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Vamos já para o contato e porque também já ouvimos autarcas a norte, vamos ouvir agora outra das regiões mais afetadas. Temos já em linha o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras. Obrigado pela disponibilidade a esta hora. E perguntava-lhe muito rapidamente como é que olha para estas medidas aplicadas município a município e para os critérios que o governo utilizou para aplicar mais restrições.

Muito boa noite. Eu já tenho dito isso. Nós estamos num momento em que é exigido uma coligação nacional. E uma coligação nacional, não nos termos em que normalmente estamos habituados, que é uma coligação de partidos, mas sim uma coligação a nível de vontades, de atitudes, de responsabilidades, de comportamento cívico, em que todos somos muito importantes para que tenhamos uma vitória. E estamos numa fase em que ou ganhamos todos, ou se funcionarmos de forma separada, vamos de facto perder. E por isso nós não queremos perder, e por isso mesmo este apelo a esta grande coligação nacional. Para isso, considero que hoje, o que o senhor primeiro-ministro referiu não tenho nada a opor, apenas que é tardio. Ou seja, eu já tive a oportunidade, ainda antes do verão, de alertar que íamos ter um tempo em que não se podia perder tempo, e muito menos perder oportunidades, que sendo o tempo um recurso escasso, se nós as perdêssemos naquele momento, depois iríamos ter as consequências mais à frente. Por outro lado, também tem havido uma comunicação nem sempre coerente, nem sempre no mesmo sentido, e ainda mesmo hoje, dar dois exemplos que ficam incompreensíveis. Para as pessoas poderem ter esse comportamento cívico, tem que haver essa comunicação eficaz. Eu não sei qual é a diferença de os restaurantes fecharem às 22h30 e o comércio fechar às 22h. Não sei o que é que esta meia hora faz de diferença. E portanto, era mais fácil ser tudo às 22h30. Como também não sei qual é a diferença de que se for a um restaurante, podemos ir seis pessoas jantar ou almoçar, mas depois para andarmos na rua só podem andar cinco. Ora, não faz muito sentido. Era mais fácil ter uma comunicação clara a dizer: são seis pessoas e fecha às 22h30. E por isso também uma outra necessidade, que hoje não ouvi da parte do senhor primeiro-ministro, e algo que nós sentimos no terreno de uma forma muito evidente, que não basta estarmos a olhar apenas para o Serviço Nacional de Saúde Covid-19, porque o outro Serviço Nacional de Saúde, aquele em que Portugal tem apresentado excelentes resultados, está completamente a ficar para trás. E nós não podemos só nos preocuparmos com os doentes do Serviço Nacional de Saúde Covid-19, temos que nos preocupar com os doentes que não têm, felizmente, Covid-19. Ou seja, são consultas que estão a ser adiadas, são exames que estão a ser adiados, são intervenções cirúrgicas que estão a ser adiadas e isso não pode continuar a ser. E isso passa por uma outra proposta que já eu fiz e que me parece ser absolutamente entendível, pelo menos para quem está no terreno, que há uma descoordenação muito grande entre a saúde e a Segurança Social. E isso cada vez tem que ser mais próximo. E por isso mesmo eu proponho que se forme, como reforço do Serviço Nacional de Saúde, quer para matérias de saúde, quer para matérias de solidariedade social, o SL3S, ao fim e ao cabo, um serviço local de saúde e solidariedade social. Porque de outro modo, nós estamos numa situação em que não dá para podermos acorrer a tudo aquilo que já se está a passar e, muito especialmente, a tudo aquilo que se perspetiva e que os cientistas, que são profundos conhecedores desta matéria, dizem que poderá vir a passar-se muito em breve. E por isso, enfim, estou em crer que ainda há que corrigir e como tudo na vida, corrigir é quanto mais cedo melhor. E, portanto, alterar aqui um conjunto de medidas. Por outro lado, também percebemos que se fica um bocadinho em cima do muro, porque nós não temos legislação que estava preparada para momentos como este que nós estamos a viver, a começar logo pela lei maior, pela lei máxima, que é a própria Constituição. E por isso estar a tomar medidas como aquelas que foram tomadas este fim de semana. Eu até acredito que sejam medidas positivas, mas depois são inconstitucionais, são medidas que vão contra a própria lei. Ora, isso também não é nada que abone a favor da própria credibilidade do Estado. E isso também não é admissível que possa vir a acontecer e, portanto, o senhor primeiro-ministro hoje reservou-se em dar uma posição, e isso sim é compreensível, de não adiantar aquilo que irá falar com o senhor Presidente da República, mas penso que não restará outra solução que não seja declarar o próprio estado de emergência. Mesmo que o senhor primeiro-ministro tenha dito lá atrás que não o iria fazer.

Era o que eu ia perguntar, Carlos Carreiras. Isto são medidas intermédias, ou seja, vai ser preciso ir mais longe?

Eu não tenho dúvidas nenhumas que vai ser preciso ir mais longe e, portanto, repare, quando hoje estamos todos a abordar de que estas medidas têm a ver com o Natal, não têm a ver com o Natal. Isso tem a ver, por exemplo, com dois fins de semana que vamos ter já no princípio de dezembro, nomeadamente com o feriado dia 1 e com o feriado dia 8, que são terças-feiras, ou seja, proporcionam uma ponte com um conjunto de dias, neste caso quatro dias de ponte, e em que não se pode, nessa altura, dizer: "Olhe, o senhor não pode sair do seu concelho para passar para o concelho vizinho." E muito menos andar a fazer aquelas coisas que eu não podia ir este fim de semana a Oeiras, mesmo sendo que é um concelho vizinho de Cascais, ou a Sintra, que são concelhos vizinhos de Cascais, mas se fosse para Madrid, já podia ir de carro. Quer dizer, não Tudo isso não faz sentido. Para que isso seja coerente, tem que ser feita a declaração de estado de emergência. Não vejo outra alternativa que não seja essa.

Carlos Carreiras, perguntava-lhe se tem havido algum tipo de coordenação estreita entre os municípios da área da Grande Lisboa, com vista à normalização, por assim dizer, das medidas contra a Covid-19 e se tem havido por parte do governo alguma preocupação em consultar os municípios e perceber como é que está a ser feita ou não esta coordenação.

No que me diz respeito, a resposta é muito rápida e muito simples: não. Eu apenas ontem recebi um telefonema do senhor presidente da Área Metropolitana de Lisboa, que é o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, por pedido do senhor primeiro-ministro, para de alguma forma me antecipar o que eventualmente poderiam ser hoje as medidas. Mas levei aquilo mais como uma lógica de estar a tomar um comprimido para me acalmar. Ou seja, para perceber se, sendo eu de um partido diferente do partido do governo e também do partido do senhor presidente da Câmara Municipal de Lisboa, se aquilo de alguma forma não era um sonífero. Mas, de facto, não tem havido essa coordenação.

Carlos Carreiras, e perguntava-lhe também enquanto autarca, porque o primeiro-ministro falou disso agora nesta apresentação, que é a necessidade de voltar a apostar nos hospitais de campanha, nessas unidades de apoio. Da primeira vaga dá a ideia de que houve muito hospital de campanha montado e que felizmente depois não foi preciso utilizar. Agora essa coordenação está mais afinada e as autarquias, responder-me-á enquanto presidente da Câmara de Cascais, mas no geral também, continuam a estar disponíveis para dar esse apoio para criar esses hospitais de campanha?

Eu penso que lhe posso dar o meu exemplo, porque mais do que palavras, são os atos que cada um vai cometendo. Eu não tive nenhum contacto nesse sentido, não tive nenhuma aproximação de coordenação, tal como há pouco já referi, e tomei a iniciativa de alugar duas unidades hoteleiras, uma de alojamento local e outra um hotel. Uma que tem a capacidade para acolher 14 residentes, a de alojamento local, e a outra 150 pessoas, e perto do Hospital de Cascais, exatamente para estar precavido para certo tipo de incidências e de patologias que se possam verificar, eu ter uma estrutura de retaguarda para uma eventualidade de uma necessidade que, infelizmente, não tenho um grande otimismo e portanto acho que vai ser mesmo necessário. Porque me custa muito também ver que há essa montagem de hospitais, que são tendas que podem ter um bocadinho mais de conforto do que uma tenda normal, mas que dão um grande desconforto até ao próprio doente no momento em que o doente está com uma grande fragilidade exatamente por estar doente. Portanto, há muita necessidade, nomeadamente desta natureza. Vai haver muita necessidade desta natureza e isso já era tempo de o próprio governo poder fazê-lo junto de unidades hoteleiras, junto de equipamentos sociais que possam estar disponíveis. As unidades hoteleiras nós já sabemos que estão disponíveis, os equipamentos sociais porventura não estão. Eu aproveitei dois equipamentos sociais que estavam prontos aquando do início da pandemia e adiou-se a utilização desses equipamentos sociais exatamente para acolher doentes infectados e portanto estiveram a funcionar como retaguarda, mas com todas as condições, com toda a dignidade, com todo o conforto, que são situações que são sempre importantes, mas nessas alturas então, que estamos mais fragilizados por estarmos doentes, ainda mais importantes se tornam.

Carlos Carreiras, para terminar, deixe-me só perguntar-lhe, porque Cascais está aqui também muito próximo de Lisboa estes dias com estas restrições à circulação. Tem tido muitas queixas, tem ouvido muitas queixas de pessoas que têm tido dificuldade para vir trabalhar para Lisboa e vice-versa, ou as coisas até têm estado a fluir com alguma naturalidade?

Não tenho recebido queixas, até porque penso que aí as forças de segurança, quer a PSP, quer a GNR, tiveram a prudência e o bom senso de não estarem a pressionar as próprias pessoas, ainda para mais com uma determinação que não era legal, não respeitava a própria Constituição. E hoje as pessoas também não podem estar... Todos estamos fartos do vírus, todos estamos cada vez mais cansados, todos estamos com níveis de paciência cada vez mais baixos. Eu até tenho dito que às vezes sinto-me assintomático, mas é na paciência. Portanto, não tenho esses sintomas de paciência. E por isso as forças de segurança tiveram essa prudência de obviamente cumprir aquilo que lhes estava a ser exigido pelo governo, mas com muita serenidade, pelo menos aqui no que diz respeito à transferência de concelhos a partir de Cascais e para entrar em Cascais, não tive reclamações.

No malo menos. Carlos Carreiras, muito obrigado pela disponibilidade, presidente da Câmara Municipal de Cascais, a dar-nos aqui também conta destas novas medidas de restrição e da forma como os municípios estão a ser afetados.

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