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Mais uma vez, estou num município que integra o Geoparque Naturtejo. Grosso modo, é uma região que vai da fronteira com Espanha até Vila Velha de Ródão, dito de forma simplista. São todos aqueles territórios à sombra do rio Tejo. O Carlos Neto de Carvalho é geólogo, é o diretor científico do Naturparque. Viva, Carlos.
Olá, boa tarde.
Boa tarde. Explique-me o que torna este território único ao ponto de ser distinguido com o selo Geoparque.
Nós começamos a desenvolver este projeto em 2004 e integrámos a Rede Global de Geoparks em 2006, portanto acabamos de fazer agora 18 anos de existência. E aquilo que distingue este território, que abrange as duas margens do Tejo, estende-se até Nisa, a sul, e vai até Penamacor, na zona mais a norte, e como disse, vai desde a fronteira a leste até Proença-a-Nova e Oleiros a oeste. É um território muito significativo, são mais de 5 mil km². E aquilo que distingue, de facto, este território é o seu património geológico. São as formações geológicas rochosas que esta região tem e que, no contexto, no mosaico geológico do planeta, conta cerca de 600 milhões de anos de histórias geológicas.
Portanto, surgiu há 600 milhões de anos.
Portanto, este território-
O território, tal como o conhecemos hoje. Grosso modo.
Tal como temos registos, estende-se há 600 milhões de anos. Temos rochas com cerca de 600 milhões de anos de idade, temos rochas mais recentes também.
E é isso que se evidencia com o selo Geoparque, é isso?
Sim, este programa UNESCO tem como objetivo valorizar aqueles sítios ou aquelas regiões com património geológico de relevância internacional e que põe esse património à disposição do desenvolvimento territorial. É isso que nós, a partir da Naturtejo, que é uma empresa intermunicipal, junta os municípios ao setor privado com o objetivo de fazer uma valorização deste património natural, que muitas vezes é esquecido. Normalmente, fala-se na biodiversidade e esquecemos de uma componente fundamental que é o chão que todos nós pisamos, incluindo a bicheirada.
Portanto, já percebemos que há aqui condições únicas. No fundo, este Geoparque o que faz é adicionar mais uma camada de interesse, posso dizer assim, a quem visita o território. No caso em apreço, estamos aqui em Idanha-a-Nova, o que pode ser visto de distintivo?
Aqui no concelho de Idanha-a-Nova, de facto, destacam-se-
À cabeça Penha Garcia, não é?
Destacam-se alguns geomonumentos, entre os quais Penha Garcia, o local onde todo este projeto se iniciou, com a Rota dos Fósseis, à época, que depois veio a constituir aquilo que é hoje o Parque Ecológico de Penha Garcia, que é uma das grandes referências do ponto de vista internacional do património geológico desta região. Mas não nos podemos esquecer que Monsanto e a sua singularidade muito se devem à geologia que marca aquela paisagem, uma geologia bem diferente de Penha Garcia. Em Penha Garcia encontramos vestígios de vida existentes num oceano que já não existe, e que está patente naquelas rochas.
Havia água ali?
Ali sempre houve muita água, continua felizmente a existir muita água.
Mas agora debaixo do sol.
Mas agora debaixo do sol. Aquilo que conseguimos ver ali em Penha Garcia é como se forma e como desaparece um oceano. Portanto, é essa a informação que nós podemos obter se soubermos ler as rochas.
Quem não souber ler, tem lá informação disponível?
Quem não souber ler, tem informação disponível, tem os nossos guias, tem empresas de animação formadas por nós, que podem fazer o devido acompanhamento no local. Estamos também a avançar com um projeto que está em desenvolvimento para um centro de interpretação, que é fundamental para compreendermos aquela história tão importante.
Vai já meter a mão ao bolso para tirar três pedras para me atirar, mas tenho que lhe fazer esta pergunta: vem muita gente para ver geossítios e geomonumentos?
Na verdade, tem havido um crescimento significativo. O geoturismo é um nicho, mas é um nicho que é diferenciador dos territórios, e aqui associamos a uma marca reconhecida pela UNESCO, e isso, ao longo dos anos, tem atraído interesses, tem contribuído para um marketing territorial que tem trazido dividendos para toda esta região. Este segmento de turismo relacionado com o património geológico, com a descoberta das paisagens no seu todo, com uma abordagem bastante holística, entendendo que muitas vezes é o substrato geológico que está na base da implantação das comunidades humanas nos territórios. Quando encontramos um castelo, o castelo está lá com um propósito, mas utiliza matérias-primas e utiliza uma posição geoestratégica, que foi, a dada altura, essencial. Todo este território, a ocupação dos solos, o seu uso, ao longo dos tempos, tem tido esta relação direta com uma geodiversidade que é bastante singular nesta região.
É o segredo de uma arte, saber interpretar uma boa paisagem, é uma coisa que se tem perdido muito nos últimos anos.
Sim, a verdade é que cada vez menos as pessoas, sobretudo dos meios urbanos, entendem como é que uma paisagem se desenvolve e, sobretudo, como é que ela evolui, porque uma paisagem é um sistema dinâmico. E é marcado, no nosso contexto, obviamente, pela presença humana extremamente antiga. Já agora aproveito para dizer que os mais antigos vestígios humanos encontrados nesta margem ocidental da Península Ibérica são precisamente vindos desta região de Vila Velha de Ródão, com mais de 460 mil anos.
Foi aqui que nasceram os ibéricos, os primeiros ibéricos.
Muito antes dos ibéricos. Aqui passaram Homo erectus, neandertais, sapiens e por aí fora.
Muito bem.
Sapiens somos nós