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Esta portuguesa, de que é que ela é composta? Quais são as suas grandes oportunidades de negócio? Fazemos aqui um retrato deste setor. Estamos no RAIZ Instituto. Pragas, mas agora vamos falar de novos negócios. Tenho comigo o Alexandre Gaspar, é coordenador de desenvolvimento de novos negócios do RAIZ. Alexandre, muito obrigado por ter vindo aqui à Rádio Observador e a esta emissão especial. O que é que faz como coordenador de desenvolvimento de novos negócios? É uma área em que é possível que muitos novos negócios venham a surgir durante os próximos anos, fruto da inovação tecnológica e de muito do que o Carlos Gaspar-- muitos destes produtos que são de origem biológica e natural para substituir, por exemplo, plástico e outros.

Olá, boa tarde. Sim, trabalho na área de scale up e desenvolvimento de novos negócios. E o que isso implica? Implica tentar que investigação ou ideias que venham da investigação e desenvolvimento se possam materializar em novos negócios. E para isto é preciso analisar as ideias que nos chegam, quer aqui do RAIZ, quer através de startups, de empresas já estabelecidas, olhar para elas sob duas vertentes. Uma vertente técnica, perceber se tecnicamente é possível escalar aquelas ideias e com elas montar empresas e se os produtos que nos vão propor são produtos que já existem no mercado, são concorrentes com os que existem no mercado ou são novos produtos, e perceber as suas características técnicas. A outra vertente é a econômica. É preciso perceber se se montar uma unidade industrial, se as receitas vão ser superiores aos custos do processo.

É basicamente uma incubadora, como tem os novos negócios de startups, tem sempre uma parte de incubação do negócio, não é? Para ver se ele poderá resultar ou não.

Pode ser uma incubadora. Há aqui uma particularidade, que é: vamos à procura de tecnologia e vamos mesmo falar com fornecedores, vamos testar equipamentos. Por exemplo, temos aqui no RAIZ um laboratório piloto, onde, por vezes, quando não encontramos a tecnologia, montamo-la cá para desenvolver de forma mais acelerada os produtos e os processos e mais rapidamente chegar ao mercado, fornecer amostras ao mercado. Por isso, tem essa componente de incubadora, sim, é o produto, o mercado, mas também o desenvolvimento tecnológico. E depois montar tudo num business plan e ver se realmente aquilo bate certo e se é um negócio viável.

Têm tido bons resultados, já há negócios em funcionamento que nasceram desta ideia e deste trabalho aqui feito?

Desta ideia, já tiveram a oportunidade de ouvir falar, se calhar, da celulose moldada, que foi uma máquina piloto que foi aqui montada.

O que ela faz exatamente?

Faz tabuleiros para levar comida em takeaway, nos restaurantes ou nos supermercados. Foi montada aqui uma pequena máquina piloto, foi feito o desenvolvimento aqui do produto, vieram cá os primeiros clientes, os primeiros fornecedores.

Esse produto é basicamente papel?

É, substitui aquelas embalagenzinhas de plástico e de alumínio que você, quando vai ao supermercado ou aos restaurantes, traz com comida para casa. Esta é uma nova ideia, mas feita com celulose. Biodegradável, sustentável. Entrar nesse mercado.

Não é um produto reciclável, então.

É um produto biodegradável.

Melhor ainda.

É como se fosse papel.

Exato. Ok.

É orgânico, degrada-se.

E como é que foi feito o desenvolvimento desse produto? Porque ele tem que ser rijo, não verter líquidos.

Sim, isso foi um desafio, porque não estando eu diretamente envolvido neste desenvolvimento, a celulose de eucalipto provou-se que se conseguia usar para desenvolver esse tipo de produtos.

Como aconteceu isso nas embalagens, acha que nos próximos anos vai acontecer isso noutros setores?

Sim.

Não só na indústria alimentar, que imagino que seja também.

Sim, nós aqui estamos a trabalhar em várias abordagens. Foi falado há bocado dos biocombustíveis, por exemplo, o bioetanol. Estes compósitos, misturar celulose com plásticos, sejam eles de origem fóssil ou bioplásticos. Mas há muitos exemplos que nós normalmente não conhecemos. Por exemplo, quando vai no verão comer uma bola de gelado, o sabor a baunilha. Muito provavelmente, o sabor a baunilha vem de uma empresa de celulose. A vagem natural não é suficiente para alimentar todo o mercado mundial. Então uma parte desse mercado é abastecido por sabor a baunilha, que vem de árvores, por exemplo. Há roupas, por exemplo. Hoje em dia começa-se a produzir celulose para produção de roupas. É um exemplo deste mercado.

De fio têxtil.

Sim, para fazer fios têxteis. A alternativa, por exemplo, ao algodão. Aqui, particularmente, estamos a olhar para os extratos, por exemplo, os óleos de eucalipto. Há muitas pastilhas nesta altura do inverno. Se reparar na composição, tem menção ao óleo essencial do eucalipto, o eucaliptol, por exemplo. É um produto que já está no mercado e nós também andamos aqui a estudar se é possível industrializar um pouco mais esse conceito.

Mas isso é para fazer pastilha elástica? Não percebi, desculpe.

Não, pastilhas para a garganta. Não queria mencionar marcas.

Já estou a perceber.

Contenedores de garganta, pode tomar algumas pastilhas e se for ver na composição, tem óleo de eucalipto.

Toda a gente reconhece os efeitos curativos do eucalipto.

Robosados, sim, mas também encontra em fragrâncias, aromas, detergentes, também tem amplo-

Cosmética.

Cosmética também, também tem ampla utilização nesses produtos.

Este desenvolvimento dos negócios, quem é que o faz? É algum grupo de empresários, alguma empresa que já vem com uma ideia e que vos pede ajuda ou vocês desenvolvem um negócio, quem é que vai ficar com esse negócio, por exemplo? Como é que fazem a articulação depois com o setor empresarial?

Como eu disse, há abordagens externas de empresas startups Pequenas empresas ou às vezes grandes empresas também se abordam com as ideias e aí vamos estudar e poder-se-á desenvolver negócios conjuntos. Outras vezes, quando é uma abordagem mais interna, estudamos para endogenizar na companhia que está mais associada aqui ao RAIZ. Essas duas vertentes.

Como é que funciona o vosso laboratório? Eu consegui vê-lo há pouco, parece mesmo um laboratório. Como sou de Letras, a química e a ciência impacta-nos sempre bastante. Como é que funciona o vosso laboratório? Estão satisfeitos a nível tecnológico? Estamos a falar de um laboratório já bastante completo ao nível do que existe numa grande universidade, por exemplo?

Sim, o RAIZ por acaso tem muitas valências, tem muito equipamento tecnológico, nos permite cobrir um vasto leque de análises e ter uma grande complementaridade. Mas também nos articulamos muito com os nossos parceiros, quer na académica, quer os centros tecnológicos, quer mesmo com empresas. Às vezes precisamos de fazer ensaios às empresas e vamos lá fazer ensaios. Por exemplo, nesta área dos compósitos, nós fazemos aqui o desenvolvimento das formulações e depois entregamos a empresas de injeção, que são nossas parceiras, que testam na injeção de moldes, fazendo peças em plásticas, dão-nos o feedback: "Isto está quase no ponto, falta aqui um pormenor, não injeta tão bem, revejam lá um pouquinho a formulação". Nós vimos para cá, refazemos, voltamos a entregar ao mercado, isto é, iterativamente, até sentirmos que temos um produto para chegar ao mercado. É um bocado este conceito aqui do trabalho no laboratório piloto.

O Carlos Neto há pouco falou também da biorrefinaria, essa ideia, e o Alexandre já tinha falado também do biocombustível. Estamos a falar, de facto, de uma solução que é mais ecológica do que aquelas que temos e que são mais generalizadas hoje em dia?

Sim, os biocombustíveis é bio por isso. Muito rapidamente, quando nós usamos produtos de origem fóssil, estamos a libertar para a atmosfera carbono que foi sequestrado pelo planeta Terra durante milhões de anos. Foi removido da atmosfera e foi incorporado na crosta terrestre. Quando se usa bioprodutos, estamos a usar matérias-primas que vêm de plantas, sejam elas de origem agrícola ou florestais. As próprias plantas ao crescer, capturaram esse dióxido de carbono da atmosfera e depois estão a se libertar quando usamos esses produtos, quando esses produtos se degradam. No ciclo de carbono do planeta Terra, que estamos a falar de milhões de anos, diz que é mais neutro, porque quando se está a consumir produtos de origem fóssil, de combustíveis fósseis, está se a fazer um build up de dióxido de carbono na atmosfera, algo que foi removido já da atmosfera há milhões de anos atrás. Quando se está a consumir produtos que vêm de plantas, árvores em crescimento, arbustos em crescimento, plantas em crescimento, está se a libertar um carbono para a atmosfera que a própria planta sequestrou ao crescer e que vai sequestrar quando voltar a crescer. Daí os bios serem considerados mais sustentáveis. Daí esta noção bio.

Mas a forma de produção também é mais ecológica do que as dos concorrentes, digamos?

Hoje em dia tenta-se que sim, se se quer por um produto mais sustentável no mercado, olha-se para todo o processo produtivo de forma que ele seja mais neutro ou mais ecológico face ao convencional de origem fóssil.

Hoje em dia é a missão em quase todos os negócios também que é assim, certo?

Exatamente.

Espero que tenham essa preocupação e percebemos que a têm também. Alexandre Gaspar é coordenador de desenvolvimento de novos negócios deste RAIZ, este Instituto de Investigação da Floresta e do Papel, onde a Rádio Observador está hoje a dedicar uma emissão especial dedicada também ao setor da floresta. Vamos aqui regressar daqui a pouco. Regressamos, no entanto, a Alvalade e aos nossos estúdios em Lisboa para as notícias das 15:00. Continue conosco para conhecer também melhor este RAIZ e este setor da floresta portuguesa. Até já.