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Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, o embaixador António Martins da Cruz, muito obrigada por estar aqui na Rádio Observador. Por todas as reações que ouvimos até agora, Isabel II era um exemplo a vários níveis, no campo também diplomático. O que destaca da rainha da Inglaterra?
Boa noite. Vamos ver, para um português, a rainha da Inglaterra era um símbolo do Reino Unido nos últimos anos, desde 1952. Não só para a minha geração, como para todas as outras gerações seguintes. A rainha da Inglaterra era o símbolo do Reino Unido, que é o nosso mais velho aliado e, por isso, tinha um significado especial. Mesmo Portugal sendo uma república, as nossas relações com a Inglaterra simbolizavam-se também na figura da rainha. Se bem que os ingleses não têm a interpretação que nós temos da mais velha aliança do mundo. E quando não estavam de acordo, como aconteceu em 1890, com o mapa cor-de-rosa, mandavam a esquadra inglesa para o Tejo para obrigar Portugal a assinar tratados e a abandonar territórios. Mas enfim, são interpretações que se fazem das alianças. A Rainha de Inglaterra teve um reinado longo, tão longo como expressivo, e por isso era muitas vezes identificada com o próprio Reino Unido. Ela tinha um papel, sobretudo, simbólico e não entrava na política. Não há memória da Rainha de Inglaterra ter dado entrevistas, por exemplo, e todos os discursos que fazia eram-lhe fornecidos pelo governo. Ela lia aquilo que o primeiro-ministro ou o staff do primeiro-ministro escrevia para ela ler, quer na abertura das Cortes, quer nas cerimónias oficiais em que ela tinha que discursar. Mas mantinha um certo equilíbrio. Assistiu, imagino que com algum pesar, quando ela foi rainha com a morte do pai, foi se criando a Commonwealth, sobretudo com a independência das colónias inglesas, que já se estava a dar desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E ela chegou a ser chefe de Estado de dezenas de países. Perdeu a maioria. A maioria dos países da África e do Caribe pertencem ainda à Commonwealth, mas a rainha inglesa ou o monarca inglês deixou de ser o chefe de Estado. Continua a ser do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia, mas de poucos mais países. Mas enfim, são as evoluções que se deram. Agora vai haver uma transição. Eu penso que a nova primeira-ministra inglesa, se souber gerir bem politicamente esta transição, está numa hora de sorte para ela.
Este é mesmo o primeiro grande teste que Liz Truss vai enfrentar.
Exatamente, agora é que se vai ver se ela é capaz ou não é capaz, do 10 da Downing Street, de assegurar esta transição e, sobretudo, de aconselhar o novo rei, porque tem que o aconselhar, e de mostrar ao povo inglês que está alguém no comando. Porque vai haver, obviamente, um período de transição até o novo rei se instalar e começar, não diria a falar, porque a partir de agora só pode dizer aquilo que o governo lhe encomenda, mas pelo menos a aparecer em público e a mostrar alguma tranquilidade que os países todos precisam em alturas de maior comoção. De qualquer modo, não podemos esquecer duas coisas. A primeira coisa é que este senhor, Carlos III, é rei aos 73 anos. Aos 73 anos, 99,9% das pessoas estão reformadas, pelo menos na Europa, e seguramente no Reino Unido também. Portanto, ele vai exercer uma atividade para a qual foi preparado durante dezenas de anos, mas vai exercê-la numa idade em que a larguíssima maioria dos seus concidadãos estão na reforma e, portanto, vai ser olhado de outra maneira, que não foi a mãe. Em segundo lugar, eu não sei se ele tem a mão que teve a mãe ou, se quiser, a firmeza para controlar a família que tem, a prole que tem, os filhos, a nora, os sobrinhos, os irmãos. A mãe controlava aquela família ou pelo menos tentava limitar os custos de alguns escândalos que foram surgindo ao longo dos anos. E, portanto, o que se espera é que ele consiga manter alguma unidade e, como diria um republicano meu amigo, que não estrague o negócio da família.
E no que toca à neutralidade política, ouvíamos aqui há pouco Paulo Rangel sublinhar que a Rainha Isabel II sempre conseguiu fazê-lo até ao fim. Será que Carlos III vai também conseguir seguir esse exemplo?
Pois, não sei. Eu espero que sim, para o bem da monarquia inglesa. Vamos ter, provavelmente, um teste durante o reinado dele, que é o referendo da independência da Escócia. Vamos ver o que é que acontece. Primeiro, se há referendo, segundo, qual é o estatuto político e constitucional que a Escócia vai escolher. Se quer ser república, se quer continuar no Reino Unido, se quando for independente, se quer seguir o caminho da Irlanda, se quer seguir outros caminhos.
Pode ser um marco importante neste novo reinado de Carlos III.
Não será o mais importante, mas será, se houver referendo, um teste importante, isso seguramente.