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Já temos conosco Alberto Miranda, especialista em famílias reais. Muito obrigada por estar com a Rádio Observador nesta emissão especial.
De nada.
Tendo em conta que é especialista em famílias reais, abre-se aqui um novo capítulo na história da monarquia britânica. Vai ser a mesma monarquia até aqui ou, de facto, a morte de Isabel II acaba por trazer uma nova era?
Ainda é estranho falarmos de Isabel II no passado. Muito estranho. Mas, de facto, Isabel II, apesar de ter toda a carga simbólica que tinha, não deixava de ser um ser humano e, como tal, aos 96 anos, acabou por encontrar a morte na cama. Cumpriu o que sempre disse, porque para ela os reis morrem na cama, ou seja, no exercício das suas funções. Isabel II tinha prometido, num discurso que fez à nação, que iria dedicar toda a sua vida, fosse ela curta ou longa, ao serviço da nação, ao serviço do Estado, ao serviço da Coroa. E cumpriu. Por isso, a abdicação nunca fez sentido na vida de Isabel II, mesmo estando doente, mesmo tendo que faltar a certos eventos considerados importantes. Quando assim acontecia, ela delegava no filho. Carlos, que até há pouco tempo era Príncipe de Gales, o número um na linha de sucessão ao trono, Alteza Real, é neste momento o novo Rei do Reino Unido, da Comunidade das Nações, o chefe da Commonwealth, o chefe da Igreja Anglicana. Carlos tem 73 anos, esperou praticamente toda a sua vida para reinar, mas ele sabia que quando chegasse a rei, isso significava este momento triste, a morte da mãe. E Carlos, neste momento, é já Majestade, rei pela graça de Deus. E tudo isto muda na vida, na corte inglesa, no mundo, porque se falarmos nas mudanças imediatas, para já Carlos passa a ser majestade, passa a ser rei, passa a ser soberano, o chefe de Estado. E, portanto, o número um passa a ser o filho, o príncipe William. William passa agora a ser o número um na linha de sucessão ao trono britânico. A família Windsor, a família que o marido da rainha chamava a firma, de tantas as complexas relações e ligações que a Casa Real tinha. Não deixa de ser triste, eu ia dizer triste, mas é mesmo. Para quem acompanha como eu as famílias reais, não deixa de ser triste a morte de Isabel II, porque aconteceu de uma forma inesperada. Hoje este anúncio que aconteceu de manhã dizendo que a saúde da rainha inspirava cuidados, que estava sob vigilância médica, porém tranquila, foi de facto uma surpresa, porque a rainha é acompanhada pelos médicos diariamente. E ela esteve esta semana tomadas de posse, recebeu a primeira-ministra britânica, Liz Truss.
Já houve outros episódios em que Isabel II teve problemas de saúde, mas de facto sempre muito resiliente e daí que também tenha sido apanhado de surpresa.
Ela faltou a vários acontecimentos do seu jubileu, mas quando apareceu foram momentos de júbilo, de festa, de alegria. E ela faltou esta semana também aos jogos que acontecem na Escócia, onde ela passa férias, uns jogos tradicionais, e foi dito, mas não foi atribuído real importância à sua ausência, porque ela tinha estado a cumprir a agenda com a primeira-ministra. Mas na imagem divulgada do encontro, houve um sinal que a mim me alarmou. Se reparar bem, a mão dela está negra. Não é normal, é como se fosse sangue pisado, como quando nós tomamos uma transfusão ou soro, fica aquela marca no corpo. E ela tinha isso muito grande na mão. Eu procurei na internet, tentei questionar, saber o que se passava. Ninguém reparou bem naquela marca do corpo. Isso foi um sinal que me alarmou. E como eu estava a dizer, estar sob vigilância médica, com cuidados médicos, isso está todos os dias. O comunicado foi de facto alarmante, porque pôs a nota na perenidade, ou seja, na finitude da rainha. E daí o alarme que se gerou à toda à volta. E assim que foi tomado conhecimento da notícia, as pessoas começaram a aproximar-se, os populares, os súbditos, que nutrem por ela verdadeira adoração, verdadeira simpatia, porque rainha de Inglaterra, a rainha Isabel II, é um mito até há pouco vivo. Era um mito da sociedade, transversal, planetário, pop até. Ela foi pintada por vários pintores. O Andy Warhol, o famoso pintor das celebridades, quis retratá-la. E não só, esta cultura da celebridade e da fama quis buscá-la e trazê-la para séries de televisão, para filmes. Tentaram retratá-la na Rainha, na The Crown, no filme Spencer. A indústria cinematográfica, a indústria das celebridades, também ficou cativada pela imagem de Isabel II. Mas Isabel II não era uma celebridade
Isabel II, mas era talvez das figuras mais reconhecidas em todo o mundo. Perguntava-lhe também, aqui a propósito do novo rei, Carlos III, estará à altura do papel? A rainha Isabel II deixa, de facto, uma herança muito forte desse exemplo.
O Carlos teve uma ótima professora, acompanhou de perto. Isabel II quis sempre que o filho estivesse perto, que acompanhasse. Isso foi acontecendo ao longo destas gerações. Carlos sabia que a morte da mãe iria pô-lo no trono, ele iria ser o chefe da família, mas ele esperou toda a vida por isso. Hoje, Carlos tem a seu lado Camila, que é rainha consorte por vontade de Isabel II. Isabel II preparou a morte. Não tenhamos ilusões, ela preparou a morte, o próprio enterro, as cerimónias, como fez também o seu marido, como também fez a própria mãe da rainha-mãe. Tudo isto foi preparado, porque os royals têm consciência da finitude. Tirando a Diana, que foi um caso de morte inesperado, eles preparam o seu final, o grand final, como dizem os franceses, e o "The End", como dizem os britânicos. Isabel II preparou tudo, deixou tudo preparado. Portanto, a cerimônia do enterro vai ser uma cerimônia de Estado, com a vida, a pompa e circunstância que a personagem pede, exige até, mas deixou tudo preparado. E mesmo esta sucessão de forma tranquila, de forma pacífica, dizendo: "Quando chegar a vez de Carlos", ou seja, quando acontecer a minha morte, e ela disse isto no dia em que fez 70 anos que se tornou rainha. Ela disse isto: "No dia em que chegar a vez de Carlos, eu quero que Camila seja tratada por rainha consorte". Portanto, neste momento, Camila é Majestade também, como Carlos. E aqui muda todo o paradigma da família real. A família real que nós conhecíamos como chefe de Estado era uma mulher, agora já não é "God Save The Queen", agora é "God Save The King", e todas as vénias serão feitas para ele. Carlos, quer queiramos, quer não, é hoje o novo soberano britânico.
Olhando aqui até para fazer esta confirmação, há pouco, a primeira-ministra britânica, Liz Truss, anunciou que o novo rei é Carlos III, é este o título, a denominação. Entretanto, já há confirmação por parte do Palácio de Buckingham, portanto, é mesmo Carlos III. Por que Carlos III? Poderia ter optado por outra designação?
O pai da rainha chamava-se Alberto e foi coroado como Jorge VI. O tio Eduardo VIII, também não era o seu nome. Mas quando a rainha soube da morte do pai, no Quênia, em 1952, perguntaram: "Olhe, qual o nome que quer ser tratado?" Ela disse: "O meu. Por que eu deveria ter outro?" Portanto, ela rompe aqui a tradição do pai, e quis ser tratada como Isabel II. Carlos seguiu a tradição da mãe, quis ser tratado por Carlos