Duarte, agora é tudo gente muito mais nova que eu, mas que eu gosto imenso. A vida privada das pessoas é privada. Há coisas que ficam entre o artista e a pessoa que trabalha com ele, não são do domínio público nem nunca podem ser. Era o que faltava. Não respondo a perguntas sobre vida privada dos artistas ou dos músicos com quem trabalho ou trabalhei. Nunca, jamais.
E é um princípio que marca também a sua vida e a sua carreira enquanto produtor e manager de muitos desses artistas que falou.
Eu noutro dia, aqui há uns tempos, uma colega tua jornalista estava muito coisa: "Por que não falas da tua vida privada?" E eu disse: "Sabes por que é que ela é privada? Não é pública, é por isso é que se diz privada". É isso, o significado de privada é que não é público. E é assim que eu quero que ela continue, privada. Eu não falo da minha família, não falo dos meus amigos, não falo da minha vida privada, do que faço ou deixo de fazer, era o que me faltava. Eu já sou uma pessoa que sou conhecida publicamente. Falo do meu trabalho e daquilo que é público no meu trabalho e naquilo que eu faço, não é naquilo que é privado. A minha vida privada é reservadíssima, não tenho nada para dizer sobre esse assunto e sobre os artistas com quem trabalho ou trabalhei, ainda menos.
Falando desse trabalho público com os artistas, já disse aqui vários nomes: Rui Veloso, Jorge Palma, Rio Grande, Cabeças no Ar. O que é que diferencia um bom artista ou, neste caso, um bom cantor de um artista com estrela, por exemplo?
Nós temos casos em Portugal, sem nomear nomes, de grandes artistas que não são grandes cantores.
Porque o artista é o espetáculo, além do canto.
Exatamente. E temos grandes artistas e grandes músicos. O Luís Represas era um deles. Cantor extraordinário, todo o terreno. Eu acho que o Luís nunca explorou muito essa via do crooner. Mas eu, por exemplo, fiz um espetáculo com ele em Luanda, com o Paulo Flores. E foi um espetáculo maravilhoso.
Aliás, é um espetáculo que eu tenho a certeza que ficou na sua memória, porque fez questão de partilhar a fotografia desse espetáculo nas suas redes sociais.
Maravilhoso. Eles ensaiaram aquilo e eu disse: "Olha lá, eu não quero o Luís em palco e tu vais lá fazer três temas. Não é nada disso que eu quero. Eu quero os dois constantemente em palco a trocar canções". O Luís entrou, não me lembro se fez dois, três temas, depois entrou o Paulo, a mesma coisa, e depois estiveram juntos em palco mais de uma hora. O Paulo a cantar as coisas do Luís, "Seja a Sol, Seja de Travante", cantou "125 Azul", "Memórias de um Beijo". E o Luís a cantar coisas do Paulo e do André Mingas. Os dois cantaram até coisas do André Mingas. Foi um espetáculo extraordinário. Portanto, o Luís cantava qualquer coisa. Eu lembro-me, aqui há uns anos, o Rui fez um disco com participações de vários colegas e um dia em conversa perguntou: "Queres ouvir isto?" E eu fui lá ouvir. E o melhor tema daquele disco é o Represas a cantar um tema do Alto da Pimenta dedicado ao Luís Camões. É maravilhoso. O Luís cantava qualquer coisa. Ele nunca quis explorar essa via de ser um crooner. Mas eu lembro-me, fiz um espetáculo na Madeira só com o repertório do Max, e ele também foi com ele e com o Nuno Guerreiro, dois extraordinários cantores, intérpretes, cantavam qualquer coisa.
Ele não gostava de ser o centro das atenções no seu esplendor máximo.
Eu isso não posso dizer, porque eu só trabalhava com ele em coisas one off. Eu não seguia a carreira do Luís. Um grande amigo meu de quem muito gosto, como se fosse um irmão mais velho, o Vicente Carvalho, era o manager do Luís. Tanto em trovante como a sol. Conheceria mais, tem mais detalhes sobre o tipo de artista e a personalidade artística do Luís. Eu não tinha esse conhecimento porque eu não trabalhava diretamente com ele, mas apreciava muito aquilo que ele fazia. E eu achava o Luís um cantor extraordinário, que infelizmente, é a vida.
Para si, Manel, que lida muitas vezes com estes artistas, falávamos também do Nuno Guerreiro, agora do Luís Represas. Sabemos que há o homem, o produtor, o manager, que liga muito a sua profissão e por vezes, se calhar, e atrevo-me a dizer isto, é muito racional, mas quando se misturam os sentimentos e quando se vê figuras como estas a partir, como é que se lida com esta parte também da sua profissão?
Por um lado, há a parte racional de pensar: chegou a hora de começar a vê-los partir. Enfim, é a vida. Embora eu acho que o Luís morreu precocemente e o Nuno ainda mais, tinha 50 e tal anos. E de uma morte absurda, quer dizer, uma coisa que se poderia ter resolvido facilmente, acabou por não resolver nada, antes pelo contrário, acabou por matá-lo. O Nuno é diferente, desde 93 até há dois anos, são 30 e tal anos. Éramos amigos também Havia relações pessoais, família. Eu conheci o Nuno há tantos anos, trabalhei com ele tantos anos, que é completamente diferente. A forma como aquilo aconteceu, para mim, foi um choque enorme, porque eu tenho memórias do Nuno, que não tenho do Luís. Porque acompanhei a carreira dele quase na totalidade.
De uma forma muito mais próxima.
Sim, sem dúvida. Portanto, aquilo que ficou e ficará: um cantor absolutamente extraordinário, muito desvalorizado no meio artístico português. Acho que mesmo Ala dos Namorados, para aquilo que fez na altura, coincidiu com a explosão e o sucesso enorme de Madredeus. Portanto, a nossa comunicação social estava só focada em Madredeus. Ala andou pelo mundo inteiro. Trabalhou com gente extraordinária, o músico de jazz japonês, Sadao Watanabe. Curiosamente, o Sadao Watanabe veio como recurso para resolver um problema, porque a Ala tinha estado um ano antes aqui em Lisboa a jantar naquele restaurante que era no Bairro Alto e agora é lá embaixo no Mercado da Ribeira. Papa-Sorda. O Ryuichi Sakamoto. Era com o Sakamoto que a Ala ia fazer o espetáculo na Expo 98. Foram questões pessoais, ele afastou-se algum tempo e acabou por ser um músico japonês, sax alto, jazz, Charlie Parker, mas que agora se tinha virado muito para a bossa nova, como muitos músicos americanos se viraram à altura. Trabalhamos com imensa gente. Mas isso nunca foi foco na nossa comunicação social. Madredeus. E merecidamente, eles fizeram uma carreira extraordinária. Mas a Ala fez uma excelente carreira lá fora e aqui dentro passou completamente despercebido. O Nuno foi sempre muito desvalorizado.
E incompreendido.
E às vezes fez escolhas muito duvidosas. E isso também não o ajudou. Houve um período, uns anos, que eu não trabalhei com ele. Fez escolhas duvidosas que não o ajudaram.
Olhando para os novos tempos, para estes novos sinais, o Manuel Moura dos Santos sabe disso, há muitos artistas que agora apostam cada vez mais nas redes sociais, como o TikTok, o Instagram, até para crescerem e aumentarem o seu público. Para si, que anda nisto há tantos anos, como é que olha para este novo fenômeno de redes sociais e com artistas que aparecem desta forma?
É um fenômeno a que nós temos que nos adaptar. Eu a título profissional tenho Instagram, tenho uma ligação direta ao Facebook, nem lá vou há anos. Tudo que eu publico vai para lá direto e vai também para o X. Eu uso aquilo profissionalmente, mas vejo que há muita gente que mistura a parte profissional com o pessoal e acho aquilo uma confusão. Agora, é um meio de divulgação, que bem usado é fundamental hoje, sobre isso não há dúvida nenhuma. A rádio continua a ser importante, mas o acesso à rádio hoje não mudou muito em relação àquilo que existia há 25 ou 30 anos.
E há sempre muita discussão quando se fala de música portuguesa.
O funil cá em cima é que é maior. A saída cá embaixo é que é igual.
Exato. A questão da cota de música portuguesa que tem que passar obrigatoriamente em rádio. Que esse é um grande tipo de discussão.
Aqui em Portugal é tão ridículo, 25%, acho eu. A gente atravessa a fronteira e eu vou daqui até Madrid ouvir músicas em castelhano. Uma vez por outra, vem uma música em inglês. Algum espanhol que atravessa a fronteira, vem até Lisboa, ouve música dita anglo-saxônica, maioritariamente, e uma vez por outra, ouve uma música portuguesa, de um artista português. A diferença é só essa. Em Angola, 90% do tempo só ouve música angolana. Não ouve outra coisa na rádio.
Não é 25, é mais cinco, 30%. Está fixada nesses termos.
Continua a ser ridículo, completamente ridículo. Dizem-me assim: "Não há produção suficiente para haver cota superior". A música que já existe, pré-existente. A cota tinha que ser maior, muito maior. Acho absurdo, porque o problema continua a ser o mesmo, o funil hoje cá em cima, a entrada é bastante mais larga, porque hoje é muito fácil fazer um disco e produzir um disco. Hoje não tens que alugar um estúdio, não tens nada, a não ser em casos muito específicos, um piano acústico, uma bateria numa sala viva, uma coisa ou outra que exija estúdio, ou uma seção de cordas. Grava-se tudo em casa. O preço dos instrumentos hoje não tem nada a ver com o que existia há 20 e tal anos. Agora, a saída do funil é que é igual. Saem dois ou três.
Eu estou me a lembrar agora de uma cantora britânica, a Raye, que penso que foi dispensada ou saiu da produtora onde estava, e o último álbum que ela lançou foi totalmente feito em casa. É uma artista que nós já conhecemos, pelo menos eu conheço, não sei se o Manuel conhece. Já tem uma reputação ótima, ou seja, já é conhecida, não é uma artista que esteja-
Mas há muita gente que hoje, ir a estúdio hoje, é só quando é estritamente necessário. O Abbey Road é o estúdio por excelência para orquestras. Um gajo não grava uma orquestra em casa, só se for em teclados, em MIDI, não se grava uma orquestra em casa. Há estúdios para coisas muito específicas. Eu lembro-me quando o Rui gravou o "Lar Lunar", em 95, penso eu. O álbum foi finalizado e os overdubs foram feitos em Londres. E na altura, o Luís Jardim dizia que em Londres e numa área, não sei, 100, 150 km à volta de Londres, havia perto de 600 estúdios. Hoje não há 60. A maioria dos estúdios fecharam. A gente grava tudo em casa. Tu gravas uma guitarra em casa, um baixo. Se for uma bateria da forma clássica, é evidente que o estúdio dá um jeito ou um bom piano no estúdio ou uma secção de cordas.
Mas hoje o leque de possibilidades é maior.
A maioria das coisas é gravada em casa e já não é preciso gravadores à moda antiga com bobines de duas polegadas. Aquilo é tudo feito com Pro Tools ou semelhante, e portanto, isso facilitou muito a vida dos músicos. Produz-se mais coisas. No outro dia alguém me dizia que entram todos os dias nas plataformas de streaming e no YouTube mais de 500 mil músicas. Isto é impressionante. E agora vem aí a concorrência da inteligência artificial. No outro dia recebi um link para ouvir uma cantora espanhola e depois estava a ouvir e disse: "Aqui há alguma coisa que não me soa". Inteligência artificial, criada em inteligência artificial. Eu temo pelos músicos.
É uma ferramenta que vem desafiar esses limites.
A inteligência artificial ainda toca ao vivo, porque parece que aquilo ainda faz filhos. Mas eu temo pelos músicos. Hoje a facilidade com que eu vejo amigos meus meterem meia dúzia de ideias e sai uma letra e uma música.
É verdade.
E isto ainda está no princípio, vamos ver daqui a uns anos.
Sim, e a inteligência artificial, falando daquilo que nós conhecemos, de dois em dois meses ou de três em três meses, as mudanças são altamente grandes. Ou seja, aquilo que se fazia há três meses, neste momento está muito mais simples e mais fácil de se fazer agora. E é aquilo que o Manuel diz. Ou seja, o futuro vai ser um grande desafio para os músicos e para a comunidade musical.
Eu temo pelos músicos. Eu lembro-me há muitos anos, lembro-me de uma entrevista do Prince em que ele era completamente a favor das plataformas de streaming. Depois alguma coisa aconteceu, que enquanto ele foi vivo, não havia um tema dele na Apple Music ou no Spotify, ou fosse onde fosse. Um! Não havia um tema dele lá. Portanto, ele era a favor e depois deixou de ser, porque ele achava que aquilo não defendia a música. E que pagava miseravelmente e que tinha uma posição de tal forma forte, que submetia os artistas. É claro, ele morreu, a família tratou de lá pôr tudo.
Claro.
Mas enquanto ele foi vivo, nunca lá esteve nada. E, portanto, eu não sou tão radical. Acho que hoje as plataformas de streaming para a música são fundamentais. Não há nada a fazer, a venda física morreu. É a única maneira de divulgar música. A inteligência artificial pode vir a ser um problema enorme, porque dizem-me assim: "Aquilo não cria nada que não exista". Não, aquilo compila e cria coisas que já foram feitas, mas vai buscar um bocadinho aqui, um bocadinho aquilo e tu ouves aquilo e dizes: "Mas eu nunca ouvi este tema".
Exato.
Este tema nunca ouviste. Partes deste tema estão todos lá, porque ela não o inventou, não foi buscá-lo a Marte. Isso eu acho que é um problema. Não sei, na indústria da música ao vivo, uma artista inteligência artificial não toca ao vivo, não sei, não faço ideia. Por enquanto, não consigo visualizar, vamos ver.
O dia de amanhã.
Mas alguém me dizia que a Sony assinou com um artista de inteligência artificial. Não sei se é verídico ou não, se é verdadeiro. Isso já é um problema. Eu gosto demasiado dos músicos para os ver nessa situação.
Vamos falar aqui de uma outra paixão além da música, a paixão pelo Sporting Clube de Portugal. A exigência que tem com o seu clube de coração é a mesma que aplica todos os dias no seu trabalho?
Sem dúvida. E esta coisa, que é muito portuguesa, de procurar desculpas. Quando os outros falham, a gente salta-lhes em cima. Quando o nosso falha, nós temos sempre meia dúzia de argumentos que relativizam o problema ou o insucesso. E eu não faço parte desse clube, nem pouco mais ou menos. Esta polêmica sobre os árbitros e daquilo que o Pedro Proença disse, e eu ontem dizia.
Já houve pedido de desculpas.
Está bem, mas é que a divulgação disto, neste timing, que está longe de ser inocente.
Que podia ter levado a boicote se bertasse.
Quando eu condenei a publicação, o roubo e publicação de e-mails do Benfica, que é inqualificável. Da mesma forma condeno isto, porque isto é tornar público conversas privadas. De alguém que, pelos vistos, devia ter alguma confiança do nosso querido presidente da Federação. Não fui eu que lá fui, não foi o gajo que estava a servir o café. Alguém próximo dele gravou aquilo Continuam a achar inqualificável e está-se a discutir isso. Ele foi infeliz, sem dúvida.
Como é que a arbitragem arranca esta nova época? Porque sabemos sempre que há muita fricção.
Sob uma pressão enorme.
Muita fricção entre Benfica, Porto e Sporting pela arbitragem, quando há jogos entre si, quando não há, quando chegamos àquela altura do campeonato em que se discute muito casos sucessivos na imprensa e até mesmo na comunicação social, acaba por partir melindrada para este início de temporada.
Ó João, esta polémica estala na véspera do primeiro jogo oficial da época, a uma semana de começar a primeira liga. Portanto, não é inocente esta caça à arbitragem que abriu com isto e anteriormente com as posições tomadas pelo antigo dirigente também lá da Federação, o Duarte Gomes. Nada disso é inocente. Não há aqui inocência nenhuma. Isto é deliberado e a época vai começar com a arbitragem a ferro e fogo. E isto é que eu acho que não há maneira de pôr termo a isto. Em Portugal, fala-se mais da arbitragem que de futebol, ou dos jogos, ou dos jogadores, ou das jogadas, ou das decisões dos treinadores, ou das jogadas geniais. O que se fala, sobretudo, é de arbitragens. É constante. E eu sou contra isso, como é evidente, venha do meu clube, venha de onde vier.
O que é que o tira mais do sério neste mundo do futebol?
É evidente que há uma enorme clubite em Portugal. E eu acho que isso não é exclusivo dos portugueses, os latinos, eu penso que os espanhóis e italianos, provavelmente os franceses, são iguais, mas o que se nota é falta de amor pelo jogo. Eu lembro-me há muitos anos, com um velho amigo que já cá não está, de ir ver um jogo do Arsenal com o Aston Villa, no antigo estádio do Arsenal, em Ivory Park, acho que era o nome daquilo. E a atmosfera era absolutamente extraordinária. E de estar alguém sentado ao nosso lado e eu ter comentado: "Isto, de facto, é fantástico". E ele perguntou: "Vocês não são ingleses?" "Não, nós somos portugueses, estamos de visita, estamos cá fim de semana." "Sabe qual é a diferença?" "Não." "É que nós em Inglaterra gostamos do jogo, vocês em Portugal gostam dos clubes." É toda a diferença do mundo. Eles gostam do jogo, nós gostamos dos clubes. E são fãs, e é o estádio inteiro a puxar pelo clube, mas eles gostam mesmo é do jogo. E nós gostamos dos clubes.
E muitas vezes são capazes de elogiar um jogador de uma equipa adversária, por mais que seja um rival, são capazes de fazer isso. Acontece muito em Inglaterra, por exemplo.
Sim, aqui é impossível. Portanto, o futebol está sempre contaminado pelos problemas, pela clubite e a clubite leva à arbitragem. O meu clube é excelente, os árbitros é que têm de dar cabo disto, os árbitros aquilo.
E perspetivas para esta nova, enquanto adepto, sei que também é comentador desportivo num canal de televisão, para esta época do Sporting, que conheceu aqui uma grande revolução. Saíram Ülman, Trincão, Pote também está na porta de saída. Max Era Uru lá conseguiu ficar. O que espera desta época? Que para já, a pré-temporada, sem derrotas e com números expressivos em termos de golos.
E esta manhã que estamos a gravar, posso dizer, ganhámos no jogo na academia mais 4 x 0, acho que ao Casa Pia. Não, ao Primeiro de Dezembro, desculpe. Eu acho que é melhor ganhar do que perder. Dou o valor que dou a jogos de preparação de pré-época, embora este jogo de ontem com o Nottingham Forest, é o jogo que antecede a estreia. Portanto, ali já tem que aparecer qualquer coisa.
E é uma equipa de Premier League.
Já tem que aparecer qualquer coisa. Estes senhores vão jogar o primeiro jogo oficial daqui a uma semana. E eu fiquei francamente otimista. Já temos um bom meio-campo. As três contratações e até ver acertaram na mosca. Tanto o Doumbia como o Sérgio Altimira e o Silas Anderson são três bons jogadores. O Doumbia ontem esteve especialmente bem. Mas temos miúdos com muito-- o Rafael Nel, é preciso contar com ele, o Flávio Gonçalves.
Vai ser o segundo avançado, o Rafael Nel?
Neste momento, está melhor que o Ioannidis. O Eduardo, felicíssimo, há que contar com ele. Provavelmente não no meio-campo, mas como central. E portanto, o Salazar ontem esteve muito bem, mas isso não é novidade, era isso que se esperava. Eu não conhecia os outros três de lado nenhum, nunca tinha ouvido falar deles. O Salazar, sim. Portanto, não é novidade, não fiquei espantado com a boa exibição que ele fez ontem. Mas a equipa neste momento, e há um pragmatismo enorme que é não reter muita bola no meio-campo e chegar rapidamente lá à frente. Eu gosto de ver esse tipo de futebol. Vamos ver, quando for a doer, será diferente, está tudo a lutar pelos pontos.
Claro.
Ou pela eliminatória, no caso da Taça de Portugal, e portanto será com certeza diferente. Até ver, é uma pré-época bem sucedida, com muitos gols e boas exibições.
Deixou-o descansado nesse sentido, para já.
Como sportinguista, estou otimista. Agora, também sou realista e sei que quando começar a doer e depois vem aí a Champions, vamos ver. Mas estou otimista.
E o calendário vai ficar mais apertado.
Exatamente.
Manuel Moura dos Santos, para terminar, o que o inquieta?
O que me inquieta? Olha, na música Inquieta-me sempre as poucas oportunidades que os artistas têm. Eu trabalho com três artistas que, por acaso, não é para ser maldoso, não passam aqui na Rádio Observador. O Cais João Soares com a Escolha de Sal, com a Kalu, não passam. E colaboro com o Miguel Moura, um cantor alentejano extraordinário, porque eu trabalho com ele no Motim. Também não me parece que passe. Inquieta-me a falta de oportunidades que os artistas têm de serem divulgados. A nível geral, inquieta-me a falta de qualidade que nós temos em Portugal dos nossos políticos. Não é este caso do senhor do tanque que virou piscina e da piscina que vai virar tanque. É o esquemazinho, é o chico-espertismo em que este país é frequente. Mas isto cansa as pessoas e sobretudo cansa quando vêm sempre os mesmos. Ou isto vem do PS, ou vem do PSD, e depois não se admirem que um dia destes apareça outra coisa que será muito mais complicada, não tenham dúvidas nenhumas. Porque eu acho que ele não está minimamente preparado para governar o país, nem tem gente para isso. Mas isso inquieta-me. Inquieta-me a nível internacional estarmos nas mãos de alguém que eu não prezo minimamente. Este senhor que é presidente dos Estados Unidos. Não prezo. Acho que é um homem que vive para o business, o negócio dele, da família e dos amigos. E depois todas as decisões, mais tarde vem sempre qualquer coisa, aparece sempre qualquer coisa que diz: "Com aquela decisão e com aquilo que aconteceu, este senhor ganhou mais uns milhões para o show aqui e para o show lá". Que o mundo seja governado por gente desta, com tanta falta de qualidade. Nós olhamos para trás e no outro dia ouvi um discurso do John Kennedy. Este tipo de políticos com esta qualidade já não existem, na Europa muito menos. A falta de qualidade dos políticos, não só portugueses, europeus. A falta de qualidade, a falta da gente olhar para eles e ver um farol, ver alguma coisa que a gente diga: "Eu posso me enganar, mas vou atrás deste senhor".
Mas mantém a esperança num mundo melhor?
Eu acho difícil. Acho que o mundo como está, acho que o ser humano, o problema do planeta somos nós, existimos. Se nós não existíssemos isto funcionava tudo perfeitamente porque a natureza autorregula-se. Mas nós somos a entidade que desregula tudo. Eu às vezes penso que a resolução dos problemas do nosso planeta passará pela nossa extinção. Daqui a muitos anos, como é evidente, se calhar dois séculos ou outra coisa, pela nossa extinção. Nós somos os únicos que estamos aqui a mais. Isto funciona perfeitamente sem nós. Não há Teslas, nem há isto, nem há aquilo. Não, não há nada disso. Mas a natureza autorregula-se e faz os seus acertos e os seus equilíbrios, às vezes brutais, mas autorregula-se. A única coisa que desregula isto tudo somos nós. O lixo que é produzido, a poluição que é produzida. Tudo isto tem um único culpado: o ser humano. Não podem culpar os cães, os gatos, os periquitos, os buldogs, as vacas. As vacas, nas quantidades em que são criadas e produtoras de metano, já têm alguma, mas não foram elas que pediram.
Sim.
Somos nós que as criamos às centenas de milhares, aos milhões, aliás. Mas os animais só por si não ferem o planeta, não o magoam, não fazem nada disso, somos nós. Eu não partilho desta ideia que temos que voltar à Idade da Pedra, como é óbvio. Chegamos a um ponto em que isso é impossível e que suprimir isto ou suprimir aquilo, eu não direi utópico, mas que é profundamente irrealista. Mas também sinto que caminhamos para o abismo. É olhar para o Ártico e ver o que está a acontecer. Caminhamos para o abismo. E depois temos gente que devia ser responsável e que diz que não, o aquecimento não existe.
Para não acabarmos assim tão pessimistas, diga-me uma coisa: qual é o artista que vai ouvir agora na viagem para casa?
Olha, eu como vou ligar, passa a publicidade. Eu estou sintonizado em vocês, mas quando quero ouvir música, porque aquilo é só música, eu ligo a Marginal. Portanto, é o que estiver a dar. Se for a Aretha Franklin, fantástico.
Manuel Moura dos Santos, muito obrigado por ter vindo aqui ao "Em 40 Minutos". Muito obrigado.
Eu é que agradeço o convite.