Chama-se Joseph Junior Andreou O’Cearuill, tem como “nome de guerra” JJ Gabriel, nasceu há 15 anos em Enfield, em Inglaterra, joga pela esquerda ou no corredor central e pode ser o protagonista do próximo grande movimento, mesmo que o mercado de transferências já se encontre fechado. Sem espaço, no seu entender – ou da sua família –, para se desenvolver e encontrar o seu caminho no Manchester United, o jovem jogador tem meia Europa atrás de si e a sua saída é dada como certa, estando apenas dependente de um “pormenor” burocrático: completa 16 anos no próximo dia 6 de outubro, pelo que tem de esperar até essa altura para assinar por outro clube. Ainda assim, o caso promete ser complexo por diversos fatores, e pode abrir uma porta até agora pouco explorada no mundo do futebol.

Recentemente em Portugal assistiu-se a um caso do género, embora com menor mediatismo e, ao que tudo indica, mais pacífico. Quando Gabriel Índio rumou ao Benfica tinha 17 anos e, por conta disso, não podia ser transferido ao abrigo dos regulamentos da FIFA, que proíbem transferências internacionais de jogadores menores de 18 anos. Nesse sentido, as águias tiveram de esperar até 28 de julho (dois dias depois de o central chegar à maioridade) para oficializar o brasileiro, que já estava a trabalhar com o plantel principal e tinha inclusivamente feito jogos de pré-temporada, algo que foi possível ao abrigo de uma autorização especial da FIFA e de um contrato assinado com os pais.

O caso de JJ Gabriel é mais complexo por diversos motivos, a começar pelas regras em vigor no Reino Unido, que são mais restritivas em comparação com as que estão em vigor em Portugal, no caso de se tratar de uma transferência nacional. Por outro lado, caso esteja em cima da mesa uma movimentação para outra liga dentro do espaço europeu, o regulamento da FIFA prevê exceções se estas forem feitas dentro do espaço comunitário europeu, algo que pode levantar novos problemas por conta do Brexit. O que é certo é que Gabriel pediu para cancelar com efeitos imediatos a sua inscrição no Manchester United, que tem Omar Barreda, diretor executivo, e Jason Wilcox, diretor de futebol, a negociar esse eventual negócio com a sua família, dado que a sua idade não lhe permite agir sozinho.

Marco Silva a madrugar, uma prenda antecipada para Índio e o casaco de Enzo a dar nas vistas: o início da pré-época do Benfica

Visto como o melhor jogador da geração de 2010, Gabriel começou a dar nas vistas na última temporada, quando tinha apenas 14 anos. Foi nessa altura que se falou pela primeira vez da sua saída do Manchester United, no caso para o rival Manchester City, algo que acabou por ser travado por Wilcox, segundo a imprensa inglesa. JJ continuou em Carrington e, no final do ano, foi eleito o melhor jogador da Premier League de Sub-18, tendo conquistado o mesmo prémio no seu clube. O potencial não passou em vão a Michael Carrick, que estreou o jovem nesta pré-temporada, colocando-o em campo na parte final do particular frente ao Atl. Madrid. Desta forma, Gabriel tornou-se no jogador mais jovem de sempre a representar o clube num jogo amigável. Para além disso, o treinador queria contar com o prodígio no jogo desta quarta-feira frente ao Brighton, estreando-o oficialmente na Taça da Liga inglesa, algo que não deverá acontecer por conta do litígio.

Ainda assim, JJ Gabriel foi integrado na equipa de Sub-21 dos red devils, que disputa a Premier League 2 destinada à formação, onde marcou dois golos e fez duas assistências em dois jogos. Na semana passada estreou-se na Youth League frente ao Sabah, anotando um hat-trick que o colocou como o marcador mais jovem do Manchester United na competição. Segundo o Flashscore, o Manchester United tem uma posição clara de rejeição do pedido de cancelamento da inscrição que, em jogadores desta idade, só pode ser formalizado com a conivência de todas as partes envolvidas (os dois clubes e os pais) e sem contrapartidas financeiras. Os red devils pretendem continuar com o jogador e acreditam que a situação pode ser resolvida, embora só lhe possam oferecer um contrato profissional aos 17 anos, por conta das regras das entidades inglesas.

O United considera ainda que existem limitações realistas quanto à sua integração na equipa principal, por conta da idade, optando por protegê-lo nesse sentido. Segundo os red devils, o seu desenvolvimento foi acelerado tanto quanto possível. Entre os clubes interessados nos seus préstimos estão Chelsea, Real Madrid e Barcelona, sendo que Bayern Munique, B. Dortmund, PSG e Juventus já o observaram e Arsenal, Tottenham e City também acompanham a sua evolução. Em Espanha a ida para o Real Madrid é dada como o cenário mais provável, com a Marca a escrever que o jogador começou a seguir, no Instagram, vários jogadores do Real Madrid e a conta de La Liga, retirando as publicações em que mencionava o Manchester United. À data de publicação deste artigo o seu perfil, que conta com mais de 850 mil seguidores, encontra-se sem qualquer publicação visível.

Conhecido como Kid Messi pela sua movimentação em campo, JJ Gabriel partilhou a apresentação no Manchester United com… Cristiano Ronaldo Júnior, com quem mantém uma amizade próxima. Curiosamente, o nome que utiliza na camisola é Gabriel Junior. O jogador assinou contrato com a Nike em março do ano passado e tornou-se no adolescente com maior contrato com a empresa norte-americana, superando Neymar Júnior. Recuando o tempo, foi com apenas nove anos que Joseph Junior começou a construir a sua carreira no futebol, altura em que teve diversos vídeos seus a viralizar no YouTube, conquistando uma oportunidade em algumas das maiores academias inglesas – Chelsea, Arsenal e West Ham. Em 2022 chegou aos red devils, onde se tornou no jogador mais jovem da história a jogar pelos Sub-18, com 14 anos. Com 15 anos começou a treinar com a equipa principal e, na época passada, chegou a constar nos registos com a camisola 95 da equipa principal, embora não tenha jogado.

Filho de Joe O’Cearuill, antigo internacional pela Rep. Irlanda, e de mãe com origem no Chipre e na Grécia, JJ Gabriel é elegível para representar quatro seleções: Inglaterra, Rep. Irlanda, Chipre e Trindade e Tobago, dado que um dos avôs nasceu naquele país do Caribe. Por ter nascido e crescido em território inglês, Gabriel tem representado aquela seleção, tendo feito a estreia nos Sub-15 em fevereiro do ano passado, chegando aos Sub-18 em novembro. Já em março deste ano estreou-se nos Sub-17, na caminhada para o Europeu de 2026 para o qual Inglaterra não se apurou. A ligação à Rep. Irlanda pode ser a solução para um eventual imbróglio, dado que o jogador pode usar o passaporte europeu para contornar o Brexit à luz das leis da FIFA, que permitem a mudança de menores entre os 16 e os 18 anos se esta for feita dentro do espaço comunitário europeu.

A BBC nota que este caso tem semelhanças com o de Paul Pogba que, em 2012, recusou-se a renovar contrato com o Manchester United quando tinha 19 anos, por acreditar que não ia ter oportunidades suficientes com Sir Alex Ferguson, treinador que não tinha uma boa relação com o seu agente, Mino Raiola. Nesse sentido, o médio francês saiu a custo zero para a Juventus e, em 2016, foi contratado pelos red devils por… 105 milhões de euros, naquela que ainda é a maior transferência da história dos ingleses. 

“Vi-o num jogo com menos jogadores. Com os dois pés é ridículo. Consegue ganhar um metro e rematar. É muito pequeno fisicamente, mas não permite o contacto. Para além da habilidade, a sua força mental para ignorar todo o ruído e fazer aquilo aos 15 anos… a minha cabeça teria explodido”, começou por analisar Rio Ferdinand no seu podcast, em conversa com Ryan Giggs, que respondeu: “Isso soa ao Wayne [Rooney], não é? Passa-me a bola, passa-me a bola. Não se importa com quem está a treinar. JJ é um talento geracional. Tem de ficar no Manchester United. Não faz sentido sair porque está no melhor sítio possível. Treinar e jogar com a equipa principal proporciona-lhe uma experiência inestimável. Precisa de viajar com a equipa, perceber a exigência que implica representar o United e habituar-se à enorme atenção que este clube suscita”.

Guerra entre as grandes academias inglesas está de volta

Acabaram-se os tempos de trégua. Apesar de nunca ter havido um acordo oficial propriamente dito, durante largos anos os Big Six da Premier League comprometeram-se a não contratar jogadores que estivessem nas academias dos rivais, permitindo aos atletas concentrarem-se apenas no seu desenvolvimento. Apesar de o hipotético acordo ter sido violado em determinadas situações, a trégua manteve-se, mas parece ter chegado ao fim. E JJ Gabriel pode ser mais um exemplo disso. Segundo o The Athletic, o travão pode ter sido dado em 2024, quando Rio Ghumoha, então com 16 anos, deixou o Chelsea para assinar pelo Liverpool, num caso que só foi resolvido em tribunal, com a justiça a determinar o pagamento de 3,27 milhões de euros aos blues. Atualmente avaliado em 30 milhões pelo Transfermarkt, esse valor não passou de uma mera formalidade, ao invés de ser visto como um obstáculo à contratação dos jovens jogadores.

Na reportagem realizada pelo jornal inglês participaram dezenas de fontes ligadas às maiores academias do futebol inglês, que explicaram que o negócio mudou. “Agora há uma grande competição por esses jogadores. É certo que todos perceberam que um ou dois milhões de libras (1,17 a 2,33 milhões de euros) parecem valores muito altos para contratar um jogador da academia, mas se o jogador for de nível Championship ou superior, dá para obter um grande lucro. É, na verdade, um negócio dentro de outro negócio”, explicou um “olheiro de um grande clube” sob anonimato. Olhando ao último mercado, o Manchester United recrutou David Eze e Karim Cassim ao Manchester City, que por sua vez contratou Mishel Nduka ao Arsenal. O campeão inglês reforçou-se com Elijah Upson (Tottenham) e Vincent Joseph (Liverpool), os spurs contrataram George Jobling ao Chelsea, que não fez qualquer contratação por se encontrar impedido de contratar jogadores jovens até dezembro.

Um recorde igualado, um meio-campo por 375 milhões e os protagonistas inesperados: o mercado da Premier continua a ser um mundo à parte

Um fator que explica o aumento deste tipo de transferências dentro da Premier League é, de acordo com os envolvidos, o Brexit, que impede os jogadores de se transferirem para outros países antes dos 18 anos, a menos que tenham passaporte da União Europeia e, pelo menos, 16 anos, como o caso de JJ Gabriel. O aumento de academias de topo também explica esse aumento, número que passou das 20 academias em 2012/13 para as 31 na presente temporada.