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Junta-se agora a nós também o especialista em assuntos internacionais, João Diogo Barbosa. Boa noite, João Diogo. Obrigado por estar conosco. Que análise faz destes primeiros dados e resultados e declarações que já foram feitas nesta primeira volta das eleições legislativas em França?

Boa noite. Eu acho que o primeiro dado tem de ser o da vitória da RN, pelo menos nesta primeira volta. E é uma estreia da União Nacional vencer eleições parlamentares em França, se calhar há 10 anos, quando parecia possível, ou pelo menos plausível, que Marine Le Pen vencesse as presidenciais. Se calhar não era tão fácil imaginar que depois tivesse um governo, porque sempre se entendeu que seria mais fácil fazer uma barragem ao nível do Parlamento. Agora parece que a situação se inverte e a RN fica mais perto de formar um governo antes de chegar à presidência. E acho que não se pode falar em vitória da RN sem falar numa derrota do macronismo, ou seja, uma derrota do presidente Macron e do seu partido, que acaba por ser também uma derrota do centro político em França. Mas é também notável como a proposta do macronismo, que inicialmente era de fazer oposição à Le Pen e de erradicar a extrema-direita em França, tem vindo a perder força desde que teve as suas grandes vitórias eleitorais por volta de 2017. Tem vindo gradualmente em declínio e parece estar agora a chegar a uma situação muito difícil, em que é o terceiro bloco político, pode ser forçado no limite a ser um parceiro júnior da coligação de esquerda no governo, e é muito difícil para Macron, que ainda está aí mais três anos como presidente de França, fazer grandes reformas ou continuar até o seu curso atual. Parece claro depois desta primeira volta das eleições, que o macronismo já não é uma proposta eleitoralmente viável e pode não o ser durante os próximos anos. Portanto, nós estamos a assistir novamente a uma reconfiguração do panorama político em França, que depois do aparecimento de Macron e desta quase que anomalia dentro da União Europeia, de um partido que estava ao centro e que não era um partido mainstream, mas também que não chegava a partido dos extremos, parece que estamos de volta à ideia dos dois blocos, com o adicional de que quer à direita, quer à esquerda, esses blocos estão mais longe do centro, pelo menos por agora, e pode ser mais difícil imaginar qualquer um deles a ter uma maioria estável de governo. Portanto, só para terminar em termos mais gráficos, o partido de Macron neste momento na Assembleia Nacional tem cerca de 250 lugares e as melhores previsões aos dias de hoje dão-lhe cerca de 100. Portanto, é uma queda absolutamente brutal. Ao mesmo tempo, nós temos a RN, que atualmente tem 88 lugares, a ter previsões que apontam para os 280, 290 talvez, como uma possibilidade muito forte. Esta é uma mudança sísmica, quer em França, quer na União Europeia, uma vez que se conta ainda muito com a influência e com a capacidade de decisão da França e do presidente Macron para guiar as prioridades da Comissão Europeia, por exemplo, mas também para desbloquear, por vezes, alguns impasses que surjam no Conselho Europeu. E vai ser muito interessante perceber como é que um presidente Macron enfraquecido e a ter de coabitar com o governo, quer do bloco da direita, quer do bloco da esquerda, vai conseguir salvar a sua face nos próximos anos.

João Diogo Barbosa, como é que podemos olhar para a posição em que fica Emmanuel Macron depois destes resultados? Foi um erro de cálculo esta convocação de eleições antecipadas?

Acho que é evidente, e até no círculo íntimo do presidente Macron, dificilmente haverá alguém a dizer que não foi um erro. Aliás, é um erro que segue uma série de erros estratégicos de Macron, que não eram assim tão habituais, mas que surgem até da campanha eleitoral para as europeias, que me parece ter sido mal conduzida e em que o resultado foi ainda pior do que agora. Foi numa altura em que o presidente Macron via péssimos resultados nas sondagens para o seu partido e decidiu tornar as eleições europeias uma espécie de referendo ao apoio à Ucrânia, e depois perde esse referendo e não tem capacidade de, ao marcar eleições legislativas de surpresa, escolhendo o seu próprio timing, trazer uma mensagem nova e uma energia nova para o eleitorado. É bastante surpreendente que o partido de Macron, que contava com um primeiro-ministro que, se calhar, ao contrário do presidente, diziam-nos as sondagens, era uma personalidade popular, não consegue depois, neste mês, trazer nada de novo, trazer um argumento que fosse mais ou menos plausível, porque o argumento foi: "Nós somos o terceiro bloco e qualquer um dos extremos não tem solidariedade suficiente para governar". E nós já sabemos como esse tipo de argumento tem tido muita dificuldade em valer nos últimos anos em vários estados da União Europeia, e França tornou-se agora mais um caso disso mesmo. Nunca foi uma campanha pela positiva, foi sempre a ideia de os nossos adversários não têm competência para governar. E atenção, se nós vencermos, o nosso plano de governo também vai ter que ter em conta que França tem hoje em dia uma dívida de cerca de 110% do PIB, tem um déficit de 5% do PIB, e portanto vai ser um programa de contenção Já ninguém diz austeridade, mas essa era a linha que estava subjacente. Portanto, os eleitores castigaram, por um lado, o presidente, mas também a falta de mensagem da maioria presidencial, que vem em queda já há vários anos e parece que vai ser difícil até 2027 recuperar uma nova energia. Portanto, esta pode não ser a última reconfiguração da política francesa. Vamos ver o que é que acontece para a semana. Nós só vamos ter listas definitivas de candidatos na terça-feira, e é possível que haja negociações entre a Frente Popular, o partido de Macron e os Republicanos, que são os resistentes do centro-direita que não querem apoiar a RN. Pode haver aqui negociações em que essencialmente alguns candidatos desistam para que o regime tenha mais possibilidades de se opor à RN. Sim, vamos ver como é que isso acontece. Já vimos vozes no partido de Macron para que se apoiem candidatos da Frente Popular que sejam comunistas ou do PS, mas não aqueles que pertençam ao partido de Jean-Luc Mélenchon, a França Insubmissa, e portanto vai ser um conjunto de dias muito frenético de negociações. Vamos ver o que sai daí, com a possibilidade de, se os cálculos forem bem feitos e se a próxima semana de campanha correr bem, há até a possibilidade de haver uma maioria entre a Frente Popular e, por exemplo, o bloco parlamentar do macronismo, do Ensemble, que seria também uma novidade. Ou seja, mesmo que a RN não consiga uma maioria, pode ser possível fazer uma maioria entre a esquerda e o centro de Macron, que seria quase uma pré-base para as presidenciais de 2027, mas de qualquer forma seria território novo e seria território que deixaria o presidente Macron com grande dificuldade de impor o seu programa. Macron tem um estilo que não é muito dialogante, não é muito agregador, é muito centralizado na sua figura e na sua direção. Será sempre, independentemente do resultado da próxima semana, um momento em que o macronismo conhece uma nova etapa, em que o presidente Macron é forçado a ter uma nova postura. E acho que o primeiro grande embate pode ser, desde já, a nomeação do comissário francês para a Comissão Europeia. Os partidos acham que essa é uma competência do governo, a presidência acha que é uma competência do presidente, e pode ser aí o primeiro sinal de quão aberto estará Macron a dialogar com o seu governo a partir da próxima semana.