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Eu tenho medo que, a pretexto de uma situação destas, nós corramos o risco de estar a generalizar de uma forma escorregadia. Jovens doentes sempre existiram e infelizmente vão continuar a existir. De um ponto de vista mental, eu não acho, pelo contrário, que o nível de perturbação mental hoje seja maior. A visibilidade da saúde mental, essa, sim, tornou-se muito maior, e ainda bem, tenho esperança que venha a trazer outros tipos de consequências em termos de gestão de recursos neste país. Agora, estes jovens que muitas vezes são profundamente introvertidos, que muitas vezes não têm uma visibilidade naquilo que nós, de uma forma empírica, atribuímos à doença mental. Para um olhar mais educado, são uns jovens que têm um nível de perturbação significativo e, portanto, não são um bocadinho doentes, alguns são significativamente doentes. Muitas vezes, em termos de desempenho escolares, têm até resultados fora de lugar, mas depois têm todo um componente de grandes dificuldades, fragilidades mesmo, em termos sociais, que faz com que, no fundo, se sintam excluídos, eles próprios excluam, muitas vezes sejam de fato estigmatizados, vítimas de alguns episódios de violência, porventura, também.

Perdemos aqui o contato com o Eduardo. Não? Julgo que, Eduardo?

Estou cá.

Sim. Conclua, por favor. Estamos com algumas interrupções. Agora sim, Eduardo. Nós estamos ainda com algumas dificuldades de comunicação, na sequência do ataque à Vodafone, mas julgo que agora já o conseguimos escutar novamente. Eduardo, por favor.

O que faz com que o elemento tenha em silêncio um desejo de vingança contra incertos, um pouco em função de tudo aquilo que acham que não têm ou que não tiveram, e que depois, na calada de um conjunto de estratégias que delineiam, acabam por ter este tipo de situações. Agora, que fique claro que não há hoje jovens muito mais perturbados. O que me preocupa, todavia, é isto, Ricardo. É que esta visibilidade toda possa levar a que outros jovens, igualmente perturbados, que estão naquele registo faço, não faço, se sintam quase empurrados para ter protagonismos desta natureza. Esperemos que não, mas eu não excluiria que isso pudesse eventualmente vir a acontecer.

E a quem é que cabe, Eduardo Sá, detetar este tipo de comportamentos, este tipo de ameaças?

Desculpe, eu não a cumprimentei, só cumprimentei o Ricardo.

Vanessa Cruz.

Como está, Vanessa? Vanessa, eu acho que depende de todos nós. Acho que a pandemia trouxe a saúde mental para um discurso que em alguns momentos parece quase uma moda, e eu anseio que não seja só uma moda, porque de facto, como se compreende, quando se chega aos 18 anos e se tem um comportamento destes, que é muito desajeitado ao mesmo tempo, sejamos razoáveis, porque alguém que seja premeditadamente alguém que quer destruir, matar, etc, não anuncia, mas muito menos nas redes sociais, com uma semana de antecedência, que de alguma forma o vai fazer.

Isto deve começar em casa. São os pais que devem estar atentos a este tipo de situações, mas este jovem, ao que sabemos, vive num contexto de violência. Ainda assim, nas escolas, por exemplo, não só os diretores de turma, mas também psicólogos têm aqui um papel. Devia haver mais psicólogos, maior acompanhamento nas escolas?

Devia, obviamente. Temos tão pouquinhos psicólogos para tantos alunos de um agrupamento que, no fundo, às vezes, têm quase uma função mais decorativa do que deviam e, portanto, não é razoável que seja assim. Agora, nós temos que estar atentos, de facto, para tudo isto, e temos que estar atentos a outro pormenor, Vanessa. É que muitos dos nossos filhos, muito cedo, cedo demais, no meu entendimento, têm um conjunto de atitudes de uma grande passividade em termos de relações sociais, etc. Vivem encapsulados no quarto, consomem videojogos em quantidades verdadeiramente assustadoras, com níveis de violência verdadeiramente exorbitantes e com uma conivência, uma distração dos pais que não pode destas situações juntas, acabam em contextos em que já se está um bocadinho deventado. Às vezes se tem um contexto pelo contrário, pode criar um caldo de cultura que, no limite, faça com que se tenham estas atitudes.

Eduardo Sá, temos conversado muito sobre isso no Porque Sim, não é resposta aqui da Rádio Observador, sobre todos esses sinais, sobre toda essa necessidade dos pais estarem muito atentos, lembrando e citando aqui o Eduardo, que quem manda em casa, a entidade reguladora, são os pais e que o quarto dos adolescentes não é um castelo. É assim, Eduardo. Mas olhando aqui ainda para este rapaz, para este jovem de 18 anos, ajude-nos aqui a perceber que mecanismo é este Que ódio é este em relação aos outros que leva a pensar praticar um ato destes e às vezes a praticá-lo? Estamos aqui a falar de armas brancas, portanto, um nível de violência muito forte. O Eduardo nos ajudará aqui a perceber. Eu peço desculpa pela imagem, mas um crime cometido com uma arma branca é um crime com muita raiva, um crime em que usa uma arma de fogo, se calhar, é um crime mais limpo, passam a imagem. Ajude-nos aqui a perceber melhor tudo isto, Eduardo.

Ricardo, nós estamos a falar de ódio, acima de tudo. Estamos a falar de ódio, estamos a falar de um sentimento de vingança verdadeiramente desmedido e sem querer pôr qualquer pó de arroz nisto, é evidente que a violência é diretamente proporcional a uma dose significativa de sofrimento. E, portanto, num contexto destes, haverá sempre, infelizmente, miúdos que no contexto familiar, em função do seu desenvolvimento, em função da maneira como se sentem excluídos na escola e às vezes são chincalhados, humilhados continuadamente na escola, vão ficando tão encurralados no seu próprio mundo que vão olhar para o mundo dos outros com um olhar de grande espanto, mas ao mesmo tempo de grande inveja. E se, no fundo, passa um ano, dois, três, quatro, atravessam todo um percurso educativo e não se repara que estes miúdos fazem variadíssimos sinais que estão zangados com o mundo a todos os níveis. Note, uma coisa não é aquilo que os adolescentes quando têm tudo no lugar e tudo fora de lugar ao mesmo tempo, dizem: "Poxa, a minha vida está uma porcaria". Não, são miúdos que vão acumulando, de facto, raiva, rancor, inveja, destrutividade, que depois se sentem tão insignificantes a tantos níveis, que às vezes terem visibilidade pelos piores motivos, nem que seja por um dia, é quase uma espécie de grito de triunfo e de revolta perante tudo aquilo que passaram.

Tem uma espécie de, eu vou usar o termo, o Eduardo me ajudará aqui, não sei se é o melhor termo, mas uma espécie de gratificação quando veem todo este alarido à volta de tudo isto?

Se acham-

Perdemos aqui. Agora sim, Eduardo.

Se acham que eu não presto, se acham que eu sou insignificante, se me achincalharam, vão perceber como eu posso ser importante, nem que seja por um dia. Mais ou menos isto.

O Eduardo falava há pouco na possibilidade de haver aqui um fenômeno também de imitadores. Estamos aqui a falar como no caso, por exemplo, dos incendiários, é comparável?

Ou dos suicidários, também. Razão pela qual, em muitas circunstâncias, se acaba por ter um conjunto de medidas de alguma descrição, para que se evite que aquelas pessoas que às vezes estão presas por um cabelo, à beira de uma descompensação, sintam aqui um motivo para replicarem, e às vezes com doses de maior brutalidade, aquilo que foi feito. Sim.