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Em directo, o embaixador António Monteiro. Muito obrigada por estar com a Rádio Observador. Foi o maior reinado da história do Reino Unido, dos maiores do mundo, o de Isabel II. É uma figura incontornável. Que legado é que deixa a rainha?
Eu penso que deixa, sobretudo, o legado de um exemplo enorme de sabedoria, de inteligência, de contenção, de capacidade de superação dos momentos mais difíceis e de defesa intransigente da instituição que ela chefiava, que era a própria monarquia. E creio que esse será o maior legado dela, o estrito cumprimento de todas as regras que moldam a monarquia inglesa, de maneira a garantir a continuidade da própria instituição. E ela fê-lo sempre também com a ideia desta visão de uma Grã-Bretanha, de uma Inglaterra também global, nomeadamente pelo apoio e pelo interesse que ela sempre dedicou à Commonwealth.
E olhando para este novo ciclo que se abre, o Rei Carlos III irá estar à altura? Nós ouvíamos aqui, há segundos, Paulo Rangel dizer que o caminho vai ser duro, até porque há aqui sempre esse risco, que acaba por ser inevitável, de comparação com Isabel II.
Eu creio que será muito difícil para o novo rei seguir estritamente as pisadas da mãe, porque tem a sua personalidade própria e tudo mais. Mas, ao mesmo tempo, eu creio que ele teve tempo suficiente para se preparar para este momento, porque para mim foi sempre evidente que, no respeito às regras que moldam a monarquia, que ele seria o sucessor e que a mãe o viu como tal. Aliás, basta ver que ela própria preparou até a sua própria entrada para chefe da Commonwealth. E por isso ele tem este tempo de preparação que lhe foi dado pela rainha e penso que ele é suficientemente inteligente para perceber que não poderá sair dos padrões que ela própria respeitou, criou e impôs. Por isso, penso que não será fácil para ele, mas será, de qualquer maneira, uma oportunidade em momentos particularmente difíceis, porque é evidente que a situação em Inglaterra, tal como nos outros muitos outros países do mundo, incluindo aqui na própria Europa, não é fácil. Há aqui graves problemas e, portanto, também se vai ver o papel que ele será chamado a ter, porque muitas vezes também depende disso. Sabendo-se que o rei não tem poderes executivos nenhuns, esses poderes de governação são apenas entregues ao governo inglês, mas que tem, como nós temos falado muito, essa capacidade de influência, que no seu caso, se vai ver até que ponto é que ela terá algum efeito positivo, como teve no caso da Rainha. Mas nunca esquecendo que a Rainha teve esse poder de influência, normalmente, e sobretudo, pela discrição com que sempre desempenhou o seu papel, com a discrição política, ao mesmo tempo que procurou sempre afirmar publicamente como uma instituição sólida e merecedora da confiança do seu povo.
E esta transição que se dá na monarquia britânica surge aqui lado a lado com um novo ciclo que também se abre em termos políticos. A nova primeira-ministra britânica entrou em funções precisamente esta semana. Aliás, o embaixador António Monteiro estava aqui precisamente a referir como há uma situação muito difícil na Europa nesta altura. Liz Truss herda aqui essa situação difícil e também agora esta mudança da Rainha para o Rei Carlos III. Como é que prevê que Liz Truss se vai desenrascar no meio desta situação tão difícil?
Eu creio que será mais difícil para ela, de facto, porque na questão da sucessão da Rainha Isabel, vamos assistir, certamente, a um período de emoção à volta dela e à volta da própria instituição monárquica e vão seguir passos positivos para a imagem desta monarquia, que parece um bocadinho uma história de conto de fadas no mundo atual. Portanto, vai ser melhor. Para a nova primeira-ministra inglesa, não. Vai ser defrontar e procurar ultrapassar todos os problemas que a Inglaterra enfrenta e começar pelo próprio Brexit, que neste momento e com o que se está a passar com a atual situação mundial, estou convencido que a própria Liz Truss, neste momento, lamenta ter apoiado essa política. Mas pronto, vai ter de viver com ela. Portanto, eu penso que será um período muito mais difícil para o governo do que esse que será na sucessão de Isabel II. Mas é evidente que a Inglaterra é um país pragmático e que saberá ultrapassar essas dificuldades. Agora, só se ultrapassará, de facto, se tiver uma melhoria de relacionamento com a própria Europa, que é essencial para ela.
Ia precisamente até perguntar nisso, se depois haverá aqui implicações na relação com a União Europeia, com todas estas mudanças a acontecer ao mesmo tempo na monarquia e na governação do Reino Unido.
Eu creio que Liz Truss tem todo o interesse em lançar as bases de uma cooperação mais efetiva com a União Europeia e do cumprimento dos acordos e dos compromissos entre os dois, porque não bastará aí também a habitual aliança privilegiada que tem com os Estados Unidos, porque os Estados Unidos também têm os seus próprios problemas, têm a sua própria política e não serão o protetor que a Inglaterra possivelmente desejaria. E além de mais, a própria Commonwealth, que é uma projeção externa de Inglaterra, também terá os seus momentos difíceis de relacionamento, porque cada país tem a sua própria política e hoje em dia, de facto, já não se pode confiar em que o papel da liderança de Londres será suficiente para fazer manter a unidade e uma certa coerência da Commonwealth. Portanto, há problemas concretos e por isso Liz Truss terá aqui de mostrar a sua habilidade ou capacidade política de chegar a entendimentos que facilitem, de facto, uma recuperação da Inglaterra para os níveis em que os ingleses aspiram.