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Vamos agora à conversa com Henrique Borné, especialista em assuntos europeus. Boa noite, Henrique. Obrigado por estar em direto conosco nesta emissão especial da Rádio Observador. Que impacto terá na Europa este resultado nas legislativas em França, esta primeira volta daquilo que já conhecemos? Não sabemos ainda como serão as coisas na segunda volta e haverá ainda muita água a correr debaixo da ponte até ao próximo domingo. Mas para já, como é que podemos olhar para esses resultados e ao impacto que pode ter a nível europeu?
Boa noite. Eu diria que na perspectiva europeia, aquilo que me parece resultar daqui é que até 2027, quando serão as eleições presidenciais, aquilo que vai acontecer é que França será, na melhor das hipóteses, um peso morto na liderança europeia, na pior das hipóteses, uma força agregadora da extrema-direita e, num cenário intermédio, apenas um contrapeso. Ou seja, França e Macron tiveram um papel muito liderante nos últimos anos na União Europeia, desde a sua escolha de Ursula von der Leyen, embora Angela Merkel tenha obviamente tido que ver com o assunto, mas Macron estava satisfeito. E muitas das propostas desta comissão, que vai terminar o mandato em breve, foram propostas muito alinhadas com a visão da Europa de Macron em muitas coisas. Portanto, essa liderança que Macron teve na Europa fica obviamente afetada. Macron é o grande perdedor hoje e, além disso, o governo francês, com grande probabilidade, não será um governo alinhado com o macronismo. Quer dizer, mesmo que viesse a haver aqui uma surpresa enorme e acabássemos por ter uma reviravolta e na segunda volta acabasse por haver um primeiro-ministro mais próximo de Macron do que estamos a imaginar, em qualquer dos casos, será sempre um governo mais desalinhado e um parlamento francês mais desalinhado com Macron do que o que tivemos até aqui. E a verdade é que embora o presidente francês represente França nas reuniões do Conselho Europeu, nas reuniões dos conselhos de ministros da Agricultura, da Economia, das Finanças, por aqui fora, há de ser o governo e, portanto, França, como eu dizia, na melhor das hipóteses, será um peso morto, isto é, teremos aqui um governo incapaz de decidir porque não há uma maioria clara. No pior dos cenários, pode ser um governo que agregue partidos de extrema-direita, democracias iliberais, entre a Hungria, os Países Baixos, França, diria que estamos a falar já de uma coisa com alguma dimensão.
O João Diogo Barbosa falava há pouco da questão da nomeação de um comissário, que pode ser o primeiro embate no caso de uma coabitação entre a União Nacional e o presidente Macron. Este nó será difícil de desatar?
Esse nó antecipa-se complicado para toda a gente, porque não é só internamente. Primeiro, vai ser o problema interno, quem é que é nomeado. Depois, coloca-se o problema de que a presidente da Comissão tem dito que quer que os Estados-membros mandem dois nomes, de um homem e de uma mulher. Terceiro, a presidente da Comissão pode, no limite, recusar o nome indicado. E, por último, o próprio Parlamento Europeu pode recusar. Aliás, nas últimas eleições, no último ciclo, recusou o primeiro nome indicado por Macron. O que significa que se Macron perder o embate com o governo liderado por Bardella, a seguir ainda podemos ter a presidente da Comissão a recusar o nome ou o Parlamento Europeu a recusar e a criar um conflito com o governo francês, o que não seria de todo inesperado. É uma pura especulação, mas eu estou convencido que se chegarmos à situação de ter um governo liderado pelo Rassemblement National, o mais provável é ser um governo que queira conflito. Isto é, ao contrário do que encontrámos noutros países em que houve uma tentativa de amenizar, parece-me que um governo nestas circunstâncias de coabitação procurará o conflito. Isso parece-me que antevemos más notícias.
Henrique Borné, outra questão que se foi colocando e que sabemos bem que Emmanuel Macron foi dando voz, nomeadamente no que diz respeito à guerra na Ucrânia, de fazer declarações, a dizer que enviaria militares para a Ucrânia. Isso também pode ter tido peso para os franceses na hora de votar, o envolvimento que Macron deu a entender que França queria ter também neste conflito?
A maior parte dos comentadores entende que sim. E foi uma declaração equívoca, porque criou confusão. Não se tem colocado a questão de haver tropas da NATO a combater. Já houve a questão de eventualmente haver militares europeus a treinar militares ucranianos, mas não se tem colocado essa questão. A verdade é que quando Macron começou a falar disso e deixou que se criasse uma perceção no mínimo equívoca, eventualmente querendo intencionalmente que esse equívoco permitisse que se avançasse nesse sentido, quando isso começou a ser discutido, estávamos a caminho das eleições europeias, mas não a caminho destas legislativas. Surpresa. Eventualmente, isso teve um efeito neste resultado. Há aqui outro problema, já agora que se chega aqui, é que é evidente, é manifesto, que a posição de Marine Le Pen e de Bardella em relação à guerra da Ucrânia não é sincera, isto é, nós conhecemos a relação e a proximidade em relação a Putin que Le Pen teve. Portanto, temos perfeita noção que o posicionamento que eles apresentam agora, mais sensível à Ucrânia, não é sincero. Portanto, é perfeitamente expectável que o apoio à Ucrânia vá ser substancialmente diferente, ainda por cima, explorando precisamente essa ideia de que eles estão do lado que não quer envolver-se na guerra, ao contrário do presidente. Portanto, por aí também parece-me que isso será explorado.
Henrique Borné, a nível do impacto que isto pode ter nas famílias políticas europeias. Sabemos que hoje, por exemplo, o Viktor Orbán anunciou a criação de mais uma família política dos patriotas da Europa, uma nova aliança que pretende reunir os partidos radicais de direita. E não sendo estas eleições europeias, não está diretamente relacionado com este grupo, mas até que ponto estes resultados também dão força aos grupos políticos e aos partidos políticos mais de extrema na União Europeia?
Dão, obviamente, porque o que acontece hoje é que é inevitável que todos os partidos que reclamam alguma proximidade à Marine Le Pen, sejam os que reclamam mais proximidade ou menor, mas todos eles, de alguma forma, vão dizer: "Fazemos parte desta tendência vitoriosa". Portanto, por esse lado, vai haver um aproveitar. Agora, no Parlamento Europeu há duas coisas a ter em conta que reduzem esta influência, mas enfim, isto é o presente. Quais são as duas coisas? Por um lado, há maioria mais do que suficiente do centro-direita, incluindo até conservadores. Há o centro-esquerda, incluindo os verdes, mais do que suficiente para que esses partidos à extrema não contem. Agora, a sua presença e as suas posições, e eu acho que isso é um aspeto que é preciso ter em conta, na medida em que isto reflete o posicionamento dos eleitorados, isto tem influência. Não me parece possível que os partidos políticos, seja o centro-direita, seja o centro-esquerda, possam ignorar completamente que há eleitores a votar desta maneira. Vão ter que perceber que há esta tendência, portanto, vão ter que olhar para isso. Agora, há aqui uma outra questão sobre os partidos de extrema-direita. A maneira mais fácil de perceber como eles não se podem entender é que aquilo, por exemplo, que Bardella tem dito que quer, que é menor contribuição francesa para o orçamento da União Europeia, troca de cara, como é evidente, com aquilo que muitos dos partidos nacionalistas de países que são beneficiários dos fundos europeus querem. Eu custo a acreditar que, imaginem, em Portugal, o Chega esteja muito entusiasmado com a opção do orçamento da União Europeia, que é o resultado dos objetivos de França. Portanto, há interesses absolutamente contraditórios entre os vários partidos da extrema-direita europeia. Agora, há um tom, uma tendência, e aí eles colaboram