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Conosco ao telefone está agora Daniel Serra, da Associação Nacional de Restaurantes. Os restaurantes que mais uma vez foram alvo também de novas medidas. Obrigado pela disponibilidade e também pelo tempo que esteve a aguardar. Daniel Serra, eu perguntava-lhe como é que olha para esta medida destinada especificamente aos restaurantes, portanto, o horário de encerramento volta a ser mais cedo, 22h30. De certa forma, isso é um revés nestes conselhos afectados por estas medidas?

Sim, boa noite e obrigado pela oportunidade. Claramente um revés, visto que o setor da restauração já teve nos últimos tempos sujeito a restrições adicionais bastante graves, nomeadamente este fim de semana, uma situação claramente grave porque prejudica, de certo modo, o funcionamento normal dos restaurantes. Neste momento, aquilo que estamos a avaliar e estamos a acompanhar, já existem muitos restaurantes que já tomaram a decisão de encerrar portas a partir do momento que foram declaradas estas informações hoje pelo primeiro-ministro, porque acabou aqui uma certa esperança de poderem ter alguma normalidade. Aquilo que a associação pediu há dias e insistiu, e ainda hoje falámos com alguns assessores do primeiro-ministro, é que essa informação fosse clara e realmente nesse aspecto o governo arrepiou caminho e a comunicação foi realmente claramente melhor. Houve uma preocupação por comunicar de forma mais concisa, mais clara, mais incisiva, dando até alguns exemplos, aquilo que vimos pedindo, mas continua, no nosso ponto de vista, a persistir no erro de abandonar uma preocupação que deve estar sempre presente, que é a questão da economia. Eu estava a ouvir o interveniente anterior e estava realmente a pensar: o país claramente está dividido em duas facções, o pró-pandemia, no sentido pró defesa da pandemia, e o pró-economia. Aquilo que nós claramente temos vindo a apontar é que o governo tem que ser o fiel da balança, tem que equilibrar as duas situações. Se nós sabemos que há uma tendência, um enorme número de pessoas que está realmente preocupado, e eu penso que até nesse sentido estarão todos, mas existe um grande número, talvez mais de metade da população portuguesa, que está preocupada com a questão da pandemia e se esquece muitas vezes na defesa dos argumentos que usa da parte da economia, são muitas vezes portugueses que, no fundo, não têm qualquer impacto negativo directo com o efeito da pandemia. Isto é, são funcionários públicos que não sofrem qualquer alteração do seu vencimento, se houver restrições. Por outro lado, no outro lado da balança, existe toda uma economia que todas estas restrições que são aplicadas têm um impacto directo na caixa do dia a dia, no seu salário, no seu cashflow. Portanto, a situação acaba por haver uma ligação directa com as restrições. Aquilo que eu quero dizer é que, o governo deve, na nossa opinião, ser o fiel da balança, deve procurar que este equilíbrio se faça. Eu sei que não é fácil. Nós temos vindo a colaborar com o governo também em muitas matérias e muitas ideias, no sentido de procurar que a economia funcione, mas em segurança. E esta questão tem agora a ver com o aumento dos casos, que realmente não é fácil fazer este controle. Agora, a associação não compreende como, por exemplo, muitas vezes por força e por pressão de inúmeros portugueses, muitas vezes por força de alguns abusos que tem havido. O caso, por exemplo, no Algarve da Fórmula 1 e nas redes sociais pudemos observar fotografias, que houve claramente um incumprimento quase geral da população, dos espectadores que lá estiveram. Aquilo que nos preocupa é que a reação do governo foi anular a prova que estava prevista agora para novembro da Moto GP. Uma situação que claramente prejudica gravemente a economia local, que precisa destes balões de oxigénio para sobreviver. Portanto, nós não compreendemos como é que se toma estas iniciativas de forma desgarrada e não se faça este justo equilíbrio. Este fim de semana, posso dizer e afirmar que os restaurantes estão a viver as piores facturas de sempre. Situações de restaurantes estarem completamente com dias nulos de facturação. O povo confinou-se porque a comunicação foi nesse sentido. Portanto, aquilo que nós da associação temos vindo a pedir é que haja um equilíbrio entre a segurança e a economia. É isso que nós pedimos.

Daniel Serra, de alguma forma, estas medidas vêm colocar um travão nesta trajetória de recuperação. As medidas e também a comunicação, como estava a dizer. Alguns restaurantes iam já recuperando essa clientela, também essa facturação, agora têm aqui um novo travão pela frente.

Há aqui essencialmente uma questão que é a comunicação. A confiança advém muitas vezes da desinformação que se passa. Passa muitas vezes a ideia que o restaurante é um foco, como ainda hoje um médico veio no Expresso com essa teoria Mas o certo é que de maio a setembro, os restaurantes tiveram praticamente a normalidade a funcionar e não houve focos, não houve uma subida exponencial dos números no país. Depois, coincidentemente, com a abertura das escolas, com outras situações, o retorno à normalidade das empresas, assistiu-se aqui a um enorme crescimento. E então vai-se procurar o elo mais fraco, os restaurantes. É evidente que um restaurante, não vamos esconder, estando numa mesa sem máscara, há algum risco de contágio. Mas estamos a falar também numa situação que está adstrita a um núcleo de pessoas que coabitam ou na empresa, ou em casa, ou no seio social, e que o risco acaba por ser adquirido mesmo fora do restaurante. O mesmo não se passa se as pessoas noutra mesa, com o afastamento que é recomendado, não têm esse mesmo risco. Portanto, há aqui uma certa desinformação que está a prejudicar gravemente o setor da restauração e que claramente vai ter consequências no futuro, porque, de certo modo, a economia em Portugal é muito dependente deste setor e como vimos em março, abril e maio, o setor primário, principalmente o primário, foi um dos que mais sentiu isso. E nós não queremos voltar a assistir a uma situação desta, tanto mais que há aqui uma situação que é: as empresas estão mais endividadas nesta altura, o setor da restauração não aguentará o novo confinamento. Já se fala aqui no novo confinamento no início de dezembro. Pensamos nós que isso terá um propósito, que é no fundo, retirar aqueles habituais jantares e almoços que se fazem no Natal, portanto, será mais uma machadada no setor, se vier a acontecer. Mas aquilo que nós achamos é que estas decisões todas são tomadas. Nós até podemos compreender muitas delas, se forem bem fundamentadas e devem, por isso, ser devidamente apoiadas para que essas empresas se mantenham a sobreviver. Neste momento, não estamos a pensar aqui qualquer tipo de resultados positivos. Nós queremos é sobreviver, mas é preciso que as condições sejam criadas nesse sentido. E há muitas vezes aqui uma contínua desinformação que prejudica claramente, por um lado, a tomada de decisão por parte do governo equilibrada, que muitas vezes é influenciada por lobbies bastante fortes, e no fundo também pelo medo que é instituído pelos hospitais. E obviamente que nós todos temos essa responsabilidade, mas, por outro lado, nós não podemos abdicar aqui de uma grande premissa. O país tem que ter economia. O nosso país não aguenta, não tem capacidade para apoiar as empresas todas do país ou pelo menos aqui no setor do turismo, que é uma fatia importante. Portanto, se nós pudermos ter aqui o melhor de dois mundos, vamos tentar lutar por isso. E aquilo que nós vimos insistentemente a dizer. As medidas hoje anunciadas não são tão gravosas quanto aquelas que estávamos realmente à espera, mas que já são obviamente restrições importantes e graves, de certa maneira, porque 22h30 encerrar o espaço é realmente uma situação pior que a que estava, mas vêm aí agora a seguir, próximas restrições bastante graves. E aquilo que eu queria deixar aqui no ar é que as empresas não têm condições para voltar a confinar, têm que ter capacidade para gerar algum valor acrescentado para poder fazer face aos compromissos que têm. E claramente, a situação neste momento é de fragilidade e estamos, como dissemos há dias no nosso inquérito, em que entrevistamos cerca de 800 estabelecimentos, cerca de metade dos estabelecimentos estão efetivamente a ponderar encerrar portas por não terem capacidade para fazer face às novas dificuldades que se avizinham. Diga, desculpe.

E agradeço, Daniel Serra, porque estamos a ficar sem tempo. Fica também essa nota dessas dificuldades dos restaurantes e também desse dado que nos deixou agora no fim, importante, de vários restaurantes que estão com dificuldades e a ponderar mesmo o encerramento. Obrigado pelo seu tempo e a sua disponibilidade. Daniel Serra, presidente da Associação Nacional de Restaurantes.

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