Qual é exatamente o momento em que um ex-ultraortodoxo sente que se libertou de uma religião cheia de interdições, que castiga quase todo o contacto com a informação e com o mundo exterior? A pergunta está mal formulada — na maior parte dos casos é um processo que começa na adolescência, com muitas dúvidas postas à família, que não encontram uma resposta que faça grande sentido.
Mas no caso de Yossi Klar, 34 anos, ex-ultraortodoxo, há um momento simbólico. Foi durante o shabat, um período de pelo menos 25 horas, que começa antes do pôr do sol de sexta-feira e termina depois do pôr do sol de sábado, durante o qual devem imitar o descanso de Deus ao sétimo dia.
Um judeu ultraortodoxo deve respeitar de forma rigorosa uma lista de proibições neste período, que passam por não conduzir, não cozinhar, não usar tecnologia, nem ligar a eletricidade. Em pleno shabat, em sua casa, com 18 anos, quando já tinha a certeza de que ia deixar a religião, Yossi assinalou o momento simbolicamente: aproximou-se de um interruptor da luz, acendeu, confirmou que o mundo não tinha acabado, e desligou logo a seguir. Depois, viu toda a primeira temporada de Seinfeld, algo que até aí não poderia fazer — não só durante o shabat, como no resto dos dias, uma vez que não era suposto ver televisão. Nunca.
▲ Yossi Klar, 34 anos, num miradouro com vista para a cidade velha de Jerusalém. Cresceu como ultraortodoxo e agora ajuda-os a integrarem-se no exército
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Eva Steinmetz, 42 anos, também desafiou as interdições em pleno shabat: conduziu até casa de uma tia, durante 80 minutos. “Eu queria ver se Deus ia ficar tão zangado por eu conduzir no shabat ao ponto de fazer algo acontecer no caminho, um pneu explodir, sei lá. E não aconteceu nada!”
Podem parecer episódios insólitos, caricaturais, talvez mesmo até humorísticos, para um não crente que veja de fora, mas exigiram atos de uma certa coragem, para dois miúdos de 18 anos, que cresceram educados por famílias ultraconservadoras e escrupulosas respeitadoras de um alargado conjunto de regras rígidas, para preservar a dedicação à religião e impedir desvios ou tentações.
Estudaram sem que lhes tivessem ensinado uma palavra de inglês na escola. Yossi apenas aprendeu porque a família foi viver dois anos para os Estados Unidos. De Matemática sabiam pouco mais que zero, literalmente: Yossi diz que um aluno ultraortodoxo talvez consiga fazer contas de somar e de multiplicar mas já lhe escapará uma operação tão simples como calcular ou interpretar uma percentagem (que em Portugal se aprende a partir dos 9 anos).
Vidas duplas na adolescência a fazer perguntas às escondidas ao “rabino Google”
Sem se conhecerem, pertencendo a comunidades diferentes, e em anos diferentes, ambos viveram vidas duplas na adolescência. À vista desarmada, respeitavam quase todos os rituais e envergavam toda a indumentária que torna os ultraortodoxos facilmente identificáveis: no caso dos rapazes, patilhas compridas encaracoladas, chapéu preto de feltro de aba larga, fato preto, camisa branca; no caso das raparigas, saias ou vestidos em tons sóbrios a cobrir totalmente os joelhos, e camisas abotoadas até ao pescoço e sempre a tapar os cotovelos. Às escondidas, ambos iam à procura de respostas.
Yossi arranjou uma pen que permitia ligação à internet, teve a sorte de ter vizinhos com redes wifi que não exigiam password, e fez perguntas ao “rabino Google”, como lhe chamou, com graça. As respostas que ia obtendo confirmavam as suas dúvidas sobre o universo fechado em que estava a ser educado e reforçavam as suas certezas de que não ia continuar ali.
Também começou a procurar séries de televisão, que estavam totalmente interditas: tropeçou em Mad Men, ficou fascinado com a figura do protagonista, Don Draper, e percebeu que talvez gostasse de trabalhar no mundo da publicidade. Foi o que fez, assim que foi expulso da escola por manifesta falta de fé: foi ajudado por uma irmã, também ela ex-ultraortodoxa, que trabalhava na agência.
Mas o facto de ainda manter o visual haredi permitia-lhe ser aproveitado para causar boa impressão em reuniões com clientes ultraortodoxos. (Haredi, que significa temer a Deus, é a expressão usada pelos ultraortodoxos para se referirem a si próprios, mas são basicamente sinónimos).
Uma ida ao centro comercial. E os encontros com rapazes sem pensar em tocar numa mão
No caso de Eva Steinmetz, os primeiros sinais de rebelião depois das perguntas insistentes passaram pela roupa, e pelo gesto simples mas desafiante de desabotoar o botão de cima da gola da camisa quando tinha calor, ou de arregaçar as mangas deixando o cotovelo à mostra; também sentiu a curiosidade de entrar num centro comercial, mas foi apanhada, denunciada e repreendida; e aos 17 anos atreveu-se a conhecer rapazes: “Apenas para conversar, nunca me passou pela cabeça tocar numa mão ou dar um beijo!”
Os casamentos são arranjados entre os ultraortodoxos. Há uma espécie de matchmaker, que recomenda a cada jovem uma potencial futura esposa (ou marido, no caso das raparigas). São mostradas fotografias a cada adolescente, que pode decidir se quer avançar para um encontro, uma conversa sobre o futuro. Pode haver um segundo, talvez um terceiro encontro, mas depois tem de haver uma decisão. Se forem casar, os pais combinam o que vão oferecer aos jovens e os preparativos da cerimónia. É suposto acontecer a partir dos 17/18 anos.
“Tive um sobrinho que esperou até aos 25 e já era considerado velho, é de evitar. Até porque só ficam na yeshiva [escola judaica] a estudar a Torá. A vida dele melhorou muito depois de casar”, conta Yossi.
▲ Eva Steinmetz, 42 anos, conta como as mulheres haredim têm de trabalhar para manter famílias com muitos filhos enquanto os homens só estudam a Torá
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Os homens e as mulheres ultraortodoxos têm vidas muito diferentes depois do casamento: eles concentram-se no estudo da Torá, como eruditos religiosos; elas devem trabalhar para sustentar a família e ter filhos. Muitos filhos. A mulher do irmão mais velho de Eva (que continua a ser ultraortodoxo e deixou de lhe falar quando ela saiu), tem 18 (dezoito) filhos. “Ok, aqui vamos nós, está pronto para isto? Não tenho a certeza se alguém pode estar pronto para isto”. Eva procura no telemóvel um retrato de família do irmão, onde aparecem 30 pessoas, juntando já maridos e mulheres de alguns filhos. “Isto é só uma família. Eu poderia ser uma destas pessoas”, admite, sublinhando a incredulidade.
Talvez este seja um caso extremo, mas é comum os casais haredim chegarem aos dez filhos. Uma tão grande taxa de natalidade está aliás na origem do debate público sobre a incorporação dos ultraortodoxos no exército.
O peso de estragar casamentos arranjados para o resto da família
Dificilmente haveria melhor entrevistado para ajudar a enquadrar este tema do que o próprio Yossi Klar: quando estava a trabalhar na agência de publicidade, reparou que havia muitos funcionários que se tinham alistado no serviço militar, ou que eram casados com militares, o que o levou a pensar em alistar-se também. Por questões de saúde, não podia combater no terreno, mas foi recrutado pelo departamento do exército que gere a incorporação da minoria de ultraortodoxos que comparecia nas incorporações, contrariando as indicações dos líderes espirituais.
Antes, mentalizou-se para o que achou que seria o momento mais assustador: anunciar aos pais que ia para o exército. “Estava preparado para o que quer que fosse, ele podia dizer-me ‘vai-te embora’. Mas disse “ok”. Ainda acrescentei: “Bem, vou começar a vir a casa com farda, e a minha kippah [Touca ritual judaica usada por homens religiosos] provavelmente vai mudar ou talvez deixe de estar lá.” E ele: ‘Está tudo bem. Nós amamos-te, não há problema.’ E eu não tinha a certeza de que essa seria a resposta deles, e foi uma resposta incrível. A maioria dos pais haredi não reagiria assim.”
▲ Os ultraortodoxos praticamente não aprendem inglês nem matemática na escola
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Teve a sorte de ter tido duas irmãs mais velhas a deixar os ultraortodoxos antes dele, o que provocou grande escândalo na comunidade, e diminuiu o lugar da família na hierarquia social, uma espécie de rating que cruza a herança familiar no seio dos ultraortodoxos, a fortuna, a influência política e cultural, a beleza e o nível de fidelidade de toda a família aos princípios haredi.
Quanto mais baixo for este rating familiar, menos escolhas têm os descendentes nos casamentos arranjados: “Provavelmente ter-me-iam arranjado uma noiva, mas ela também teria irmãos e irmãs que saíram… ou poderia não ter uma mão, ou ser cega, ou seja o que for.” Não chegou a acontecer, porque Yossi saiu antes de chegar a essa fase. Mas os dois irmãos não o autorizam a ver os 13 sobrinhos, com receio de que seja uma má influência (só os vê em casamentos).
Eva Steinmetz também sentiu esse peso, de estar marcada como problemática, e a família estava mesmo preocupada por não lhe conseguir arranjar “nenhum bom rapaz”.
Acabou por ser apresentada a um rapaz ultraortodoxo que vivia a religião de forma mais leve e, para não correr o risco de lhe arranjarem outro casamento, numa altura em que todas as raparigas só falam e pensam em constituir família, disse aos pais que ia casar com ele, apesar de ele não ser hassídico (a corrente do judaísmo ortodoxo da família de Eva). “Não pode acontecer, não na nossa família, não nas nossas regras!”, responderam os pais. Os três irmãos rapazes disseram imediatamente que não voltavam a falar com ela. Até hoje, 24 anos depois.
Esse casamento durou apenas dois anos, até Eva se afastar de vez da religião. Apesar da falta de bases na educação, estudou por si própria dez anos de matemática num só, para conseguir entrar na universidade e fazer o curso de Direito. Acaba de receber a notícia de que foi aceite para fazer um doutoramento na Universidade de Nova Iorque, onde vai aprofundar estudos em Liderança e Inovação, especificamente focados sobre a tomada de grandes decisões sem ter informação suficiente — que é algo que considera que falta no seio dos ultraortodoxos.
“Depois do 7 de outubro, precisámos dos ultraortodoxos e eles não vieram”
Nos três anos em que Yossi esteve no departamento militar, já se sentia laico interiormente e passou a sentir-se também laico em termos visuais, deixando de usar a touca judaica (kippah).
Apesar de ser muito jovem, ajudou a preparar as condições para integrar os ultraortodoxos, compatibilizando a vida militar com as regras da religião: ajudou a garantir por exemplo que haveria comida kosher confecionada com as restrições indicadas; ou que não teriam de ter contacto com mulheres: ainda esta semana o The Telegraph noticiou que 16 militares haredi se recusaram a participar numa missão, por estar prevista a participação de uma paramédica.
Devido à impreparação escolar, os ultraortodoxos recebiam uma formação especial acelerada: “O percurso é construído de forma a pegar em alguém que não sabe nada sobre o exército e, em poucos meses, se transforma num soldado que é útil para o exército.”
Esta formação era financiada pelo Ministério do Emprego, na expetativa de ajudar a preparar os homens ultraortodoxos para eventualmente entrarem no mercado de trabalho mais preparados, em vez de ficarem desempregados e sem capacidade para desempenhar a maior parte dos empregos, por falta de aprendizagens básicas. Isto já tendo em conta que o número de homens ultraortodoxos que tem um emprego é uma minoria, que carece de autorização dos líderes da comunidade.
Depois de cumprir o seu tempo no exército, Yossi foi alto quadro de uma empresa tecnológica ligada ao tratamento de água, mas esteve sempre ligado à integração de jovens ultraortodoxos, coordenando atualmente uma ONG que tem esse objetivo.
▲ Um dos líderes espirituais da comunidade ultraortodoxa aconselhou os jovens que recebam notificações do exército a deitá-las na sanita
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Mesmo que discorde dos fundamentos, o seu passado religioso permite-lhe compreender o outro lado: “O argumento deles não é mau. Desde 1948, a vontade de permanecerem separados de tudo o que tem a ver com o Estado infiltrou-se no modo de vida e na forma de ver o mundo da população haredi geral. Há 70 anos apenas 400 pessoas estavam isentas do serviço militar, o resto alistava-se. Mas cada vez mais pessoas começaram a ver o Estado de Israel como algo que não é nosso, e o Estado de Israel não fez nada quanto a isso.”
Yossi Klar recorda o acordo fechado com Ben-Gurion, primeiro primeiro-ministro de Israel, em 1948. “Os haredim disseram-lhe: ‘Fomos quase completamente aniquilados, a nossa religião e os nossos ensinamentos, a nossa Torá… Ninguém está a estudar, por isso deixemos 400 pessoas fazer isso’ Mas depois os 400 transformaram-se em 70 000.”
Quanto mais poder político iam ganhando os líderes ultraortodoxos, conseguindo representações parlamentares fundamentais para viabilizar governos, mais fácil se tornava garantir na prática que um número tão crescente de estudantes da Torá ficava livre do exército.
O 7 de outubro revelou-se fatal para este confronto, explica Yossi Klar. “Durante muitos anos os ultraortodoxos conseguiram estar isentos do serviço porque havia a sensação de que, quando precisássemos mesmo deles, eles se juntariam a nós. Depois do 7 de outubro, precisámos deles, e eles não vieram. E isso foi muito surpreendente para a maioria. Não para mim, porque eu sabia que eles não iam aparecer, porque não sentem um sentimento de responsabilidade perante o Estado. Veem o Estado como algo que não é deles, e não apareceram. Uma semana, duas semanas depois do 7 de outubro ficou bastante claro que eles não vinham.”
Ultraortodoxos insultados e cuspidos por israelitas revoltados
A reação em largos setores da sociedade israelita foi de fúria e raiva contra os ultraortodoxos, por quererem continuar a escapar de um esforço solidário em defesa do país, numa altura em que muitos israelitas estavam envolvidos ativamente com as forças armadas ou tinham familiares a combater e a morrer.
Acumularam-se conflitos nas ruas, com ultraortodoxos a serem insultados e mesmo cuspidos nos transportes públicos, alcunhados como “parasitas da sociedade”.
As manifestações da comunidade ultraortodoxa contra o serviço militar obrigatório chegaram a juntar dezenas de milhares de pessoas em Jerusalém, mas eram frequentemente perturbadas por grupos de contramanifestantes.
▲ “Como confiam tanto em Deus, sentem que a única coisa que precisam de fazer é rezar", explica Yossi Klar
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Também cresceu o assédio e a violência dos ultraortodoxos dirigida aos seus poucos membros que se alistaram no exército, quando eram apanhados a regressar aos bairros haredi com a farda militar: no ano passado, alistaram-se cerca de 1.350 jovens que cresceram haredi.
O ex-Grão-Rabino Sefardita de Israel e autoridade espiritual do partido ultraortodoxo Shas, Rabino Yitzhak Yosef, chegou a dizer aos seus alunos para atirarem as convocatórias para o serviço militar para a sanita e puxarem o autoclismo: “Não pensem nisso e não tenham medo”.
O presidente do partido ultraortodoxo Judaísmo Unido da Torá (UTJ), Yitzhak Goldknopf, demitiu-se em 2025 do cargo de ministro da Habitação do governo liderado por Benjamin Netanyahu, dizendo que tinha uma promessa escrita do primeiro-ministro de que iria aprovar uma lei que permitiria que os ultraortodoxos ficassem livres do serviço militar. E ameaçou várias vezes que os ultraortodoxos prefeririam sair de Israel, se tivessem mesmo de ser incorporados no exército.
O novo partido ultraortodoxo que promete arranjar 12 mil soldados: “Eles odeiam-no”
Nestas eleições há uma novidade surpreendente: um partido liderado por um ultraortodoxo que defende que os ultraortodoxos que não estão a estudar a Torá devem alistar-se. “Se as forças de Defesa de Israel dizem que precisam de mais 12 mil soldados para combater, nós podemos arranjá-los”, diz Moti Leitner, líder do Partido Público Haredi.
É incerto que consiga passar a barreira dos 3,25% de votos que lhe permita representação parlamentar, mas há pelo menos um voto que deve ter assegurado: o de Yossi Klar, que concorda inteiramente com a visão deste novo partido, de que os ultraortodoxos devem partilhar responsabilidades nos destinos de Israel, o que implica envolverem-se ativamente no esforço de Defesa.
Segundo Yossi Klar, o líder deste novo partido está a sofrer retaliações de parte da comunidade ultraortodoxa: “Está a ser ameaçado, eles odeiam-no, estão zangados com ele. Mas ele é muito corajoso.”
▲ Os ultraortodoxos rejeitam a incorporação militar para poderem dedicar-se aos estudos religiosos
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Enquanto não houver uma lei a formalizar a dispensa dos ultraortodoxos do serviço militar, eles podem ser detidos, como aconteceu com centenas de haredim nos últimos anos, por fugirem à incorporação. Todos os partidos (exceto os dois principais ultraortodoxos) se mostram sensíveis à indignação do eleitorado e insistem que não vão aceitar essa lei: “As pessoas vão decidir como votam com base nesta questão”, reforça Yossi Klar. Mas podem precisar dos deputados haredi para viabilizar um governo e ter de aceitar ceder e recuar na palavra dada aos eleitores.
“Quantos conseguem realmente estudar a Torá o dia todo”
Eva Steinmetz tem sido apoiante de Netanyahu, acha que é um político “realmente especial”, mas ainda não se decidiu para as eleições desta terça-feira: “Está a levar-nos para um lugar muito perigoso.”
E tem muitas dificuldades em empatizar com esta batalha dos ultraortodoxos: “A ideia de estudar a Torá o dia todo foi criada não há muitos anos! Não está escrita na Torá! E depois, quantos conhecemos que conseguem estudar na universidade o dia todo, que são realmente inteligentes e conseguem fazer coisas realmente boas com o estudo o dia todo? Não muitos.”
Incomoda-a por exemplo que os homens haredim não trabalhem em Israel, mas vê uma diferença nas comunidades de Nova Iorque e Londres: “Todos eles trabalham. De manhã acordam, vão trabalhar, trazem comida e dinheiro. Têm tempo para estudar a Torá, quando acreditam nisso, gostam, fazem-no, mas não de manhã à noite. Nada disso! Não têm ninguém a pagar-lhes, precisam de trabalhar, sabem o valor de trabalhar, de trabalhar por dinheiro.”
Muitos membros de comunidades ultraortodoxas recebem abonos de família e outros apoios financeiros por cada criança que nasce. “Não é pouco dinheiro, é muito dinheiro”, sublinha Eva, que critica também o desequilíbrio de género: “As mulheres religiosas precisam de trabalhar, de manter famílias muito grandes, muitos filhos, manter tudo enquanto os homens estudam a Torá e não trabalham, não trazem dinheiro para casa. As mulheres precisam de fazer tudo, mas não têm realmente o poder de decisão, nem na comunidade nem em casa”.
▲ Muitos ultraortodoxos cortam radicalmente com elementos da família que deixem a religão
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
No limite, Eva acha que qualquer ultraortodoxo que não queira partilhar responsabilidades no esforço de defesa pode dizer: “‘Se queremos viver aqui precisamos de estar no exército? Ok, então não queremos viver aqui.” Vivam fora! Vão para os Estados Unidos, vão para não sei onde!”
Na tentativa de explicar a defesa da fé e da religião para justificar a oposição dos ultraortodoxos ao serviço militar, Yossi Klar simplifica a forma como veem o desfecho: “Como confiam tanto em Deus, sentem que a única coisa que precisam de fazer é rezar — e eles realmente acreditam nisto, não acho que sejam burros, são muito religiosos. Acham que Deus fará o que precisar de ser feito. Uma parte da forma de Deus fazer o que precisa de ser feito é garantir que todos os outros sirvam. E de um ponto de vista factual, nós estamos a ganhar a guerra, sem eles. Por isso talvez as orações deles estejam a funcionar!”