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Vamos falar já com Henrique Mano, jornalista do jornal Luso Americano. É português e vive nos Estados Unidos desde 1992. Acompanhou as operações de resgate depois dos atentados e há 25 anos que também acompanha as histórias das famílias das vítimas e daquelas que estiveram a trabalhar no Ground Zero. Bem-vindo, Henrique. Obrigada por estar aqui conosco em New York, neste dia que também é doloroso para ti, porque recordas momentos que preferias esquecer.
Sim, bom dia. Do ponto de vista jornalístico, o que realmente foi mais doloroso, custou mais, foi
Estamos com alguns cortes. Agora, sim, estamos ouvindo o Henrique.
Estava a dizer que foram dois jornalistas do Luso Americano que desenvolveram este trabalho, eu a trabalhar nas vítimas de Nova York e o jornalista Fernando Santos, que entretanto já se reformou, nas de New Jersey. Essa foi a componente mais difícil. Como morador em Manhattan, obviamente que foi muito complicado. Sobretudo não ter conseguido ir para casa nesse dia, os acessos à cidade. Eu estava na redação do jornal, que é em New Jersey, do outro lado do rio, e não consegui ir para casa nesse dia. Mas assim que consegui, no dia seguinte, apanhar um dos primeiros comboios, creio eu, que saíram, desloquei-me diretamente para aquela zona do Ground Zero, onde existia, à altura, uma pequena comunidade portuguesa, com umas 50, 60 famílias, no que restava de uma presença muito dinâmica no início do século passado, e tentar perceber qual tinha sido o impacto dos atentados nas vítimas .
Henrique, imagino o cenário que encontraste aqui quando finalmente conseguiste atravessar de New York para Manhattan. Que cenário era este? Nós temos as imagens das televisões que vão preenchendo um pouco o nosso imaginário do que foi esse dia aqui. A nuvem de pó, o cinzento que de repente encheu tudo isto. Que cenário que tu encontraste aqui?
É assim, havia um perímetro de segurança para os jornalistas e havia outro, que não era perímetro de segurança nenhum, era o acesso total aos escombros, à montanha de escombros. Do ponto onde eu consegui chegar, onde a polícia me deixou chegar, e que eu penso que foi a Canal Street, onde a montanha de escombros e o fumo, aquilo ainda ardeu durante uma semana, creio eu. Mas se me fizer essa pergunta, eu respondo de outra maneira. Quando eu finalmente cheguei a casa, entretanto, fui contactar as tais pessoas, como disse, comerciantes portugueses, havia ali umas mercearias, umas lojas, que me informam que conheciam um português que trabalhava, que era corretor numa empresa financeira nas torres e que estava desaparecido. Os pais não sabiam dele, ele teria deixado uma mensagem à mãe a dizer: "Mãe, está tudo bem". O avião bateu na outra torre. O que despontou então, nós pensamos: "Bem, isto é uma bandeira vermelha. Se há um, pode haver mais". Mas quando eu à noite consigo chegar a casa, e eu ainda vivo tipo uns 60 quarteirões a norte do Ground Zero, e abro a porta de casa, eu sinto que sentia quando estava na baixa. Portanto, aquilo emanava dos escombros e disseminou-se por Manhattan inteira. Eu depois telefonei a umas pessoas e a uns vizinhos e todos sentimos o mesmo. Estavam mortas ali quase 3 mil pessoas. Era uma morgue ao ar livre. Isso impressionou-me um bocado. Creio que nunca mais me vou esquecer desse odor que eu nem sei descrever.
Qual foi a tua prioridade quando chegaste ao cenário de destruição total que encontraste? O que pensaste primeiro como jornalista, o que eu vou fazer?
Sem sequer me passar pela cabeça que pudessem haver vítimas .
Vamos voltar a falar com o Henrique Mano, porque há pouco a emissão estava um pouco instável e, portanto, talvez tenhamos perdido algumas das respostas mais importantes deste jornalista, que ao longo dos anos foi ficando amigo das famílias das vítimas, também dos portugueses e dos luso-americanos que trabalharam nas operações de ajuda e de resgate, e que foram muito mais do que as pessoas supõem. Contudo, Henrique, convencê-los a falar contigo nem sempre foi fácil.
Não, sobretudo na altura, porque as pessoas preservavam-se muito, estavam em choque. Ainda assim, penso que conseguimos falar com os familiares todos. Este contacto, depois ao longo dos anos, foi se mantendo com alguns familiares, nem todos, porque como lhe disse, muitos mudaram de estado, mudaram de números de telefone e deixaram de estar disponíveis à imprensa. Mas foi muito importante este acesso aos familiares, sem o qual não teríamos conseguido chegar, claramente, a estas nove vítimas. E eu gostava de agradecer publicamente à paciência que estas pessoas têm para falar com a imprensa, sobretudo na altura em que nós ainda não tínhamos aderido ao digital e tínhamos que maçar as pessoas e as viúvas e pedir uma fotografia, ir ter com as pessoas e: "Dê-me lá a fotografia, se não se importa". Levar para a redação.
Sim, isso mudou muito, entretanto.
Tirar uma foto da foto, muitas vezes, depois devolver as fotografias às pessoas. Foi um processo doloroso. Para mim, foi o aspecto mais complicado de tudo isto.
E estas pessoas passaram, de alguma forma, a fazer parte da tua vida. Ficaste amigo de muitas destas pessoas.
Eu diria que amigo, amigo, não. De algumas, sobretudo de um senhor, penso que posso fazer esta inconfidência, que o senhor não me vai levar a mal, do pai do corretor António Rocha, que tem sido excecional. Ele ganhou coragem, por exemplo, para no 20º aniversário, houve a primeira cerimônia de sempre de homenagem às vítimas portuguesas no memorial em Nova York, com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na altura, que eu ajudei a organizar, e o senhor Rocha ganhou coragem pela primeira vez de enfrentar aquele evento. Porque isso são fantasmas que as pessoas têm, e ele era muito amigo, dizia que mais que filho era um amigo, um confidente que ele tinha, e ganhou coragem e foi. Já a mulher, ainda não conseguiu ir.
Ao fim de 25 anos, ainda não foi ao memorial. O nome dele será lido hoje como o nome de quase 3 mil pessoas que morreram ali naquele ground zero. Você está cá desde 1992, o que mudou nos Estados Unidos depois dos atentados, que ao fim de um quarto de século ainda se sente?
Eu penso que as medidas de segurança devem ter sido que afetaram, de certa maneira, o mundo ocidental todo. Não foi só os Estados Unidos, quer dizer, as pessoas despertaram pra uma realidade nova e os americanos, sobretudo, perceberam que não eram invencíveis, que estavam expostos também a este flagelo do terrorismo. E isso, sim, mudou, porque tudo se tornou mais difícil, apanhar um avião é uma chatice, essas coisas todas. Já me fizeram muitas vezes esta pergunta e eu tenho pensado nisso. Já não sei se quem era o político que dizia, ou há um ditado popular qualquer que diz que o povo tem memória curta. E eu acho que tem mesmo, porque entretanto já nasceu uma geração. Em um quarto de século, já nasceu uma geração que não sabe o que eram as torres, não sabe o que foi o 11 de setembro, que consequências é que daí adviram. Portanto, sim, há pessoas que ainda vivem muito esta realidade. A sociedade mudou para sempre, eu acho que há mesmo um antes e um depois do 11 de setembro, mas tudo volta à normalidade, as pessoas voltam às suas vidas, às suas preocupações diárias e a vida continua.