Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A minha apresentação vai se dividir em duas partes. Na primeira parte, vou olhar a evolução da situação epidemiológica, essencialmente ao longo do mês de janeiro. E numa segunda parte, proponho-vos uma reflexão sobre a estratégia que nós temos estado a usar para lidar com esta epidemia e a possibilidade de uma alternativa. Eu começo com a evolução das taxas de incidência por idade ao longo do mês de janeiro. Como podemos observar, e já agora para facilidade de interpretação, estas linhas representam o risco de contrair infecção pelas várias idades ao longo do tempo. E nós vemos como o risco aumentou ao longo de janeiro. Os grupos com maior risco são os grupos de 18 a 24 anos e os maiores de 80 anos, como se pode ver por estas linhas. Imediatamente a seguir, o grupo da população ativa, com 25 a 65 anos de idade, que também está com uma taxa de incidência aqui muito elevada, um alto risco de infecção, e depois, imediatamente a seguir, num nível intermédio, os jovens dos 13 aos 17 anos também a crescer. Este risco de infecção estabilizou nesta região, já no fim do mês de janeiro, e isto resulta de uma estabilização dos contágios, porque reparem que há um atraso entre os contágios ocorrerem e nós termos conhecimento das infecções, neste caso, à data de início dos sintomas. Portanto, os contágios estabilizaram por volta de 16, 19 de janeiro, e nós observamos esta estabilização que coincide com o pico da epidemia. Uma outra forma útil de olhar a este fenômeno, e é importante usar esta forma alternativa, porque este é um fenômeno não linear, causa-nos surpresas, é olhar à velocidade a que os casos estavam a ser adquiridos nas várias idades. É a variação diária, portanto, quanto é que os casos variam de um dia para o outro, com que velocidade é que eles estão a aumentar. Se nos centrarmos aqui no dia 15 de janeiro, no dia em que foram adotadas as primeiras medidas, as que eu chamaria um confinamento leve, nós vemos que nesta região entre 15 de janeiro e 22 de janeiro, há um estacionamento dos contágios, da velocidade a que os casos estão a ser adquiridos, está estabilizada. E reparem que esta velocidade é uma velocidade positiva, portanto, quando passamos de um dia para o outro, os casos estão a aumentar. A estagnação e até a subida da velocidade de aquisição de casos nesta zona deve-se a uma estagnação dos contágios entre o dia 7 e o dia 15 de janeiro, mais uma vez tendo em atenção o atraso com que estas coisas ocorrem. A partir do dia 22 de janeiro, nós observamos pela primeira vez uma descida suave das taxas de incidência das várias idades. Isto é, a velocidade a que os casos estavam a ser adquiridos começa a descer. Reparem que isto é uma velocidade positiva, portanto, continuamos a ter mais casos. Simplesmente a velocidade a que eles chegam está a descer. Esta descida deve-se ao confinamento leve que foi adotado a partir de 22 de janeiro. Agora, eu chamo a atenção para uma coisa. Se nós nos mantivéssemos com este tipo de confinamento nesta região, nós íamos ter um pico mais longe, mais alto e mais prolongado. Foi decisiva a ação que foi adotada pelo Conselho de Ministros no dia 21, quando decidiu ter medidas mais restritivas que causaram, finalmente, uma descida da velocidade de aquisição de novos casos em direção a zero. E portanto, vemos que só a partir de 31 de janeiro, mas a começar logo a 28 de janeiro, a velocidade de aquisição de novos casos começa finalmente a chegar a zero e a descer. Uma forma de olhar para isto, agora numa observação um pouquinho mais técnica, é olhar àquilo a que se chama a variação da velocidade, se quiserem, a aceleração ou desaceleração. Na zona da parte de baixo deste gráfico, temos aceleração negativa. Isto equivale a estarmos a guiar um carro e levantar o pé do acelerador e o carro desacelera. Nós podemos observar que verdadeiramente a grande desaceleração ocorre entre 28 e 29 de janeiro, que corresponde, contando com sete dias de atraso, às medidas que foram adotadas a partir do dia 21. Portanto, é a redução drástica de contágios a partir do dia 21, e não antes, que causa esta descida abrupta em todas as idades. Olhando agora pontualmente, e num gráfico muito rápido, à variação diária da incidência em duas datas pontuais, 22 de janeiro e 3 de fevereiro, reparem a azul as variações positivas que havia ainda em todos os grupos etários no dia 22 de janeiro e depois, como estas variações passam para negativas drasticamente a 3 de fevereiro, eu repito, por vir a ação das medidas tomadas a seguir a dia 21 e à enorme restrição e desaceleração que elas causaram nos contágios. A situação epidemiológica presente, já foi aqui referida por alguns colegas. Do lado esquerdo, podem ver a evolução da curva epidêmica, já em descida. Do lado direito, dois indicadores habituais, em cima a taxa média de novos contágios, variação diária, e embaixo o R. O R tem apresentado uma tendência descendente. Neste momento, nós estimamo-lo em aproximadamente 0,82. Mas atenção, há que ter aqui um certo cuidado que se deriva de experiência anterior que nós temos em relação ao R. Para um determinado nível de confinamento, o R desce, começa por descer e depois tem tendência a estabilizar. Neste momento, ele está negativo, há sinais muito leves de estabilização, temos que esperar os próximos dias para ver, mas o fato do R estar com o nível baixo, 0,82, significa que o número de casos vai definitivamente continuar a descer, mas a velocidade a que desce pode parar de aumentar. Tem vindo a aumentar, mas pode parar de aumentar, mas vamos continuar a descer. Nós neste momento estamos a estimar que teremos uma redução a metade do número de casos em aproximadamente 14 dias, o que significa que dentro de aproximadamente duas semanas poderemos chegar à zona dos 3 mil casos. Um outro indicador da situação atual é a curva em cima, a curva laranja, do número de testes, amostras que são processadas, e embaixo, a azul, a incidência, o número de novos casos. Nós temos que ver que há uma correlação muito próxima entre as duas curvas. Aqui, em vermelho, está assinalada a anomalia que nós identificamos no Natal, em que, como podem ver, a curva laranja desce, é o número de testes que estão a descer, quando simultaneamente há um aumento da incidência. E no último Infarmed, nós estimamos que neste período, em aproximadamente cinco dias, houve aproximadamente 5 mil casos que não foram diagnosticados ou foram diagnosticados mais tarde. E como nós sabemos, com um R aproximadamente igual a um, que era mais alto do que um, mas aproximadamente a um, 5 mil casos dão origem a outros 5 mil casos, em aproximadamente dois, três dias. Depois, houve uma recuperação notável da curva de testagem e aqui na parte final já temos uma anomalia, mas de sentido oposto e boa. Isto é, o número de testes continuou a subir quando a incidência já estava a descer. Agora, o que é preocupante é que a incidência está a descer e nós temos esta relação que eu, passe a palavra, permita-me classificar de quase patológica, entre a forma como a testagem acompanha o número de casos quando eles estão a descer. Isto, na minha opinião, não é desejável. E mais adiante explicarei por quê. Como veem, a positividade, ou seja, a porcentagem de casos positivos entre os testes, foi muito alta. Eu recordo que as organizações internacionais recomendam 5% e nós chegamos a atingir 20%. Estamos agora a descer. No entanto, se a incidência, ao baixar, trouxer para baixo também o número de testes, a positividade pode não descer tanto como nós gostaríamos. Passando agora à segunda parte da minha apresentação, como eu disse, tinha a ver com uma reflexão sobre a estratégia para lidar com esta pandemia. Eu não posso deixar de dizer que nós tivemos um janeiro muito mau. E as palavras não são minhas, são do Sr. Primeiro-Ministro. O mês de janeiro foi um mês muito mau em termos de saúde pública em Portugal. Eu acho que é obrigação de um epidemiologista fazer uma reflexão sobre a estratégia que nós temos adotado, como é que chegamos a este ponto e o que nós poderíamos fazer melhor. Eu penso que nós temos, todos portugueses, a obrigação de refletir sobre o que podemos fazer melhor para evitar chegarmos à situação em que estivemos em janeiro. E é isso que eu vos proponho com poucos slides na segunda parte da minha apresentação. A forma como nós, desde maio, temos vindo a lidar com esta epidemia consiste em ler os indicadores epidemiológicos, que normalmente chegam com atraso, pelo menos sete dias de atraso, é o caso do R, por exemplo, adotar medidas em resposta que parecem ser as adequadas à situação que os indicadores nos indicam. Depois levamos uma semana ou 15 dias para ver o resultado das medidas. Normalmente as medidas não são suficientes. Voltamos a tomar mais medidas e continuamos nisto. Quer dizer, esta é a chamada resposta gradual ou gradualista à medida que os indicadores, que chegam com atraso, nos vão dizendo como é que está a epidemia. O que acontece é que a partir de determinada altura, por um lado, como já vimos, a experiência mostra-nos isso, nós não conseguimos controlar um vírus que cresce exponencialmente desta maneira. E em segundo lugar, a partir de certa altura, a sociedade começa a se dividir entre aqueles que acham que o governo tomou medidas que realmente eram demasiado fortes e outros que acham que o governo não tomou medidas suficientemente fortes. É o resultado de andarmos constantemente atrás da epidemia. Ora, o que eu proponho é que nós adotemos uma postura completamente diferente em termos estratégicos. Mas antes disso, deixem-me vos mostrar por que aconteceu e por que acontece aquilo a que nós assistimos quando lidamos de forma gradualista com a epidemia. Este gráfico que aqui está é um gráfico que não tem nada de novo. Este gráfico foi apresentado no fim de março, na segunda reunião do Infarmed, e chamava a atenção para os perigos do crescimento exponencial. Este vírus tem um tipo de propagação que o leva a crescer, a ter uma propagação do tipo exponencial. E o crescimento exponencial é perigoso porque é contraintuitivo. E eu vou vos mostrar por quê. Se olharem ao lado esquerdo destas curvas, veem que durante aproximadamente um mês, nós temos a sensação que está a haver uma variação linear da epidemia. Temos a sensação de que conseguimos controlar a epidemia, conseguimos com medidas gradualistas ter a epidemia sob controle. Reparem que os valores que aqui estão destas curvas são valores familiares para o R. Temos um R de 1,05, ligeiramente acima de 1, 1,1, um valor muito familiar para nós, com uma duplicação ao fim de cada 22 dias e uma duplicação ao fim de 15 dias com 1,15. Reparem como é que a partir de determinada altura, o número de casos explode exponencialmente. Nós podemos andar um mês com a sensação de que está tudo sob controle. Situação concreta do Natal. Nós fomos para o Natal com aproximadamente 3500 casos por dia. Tivemos um descuido que durou apenas cinco dias e reparem como com um R igual a 1,1, e o R nessa altura chegou a estar mais alto, teve momentos em que esteve mais alto, nós chegamos de 3500 casos a 12 mil casos em seis semanas apenas. Agora, tenham em atenção que nós temos variantes cá em Portugal, que como já aqui foi apresentado Dão todos os indícios ter maior transmissibilidade. Os ingleses estimaram para a variante deles um R que se estiver em um, passa para 1,4. Reparem que estas curvas que aqui estão são no máximo 1,15, mas reparem os estragos que é capaz de fazer um vírus que tem uma transmissibilidade com R igual a 1,4. Para vos dar uma ideia e consolidar aquilo que eu acabei de dizer, vejam a nossa curva epidémica, aqui a laranja, isso são médias móveis, evidentemente, e vejam os valores do R, que o R foi tomando ao longo do tempo. Em setembro, nós estávamos com o R já acima de um, algumas oscilações, evidentemente, mas ele permaneceu aqui durante bastante tempo. Depois tivemos uma subida, como se recordam, em outubro, novembro, e atingimos um pico em novembro e ao longo de todo este período, nós tivemos uma estratégia que foi muito aquilo que eu há pouco descrevi. Nós fomos sucessivamente adotando medidas, estado de contingência, estado de emergência, medidas de confinamento, fins de semana, etc. E andamos permanentemente sem conseguir travar de forma definitiva o crescendo da epidemia. Do lado direito, podem ver o que aconteceu no Natal, com o R sempre acima de um aqui nesta região, a partir do Natal, e no Infarmed de 12 de janeiro, nós posicionávamos nesta situação que aqui está, com um R já acima de 1,1, com uma ascendência exponencial do número de casos e a apontar para cima. Nós, a 12 de janeiro, decidimos tomar medidas de confinamento. No meu entender, e na altura disse-o, não foram suficientemente fortes. Depois, no dia 21, tomamos medidas adequadas e, como mostrei nos slides anteriores, foram decisivas para desacelerar fortemente o R. Aquilo que eu proponho é que nós façamos todos uma reflexão sobre o tipo de estratégia que temos estado a adotar. Na minha opinião, a resposta gradual aos indicadores epidêmicos, pelas razões que eu já aqui expliquei, e pela nossa experiência, nós agora temos uma experiência que não podemos ignorar. Pela nossa experiência, principalmente, a resposta gradual, no meu entender, é insuficiente. Nós necessitamos ter uma resposta agressiva que seja guiada por critérios objetivos. Nós temos que estabelecer critérios, linhas vermelhas, se quiserem, no meu entender, e se forem ultrapassadas essas linhas vermelhas, nós temos que agir de forma muito agressiva relativamente à epidemia. Esta é a posição que, neste momento, um grupo de 871 cientistas, neste momento já é maior, de toda a Europa, tem estado a defender num site que eu convido a visitar e onde são indicadas medidas que estão muito alinhadas com aquilo que eu aqui proponho. Há também preocupações, também de grandes grupos de cientistas europeus, relativamente à presença das variantes, porque elas só vão agravar a situação e trazer ainda mais premente uma mudança de estratégia. Deixem-me exemplificar o que é uma resposta forte, agressiva, à subida do número de casos. Os dois gráficos que aqui veem são a incidência da doença em Portugal, aqui a azul escuro, e a incidência na Dinamarca. No gráfico de baixo, podem ver o número de testes que foram realizados, isto está normalizado, neste caso, a mil habitantes, e no caso de cima, o número de novos casos está normalizado à população. E reparem que quando o número de casos começou a subir na Dinamarca, estas linhas a vermelho, a Dinamarca respondeu com o aumento brutal da testagem. É esta linha vermelha que aqui está a subir. Portugal teve também o seu aumento, como já vimos, imediatamente a seguir ao Natal, e reparem que a nossa resposta não teve suficiente agressividade. O resultado, podemos ver na percentagem de testes positivos, é que enquanto em Portugal nós andamos sistematicamente atrás da incidência e depois tivemos esta subida acompanhando após o Natal, a Dinamarca conseguiu manter a percentagem de testes positivos relativamente baixa, devido a esta resposta. Talvez valha a pena dar uma imagem de por que a testagem é importante. Se se recordam, logo numa das primeiras reuniões do Infarmed, foi dada a imagem de que este vírus comporta-se como uma mola e nós temos que usar uma mão ou pé para manter a mola pressionada para baixo. Caso contrário, ele dispara o número de casos exponencialmente, como nós temos visto. Agora, o problema é: como é que nós retiramos a mão da mola sem deixar que a mola venha por aí acima? E a resposta é a testagem. A imagem que se pode dar é a seguinte: se nós estivermos a pressionar uma mola com o pé e quisermos tirar o pé sem que a mola venha para cima, nós fazemos uma coisa relativamente simples. Pomos em cima da mola um peso que exerça uma força idêntica à do pé, retiramos o pé e fica lá o peso a segurar a mola. É este o papel que a testagem tem. E por isso, eu penso que a testagem é a arma principal que nós devemos usar, e não o confinamento. Nós, neste momento, estamos a pôr o pé na mola porque estamos todos em casa, estamos confinados, com um grau elevadíssimo, como já vimos na apresentação anterior, mas como é que nós vamos sair deste confinamento sem deixar que a mola venha por aí acima outra vez e, eventualmente, agravada pela presença das variantes? No meu entender, é com uma estratégia de testagem, com um upscaling, um aumento muito grande. E há várias propostas de pessoas que têm pensado sobre isso no nosso país, que nós podemos utilizar para fazer isso. Dentro deste tipo de estratégia, nós sugerimos três linhas vermelhas que são discutíveis, podemos mudá-las, ajustá-las, mas que são três linhas vermelhas, tais que, se forem ultrapassadas, qualquer uma delas, nós temos que responder em força, preferencialmente, com grande aumento da testagem para evitar o confinamento. E essas linhas vermelhas, de acordo com a nossa experiência, são termos um R que não ultrapassa 1,1, ou pelo menos não ultrapassa 1,1 durante demasiados dias. Reparem que isto conduz a uma duplicação de 22 dias e, já agora, com um R igual a 1,4, que seria aquele que os ingleses estimaram para a variante, a duplicação de caso é em sete dias. Portanto, não podemos ter um R a chegar a 1,1 durante muitos dias. Temos que ter uma porcentagem de testes positivos, de acordo com o nosso esforço de testagem, que não permita a positividade chegar aos 10%. Idealmente, deve andar na zona dos 5%, é aquilo que as organizações internacionais recomendam. E devemos ter uma incidência que não ultrapasse um nível, que seja aquele que é adequado àquilo que o Ministério da Saúde considera que é a nossa capacidade de gerir doentes Covid e doentes não Covid. Neste caso, eu estou a sugerir os 2 mil novos casos por dia, não ultrapassar. De acordo com a nossa experiência e as relações que estudamos entre a incidência da doença e a capacidade hospitalar, isto corresponderia aproximadamente a 1500 pessoas hospitalizadas, com cerca de 200 pessoas em UCI. Um critério melhor do que a incidência, no meu entender, é de facto quantas pessoas estão no hospital, quantas pessoas estão na UCI, mas é evidente que isso é uma reflexão que nós devemos fazer. E nós devemos olhar estes critérios, que são muito objetivos, devemos publicitá-los, na minha opinião, e agir decididamente quando uma destas linhas é ultrapassada. Paralelamente, e isto é já recomendação internacional dos grupos de cientistas que eu há pouco referi, temos que fazer um grande esforço para travar a importação das variantes, através de ações decisivas nos pontos de entrada e saída do país, evitar, evidentemente, a propagação das variantes e aumentar a vigilância molecular que o Ricardo Jorge tem vindo a conduzir. Só para vos dar uma ideia de como é que os indicadores que eu acabei de propor se comportam ao longo da nossa epidemia, reparem que em fins de setembro, início de outubro, nós já estávamos com R igual a 1,1, que é uma linha vermelha. Eu compreendo, e disse aqui no último Infarmed, que não é fácil tomar medidas muito fortes, exceto a testagem, mas medidas de confinamento fortes, quando nós temos um indicador como o R de 1,1, que está há muitos dias já acima de um, mas a incidência não é muito alta. Por exemplo, aqui em setembro, outubro, a incidência era relativamente baixa. Nós estávamos com 1175 casos por dia, em média. Portanto, eu compreendo que não é fácil tomar decisões muito fortes, nomeadamente confinamento, com incidências a este nível. Mas, por exemplo, se nós respondermos com uma testagem muito forte, que permite controlar as cadeias de transmissão, reduzir o tempo que as pessoas que foram infectadas estão com capacidade de transmitir, idealmente apanhando as pessoas infectadas ainda antes mesmo de terem sintomas, nós poderemos, eventualmente, ter essa resposta forte à epidemia sem ter que submeter o país a uma situação como aquela em que nós estamos agora. E se bem que nós não tenhamos estudos de custo-benefício do ponto de vista socioeconômico, eu estou convencido que é preferível ter duas semanas, se necessário, com uma resposta muito forte em que nós confinamos, do que estar duas, três, quatro, cinco, seis, sete semanas, aquilo que for necessário, para trazer a incidência para baixo. Em termos de benefício social, econômico, etc, eu não tenho dúvidas que o balanço custo-benefício é muito melhor. A curva de testes positivos, da positividade em Portugal, de há pouco já falei. E só para chamar a atenção que no dia 12 de janeiro, aqui no Infarmed, nós estávamos com RT igual a 1,12, 9900 casos em média por dia e 17% de positividade. Portanto, claramente acima de todas as linhas vermelhas que eu há bocado sugeri. Há colegas da saúde pública que têm estado no terreno, que têm muito boas ideias, pelo que eu me tenho apercebido de conversas com eles, acerca de como é que nós podemos fazer um "upgrading" da nossa testagem, como é que nós, nomeadamente, podemos começar a usar os testes rápidos de antígeno para fazer uma detecção muito mais rápida das pessoas que estão infectadas há pouco tempo e evitar que se propaguem as cadeias de transmissão. Aqui, neste caso, ideias do colega Bernardo Gomes, do Norte, como sabem. Mas enfim, eu não sou sequer a pessoa ideal para discutir qual é a melhor estratégia para alargar a testagem. Em resumo, nós precisamos de regras objetivas, conhecidas por todos com antecedência, acerca de quando é que devemos confinar e quando é que podemos desconfinar, porque as duas coisas estão ligadas. Se nós adotarmos regras destas, nós simultaneamente saberemos, por exemplo, aquilo que hoje em dia todas as pessoas perguntam, que é quando é que nós podemos começar a aliviar as medidas que neste momento estão implementadas. No meu entender, estamos longe disso, porque estamos ainda longe de atingir todos aqueles objetivos que eu há bocado sugeri. Mas o que os objetivos preestabelecidos têm de vantagem é que são objetivos, são claros e se forem comunicados com muita antecedência, as pessoas percebem quando é que nós temos que tomar medidas muito fortes e quando é que podemos finalmente aliviar. O objetivo é muito simples, é reduzir o número de casos muito depressa e não permitir muito que a curva epidêmica suba. E isto conjugado, evidentemente, com ganhar tempo para conseguirmos vacinar o maior número possível de pessoas o mais depressa possível. Na primeira fase do plano de vacinação, estão aproximadamente 1,4 milhões de pessoas, que são as pessoas de alto risco para hospitalização e para morte, e nós precisamos de tempo, desesperadamente, para vacinar estas pessoas depressa e necessitamos que a incidência da doença esteja relativamente baixa e se mantenha baixa para conseguirmos deste tempo precioso para vacinar estas pessoas.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.