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Comigo e também com o Miguel Santos Carrapatoso, o editor adjunto de política do Observador. Recebemos aqui não só o líder parlamentar do PSD, mas também o secretário-geral do partido, número dois de Luís Montenegro. Hugo Soares, bem-vindo, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós. Estamos aqui um dia depois da derrota da reforma laboral no Parlamento. Arrepende-se de ter clamado vitória um dia antes da votação?
De todo. Só uma correção: essa coisa do número dois do partido é nos textos de Miguel Carrapatoso. Ele é que gosta de picar os outros com isso. Vamos então à questão que verdadeiramente importa. Não, de todo. Eu não clamei vitória. Eu anunciei, no fundo, que havia um acordo e que a reforma ia ser aprovada no dia seguinte. E por que eu o fiz? Fi-lo porque, momentos antes de eu intervir no Parlamento, tinha usado a palavra o deputado André Ventura, que tinha feito exatamente o mesmo que eu. Se quiserem ser injustos e verdadeiros, o deputado André Ventura tinha anunciado ao país que, graças ao Chega, por entendimento com o PSD para aprovar a legislação laboral, havia uma questão nos trabalhadores portuários que estava resolvida, havia uma questão na amamentação que estava resolvida e até gritou dizendo que é graças ao Chega, não é à esquerda, que vai haver mais três dias de férias para todos os trabalhadores, inclusive para a administração pública, ele até concretizou.
Ficou convencido que o assunto estava resolvido aí?
Mas ele não estava resolvido aí. Aí foi anunciado, não estava resolvido antes. Alguém tem dúvida disso? Eu creio que nem os senhores têm dúvida disso. Havia um acordo com o Chega em que nós aceitamos estas questões que ele colocou em cima da mesa e à última hora, à 25ª hora, o deputado André Ventura, líder do Chega, voltou a pôr em cima da mesa a necessidade, para aprovar a legislação laboral, de uma coisa que ele já tinha deixado cair antes, que era o quê? Que era pôr em causa a sustentabilidade da Segurança Social, como sabem, e do nosso ponto de vista, tínhamo-lo dito, dissemo-lo sempre, a questão das pensões é sagrada. Nós não pomos em causa as pensões dos portugueses, nem as que estão em pagamento, nem dos que vierem agora, mais tarde, a ter direito a essa pensão. Nós propusemos ao deputado André Ventura a criação de uma comissão eventual na Assembleia da República para estudar a sustentabilidade da Segurança Social e a eventualidade da descida da idade da reforma, designadamente para determinados setores de atividade. Isso estava consensualizado e o deputado André Ventura, à última hora, na noite de quinta para sexta-feira, roeu a corda. Mas eu devo dizer que não é a primeira vez que isso acontece. Recordar-se-ão, de certeza absoluta, a propósito da primeira descida do IRS no Parlamento, o deputado André Ventura tinha firmado um acordo comigo e roeu também durante a madrugada da noite que antecedeu o debate.
E que lição é que se retira daí?
Retira-se o facto que é muito difícil negociar com partido que cede à primeira pressão, quer da rua, quer das redes sociais. Vocês viram que aquilo que me motivou mais estranheza e que merece comentário, de facto, foi a circunstância dos deputados do Chega não se terem levantado para votar ao lado do André Ventura. O incômodo que se sentiu na bancada do Chega, porque creio que uns não sabiam sequer como é que iam votar, porque a orientação era contrária, e outros, claro, não se sentiram confortáveis em patrocinar esta grande vitória da esquerda imobilista. E já o disse e queria aqui repetir, o gesto que ficou na retina de todos foi o deputado André Ventura levantar a mão, o punho fechado e cerrado no ar para a CGTP. Ora, para um partido que se diz de direita, isso diz muito da forma como o Chega se posiciona. Eu não tenho sobre isso estados de alma, respondendo já às perguntas que se seguirão. Eu tenho consciência de que o povo português deu uma maioria relativa ao governo para governar e uma maioria relativa ao PSD na Assembleia da República. E há determinadas matérias, determinadas formas, que têm que obrigatoriamente passar pela Assembleia da República. Se têm que passar pela Assembleia da República, elas têm que ser aprovadas. Se têm que ser aprovadas, elas precisam de uma maioria. E para haver uma maioria, o PSD tem que dialogar ou com o Chega ou com o Partido Socialista. É assim que temos feito. Eu não tenho, repito, nenhum estado de alma sobre esta matéria. Nós já aprovamos várias matérias, como sabem, com o Partido Socialista e outras com o Chega. Assim continuará a ser. Nesta, em particular, eu lamento profundamente. Não lamento pela descortesia, pela falta de palavra. Isso é o que é. Lamento profundamente pelos portugueses, porque eu acreditava e acredito mesmo que nós precisamos ter uma legislação laboral que nos tire praticamente do último lugar na OCDE, também como sabem, de rigidez na legislação laboral e que permita à nossa economia ser mais competitiva, um, pagar melhores salários, dois, poder estar mais aberto o mercado de trabalho para os jovens, três, e quatro, compaginar a vida profissional com a vida pessoal. Eram estes os objetivos e os propósitos da legislação laboral e não consigo perceber como é que os partidos da oposição, que se queixam de haver menos crescimento económico ao que gostariam, que se queixam de que os salários são baixos em Portugal, embora nós tenhamos sido o país da OCDE, como sabem, em que o salário médio mais subiu entre 2024 e 2025, e já agora, o país da OCDE que teve a maior redução da carga fiscal, que é o mesmo que dizer dos impostos sobre os salários, também no último ano, nos últimos dois anos, mas ainda assim é verdade, Portugal é um país de baixos salários. Ora, se Portugal ainda é um país de baixos salários, por que é que se quer deixar tudo na mesma? É que o povo português, quando votou, não votou para deixarmos tudo na mesma, e nós não viemos para deixar tudo na mesma. Se fosse para deixar tudo na mesma, governariam os socialistas, porque nisso eles são bem melhores que nós, isso eu reconheço.
Mas este processo muda alguma coisa na forma como o PSD, o Hugo Soares, o grupo parlamentar, se relaciona e negoceia com o Chega?
Se quer que eu diga que fará de mim uma pessoa mais desconfiada, não fará. Eu tenho essa obrigação do exercício do meu mandato, e no exercício do meu mandato, eu tenho que negociar com o Partido Socialista e com o Chega, portanto, eu continuarei a fazer essa negociação.
Mas perante o diagnóstico que faz, vou parafrasear, uma esquerda imobilista Um partido à direita que não é de confiança ou, pelo menos, que rói a corda em momento chave. Como é que se sai disso? Como é que o governo pode continuar a governar?
Miguel, é muito simples. Sai-se disso como se saiu na lei da imigração, na lei da nacionalidade, que foram aprovadas com o Chega, no regime jurídico do ensino superior, que foi aprovado, creio que com o Partido Socialista, nos orçamentos de Estado, que foram aprovados com o Partido Socialista, na negociação que estamos a fazer com o Partido Socialista para aprovar a reforma do Tribunal de Contas, na negociação que estamos a fazer com o Chega pra aprovar a PSU. Aprovámos a lei do mecenato com o Partido Socialista. Faz-se assim, faz continuando a negociar. Umas vezes vamos ter êxito, outras infelizmente não.
Mas não ignora que existe uma escalada na relação entre os três partidos.
Não.
Quem assistiu ao debate quarta e quinta-feira, que o PSD, o AD, travou com o Partido Socialista, notou uma crispação a que nunca tínhamos assistido, pelo menos na liderança de José Luís Carneiro. Com o Chega, aconteceu o que aconteceu. Portanto, há um clima de crispação cada vez maior. Como é que se resolve isto?
Resolve-se conversando e procurando chamar à razão os partidos no Parlamento. O que aconteceu com o Partido Socialista, eu disse e repito aqui sem problema nenhum. Há uma estratégia clara do Partido Socialista. O Partido Socialista quis dizer que não a tudo, que o governo leva à Assembleia da República para, na cabeça do Partido Socialista, empurrar o partido mais moderado que há no Parlamento, que é o nosso, o PSD, para os braços do Chega, mas não consegue. E depois há outro problema no Partido Socialista, que pode ter duas razões de ser. Ou a liderança de José Luís Carneiro é demasiado fraca e ele não se consegue impor, ele quer ser moderado, mas não se impõe aos radicais. Eu vou conceder que é esta. Ou então, como eu tive ocasião de dizer, a hipocrisia é só um senso. Seja o Partido Socialista veste a pele de moderado, mas depois, na prática, é tão ou mais radical do que foi Pedro Nuno Santos. Portanto, uma destas duas razões há de acontecer para que o Partido Socialista esteja tão radicalizado. Eu concedo que seja a primeira. José Luís Carneiro não tem força pra se impor no próprio grupo parlamentar a um conjunto de deputados que ainda têm uma força muito grande e que são, de facto, extremistas, que tanto estão no Partido Socialista como poderiam estar bem melhor no Bloco de Esquerda.
Isso não vai ser problema para o Orçamento do Estado, porque já há muita pressão sobre José Luís Carneiro para rejeitar o orçamento. E do outro lado, tem um Chega e um André Ventura, que sabe que pode ter alguns ziguezagues nesse processo negocial.
Ainda muita água vai correr debaixo da ponte até a discussão do Orçamento do Estado, mas eu confio na responsabilidade dos partidos da oposição, sinceramente.
Quer dizer que eles estão obrigados a viabilizar?
Não, não disse que estão obrigados a viabilizar. Longe de mim dizer que os partidos estão obrigados ao que quer que seja. Se eu os pudesse obrigar a alguma coisa, tinha-os obrigado a aprovar a legislação laboral. Agora, o que eu sinto e o que eu acho é que há margem para fazer essa negociação e para aprovar o próximo orçamento de Estado, mas é ainda mesmo muito cedo. Neste momento, é só assunto para comentador político.
Pergunta da praxe e já antecipando que a resposta será a mesma. Viver em duodécimos não seria um desastre? Não seria um drama?
Ouça, o Miguel quis logo antecipar a resposta e a resposta óbvia é: é demasiado cedo e eu estou absolutamente convencido que o orçamento vai passar. Esta é a resposta demasiado óbvia. Mas eu queria fugir um bocadinho ao óbvio pra o Miguel poder ficar mais contente. O que eu tenho pra dizer sobre essa matéria é que nós vamos trabalhar e fazer tudo para que o orçamento de Estado seja aprovado. Há vários países que têm há vários anos governos em duodécimos e eles vão persistindo. Eu acho que não é o melhor. Acho que para o país era fundamental que houvesse um novo orçamento de Estado. E repito, eu estou convencido que isso pode acontecer.
O diagnóstico que fez sobre o comportamento de Chega e do Partido Socialista, atribuindo-lhes a intenção de desgastar o governo e provocar uma morte lenta ao governo, não há aqui o risco de a AD entrar aqui numa espécie de pântano?
Olha, eu vou lhe dizer, se a estratégia é essa, ui, ainda tem muito que desgastar, porque ainda nem começaram nesse desgaste. Nós estamos, como se está a ver neste congresso, muito resilientes, muito determinados e não vai ser a oposição que nos vai vergar daquilo que é o nosso objetivo. E o nosso objetivo é governar, que foi o mandato que os portugueses nos deram.
Há pouco tivemos aqui Manuel Castro Almeida, que dizia que só há uma forma de derrubar o governo, é presentando uma moção de censura, o que implicaria um acordo entre PS e Chega. O outro cenário não se coloca, uma eventual moção de confiança é algo prematuro. Se as coisas chegarem a esse ponto de bloqueio total?
Eu vou lhe dizer uma coisa, Miguel. Eu nem sou capaz de comentar. É que é uma circunstância que nunca me passou pela cabeça, nem uma, nem outra. O governo está a governar, o governo está a governar bem, o governo está a resolver os problemas da vida concreta das pessoas. O governo tem baixado impostos e aumentando o rendimento das pessoas. O governo está a fazer as reformas que o país precisa e governa há um ano. Acha que sou eu que vou entrar nessa histeria coletiva de especular sobre crises políticas que ninguém vê? Eu vou mesmo dizer outra vez. Eu sei que os senhores ficam muito zangados comigo e depois fazem coisas. Isso é a mesma conversa pra comentador político, porque é preciso dizer alguma coisa, é preciso encher os platôs.
Mas o ponto é se as sondagens negativas pra AD e positivas pro PS atuais não podem motivar os atores políticos, não só os comentadores, a precipitar esse calendário.
Eu espero que não haja ninguém em Portugal que tenha decisões políticas com base em sondagens. Isso não seria muito abonatório dos agentes políticos que o fizessem.
Mas não acha que o tal PS dividido, ou melhor, vou colocar de outra forma, com José Luís Carneiro tão pressionado, alegadamente pela ala mais radical do partido, não poderá ter a tentação de provocar uma crise política?
Eu não estou na cabeça do deputado Zé Luís Carneiro e proponho ao Miguel Capatos que convide o Zé Luís Carneiro para uma vichyssoise e que lhe faça essa pergunta.
O país vai entrar agora num período de férias, depois a rentrée é sempre um momento para dar um novo ímpeto político e mostrar iniciativa política. Há quem fale que o governo precisa também de ganhar sangue novo e um ímpeto novo. Precisa? Ou este elenco é suficiente?
Na minha opinião, não. Um governo que, no último mês, levou ao Parlamento a legislação laboral, a prestação social única, a reforma do Tribunal de Contas, e podíamos ir por aí fora, acha pouco?
Com um Parlamento mais bloqueado, Hugo Soares não seria mais útil dentro do governo, por exemplo?
Mas por quê?
É uma pergunta.
Não é para a pergunta, a pergunta é sempre legítima. Não vejo razão para isso.
Não vê razão para ir para o governo?
Não vejo razão para ir para o governo, não vejo razão para fazer essa análise. Nunca pensei nisso. Acho que enquanto o presidente do PSD achar que eu sou útil no grupo parlamentar, é no grupo parlamentar que eu vou estar.
Pedro Passos Coelho acaba por ser uma sombra deste congresso. Sei que já foi confrontado várias vezes com o tema. Consegue compreender o que motiva o antigo primeiro-ministro?
O que é que?
O que o motiva a fazer estes reparos, estas críticas.
Não faço ideia.
A usar os termos que o tem utilizado.
Não faço ideia.
Não lhe atribui nenhuma agenda nem nenhum calendário?
Não, não faço ideia nenhuma.
Pedro Passos Coelho não estará a torcer pelo mau resultado, pelo mau desempenho de Luís Montenegro para tomar conta do partido novamente?
Acho isso quase um exercício especulativo daqueles de ir à lua e vir. Pedro Passos Coelho é militante do PSD, foi nosso presidente e nosso primeiro-ministro. Luís Montenegro foi líder parlamentar dele, eu fui líder parlamentar dele. Tenho a certeza que ele torce à séria pelo nosso sucesso, que é o sucesso do país. Porque Pedro Passos Coelho sempre disse que punha o país à frente de tudo resto.
Espera que ele seja coerente.
Ele sabe que para o país estar à frente de tudo resto, nós temos que ter sucesso.
Fica triste, desiludido, por Passos Coelho não ter vindo ao congresso, não falar dentro do partido e fazer reparos apenas do exterior?
Não está aqui o Luís Filipe Menezes, não está aqui o Luís Marques Mendes, não está aqui a Manuela Ferreira Leite.
Mas esses não têm sido tão vocais.
Aliás, como nunca vão a nenhum congresso. Posso fazer uma pergunta? A quantos congressos foi o Pedro Passos Coelho antes de sair o líder?
Mas de vez em quando os antigos líderes aparecem em congressos e Luís Montenegro até já promoveu o regresso de alguns antigos líderes.
Todos. Sabe qual foi o primeiro líder que nós promovemos o regresso?
Vai falar da Festa do Pontal.
Claro, foi o Pedro Passos Coelho mesmo. Está vendo? Foi o primeiro.
Esta pergunta só tem razão de ser porque o Hugo Soares desafiou Pedro Passos Coelho.
Não desafiei nada, isso é outra...
Creio que a entrevista às notícias. Acho que foi essa meia-noite nas notícias.
Não disse nada disso. Perguntaram-me se eu achava bem que ele viesse. Eu disse que sim. Isso é um desafio? Perguntaram-me, creio que foi a Ângela Silva que me perguntou se eu achava bem que o Pedro Passos Coelho viesse ao congresso. E eu disse que sim, que seria extremamente bem recebido, como é evidente.
Há pouco tivemos aqui Paulo Rangel, que falou abertamente sobre a questão da maioria absoluta. Consta, aliás, da noção estratégica do Luís Montenegro. É possível, com os dados que existem hoje, acredita convictamente que o PSD terminará este ciclo em condições de ter uma maioria absoluta?
Eu acho que hoje, para um partido moderado e de centro como o PSD, as maiorias absolutas são difíceis de atingir. Com dois partidos que ocupam o nosso espaço político, com grande expressão, o Chega e a Iniciativa Liberal, creio que esse objetivo é mais difícil, parece-me, do ponto de vista do exercício político, meramente intelectual, difícil. Agora, aquilo que dita a confiança dos eleitores é o sucesso ou não da governação. Nós temos três anos para governar e já fizemos tanto num ano e temos mais três.
E a legislatura vai chegar ao fim.
Essa é a minha profunda convicção. E aqui não preciso da palavra de ninguém, basta a minha.
Hugo Soares, muito obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós nesta emissão especial do Observador a partir do 43º congresso do PSD em Anadia.