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Tenho comigo o capitão Mike Alexandre, que é capitão aqui em Newark. Aliás, está vestido a rigor. Hoje é um dia particularmente difícil para o ocidente, claro, mas difícil também para a comunidade portuguesa.

Olá, boa tarde. Naquele dia, eu lembro-me como se fosse ontem, eu estava a ter aulas e o primeiro avião bateu na primeira torre e pensávamos que era um acidente. Passado 20 e tal minutos, o segundo avião bateu e nós sabíamos que estava em guerra. Terrorist act. O nosso diretor chamou toda a gente para uma seção.

Estava na academia de polícia, certo? Na altura, na formação?

Sim, exatamente. E o nosso diretor chamou nós todos para um sítio que ajuntava-se muitas pessoas e cada pessoa tinha uma coisa para fazer. E eu fui entregue a fazer escorts. Os feridos que tinham a chance de viver, eles vinham de comboio de Nova Iorque para Newark, porque nós temos cinco hospitais naquele tempo, e eu ia fazer um escort à frente com o carro da polícia e a ambulância ia para trás para chegar ao hospital o mais depressa possível. Eu se calhar fiz mais de 60 voltas para trás e para frente pelos hospitais entre a cidade de Newark.

Que idade é que tinha nessa altura?

Tinha 25 anos. E lembro-me como se fosse ontem.

Estava a começar a vida.

Passado dois dias, eu fui ao Ground Zero para ajudar lá. A primeira coisa que eu notei logo era que parecia um nevoeiro, não se conseguia ver quase nada. Estava o ar cheio de pó, de vidro, de materiais que não era normal que estivessem no ar. A primeira coisa que eu notei foi o cheiro.

Está a ficar arrepiado.

São imagens muito vivas. Não se consegue explicar o cheiro de um corpo queimado, mas não era só um, eram milhares. E coisa que eu ouvi também eram os apitos dos bombeiros que tinham falecido. Uns eram altos, que estavam próximo do prédio, e outros que eram muito baixinhos, estavam enterrados já, e as baterias estavam a descarregar e começaram a apitar passado dois dias, e eram eles falecidos lá, baixo do collapse do towers.

Como é que com 25 anos se lida com isto?

Isso é mesmo impressionante, realmente. Desculpa lá?

Como é que com 25 anos se lida com isto, se lida com este cenário?

Não estou a perceber essa palavra.

Tinha só 25 anos, na altura. Como é que conseguiu passar por isto tão novo?

A experiência na vida, ter um bom sempre e ajuda da família e dos colegas do trabalho. Nós todos experienciamos a mesma coisa e juntamo-nos sempre, falamos até hoje. Já há pessoas que se formaram, ainda falamos quase todas as semanas. De vez em quando ainda ajuntamo-nos todos para um almoço ou um jantar, para ter aquela amizade ainda.

Assinalam esta data todos os anos?

Sim, até hoje eu tenho quatro memórias que eu tenho que fazer. Eu vou ao City Hall, é a Câmara Municipal, vocês dizem em português. Vamos ter lá uma cerimónia, vamos bater à bandeira. O vereador Mike Silva, de Newark, da Ironbound East District, que eu sou comandante cá de baixo, ele também vai ter uma memória aqui embaixo e tem mais uma no meu quartel e outra numa destina ali onde faleceu um senhor no prédio naquele dia, vamos também lá dar respeito a ele.

Essa cerimónia é uma cerimónia muito importante. Explique-nos por que essa cerimónia do raising the flag, o hastear da bandeira.

Tu podes deitar-nos abaixo, mas nós não vamos cair. Nós ainda vamos levantar outra vez e continuar a andar. E a única coisa que eu aprendi naquele dia é a tua vida é muito precious. Amanhã não é garantido. Vive a tua vida e tenha o olho aberto para as pessoas que querem fazer tu, o teu país e a tua nacionalidade mal.

Já nasceste cá, não é?

Já estás a ver que o meu português está um bocadinho enferrujado. Nasci cá, mas os meus pais são de Portugal, da zona do Cadaval, Torres Vedras. Nasci cá, mas andei na escola portuguesa.

Nesta altura, é um dia em que há medidas de segurança maiores, mesmo aqui em Newark?

Só os nossos quartéis, o Federal Building, nós temos um Federal Building também aqui, um edifício federal. Temos coisas em cimento para guardar, para os carros não conseguirem passar e certas zonas não se pode estacionar à volta do block, eu não sei dizer o block.

O quarteirão.

O quarteirão. Não se pode estacionar à volta do quarteirão de certos edifícios federais de governo e de polícia e de DEA e FBI aqui.

Demorou a preparar essa operação, enfim, a tratar da segurança para este dia?

Foi imediatamente. Quando aquilo aconteceu, entre uma semana, o presidente dos Estados Unidos deu ordens e todas as cidades a apertarem a segurança deles. Até o aeroporto, eu lembro-me bem que o No aeroporto, antigamente, entravas e entre 10 a 15 minutos estava dentro do aeroporto. Viajei dois meses depois do Nine Eleven e levei uma hora e meia só para entrar dentro do aeroporto, porque tinha três ou quatro checkpoints ou seguranças.

E hoje em dia também se sente muito, quando se chega aos Estados Unidos, as medidas de segurança nos aeroportos?

Nós não queremos repetir este dia nunca mais. E temos que ter preocupação, porque sabemos que há pessoas nesse mundo que não são boas e temos que estar preparados e vigilantes contra essas pessoas para toda a gente estar safe ou para estar com segurança da vida deles próprios.

Mas também se perderam algumas liberdades.

Nos Estados Unidos, eu acho que é o único país que tem as liberdades todas. Se calhar, é um bocadinho inconvenient, mas tu ainda tens as tuas liberdades todas. Nós só temos é de ter mais preocupação com certas pessoas que querem fazer-nos mal e temos que revistar as pessoas um bocadinho mais para entrar num edifício federal, municipal ou do governo.

Tens medo que se repita de alguma forma?

Às vezes eu penso nisso, mas eu acho que nós aprendemos com essa lição e eu próprio não me esqueço e tenho sempre o olho um bocadinho mais aberto. E eu posso te explicar, eu estive em Portugal este ano e eu vi certas coisas que abriu o olho, em Lisboa.

Como por exemplo? Estás a pensar.

Eu quero dizer as coisas corretas, eu não quero ofender ninguém, mas eu não estava confortável em certas zonas de Lisboa, porque Portugal é Portugal. Não é país de mais ninguém, é Portugal.

Sente-se muito Portugal aqui onde estamos. Só para as pessoas perceberem, nós estamos numa pastelaria chamada Pão da Terra. Parece que estamos em Portugal aqui, não é?

Sou Newark, New Jersey.

Essa é a rua mais portuguesa de Nova Iorque.

Tu conheces toda a gente. Se tu vais andar nas estradas, toda a gente fala português. Temos restaurantes, lojas, pastelarias, padarias, tudo portuguesas. Eu até sou português .

O Ricardo estava aqui a recordar que esta é a rua mais portuguesa de Newark, Nova Iorque.

Exatamente. E a nossa Festa de Portugal, todos os anos temos, a parada corre esta estrada abaixo e dia 10 de junho nós celebramos o Dia de Portugal e agora em junho, fechamos a estrada inteira, já há 47 anos seguidos, e festejamos o Dia de Portugal com comidas tradicionais portuguesas, música, folclore e muitas pessoas de Portugal até vêm cá visitar e conviver connosco.

É uma festa absolutamente incrível. Para quem não conhece, esta é Ferry Street, é uma avenida larga e fica de facto completamente cheia de portugueses e de luso-americanos. Dizem que é difícil passar na rua. Mas deixa-me só recordar agora aqui um pouco mais, voltar 25 anos, porque há um pormenor muito curioso na comunidade portuguesa. É que a comunidade portuguesa foi muito importante nas operações de resgate pós 11 de setembro.

Eu sei próprio, muitos portugueses, polícias, bombeiros, que foram lá ajudar. Até eu conheço pessoas portuguesas que ajudaram a construir o Freedom Tower, que lá agora existe. E nós pomos o nosso carimbo, onde nós chegamos, nós pomos sempre o carimbo, porque nós somos pessoas que andam pra frente, não pra trás.

É absolutamente incrível pensar que tantos portugueses estiveram na primeira resposta logo ao atentado. Isso também causou alguns dissabores. Por exemplo, lembro-me de um bombeiro que acabou por ter uma doença respiratória, que muitos tiveram, muitos dos primeiros socorristas e bombeiros tiveram, exatamente por causa da qualidade do ar.

Eu sei que no meu department, três polícias já morreram por causas respiratórias, que respiraram naquele dia e faleceram entre dois, três anos atrás, faleceram por causa disso.

Houve já, digamos que, vítimas pós 11 de setembro na comunidade portuguesa.

Que eu saiba, eu já ouvi de meia dúzia de portugueses que estiveram lá no mesmo dia, no dia do ataque, ou três ou quatro dias depois, faleceram por causa do pó que estava no ar naquele dia.

Só para terminar esta entrevista, porque eu sei que ainda tens trabalho a fazer, tens muito trabalho para ir fazer. Hoje é um dia também muito trabalhoso, exatamente por ser o dia 11 de setembro. Só para terminarmos esta entrevista, qual é a tua recordação? Quando fechas os olhos, o que é que recordas daquele dia?

My prayers and thoughts go out to all the families that lost a loved one. Vamos tentar não repetir isso. O meu coração está com as famílias todas naquele dia que perderam família, amigos, porque eu perdi dois amigos, não era polícia, que trabalhavam lá, mesmo no prédio, tinham lá negócios. Eu perdi dois amigos naquele dia. E para nunca esquecer e para nunca repetir e fazer tudo ao teu alcance para não repetir esse dia cá e no mundo inteiro.