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Acho que mudou, de facto, depois de ser mãe, com a atenção que dou a determinados temas, que se calhar tinha aqui já uma espécie de capa de frieza para determinados assuntos, porque temos que a ter, porque todos os dias chegam-nos notícias que são difíceis. E eu acho que o facto de ter sido mãe, por exemplo, arredou-me aqui um bocadinho essa capa, às vezes, para o lado. E emociono-me muito mais facilmente com vários assuntos que envolvam crianças, por exemplo. Acaba por ser difícil, muitas vezes, não me imaginar em determinadas situações. Acho que olho para aquelas crianças e imagino os meus filhos naquela situação. Isso é, de facto, muito difícil e essas áreas que envolvem crianças realmente emocionam-me bastante hoje em dia.

Passou a vida a fazer perguntas difíceis aos outros, cresceu depressa, aprendeu cedo a ser fiável e ponderada, a estar presente quando é preciso segurar o mundo, mesmo quando o mundo treme. Escolheu uma profissão que exige clareza, mas vive com dúvidas, como todos nós. Aprendeu que a credibilidade se constrói todos os dias e que o tempo, esse, nunca chega para tudo. Sabe que amar implica ceder, que ser mãe implica partir-se, que ser uma mulher com visibilidade tem um custo que não vem num simples manual. Hoje conversamos com alguém que vive entre a urgência da notícia e a lentidão do que realmente importa. Sara Pinto, em "40 MINUTOS". Bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Olá, João, obrigada por essa bonita introdução.

Tanto é isto, temos muito para conversar, não é, em 40 minutos.

40 minutos pode passar muito rápido.

Então.

Eu tenho sempre essa percepção quando faço entrevistas, talvez porque as preparo muito, depois ficam sempre muitas páginas com tantas outras perguntas por fazer, além daquelas que realmente foram feitas. Portanto, vamos tentar que sejam 40 minutos produtivos.

O formato de entrevista, que aliás, eu vou cometer aqui esta inconfidência, a Sara Pinto foi minha professora na faculdade. Era boa professora ou não? Era. Não foram muitas aulas também.

Está aqui.

É verdade.

Não, eu até fui aqui ao meu e-mail tentar pesquisar um trabalho antigo do João só para ter a certeza que tipo de aluno é que era o João, mas certo. Não, não encontrei.

O que pode ser bom sinal, nem por isso.

Não, eu acho que a prova dele está dada. Ele está aqui a fazer-me uma entrevista numa rádio com o alcance que tem a Rádio Observador, portanto, certamente foi um excelente aluno.

Sim, mas isto não é sobre mim, é sobre a Sara Pinto.

Estou a tentar escambular-me.

Lembro-me muito bem de tu dizeres e partilhares conosco que o formato que mais te interessava, e aliás, a cadeira era sobre isso, era entrevista e também debate. Tiveste alguma pena de agora nestas eleições só teres entrado aqui mais ou menos a meio da corrida?

Sim, olha, foi de facto algo que foi discutido com a direção de informação da TVI, porque eu tinha a minha licença de maternidade a terminar quase no arranque dos debates, mas esse quase era muito importante também para a minha gestão familiar. Isso ia implicar regressar mais cedo da licença de maternidade. Eu já o tinha feito na minha anterior licença de maternidade. Ia implicar também com a licença do meu marido, que da última vez já saiu de certa forma prejudicado por causa dessa alteração que eu fiz e decidimos em família que não era altura para isso. À partida, este é o nosso último filho, queríamos aproveitar 100% até ao fim e, portanto, ficou decidido que não ia regressar mais cedo. Mas quer dizer, tudo indica que se calhar vamos ter uma segunda volta. No momento em que este programa está a ir para o ar, ainda não sabemos ao certo o que é que vai acontecer. E portanto, quem sabe se ainda teremos aí mais debates a acontecer.

O que é que gostas realmente nesse estilo? Aliás, tu já entrevistaste muita gente, nomeadamente política, desse meio, desse microcosmos.

Sim, e realmente o debate é mesmo aquele formato que me dá mais gozo. Porque um moderador num debate tem que ter presença no tempo certo. Por exemplo, numa entrevista, é só o jornalista, por norma, que está ali a fazer as perguntas. Num debate, tu tens também de considerar a interação de outra pessoa. É sempre a dois. E eu acho muito interessante conseguir pô-los em confrontação, mas tentando que a minha presença não incomode e seja feita ali com peso, conta e medida, no tempo certo e com a cadência certa. E eu gosto de fazer esse tipo de exercício. Até porque muitas vezes o guião que eu levo sai completamente ao contrário e é bom ver isso também e conseguir adaptar-me no momento e no instante ao caminho para onde os próprios entrevistados levam o debate.

Levam o debate. Sara, não há excesso de debates nas televisões?

Eu senti que houve um certo cansaço nestas eleições presidenciais. Os debates começaram muito cedo.

E não digo só debates entre candidatos a cargos políticos. Digo o debate político. Há muito debate, não há?

E por vezes levam mais tempo do que o próprio debate entre candidatos. Mas eu acho que é uma forma também da própria televisão se reinventar. Nós hoje em dia, quando ligamos a televisão, já sabemos à partida muitas das notícias que estão a ser dadas em televisão. Já vimos nos puxos, nos telemóveis. E portanto, a televisão também aproveita esse formato para de certa forma não se deixar morrer. O que é que a televisão ou, por exemplo, um canal de notícias pode acrescentar, além do imediatismo que já tem vindo a ser substituído muitas vezes pelo digital e pelo que temos no telemóvel? O que é que a televisão pode acrescentar? Eu acho que é uma forma também da televisão se reinventar. Agora, isso também pode ter consequências, claro, o cansaço do formato, mas eu creio que ainda não chegamos a esse ponto. Acho que as pessoas ainda precisam e sentem que podem ir buscar conteúdo importante ao debate que se faz na televisão. Para não ficar só pela espuma dos títulos das notícias. Agora, em relação em concreto a esta eleição presidencial, talvez de fato tenham começado demasiado cedo, mas também eram tantos candidatos e também há normas da ERC, obviamente, que têm que ser cumpridas e levou a que tivesse de haver este número grande de debates, que admito que possa ter tido algum efeito de cansaço nos telespectadores.

Tu vais estar na noite eleitoral. Estar neste tipo de formato no dia que é de algumas decisões, porque possivelmente não vamos ter a decisão final nesta noite de 18 de janeiro.

Pode haver surpresas.

Pode haver também. É uma espécie de Champions League para um jornalista, para um pivô, uma final de Champions League.

Para alguém que gosta de política, sim, acredito que outros jornalistas que prefiram outros temas é um pouco indiferente e prefiram mesmo estar na final, por exemplo, de uma Liga dos Campeões no futebol. Mas para quem gosta de política, de facto é uma noite importante. E neste caso, quando se decide uma eleição presidencial, não acontece assim tantas vezes como, por exemplo, umas legislativas, que têm acontecido com uma frequência muito mais anormal. E esta, em particular, pelo facto de nos remeter a todos para aquela célebre eleição presidencial de 86. Eu li imensas coisas sobre isso. Ainda há pouco tempo estive a fazer um conteúdo a propósito do centenário do Mário Soares, em que entrevistei o Miguel Sousa Tavares precisamente sobre aquela campanha de 86 e os debates de 86. E é de facto fascinante. Também posso fazer publicidade ao podcast da Rádio Observador.

Estamos a pensar nisso, não é, Joana?

E de facto, quando pensamos que este domingo se pode repetir algo desse gênero, empurrar uma eleição presidencial para uma segunda volta, acho que é muito bom poder estar a assistir a isso ali em direto.

E como é que se prepara uma noite destas?

É um caminho que não pode ser feito na véspera.

É tudo muito imprevisível.

Sim, é tudo muito imprevisível, mas nós já fomos debatendo alguns cenários. Já fomos analisando toda a dinâmica de campanha, as sondagens, a tracking poll. Há muita informação que se vai recolhendo ao longo destes dias, que não se faz só ali na véspera, e que, de acordo, por exemplo, no que me toca a mim diretamente, que é mais a questão da análise e não tanto o lançamento de dados, isso fica para o Pedro Benevides no Magic Wall e também para o José Alberto Carvalho, que vai estar ali também com a tarefa de distribuir trabalho para quem está no terreno. A mim cabe-me mais a análise e, portanto, há um trabalho que eu já vou preparando, tendo em conta os convidados que vamos ter. Não é um trabalho que é feito de um dia para o outro e que implica que se acompanhe desde cedo, desde o momento em que os candidatos chegam à frente, as declarações que vão fazendo, tomando nota de algumas coisas, para depois também conseguir ter ali um discurso e fazer perguntas que tragam informação para quem está a assistir à nossa emissão.

Sara, não quero ser desagradável, mas o que tu achas da expressão encher chouriços na televisão?

É uma arte que se treina também. Eu não tive a oportunidade, se calhar, de falar sobre isso quando fui professora do João, porque a nossa cadeira era mais sobre a entrevista, e em entrevista não se enche tanto chouriço. Mas é uma arte que se treina. E eu tive um bom professor nisso. Houve, de facto, alguém que ao longo destes anos me ajudou a trabalhar muito isso, que eu vou ter que dizer, é o Pedro Mourinho, porque eu trabalhei muitos anos com o Pedro Mourinho. E o Pedro era muito exigente e insistia muito em temas em que nós olhávamos para aquilo e dizia: "Pô, Pedro, não há nada para dizer sobre isso". E ele: "Claro que há coisas para dizer sobre isso". E tu aprendes a estar atento a determinados detalhes que são fundamentais quando precisas de encher chouriços.

Já te viste na posição de ter também de encher chouriços?

Tantas vezes.

Isto não é romper um pouco o compromisso com o espectador

Em que sentido?

No sentido em que uma pessoa-

De estar a enganá-lo?

Não, enganar não. Quer dizer, suponho que não.

Não.

Não é injetá-los com informações falsas.

Erradas, claro.

Erradas, mas no sentido em que, ao desenvolver essa nobre arte de te encheres para isso, não se está a dar informação relevante a uma pessoa que está ali sentada a querer consumir informação relevante.

Não, eu acho que muitas vezes tu consegues é que o telespectador desloque o seu olhar para outras coisas. Se eu tivesse que estar agora aqui a fazer um direto sobre a nossa entrevista, eu podia retratar o caminho que fiz até aqui. E isso é uma coisa relevante, que se calhar não interessava para a nossa conversa, mas o telespectador ia perceber que está um dia horrendo em Lisboa, que eu demorei imenso tempo a chegar à Rádio Observador porque estava muito trânsito e muita chuva. Ou seja, nós podemos ir buscar detalhes que acrescentem a um determinado conteúdo noticioso, que se eu tiver pouco tempo para o fazer, se calhar vou deixá-los de parte, mas se tiver meia hora para falar sobre isso, eles vão acrescentar aqui alguma coisa a um conteúdo noticioso. Portanto, depende do tempo disponível que temos para dar uma notícia.

Acreditas, por isso, ainda no poder que o jornalismo tem na nossa sociedade, ainda com muitas transformações e se calhar agora, visto que tiveste de licença de maternidade, pudeste ter mais tempo também para pensar outras abordagens, uma vez que a forma também como se dá notícias é muito diferente. Se calhar, se fizermos aqui uma viagem há dois anos, há três.

Sim. Hoje em dia, a forma como se dá as notícias, nós temos canais 24 horas de informação. É que há uns anos tu tinhas os repórteres a precisar de ir pôr moedas na cabine telefónica para conseguir relatar o incêndio no Seattle e ter que ir trocar as moedas para conseguir dar informação relevante num curto período de tempo. Agora, de facto, tu tens isso completamente dilatado. O tempo que temos para as notícias é muito mais dilatado e, portanto, faz-se jornalismo também de uma forma diferente. Mas deixa-me pegar aqui nessa tua ideia que referiste da minha licença de maternidade. Aí está uma fase da minha vida em que eu precisava de ver notícias mais condensadas, porque apesar de parecer que temos muito tempo, com um bebê em casa, não é verdade. O tempo, sobretudo quando há mais do que uma criança, que é o meu caso, com três filhos muito pequeninos em casa. Eu muitas vezes tenho o tempo muito condensado para ver as notícias e aquilo que me interessa e tenho que ir ao osso, por assim dizer. Tenho que ir direta àquilo que necessito.

E sentes que cumpre o seu propósito, nesse sentido?

Sim, sinto. Sinto, porque se calhar vou direta aos noticiários da hora, que marcam a hora certa, em que tu realmente tens ali uma perspectiva muito mais concentrada do que é relevante, mas se precisar de uma análise, se calhar já me deixo ficar com o comando na mão ao final da noite e vejo um prime time com uma análise na CNN diferente.

Ainda bem que falas da informação condensada e do tempo dos telejornais. Telejornais às 8:00 p.m de 1 hora e meia não é um disparate, Sara?

Nós temos vindo a mudar isso.

Nós?

Nós, TVI. Nós, TVI, temos vindo a mudar isso.

No sentido de tornar mais curto.

De tornar mais curto, sim.

E ter também outros formatos dentro do próprio jornal que não as notícias puridoras, não é?

Sim, rubricas, se bem que nós também já abandonamos um bocadinho essa ideia e de facto agora tem sido o de concentrar as notícias em cerca de uma hora, à hora de almoço até estamos com menos, cerca de 50 minutos. Mas temos vindo a fazer isso porque também podemos fazer, porque o canal tem apostas fortes em termos de entretenimento que têm retorno. E é inevitável.

É inevitável importar.

Não, é inevitável fazer depender muitas vezes a duração dos telejornais de um modelo de negócio. É preciso dinheiro. É preciso dinheiro. Estamos a falar de um canal que é privado e, portanto, também tem que ter a sua estratégia no que diz respeito ao retorno, nomeadamente em publicidade e da forma como gere a sua grelha. E portanto, devido às apostas mais fortes do canal na parte da programação, também é possível fazer essa redução dos noticiários, que eu acho que são suficientes, sim. Ou seja, hora e meia de informação num canal generalista, acho que não se adequa.

Sobretudo num país com o tamanho de Portugal.

Com o tamanho e é mais com as outras opções que temos. Ou seja, hoje em dia, voltando aqui à história dos canais de informação 24 horas, se calhar não se justifica de todo ter um jornal tão grande num canal generalista, porque quem de facto procura outro tipo de abordagens às notícias, a tal análise, por exemplo, pode ir para o cabo.

E se calhar é um contrassenso até para um canal que aposta muito mais no entretenimento, depois concentrar ali uma hora e meia de informação àquela hora, que é uma hora em que a família está reunida. Não sei.

É assim, faz parte das estratégias de cada canal. E de facto, a estratégia da TVI tem sido essa e parece-me correta.

Tu enquanto jornalista, estamos aqui a falar muito do jornalismo puro e duro, notícias Quais são os temas que te emocionam?

Que me emocionam?

Porque é inevitável, não é?

Sim, isso acho que mudou, de facto, depois de ser mãe, com a atenção que dou a determinados temas que se calhar tinha aqui já uma espécie de capa de frieza para determinados assuntos, porque temos que a ter, porque todos os dias chegam-nos notícias que são difíceis. E eu acho que o facto de ter sido mãe, por exemplo, arredou-me aqui um bocadinho essa capa, às vezes, para o lado. E emociono-me muito mais facilmente com vários assuntos que envolvam crianças, por exemplo. Acaba por ser difícil, muitas vezes, não me imaginar em determinadas situações, sei lá, situações de guerra. Eu lembro-me do que aconteceu, por exemplo, com a minha colega Rita Rodrigues, quando começou a guerra na Ucrânia e que ela estava a dar uma notícia sobre pais que escreviam o nome e a data de nascimento na pele, nas costas dos filhos, e ela emocionou-se a dar essa notícia e eu acho que me teria acontecido o mesmo, porque acho que olho para aquelas crianças e imagino os meus filhos naquela situação. Isso é, de facto, muito difícil e essas áreas que envolvem crianças realmente emocionam-me bastante hoje em dia.

Já falámos muito de jornalismo, ainda temos de ir até às origens da Sara Pinto, mas vamos fazer aqui uma curta pausa no "Em 40 Minutos". Já regressamos. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana com a jornalista Sara Pinto e João Miguel Santos. Vamos agora para o frio do norte, ainda por cima nesta altura do ano, até Marco de Canaveses. É de onde tu és, não é, Sara? De Marco de Canaveses.

Marco de Canaveses. Frio, chuva. Aquilo tem ali um microclima muito especial.

Então, explica lá.

Está entre o Douro e o Tâmega, onde começa o Marão. É esta a descrição geográfica, localização geográfica de Marco de Canaveses.

Marco de Canaveses, que foi notícia há muitos anos, nos anos 90, não é? Eras muito pequena nessa altura, Sara.

Sim.

Quando é que decidiste ser jornalista? Foi na infância?

Foi mais ou menos por essa altura, sim. Havia um ritual sagrado em minha casa, à hora do jantar, estava sempre a televisão ligada, o meu pai insistia, sempre a ver o telejornal. E eu às vezes quase que nem podia falar. Supostamente, estamos ali num momento de confraternização familiar, "Como é que foi o teu dia?" E eu quase que nem podia abrir a boca, porque o meu pai era muito rígido nessa rotina. E isso deixava-me bastante frustrada, porque eu era uma miúda, não percebia nada do que estavam a falar na televisão. E acho que foi quase que uma promessa para mim própria, eu um dia vou perceber o que se passa ali e vou perceber dos assuntos que estão a ser ditos na televisão.

Marco de Canaveses foi notícia nos anos 90 por causa de um autarca que foi-

Pensei que ias falar da Cármen Miranda. Cármen Miranda também é de Marco de Canaveses.

Não.

Mas um bocadinho antes dos anos 90.

Enfim, num caso muito célebre. Mas explica lá essa história, João. Um caso muito célebre nos anos 90.

Nós tínhamos um autarca-

Avelino Ferreira Torres, não é?

Exato, muito peculiar, envolvido nalguns casos de tribunal, de justiça, e que curiosamente depois fez parte de um reality show da TVI.

Exatamente.

Não sei se foi a Quinta das Celebridades ou qualquer coisa parecida.

Possivelmente.

Mas, de facto, Marco de Canaveses entrou um bocado para o mapa mediático com essa notoriedade do presidente de câmara de então. E olha, muito curiosamente, ele já faleceu e eu estava no ar quando isso aconteceu e fui eu a dar a notícia, na SIC Notícias ainda na altura.

Ok. Em 2000? Não, em-

Já não me recordo ao certo. Antes de 2020, 2018 ou 2019, por aí. Foi antes de ter mudado para a TVI.

2019.

2019.

Outubro de 2019. Estou ali mesmo quase no limite. Tu falavas aqui do teu pai, que não te deixava falar enquanto via notícias. O teu pai que não queria que tu fosses para jornalismo e uma professora de português, Maria da Luz, pelo que sei, também não queria que tu seguisses essa carreira, não é?

É assim, hoje em dia, para quem quer ser jornalista, não é que as coisas sejam fáceis, mas pelo menos tem um bocadinho mais de opção. E quando eu acabei o secundário-

Hoje tem mais opção?

Tem mais opção, porque tu tens mais meios de comunicação social. Quer dizer, o digital teve aqui um boom enorme, o cabo também, e quando eu acabei a faculdade eram muito poucos. Não existia ainda sequer a TVI 24, por exemplo. E portanto, era mais difícil no sentido em que não tínhamos grande escolha. E isso aterrorizava o meu pai, porque eu era uma excelente aluna e ele só pensava: "Isto vai para o desemprego. Mas o que é isto? Agora vai para o jornalismo, o que é isto? Por que não vais para médica, filha? Por que não vais para médica?" Se bem que hoje em dia talvez não tivesse estado muito bem, não é? Porque também temos aí alguns problemas relacionados com o setor da saúde. Alguns, como quem diz, relacionados com o setor da saúde.

Desemprego, não é? A falta de médicos.

Sim, é um facto. E portanto, quer o meu pai, quer essa professora de português, porque eu era excelente aluna a português, tinham esse receio de que eu fosse cair no desemprego. E por instantes ainda aconteceu, porque eu depois de terminar o curso, fiz um estágio na SIC, na redação do Porto, e quando terminei esse estágio consegui ir ficando a trabalhar porque algumas colegas estavam grávidas, viva as grávidas, que dão emprego a outras pessoas. Então fiquei ali a fazer algumas substituições, mas quando terminaram as grávidas, de facto, estava quase A rebentar à altura da crise económica e da vinda da troika e eu fiquei sem emprego no jornalismo. Tive que ir trabalhar para outros sítios, mas nada a ver. Fui vender bijuteria num shopping.

Já cá em Lisboa?

Ainda não.

Ainda no Porto.

Primeiro no Porto, até que depois surgiu a oportunidade.

Quanto tempo?

Não foi muito tempo. Não cheguei sequer a estar um ano, porque entretanto surgiu a oportunidade de vir para Lisboa, mas fazer uma coisa que era quase considerada um passo atrás naquilo que eu já estava a fazer. Eu já estava a fazer reportagem, diretos de abertura de jornal, portanto, conteúdo importante, e de repente, a única vaga que eu tinha para vir trabalhar para Lisboa era vir escrever o rodapé das notícias.

Sim.

E eu decidi vir na mesma. Cheguei a casa e disse à minha mãe: "Olha, amanhã vou para Lisboa. Surgiu esta oportunidade, eu vou agarrar essa oportunidade e depois logo se vê". E o logo se vê correu bem, felizmente.

Sim. E ao fim de tantos anos, aliás, com passagem pela SIC, agora TVI, CNN Portugal, o que te deu e o que aprendeste em Marco de Canaveses que ainda até aos dias de hoje consegues se calar aplicar, diria eu, no teu dia a dia?

Resiliência, porque não estamos a falar de um grande centro urbano, ainda que esteja muito próximo do Porto, faz-se em 40 minutos. Mas àquela data, quando eu era mais miúda, olhávamos sempre para o mundo da televisão como algo quase que inalcançável. E acho que com o trabalho de formiguinha, não ter medo de agarrar as oportunidades, de ter de mudar, de deixar a minha família, na altura o meu namorado, que agora é meu marido, deixar tudo para trás para vir agarrar um trabalho de escrever rodapé. Acho que isso vem daí, de saber que as coisas não estão ali à mão de semear, que é preciso ir atrás. Acho que é isso. E é isso que eu aplico no meu dia a dia, seja agora neste dia a dia mais caótico, com três crianças para gerir, com um trabalho em jornalismo, que requer, lá está, muitas vezes muita resiliência, muito trabalho, organização, sacrifício, tal como tu referias na tua introdução. Acho que vou buscar isso a esse tempo em que vivia em Marco de Canaveses.

E o teu pai, que no início levou as mãos à cabeça quando tu decidiste ir para jornalismo, agora como é que foi vendo este crescimento e a oportunidade que agora também te foi dada na TVI de fazer outros projetos, outros formatos que se calhar também te tiram mais dessa...?

Olha, com muito orgulho. Acho que posso dizer isso, é um pai orgulhoso. E eu acho curioso, porque eu, que antes não percebia nada do que ele via na televisão, agora é ele que vem tirar dúvidas comigo. Isso é engraçado.

O que o teu pai pergunta, Sara? Quais são as inquietações?

Acho que, sei lá, às vezes explicações de cenários mais complexos, de situação internacional. Das memórias que eu guardo dessa altura em que ele estava muito atento ao telejornal, era ver o Carlos Fino a reportar em direto de Moscovo. E agora, sobretudo, estas questões mais relacionadas com a dinâmica internacional. Falamos sobre isso e ele tira as suas dúvidas.

Tu tens feito a tua carreira, sobretudo dentro do estúdio, como pivot de informação. Fazer reportagem é algo que para ti faz sentido nesta altura ou num futuro próximo?

Eu vou buscar muito daquilo que tenho em estúdio aos tempos em que fazia reportagem. E acho que me deu a confiança necessária para conseguir estar de forma confortável e passar talvez alguma tranquilidade para quem está a ver. Acho que vou buscar aí a esse trabalho que também fazia enquanto repórter. É muito diferente tu entrares num estúdio e perceberes as condições em que muitas vezes os repórteres estão a trabalhar no terreno e perceberes também como é que funciona, por exemplo, uma regie. Estamos a falar de um trabalho que eu fiz também antes de entrar para o estúdio e me sentar na cadeira de pivot, era a parte da coordenação na regie. Deu-me muita confiança e muita tranquilidade esse trabalho, para estar agora sentada ali na cadeira de pivot. Sim, tenho algumas saudades também desse trabalho de terreno e de reportagem, até porque inicialmente não fazia parte dos meus planos, ou das minhas ambições, quando olhava para aquilo que queria fazer no jornalismo, não era este trabalho de pivot.

Era o quê? O que querias fazer em missão?

Era reportagem, sim. Aquilo que eu estava a dizer de recordar o trabalho, por exemplo, do Carlos Fino, era sempre o trabalho de repórter que mais me fascinava, mas acho que entretanto foram-me empurrando para este trabalho e eu passei a gostar dele também. No sentido de o que mais me dá prazer no trabalho de estúdio é poder simplificar a informação, que pode ser muito complexa. E eu gosto de fazer aquele exercício de como é que eu vou tornar isto perceptível para quem me está a ver e a ouvir, que num canal generalista é ainda mais importante, porque tu tens públicos muito específicos num canal de cabo, com outro tipo de literacia. E para estar a fazer um jornal em sinal aberto num canal generalista, traz esse desafio também de simplificar ainda mais a informação. E dá muito gozo. Às vezes chegam-me textos Completamente indecifráveis quase para as pessoas comuns. Aquele economês, às vezes. E dá muito gozo poder pegar nisso e transformar em coisas mais simples.

Eu há pouco questionava-te sobre a possibilidade de haver excesso de debates nas televisões hoje em dia. Os críticos do jornalismo, não só televisivo, mas também televisivo, dizem que há muita falta de reportagem. É engraçado que todos os jornalistas querem ser repórteres, mas depois baixam um pouco os braços a este fato de hoje em dia termos cada vez menos reportagem. Como é que tu vês esta realidade em Portugal e não só, que é termos cada vez mais uma programação televisiva ou de informação televisiva baseada em diretos atrás diretos, painéis de análise e cada vez menos reportagem, ou seja, temos cada vez menos realidade nas televisões. Partilhas desta visão?

Não diria que temos menos realidade, mas temos, muitas vezes, menos atenção a determinados detalhes. Por exemplo, quando estamos a reportar um cenário de guerra. Eu acho que é muito importante ter alguém no terreno e ir buscar esses detalhes e essas histórias. E se calhar é mais fácil hoje em dia pôr um painel de especialistas, fazer a análise à situação internacional.

Desculpa, deixa-me ser provocador. Por que a guerra e não a vida em Marco de Canaveses?

Sim, por que não?

Deve haver coisas para contar no Marco de Canaveses.

Mas agora eu vou questionar. O que é que tu gostarias de saber sobre Marco de Canaveses?

Já agora, no Marco de Canaveses ou em Marco de Canaveses?

Já me fizeram essa pergunta várias vezes. É das duas maneiras.

É das duas maneiras. Boa. Muito bem.

Estás safe.

Agora quem é que responde? João Miguel. Eu posso responder. Como espectador, posso responder.

Uma situação de guerra na Ucrânia interessa a muito mais gente do que a vida em Marco de Canaveses. Eu acho que nisso estamos de acordo.

Implica mais para a vida das pessoas, sim.

Não é?

Não sei se isso é necessariamente interesse, mas implica mais para a vida das pessoas.

A lógica editorial também é essa. Que temas é que nós vamos selecionar que interessem a um maior número de pessoas? É por isso que teremos um painel de especialistas a falar sobre a guerra na Ucrânia e não sobre a vida em Marco de Canaveses, ou no Marco de Canaveses.

Muito bem, mas percebes onde eu quero chegar?

Sim, também faz falta esse tipo de jornalismo. Mas aí também tem a ver com o investimento das redações, em que é que nós podemos investir, tendo em conta que temos recursos limitados. Eu volto aqui atrás na minha conversa, quando eu estava a pegar precisamente no exemplo da Ucrânia, tem um custo grande mandar um repórter para a Ucrânia e mantê-lo lá durante muito tempo para fazer reportagem. Não basta ir lá, fazer um direto e vir embora. Se estamos a falar de reportagem, requer outro tipo de preparação, outro tipo de apoio de produção, ter alguém, o tal fixer, no local. Por exemplo, é uma pessoa local que te ajuda a ir ao encontro dessas histórias. Há custos. E se calhar, por isso é que também não se investe tanto em reportagem, porque muitas vezes é mais barato ter um painel de especialistas e um direto curto do que ter alguém a trabalhar numa reportagem durante mais tempo.

E se um dia tivermos um painel sobre Marco de Canaveses, vamos ter lá o pai da Sara Pinto para nos ajudar a perceber o quotidiano de Marco de Canaveses. Do Marco de Canaveses. Em Marco de Canaveses.

Ou de Marco de Canaveses. É à vontade.

Costumas ir ao Marco de Canaveses?

Costumo. Não vou tantas vezes quanto queria, porque agora com os miúdos é mais difícil, mas ainda agora passamos lá o Natal e foi ótimo poder ir com o meu pai à horta buscar as tronchudas para o jantar de Natal. Para quem não sabe, é uma couve com um troncho grande, aquela parte do caule. É isso que se come com as batatas e com a bacalhau.

Na ceia de Natal. Vamos falar sobre a maternidade. Tu és mãe do Vasco, Manuel e o António, que é o mais recente membro da família. Eu queria pegar aqui num tema, tu já falaste sobre isso. Fala-se aqui, claro, sobre a maternidade, mas sobre alguns comentários que surgiram quando tu revelaste a tua terceira gravidez. Aliás, tu fizeste questão de partilhar alguns deles que recebeste nas redes sociais.

Sim.

O que mais me saltou à vista é a forma como uma jornalista, que acaba por ser também uma figura pública, alguém que tem a sua credibilidade, como é que tenta contextualizar ou se defender das críticas num momento deste? Porque se calhar para uma figura pública que não tenha esta profissão, seria mais fácil, ou não?

Eu tento sempre ter aqui uma atitude ponderada, de tudo que é intervenções minhas públicas, tento ter aqui uma atitude um bocadinho mais ponderada. Mas esta situação em concreto até nem me causou assim muita celeuma, por assim dizer.

Tiveste algum episódio que te causou mais?

Não, não estou a fazer comparação com outra situação, mas eu acho que por ter uma exposição pública, há certas coisas que tu também já filtras e já aprendes a filtrar. Portanto, nem fiquei assim tão incomodada com isso. Quando fiz a partilha, foi mesmo no sentido de haver outras mulheres Que não lidem tão bem com a crítica, que possam estar numa situação parecida. E foi no sentido quase mais de ajudá-las a ultrapassar isso do que em relação a mim. Porque já vou desvalorizando, já estamos habituados à crítica e outras pessoas que não lidam tão bem com isso.

Então não te magoa, por exemplo, um comentário que vi e que dizia: "Acho isto horrível, passa mais tempo em casa do que no trabalho." Isto não magoa?

Não me magoou, mas acredito que outras mulheres possa magoar, até porque não têm razão, que eu tenho trabalhado sempre até ao fim das minhas gravidezes. E na minha segunda gravidez, até regressei mais cedo da minha licença de maternidade. Não me magoou. Acredito que sejam comentários muito difíceis para outras mulheres e com esta ressalva. Não me magoou porque eu já me fui habituando como figura pública e com a exposição pública a receber críticas em vários momentos. É certo que são quase todas relacionadas com o meu trabalho, muitas vezes de: "Ah, mas você está a pender mais pra esquerda ou está a pender mais pra direita no debate.", coisas desse gênero. Não tanto em relação à minha vida pessoal, é certo, mas acho que já pus aqui a outra capa que é de chutar pra canto as críticas.

As redes são implacáveis, não são?

São, as redes são implacáveis.

Não são as redes, são as pessoas. As pessoas das redes são implacáveis.

As pessoas que fazem as redes.

Se calhar.

Sim, mas eu acho que isso também foi algo que eu adquiri agora com a maternidade, talvez, que é: eu não quero saber.

Ter filhos muda um bocadinho as prioridades, não é?

Muda muito, porque tu às vezes estás focada em determinadas coisas que não são mesmo as mais importantes. Ajuda-te a mudar aqui as prioridades mesmo.

É, não é? E quando olhamos pra trás percebemos: eu andei a perder tanto tempo com coisas tão pequeninas.

Sim, olha, eu lembro, posso dar um exemplo, se quiserem. Lembram-se daquela polêmica toda com a direção do Sporting, à altura do Bruno de Carvalho?

O ataque em Alcochete.

O ataque em Alcochete também. Eu perdia conta às dezenas de especiais de informação que fiz por causa da situação no Sporting. E os ataques eram constantes nas redes sociais, a mim e aos meus colegas. Eu, na altura, fazia a parilha com o Pedro Mourinho, na edição da noite das cinco notícias. Fazíamos juntos esses especiais e estavam sempre a malhar.

Sempre a levar porrada.

Sempre a levar porrada. E eu chegava à casa e eu vinha possessa com aquilo e dizia pro meu marido: "É, pá, porque esta malta, isto do futebol, isto é horrível. E eu estou ali superimparcial, estão sempre a atacar-me." E eu agora olho pra aquilo e penso: mas que estupidez! Como é que eu ficava tão incomodada com certas coisas? Pra que isso interessa?

Ao ponto de te condicionar, por exemplo?

De condicionar, não, mas tirar um bocado o sono. Ficar a pensar: será que aquela pergunta que eu fiz, será que têm razão? Será que eu estou ali de alguma forma a enviesar?

Colocaste essa pergunta a ti mesma: será de mim?

Será das minhas perguntas? Ou seja, ficava ali a moer.

E hoje já não.

Hoje já não. Mas se calhar isso também vem da experiência na profissão.

E da idade.

Vem daí.

Apesar de seres muito jovem.

Estão aí os 20, estão a bater à porta.

Olha, deixa eu fazer-te uma pergunta. Confesso que não fui às tuas redes ver, mas publicas fotografias dos teus filhos, por exemplo? Do rosto deles?

Não. Isso é um assunto muito delicado pra mim.

Ou seja, é propositado?

É propositado.

E gera grandes debates também, não é?

Sim, eu sou completamente contra a exposição que se faz dos menores. Mete-me muita confusão mesmo. Eu partilho muito pouco dos meus filhos, mas tenho algumas fotos.

São mais discretas, não é?

Sim, tu olhas pra aquela fotografia e não consegues identificar. Se vis o meu filho na rua, não vais dizer: "Olha, o filho da Sara Pinto." E isso já me aconteceu, ao contrário, ou seja, eu identificar filhos de outras pessoas. E eu acho que é muito mau. Já me aconteceu estar numa esplanada, ver uma família a chegar, as crianças entraram primeiro na esplanada e eu olho e disse: "Ah, olha os filhos daquela influencer." E de repente olho pra trás e nem vinha a influencer, vinha o marido da influencer. E eu acho isso péssimo, porque estamos a falar de menores, devemos protegê-los, devemos proteger a identidade, devemos resguardá-los. E eles terão, obviamente, sua oportunidade quando forem mais velhos de decidir se querem exposição ou não. E eu acho horrível alguém tomar essa decisão por eles, ao ponto de eu saber, por exemplo, ainda voltando a este exemplo, a essas crianças que eu reconheci, saber que uma delas tinha dificuldades na natação, saber se tinha dormido bem ou se tinha dormido mal, se rejeitava um alimento ou não. Como é que é possível ver escancarado o cotidiano das crianças desde que acordam até que se deitam nas redes sociais? Acho mesmo horrível.

É uma questão de respeito. Elas não pediram.

Não pediram. E sabes que uma vez na rede, pra sempre na rede.

Pois.

Eu não quero isso pros meus filhos. Acho que tenho o dever de os proteger disso. Não quero isso pra eles e acho sinceramente que deveria haver aqui algumas normas um pouco mais rígidas em relação a isso.

E um dia eles vão tomar essa decisão, não é? De querer aparecer ou não.

Certo. Cabe a eles decidir se querem fazê-lo ou não.

Falaste em normas. Verias com bons olhos também a regulação das redes sociais, no sentido de haver um filtro mais institucional para, por exemplo, fake news, desinformação, perfis falsos, vagas de pensamento e de perceção política, Sara Pinto?

Sim. Não é muito animador aquilo que se tem lido sobre o desvirtuar da informação e as redes sociais têm contribuído para isso. Como é que isso pode ser feito? Não tenho bem a certeza. A inteligência artificial está aí, devemos usá-la bem. Não sei como é que vamos conseguir que ela só seja usada para o bem. Confesso que não sei mesmo como é que isso se pode fazer. É muito difícil.

Mas a inteligência artificial já está regulada no espaço europeu.

Certo.

Mas redes sociais não, há total liberdade.

Sim, fala-se agora, por exemplo, em proibir e arranjar forma de a inteligência artificial não conseguir despir a imagem de uma pessoa real.

Sim.

Pode ser por aí, é uma medida importante, acho que sim. Mas também acho que, se calhar, haverá sempre forma de contornar essa tentativa de domar a inteligência artificial. E voltando aqui para a questão dos menores, aquilo que foi feito na Austrália, com a proibição das redes sociais a menores de 16 anos, acho uma medida importante, mas também tenho dúvidas se ela vai ser eficaz. Estou mesmo no domínio do não sei.

E sabes se as redes sociais são, de alguma forma, uma ameaça ao jornalismo hoje em dia?

Já se colocou muitas vezes essa questão. Eu sou otimista em relação à sobrevivência do jornalismo clássico. Mas só se o jornalismo, de facto, conseguir reinventar-se. E acho que tem conseguido fazer isso. Antigamente, quando eu entrei pela primeira vez numa redação, a equipa do digital era uma pessoa que estava ali a republicar-

A Lusa, a Agência Lusa nos sites

...os takes da Agência Lusa e tirava uma ou duas reportagens do jornal e publicava. Agora, não. Eu acho que hoje em dia a equipa digital da CNN é muito maior, por exemplo, do que a equipa que está a trabalhar para o jornal da hora de almoço na TVI. E isso era completamente ao contrário.

Diz muito sobre os tempos, não é?

Sim. Por isso, eu acho que o jornalismo também está a conseguir apanhar a deixa. Do género, não, o caminho é por aqui, portanto, nós também temos que ir por aqui. Não podemos deixar este espaço livre, porque senão isso vai ser ocupado pelas redes sociais e nós também temos que ocupar este espaço. Por isso eu sou otimista, acho que vai sobreviver.

Muito bem, se és otimista, saberás . O João Reis foi teu aluno, tu também já deste aulas, já pensaste sobre isto. O que é que seria para ti um telejornal perfeito para um país como Portugal? Vamos lá. Hora de início, 8 p.m. Vamos lá, estamos no ar.

Hora de início, 8 p.m.

Teria quanto de duração?

45 minutos.

45? Com intervalo ou sem intervalo?

Sem intervalo.

Sem intervalo.

Estamos no domínio do ideal, não é?

Sim. Não tens o acionista a ligar-te e dizer: "Sara, estás a dar cabo das audiências". Não, nada disso.

"Aqueles cinco minutos que eu vendo tão bem em publicidade, o que é que lhes fizeste? Está a passar uma reportagem sobre o Marco Canaveses, o que é isto?"

Muito bem. O telejornal da Sara Pinto começa às 8 p.m. e acaba às 20h45, não tem intervalo. E abre com o quê?

Depende do dia.

Pronto, ok, mas preferencialmente.

Não, sabes, não pode ser assim.

Então.

Não pode ser assim, não é: "Ah, vamos abrir aqui".

Tantos jornais preparados que caíram ali naqueles instantes.

Sim.

Tria de desporto?

Tria de desporto.

Tria de desporto. Softball?

Agora apanhaste. Em 45 minutos, para um país como Portugal, vou partir desta premissa, a premissa foi tua.

Sim, exato.

Num país como Portugal, se calhar, nos 45 minutos só teria futebol. A não ser que tivéssemos medalhas, por exemplo, olímpicas. Aí a abertura seria com outra modalidade.

É o domínio dos "ses", não é? Sempre.

Sim. Não há ali uma régua e esquadro de: "É só isto, tal, tal, tal".

É para chegar à pergunta: o que é que achas que faz falta nos telejornais hoje em dia? Se é que faz alguma coisa falta para ti, Sara Pinto.

Faz falta.

O quê?

Faz falta mais reportagem de proximidade. Não quero com isto dizer que faltem reportagens sobre o Marco Canaveses.

Estava a pensar nisso.

Mas, se calhar, mais reportagem de proximidade, talvez seja isso que possa fazer a diferença entre a tal massificação da informação que também recebemos, por exemplo, a partir das redes sociais.

Vamos terminar isto em 40 minutos, mas antes disso quero saber por que esta é a melhor fase da tua vida que estás a viver agora. Porque nota-se perfeitamente.

Olha, porque sinto-me muito realizada nos vários aspetos da minha vida. No pessoal, sem dúvida, tenho três filhos maravilhosos, um marido que adoro, está comigo há 20 anos, portanto, gosto desta estabilidade. Há pessoas que odeiam a rotina, e eu odiava a rotina, era uma pessoa que odiava a rotina. Eu odiava quando tinha que estar a jantar às 19h30 e a ver o telejornal às 20h, em casa dos meus pais. Mas eu, com o tempo, aprendi a gostar muito de rotina. Gosto desta estabilidade, de chegar a casa e estar no meu porto seguro, e daí ser a melhor fase da minha vida pessoal, ainda que com menos três horas de sono. E a minha vida profissional, gosto muito daquilo que faço todos os dias. Se estou bem na minha vida pessoal, se estou bem na minha vida profissional, tenho os meus com saúde, é de facto a melhor fase da minha vida.

Muito bem. Fantástico. Sara Pinto, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos" e bom trabalho. Mais logo, não é? Vai ser uma noite longa e de muito trabalho.

Não sabemos quando acaba.

É verdade. Obrigado. Muito obrigado.

Obrigada.