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Nesta emissão especial podemos contar também com a especialista em Relações Internacionais e investigadora Diana Soller. Muito obrigada por estar connosco, Diana. Temos aqui uma perda irreparável para a monarquia britânica e uma transição que é aquilo que também temos percebido por todas as reacções que temos ouvido, uma transição que vai ser bastante difícil nos dois planos, no plano monárquico e também no plano político.

Olá, boa noite, muito obrigada pelo convite. Sim, também me parece que é uma transição que vai ser difícil. Do ponto de vista político, a Grã-Bretanha está numa fase muito complicada da sua história, depois do Brexit. Está a enfrentar as questões energéticas e económicas sozinha, que são mais difíceis de colmatar. Do ponto de vista da transição da figura histórica em si, é quase impossível haver uma transição fácil. Isabel II reinou durante 70 anos. Foram 70 anos com altos e baixos, mas os últimos cerca de 20 anos foram muito positivos para a monarca. Deixa um legado muito forte, quer no momento da Segunda Guerra Mundial e da descolonização britânica, quer nos últimos anos. E, portanto, quem quer que viesse a seguir, fosse Carlos III, fosse quem fosse, teria sempre muita dificuldade em preencher o lugar de uma monarca tão querida dos britânicos, mas ao mesmo tempo uma chefe de Estado que se manteve 70 anos no poder com imenso sentido de serviço, com honra, com dignidade, que se soube adaptar aos tempos sem, por isso, mudar a sua postura pessoal e portanto será sempre muito difícil preencher este lugar que ficou hoje vazio.

Um lugar que fica vazio e, Diana Soller, como é que será a relação entre o novo rei, Carlos III, e também a nova primeira-ministra, Liz Truss, com a União Europeia e com os Estados Unidos, com todas estas mudanças em curso, neste contexto que estávamos aqui a falar, poderá haver aqui alguma mudança de estilo, eventualmente, ou à partida, não?

Mudança de estilo, com certeza. Carlos é a sua própria pessoa e não me parece que seja boa ideia ele imitar a mãe. Não é isso que se pretende de um chefe de Estado. Do ponto de vista político, não me parece que haja grandes mudanças, porque a verdade é que a Grã-Bretanha é uma monarquia constitucional e enquanto monarquia constitucional, o poder do chefe de Estado, do rei, neste caso, é um poder essencialmente representativo. O poder executivo e legislativo está nas mãos do Parlamento e do Governo. E, portanto, não me parece que do ponto de vista das políticas, vá haver uma grande alteração. Agora, não há dúvida nenhuma que para os britânicos isto vai ser um grande abalo. É uma monarca muito querida. Muito dificilmente Carlos atingirá a popularidade da mãe. Este tipo de transições, do ponto de vista institucional, a menos que aconteça qualquer coisa muito extraordinária, provavelmente as coisas manter-se-ão muito semelhantes àquilo que acontecia durante o reinado de Isabel II. A questão fundamental é que o monarca é uma pessoa com as suas próprias características, com uma forma de governar e de se dirigir às pessoas que governa, à população, que varia de monarca para monarca e portanto não podemos esperar de forma nenhuma, até porque o príncipe Carlos já chega ao trono numa idade avançada, sem grande carinho dos britânicos, e não devemos esperar que do ponto de vista da consensualidade da figura, consensualidade que a rainha Isabel II tinha neste momento. Mas é preciso dizer, não teve sempre no seu mandato. Foram 70 anos, não há popularidade intocada durante 70 anos, mas nesse aspeto penso que o que Carlos terá que fazer vai ser muito dificultado. E também me parece que é importante referir um ponto, que é provavelmente porque a durabilidade do mandato nunca será nem próximo, nem nada parecido com o da sua mãe. Carlos acabará, penso eu, por representar um papel quase de monarca tampão, ou seja, nos próximos anos, Carlos III vai ser comparado à sua mãe em praticamente tudo aquilo que fizer e vai evitar que o seu filho, que no fundo é a figura em que os britânicos têm os olhos neste momento, seja comparado com Isabel II. E portanto, vai abrir caminho para que o seu filho possa ter um reinado mais pacífico, mais descansado.

E teremos provavelmente William também a preparar-se mais cedo do que aconteceu com o pai para essa sucessão.

Eu penso que sim, até porque durante muitos anos houve uma grande interrogação acerca de se Carlos abdicaria ou não do trono. E eu penso que a opção de não abdicar do trono a favor do seu filho estaria relacionada, certamente, com esta questão que referi, quer dizer, com a dificuldade que William teria de substituir a sua avó. E portanto, eu acho que Carlos não abdicou precisamente para ser um monarca de transição. Penso que não haverá mudanças significativas na política, haverá mudanças de estilo e, a menos que Carlos III tenha algum problema absolutamente marcante, não me parece também que vá haver mudanças significativas do ponto de vista institucional.