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O Observador venceu o Prêmio Gazeta na categoria Multimédia com o trabalho "Wagner: a máquina de guerra de Putin", um trabalho do jornalista e editor de política Rui Pedro Antunes, do fotojornalista e editor de fotografia João Porfírio, com o web design do Miguel Ferraz Cabral e a edição multimídia da Teresa Becassis. Estão conosco aqui em estúdio o Rui Pedro, o João e o Miguel Ferraz Cabral. Muitos parabéns aos três e também à nossa Teresa Becassis. Muitos parabéns.
Muito obrigado.
Estão ligados.
Isto no caso do João Porfírio é just another day.
É verdade. Já ganhaste também o Prêmio Gazeta de Fotografia no ano passado.
É verdade.
Como foi começar este trabalho, Rui? Quando chegaste ao terreno, já vinhas com tudo pensado, as coisas foram se apresentando?
Deixa-me só dizer uma coisa que eu disse no programa do João Paulo Secadura, o Convidado Extra, aqui há uns dias. Preferi ganhar o Prêmio Leia do que o Prêmio Gazeta e agradeço, neste caso, por me terem contrariado. Na conversa que tivemos com ele a propósito do livro que lançámos, que também foi na sequência desta reportagem. Mas respondendo à tua pergunta, isto partiu um pouco da visão do Miguel Pinheiro, o tema em si, porque nós tínhamos várias ideias e como sabíamos que íamos à Ucrânia, embora ainda fosse secreto na altura, tentamos apresentar várias propostas. Uma delas era, por exemplo, ir a uma aldeia que tivesse sido recuperada, que estivesse na mão dos russos desde 2014 e ir lá. Outra ideia tinha a ver com a tensão nas fronteiras, outra ideia estava relacionada com o grupo Wagner e lançamos umas 15 ideias do que poderíamos fazer na Ucrânia. E às tantas, o Miguel Pinheiro junta tudo e diz assim: "Bom, o ideal", e tinha sido há pouco tempo a marcha para Moscovo, "o ideal era fazer uma coisa específica sobre o grupo Wagner e vamos centrar tudo isto no grupo Wagner. A tensão das fronteiras vão para onde for próximo do grupo Wagner". Depois do nosso brainstorming coletivo, surgiu a ideia da reportagem e fomos logo com a ideia de fazer e aproveitar as mãozinhas preciosas do Miguel Ferraz Cabral e também os dotes da Teresa para potenciarmos ao máximo a parte multimídia, sabendo que na equipe ia aquele que é provavelmente o melhor fotojornalista do mundo, que é o João Porfírio.
Sem dúvida.
Quanto exagero.
Dizes tu. Como é que foi pra ti fazer esse trabalho, sendo que tu estiveste na Ucrânia, não sei quanto tempo, mas muito tempo. E este trabalho, o que teve de particular em relação ao resto?
Sim, é verdade. O Observador entrou na Ucrânia logo no dia 24 de fevereiro de 2022. Estivemos muito tempo lá, mais de cinco meses ao todo, desde o início da guerra. E este trabalho, não tendo sido feito no ano 2022, no início da guerra, foi feito na sequência, com o pretexto, digamos assim, da visita presidencial do presidente Marcelo Rebelo de Sousa à Ucrânia. Uma visita que durou três dias e que nós, além dessa visita, ficamos mais uma semana, quase duas semanas, a fazer esta investigação. Nós saímos de Portugal já com este intuito, como explicava o Rui, e no terreno tivemos uma enormíssima ajuda, sem ele era completamente impossível, que é o nosso fixer. Pra gíria jornalística, um fixer é basicamente uma pessoa local que fala a língua e que se mexe muito bem no país, que é o Iaro, e foi ele que nos deu grande parte dos contatos que estão nesta reportagem, que deu origem a um livro e que hoje soube-se que tinha ganho este prêmio. Foi ele que nos abriu as portas pra muitas destas pessoas que nós entrevistamos. Isto é um trabalho muito extenso, onde falámos com pessoas que pertenceram ao grupo Wagner, que sofreram com o grupo Wagner, que foram torturadas pelo grupo Wagner, uma enfermeira que curou militares do grupo Wagner. Portanto, é um 360 em que o centro dessa circunferência é o grupo Wagner. E isto deu um trabalho multimídia, como dizia o Rui, brilhantemente feito pelo Miguel. Aliás, tudo o que o Miguel faz é de uma espetacularidade inacreditável, porque consegue tornar as fotografias, os áudios, os vídeos e o texto que nós trazemos do terreno super apelativo ao público quando abre um link. É espetacular como é que um link com tantas letras esquisitas consegue ter tanta informação útil, e o Miguel consegue tornar essa informação muito densa.
João, deixa-me só dizer uma coisa. Repara, o trabalho demorou algum tempo a sair e nos últimos dias foi por perfeccionismos do Miguel. Eu estava a ver que aquilo passava pra 2024 e neste caso, já não podíamos ganhar o Gazeta. O Gazeta é do ano anterior, aquilo foi a 30 de dezembro, foi mesmo no limite pra o Gazeta. Mas pra dizer o seguinte, uma das coisas que mudou, aquela rodinha azul quando está a pensar mesmo no início, é muito curto, porque o nosso site é muito bom e os servidores são bons, não sei muito bem como isso funciona.
Isto é a tarde dos elogios.
No dia 29 pra 30, a rodinha azul, que normalmente é azul do Observador quando está a pensar, passou a vermelha. Portanto, o pequeno pormenor do frase foi interessante.
Pensei que ninguém tinha notado nesse detalhe.
Reparamos logo. Aliás, eu disse: "Este tipo nunca mais se despacha. Está a fazer o quê? A mudar a rodinha pra vermelho".
É que isto, de fato, é um trabalho multimídia incrível, é verdade. Miguel Ferraz Cabral, foi um desafio grande pra ti? Foi um desafio grande para ti. É um trabalho complexo de executar.
Sim, e é uma responsabilidade enorme perante todo o material que o Rui e o João trouxeram e toda a aventura por que passaram em montes de episódios que estarão no livro, certamente. Tinha essa responsabilidade, é complexo, mas dá um grande gozo para já. E depois era encontrar uma identidade forte que não fosse caricatural, que não caísse para a bonecada.
Original também, que nunca tinha sido feito.
Exatamente.
Miguel, também é justo que se diga que toda a direção foi sempre sendo envolvida nisto. Há pouco falava no Miguel Pinheiro, mas todos os outros membros da direção também foram dando feedback e alguns inputs. Por exemplo, o Miguel desenhou aquilo que era a meat wave, a tempestade de carne, que é uma forma de atacar dos Wagner, e nós achamos que, a certa altura, porque ele é um bocadinho incompetente, também temos que dizer, achamos que estava demasiado abonecada. A certa altura, o Miguel teve que refazer essa parte, porque ele próprio foi o primeiro a avaliar e a dizer que não gostava daquilo. E fomos ao ponto de o fogo que sai da espingarda não estar bem. Todos nós, não só ele, às vezes pressionava: "Cortem mais esta palavra, cortem um bocadinho mais". E a Teresa também. Ou: "Esta fotografia, tens que fazer este crop". Ou seja, o trabalho é todo uma grande colaboração entre todos e ninguém fica acantonado apenas naquilo que é a sua área. O Miguel também teve responsabilidade no tamanho dos textos, na forma como as fotos eram apresentadas. E nós aqui trabalhamos todos muito em equipa.
Isso também faz parte da beleza deste tipo de trabalhos.
E do Observador, mais uma vez. Nunca estivemos sozinhos nisto, tivemos sempre o apoio de outras pessoas que trabalharam conosco, que foram dando opiniões. Não estou a falar só da direção, a Teresa não está aqui, também a Tia está altamente envolvida no trabalho e tem o dedo dela também. Mas isso, de facto, é muito importante, ver que esse processo coletivo é o que ajuda o trabalho a ficar melhor, porque olhamos todos para aquilo e tanto dizemos: "Esta palavra não pode ser usada porque é demasiado sanguinária", como dizemos: "Esta chama está demasiado abonecada, está muito naïf" e o Miguel tem que desenhar de novo.
E agora passando para aquela parte que isto também já é um livro, como é que é? Quem ler o livro e já viu o filme, o que vai achar melhor?
Desde logo, eu aconselho as pessoas a irem ao Observador ver a reportagem multimédia, porque tem elementos que o livro não tem. Desde logo, é muito forte a parte das fotografias do João, que têm outras potencialidades no nosso site, embora também estejam muito bonitas no livro. No caso, todo o trabalho que o Miguel fez com vários elementos de multimédia, quase um por cada história, também são muito interessantes de ver. O livro tem, de facto, informação extra. Mas eu diria que dá primeiro para as pessoas verem a reportagem multimédia e quando forem ao livro, vão ter uma sensação de algum déjà vu na primeira parte, mas vão ter elementos novos que faziam sentido de uma forma mais literária e que foram retirados daquilo que era mais jornalístico, que era a reportagem que saiu no Observador. Mas eu aconselho a todos, nesta circunstância, ponto número um, a irem ler o Observador e assinarem o Observador, quem não for assinante, e depois então irem comprar o livro, também não se vão sentir defraudados.
Vocês os dois trabalham muito e toda a gente nesta casa sabe isso. Como é que arranjaram tempo para escrever depois este livro? E foi fácil? Trá muita informação da reportagem, mas aqui também com trabalho extra.
Sim, como o Rui dizia, o livro tem uma primeira parte que é muito espelhada nesta reportagem que hoje saiu vencedora neste prêmio, mas depois tem mais duas partes que é mais difícil das pessoas encontrarem no nosso trabalho jornalístico. Por quê? Porque nós descrevemos muito ao pormenor os bastidores do nosso trabalho na Ucrânia, com quem falamos, as nossas dificuldades. Por quê? Porque isso não cabe no nosso trabalho jornalístico, porque não é o nosso papel enquanto jornalistas divulgar quão difícil foi fazer esta reportagem, quão difícil foi dormir naquela ou na outra noite. Isso cabe no livro, não cabe no nosso trabalho jornalístico, porque o que interessa no nosso trabalho jornalístico é mostrar aquilo que as pessoas sentem e vivem. No livro, já cabe. Há uma parte do livro que é dedicada aos bastidores e como é que foi feita a nossa viagem para a Ucrânia, como é a nossa interação com o presidente Zelensky, por exemplo. Isso está tudo no livro. E depois também uma última parte, que é uma parte mais histórica, onde recordamos o que é o grupo Wagner, de onde é que esse grupo Wagner veio, onde é que ele atuou com grande intensidade, nomeadamente no norte da África e, sobretudo, também no Médio Oriente, e o que é feito o grupo Wagner hoje. Nós damos ao leitor uma panóplia de hipóteses, porque o grupo Wagner não se extinguiu, mas também não está propriamente no ativo como já esteve. Eles andam muito no limbo e é isso que nós damos.
Justo porque a morte de Yevgeny Prigozhin coincidiu também com essa altura em que vocês escreveram.
Coincidiu com a nossa estadia em Kiev, é verdade. Nós estávamos numa sala fechada com Volodymyr Zelensky quando essa notícia saiu. Isso está contado no livro, não está contado no nosso trabalho jornalístico, mas é que estes pormenores achamos que enriquecem bastante o livro. Nós estávamos numa sala fechada com ele, com os dois presidentes, aliás, e horas mais tarde essa notícia de que Prigozhin era um dos passageiros desse avião veio a confirmar-se. E só um entono de curiosidade, o que também está no livro foi a primeira vez que Volodymyr Zelensky responde aos jornalistas mundiais sobre a morte de Prigozhin, foi aos jornalistas portugueses. Todo este relato, como é que é entrar na sala de imprensa com o Zelensky, todas as medidas de segurança. Claro que podemos dizer, não podemos, obviamente, contar tudo, mas isso está tudo no livro e que não está no trabalho multimédia. Deixe-me só dizer que
Ganhar este prémio, já tive a sorte, como vocês disseram, e muito trabalho.
A sorte dá trabalho.
É isso, de ter estes mimos por parte de quem organiza estes prémios de jornalistas. Mas para mim, estes prémios de jornalistas têm dois pontos muito importantes. Um deles, queria começar por aí, dizer que é um abre olhos para as direções de informação dos órgãos de comunicação social. Por quê? Porque é o sinal de que fazer jornalismo com tempo e dedicar tempo, quando eu digo tempo, tempo e meios, e quando eu digo meios, digo meios humanos e meios financeiros, a um determinado trabalho, dá frutos. E não digo frutos de termos, daqui a duas, três semanas, quando for a cerimônia de entrega de prêmios, voltarmos aqui com uma estatueta para ganhar pó. Estou a dizer ganharmos mérito perante os leitores e ganharmos mérito perante os pares. Isso é bastante importante e é um abre olhos, espero eu, para todas as direções de informação e um agradecimento à nossa. E depois, o outro ponto que é bastante importante de ganharmos prêmios, eu acho, pelo menos para mim, é sobretudo o fato de este trabalho, que foi publicado no dia 30 de dezembro, como o Rui disse há pouco, quase um ano depois, portanto, estamos no dia 15 de outubro, quase um ano depois deste trabalho ter sido publicado, volta hoje à baila.
Não cai no esquecimento.
Não cai no esquecimento e hoje os leitores podem voltar a ver este trabalho. Ou seja, isto é o maior prêmio que qualquer jornalista pode ter, é o fato de o seu trabalho não cair no esquecimento e, sobretudo, mais importante do que isso, não cai no esquecimento todos os depoimentos de todas aquelas pessoas que estão no trabalho e aquelas pessoas podem ser novamente lembradas e podem ser novamente vistas e ouvidas.
Digam-nos só como é que foi receber o telefonema. A quem é que ligaram?
O João Porfírio foi ele que me deu a notícia, porque foi ele que foi contactado. Deixem-me só dizer que ele disse: "Está tudo bem, mas quero falar presencialmente". E eu vinha a caminho de cá, fiquei preocupado, já a pensar que tipo de doença é que ele ia ter e depois era isto.
Sim, eu recebi o telefonema, estava num trabalho no Campus de Justiça, no tribunal, e recebo o telefonema da organização do prêmio e liguei imediatamente ao diretor a contar a novidade e disse: "Por favor, não conte nem ao Miguel, nem ao Rui, porque quero ser eu a contar ao vivo, quero ver a cara, a reação deles". No entanto, isso saiu um pouquinho furado, porque o diretor estava numa reunião com outros membros da direção e outros jornalistas que ouviram todos o telefonema. Então eu quando cheguei à redação, estive aqui um pouquinho a apagar fogos. "Por favor, não contem nem ao Miguel, nem ao Rui. Eles estão quase a chegar, por favor, não lhes contem".
Portanto, o Miguel e o Rui foram os últimos a saber.
Foram os últimos a saber, porque eu queria ver na cara deles, porque obviamente que isto é uma coisa boa, é uma coisa boa para nós e dá-nos ânimo, sobretudo. Isto é muito chato, tira-nos muito tempo, muitas horas de sono, muitas horas com os nossos familiares e com os nossos amigos, mas vale a pena por tudo o que eu disse há pouco e vale a pena também por estes pequenos dias de estarmos aqui convosco a partilhar e que os leitores e os ouvintes voltem a querer ler a nossa história, que foi bastante lida. Foi um trabalho que felizmente as pessoas aderiram bastante.
Com tempos de leitura muito longos, muito tempo dentro do trabalho, o que é ótimo.
Eu li e, de facto, podes passar muito tempo, mas parece que estás quase a ver uma série, mas escrita e com fotografias.
Recebemos depoimentos de pessoas que demoraram duas horas a ler o nosso artigo. Sei que é uma coisa muito extensa, mas acho que a ver os vídeos com o Miguel-
Foram ao WC no meio.
"Wagner: A máquina de guerra de Putin" é este o título do trabalho do Observador, prêmio Gazeta na categoria Multimédia. Muitos parabéns, João, Rui, Miguel, Teresa e ao Observador, hoje está de parabéns. Parabéns a todos.