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Conosco em linha está Celso Cunha, virologista. Muito boa noite, obrigado também pela disponibilidade. Eu fazia-lhe esta pergunta geral se as medidas lhe parecem as adequadas, e também pela sua área de especialidade. Esta questão dos testes rápidos já devia ter surgido ou é a altura ideal para começar a implementar a utilização destes testes?
Boa noite. De um modo geral, parece-me que o discurso do seu primeiro-ministro, há muito tempo a esta parte não ouvia um discurso tão coerente e com um elencar de medidas tão vasto e tão abrangente. Medidas tão diversificadas, desde o reforço do Serviço Nacional de Saúde, até às medidas que foram implementadas em vários conselhos do país. Portanto, nesse aspecto, parece-me que a reunião do Conselho de Ministros de hoje acabou por definir um conjunto muito abrangente de medidas que poderão ter um efeito de diminuir a taxa de evolução da pandemia, ou seja, diminuir o ritmo de evolução. Nós não vamos parar, isso não é realista pensar nisso, mas podemos ser um pouquinho otimistas e pensar que podemos, apesar de tudo, tentar controlá-la até janeiro, fevereiro, eventualmente até o Natal, vá lá, nos próximos um, dois meses. Porque penso que a ideia do governo é tentar aguentar o Serviço Nacional de Saúde até o Natal, porque do ponto de vista económico é muito importante, do ponto de vista das famílias e da moral da população também é muito importante. E depois, a partir daí, ver o que é que vai dar. Em relação aos testes rápidos, eu penso que eles são muito importantes. Já há testes rápidos com uma sensibilidade muito interessante e que poderão ser aplicados. Não são tão específicos e tão sensíveis como alguns testes que estão no mercado tradicionais, mas de qualquer modo, são testes que eu penso que merecem ser implementados em larga escala, sobretudo, por exemplo, nos lares, nos trabalhadores que vão para os lares e que estão a contactar com pessoas mais vulneráveis ou com pessoas com patologias de risco. Por isso, eu penso que este tipo de testes é muito bem-vindo. Eles já estão disponíveis há algum tempo e seria de os implementar, sobretudo naquelas pessoas que estão em contato com grupos de risco, independente nos hospitais, em triagem nos hospitais, nos lares como já é óbvio que deverão ser implementados. E, portanto, eu penso que hoje em dia aquilo que nós temos disponível em termos de meios de diagnóstico é muito diferente do que estava no início da pandemia, em fevereiro, março.
Celso Cunha, estes testes rápidos não necessitam de uma análise laboratorial, certo?
Os testes rápidos são testes sempre laboratoriais, mas podem ser analisados rapidamente por qualquer profissional que lá esteja na altura, ou seja, qualquer pessoa habilitada. Eles baseiam-se fundamentalmente no seguinte: coloca-se uma gota de sangue da amostra biológica e verifica-se se ela reage com uma determinada molécula que a reconhece. E se der um resultado positivo, significa que essa pessoa está infectada. Esse resultado positivo geralmente é dado pela formação de uma cor. Há uma cor que é formada numa determinada tirinha e, portanto, é muito fácil qualquer pessoa dizer se está infectada ou se não está infectada, ou se deu positivo ou se não deu positivo. Mas de qualquer maneira, é sempre recomendável, na minha opinião, que ele seja feito por um profissional. Pode não ser, obviamente, um médico, nem um especialista em medicina laboratorial, mas poderão ser feitos na farmácia, eventualmente, até no contexto dos lares, por algum pessoal que seja minimamente treinado para isso. E o treino é muito pouco, para o fazer é muito pouco. São testes que são suscetíveis de ser feitos em larga escala e são testes que são relativamente baratos também de fazer e que podem trazer uma relação custo-benefício, uma vantagem muito grande no combate à pandemia.
Deixe-me perguntar, Celso Cunha, voltando aqui um bocadinho às medidas mais gerais. Estava a dizer que o objetivo do governo será aguentar o Serviço Nacional de Saúde até o Natal. Isto, de alguma forma, podem ser medidas intermédias, ou seja, poderá ser preciso ir mais longe. Daí também esse encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, que já agora acrescento que está marcado para segunda-feira.
Claro que pode. Pode sempre ser possível ir mais longe e pode ser até desejável ir mais longe. Aliás, deveríamos ter ido mais longe, na minha opinião, já há mais tempo, mas as circunstâncias são as que são e como dizia, hoje penso eu, até no jornal, o professor Jorge Soares, ele dizia que neste momento que vivemos só nos resta ser otimistas. E de fato, aquilo que nos faltava, já há bastante tempo, penso eu, era um discurso pedagógico para a população, que eu acho que tem faltado um bocadinho nos últimos meses Quando estivemos confinados, houve muita informação, houve uma tentativa muito grande de chegar à população e explicar o que estava a passar. Depois passamos por uma fase, na minha opinião, em que estivemos um pouquinho relaxados. A curva da pandemia nunca achatou o suficiente, mas nós já estávamos suficientemente relaxados. E agora aconteceu isto, como está acontecendo nos países da Europa. Para concluir esta parte, eu acho que nós podemos sempre ir mais longe. Já devíamos ter ido mais longe, mas é muito fácil criticar isto. Eu penso que o governo apenas está a tentar fazer um jogo de equilíbrio, em que, pelo visto, o senhor primeiro-ministro parece ser especialista, é perigoso no campo da saúde, mas pode resultar, neste momento. Pode resultar em termos de manter o sistema nacional de saúde suficientemente resiliente para aguentar as próximas semanas, os próximos dois meses. E a partir de janeiro, então ver o que é que se vai passar e ver se já vamos ter uma vacina para março, para abril, para junho.
Era isso que lhe ia perguntar para terminar. Será possível estas medidas aguentarem o Serviço Nacional de Saúde até o surgimento da vacina ou necessariamente vamos ter que esperar mais pelo surgimento dessa vacina?
As medidas que qualquer governo, o nosso ou outro qualquer, possam tomar, dependem sempre do modo como a população as recebe e como elas são comunicadas à população e se elas são aceites pela população e se elas as vão cumprir ou não. Os principais agentes, e isso já foi dito desde o princípio, pela diretora geral de saúde, doutora Graça Freitas, os principais agentes de saúde pública somos nós, é cada cidadão individualmente. E, portanto, por muitas medidas que o governo tome ou não tome, é evidente que aquelas têm que ser tomadas, mas os principais responsáveis somos todos nós cidadãos, como disse o primeiro-ministro agora. Portanto, não vale a pena nós estarmos aqui agora a especular se podia ter feito mais aquilo, ou se podia ter feito menos isto. O que nós podíamos ter feito era cada um de nós cumprir as regras. Ou seja, não deitar máscaras para o chão, não cuspir para o chão, cumprir as regras de higiene, distanciamento social, usar máscara, etc. Mas também é verdade que, por exemplo, aqui há uns meses atrás, quando em julho se começou a equacionar, pelo menos eu referi isso na altura, que se deveria equacionar o uso generalizado de máscaras, o senhor primeiro-ministro também disse que isso estava fora de questão. Mas OK, neste momento nós devemos estar unidos para combater a pandemia. E não vale a pena agora estarmos aqui a entrar em guerras políticas, como a gente tem ouvido agora nos jornais permanentemente, ou é de um partido, ou é do outro, ou disso ou daquilo. Não, isso não interessa para nada. O que interessa é que a população esteja suficientemente informada e mentalizada que tem que cumprir as medidas que ele elencou e que desde o princípio são sempre as mesmas, desde fevereiro ou março: distanciamento social, uso de máscara, higiene e agora a aplicação Stop Covid. As coisas não mudaram desde fevereiro ou março.
E mantendo essas regras básicas.
As regras básicas são as mesmas, nós não temos outra solução. Neste momento não há uma solução, não há um tratamento, não há uma vacina, não há nada. Portanto, as regras são as mesmas que foram elencadas em fevereiro ou março e que já eram conhecidas há décadas, algumas décadas, como sendo eficazes para conter a disseminação e a propagação de vírus respiratórios. Portanto, não se inventou aqui nenhuma roda. Mas infelizmente, passados estes meses todos, e apesar de todo o esforço que tem sido feito por vários cientistas e por toda a comunidade médica e científica mundial, não foi possível ainda ter uma vacina nem um tratamento eficaz. E aquilo que é preconizado é aquilo que é preconizado para qualquer outro vírus deste tipo, ou seja, manter o distanciamento, usar medidas de proteção e fazer higiene.
É ter sempre na cabeça essas regras básicas.
Isso, as regras básicas, independentemente de qualquer medida do governo, porque se nós não fizermos isso, o governo bem pode decretar o que quiser, que a pandemia não vai ser controlada. Mas se nós tivermos essas medidas e também não haver medidas da parte do governo, também se torna mais difícil. Portanto, tem que haver aqui um equilíbrio entre as duas coisas, mas a responsabilidade, sobretudo, é dos cidadãos.
Obrigado, Celso Cunha, virologista, também aqui a olhar para estas medidas decretadas pelo governo e para esta necessidade também de aguentar o Serviço Nacional de Saúde durante o período de maior impacto, não só da pandemia, mas também da gripe, este período de outono.
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