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Em 2018, disputei as diretas de então com o nosso companheiro Rui Rio. E aqui não há nenhuma questão pessoal, considero Rui Rio como seu amigo à distância, que respeito, mas com quem não concordava de todo. E, na altura, fiz a campanha toda pelo país a avisar que novas realidades iam aparecer no espectro direito do sistema político. Eu não tinha nenhum dado concreto, adivinhava. Estava em convulsão e que achava um erro o partido ir encostar-se mais no tal centro-esquerda ou esquerda a que militantes como Rui Rio, Pacheco Pereira e outros — não são eles, não estou falando em Pacheco Pereira por nada — uma linha que havia na altura que defendia o partido estar melhor no centro-esquerda. E lembram-se do pacto com António Costa e tudo isso. Eu, na altura, disse: "Isso é um erro crasso!" E sabemos o que se passou. Sabemos o que aconteceu à nossa direita e sabemos aquilo que aconteceu no sistema político e partidário português. Com isto não quer dizer, nenhum de nós deve pensar isso de si próprio, que sabemos adivinhar o futuro. E a propósito de adivinhar o futuro, quero evocar aqui aquele que de nós, esse sim, sempre foi capaz de adivinhar o futuro, menos a tragédia que lhe aconteceu. Permitam que no dia de hoje evoque de modo muito especial o antecessor daquele senhor Luís Montenegro, o número um, Francisco Sá Carneiro. Esse adivinhou o futuro muita vez, no curto período de tempo que teve até à tragédia de Camarate em dezembro de 80. Mas eu gostava de recordar outra data. Não vim aqui para falar do passado. Em 2005, e vejam então aquelas que são mais novas e mais novos, como a senhora Ministra da Cultura e da Juventude, pensem o que é a passagem do tempo. Em 2005, em maio, em Pombal, eu disse a tal frase, que não sabia que ia ficar registrada, quando me despedi de todos: "Eu vou andar por aí." E foi uma frase que ficou. 2005. Já lá vão 21 anos. Tinha na altura 48. Agora tenho 50, quase mais 20, daqui a uma semana ou duas. E é bom que todas e todos interiorizemos isto. A responsabilidade que temos para com Portugal é tão forte que quando passa o tempo de uma vida, muito tempo, não sabemos quanto tempo temos, e olhamos para trás, pensamos muito no que ficou por fazer e o que falta fazer no país que amamos. E é aqui, sem dúvida nenhuma, que entra o presente. Deixemos já agora fazer esta nota. Eu aderi ao PPD/PSD faz em outubro 50 anos, em 1976. 50 anos é uma coisa que faz muita impressão, especialmente a quem tem sempre a mania que é jovem. Mas o ser jovem, que temos que ser sempre, não implica, como é óbvio, menos sentido de responsabilidade. Eu quero agradecer ao doutor Luís Montenegro. Eu saí com Rui Rio e no dia seguinte à eleição do doutor Luís Montenegro, ele teve a enorme gentileza — de manhã foi a outro lado, que não tem nada que dizer, foi público, mas foi ali perto — à tarde, de ir falar comigo à Figueira da Foz. E por isso, com emoção, eu lhe quero agradecer o facto de, desde que foi eleito, ele, particularmente, e o seu secretário-geral, terem feito tudo, não era preciso muito, mas tudo para eu regressar a esta casa que tanto queremos. Agradeço muitíssimo, como é evidente.

A recriar a história deste regresso e desta aproximação.

Eu pelas razões pelas quais saí, só mais uma nota. 2005, quando saí e disse "vou andar por aí", tinha acontecido o que aconteceu nas eleições com José Sócrates, com a dissolução por Jorge Sampaio, e aí entendi que devia apresentar a demissão. E foi quando me impediram de me recandidatar à Câmara de Lisboa. E enquanto Primeiro-Ministro, quando alguns cá dentro não me atendiam o telefone e depois até vieram a ser, dois deles, presidentes da República. Isto é história, são factos, mas para as pessoas agora não causa mágoa para presente e futuro. Não podemos viver de rancores. Temos de viver das coisas boas, saber construir, das energias positivas. Senão, é mau para todas e para todos, incluindo para nós próprios. E por isso queria dizer que é nesta altura, quando desde o congresso anterior, onde eu entrei, também fui dar um abraço ao presidente do partido, ali em Braga, não foi? No congresso anterior, até agora passaram-se eleições legislativas, presidenciais e os congressos são quando se faz o balanço do que aconteceu desde o último. Eu não tenho autoridade para fazer, porque não estava cá. Regressei hoje. Mas temos que nos orgulhar, no geral, do caminho que o PPD/PSD fez, como é evidente, sob a liderança de Luís Montenegro. Mas já agora quero dizer uma coisa, desde que me refiliei hoje, os estatutos dizem que quando um ex-presidente ou ex-primeiro-ministro se filia, passa a fazer parte por inerência do Conselho Nacional, com direito a voto e do Congresso, sem direito a voto. Portanto, acho que já sou membro do Congresso de pleno direito.

Santana Lopes aqui a recuperar que foi por causa do Rui Rio que deixou o PSD.

Mas só mais uma nota antes de falar do governo e do tempo que estamos a atravessar. Houve, como eu disse há pouco, militantes que saíram do partido e depois de entrarem, foram presidentes de partido. Depois de regressarem, Mota Pinto, Rui Machete, Luís Montenegro, não te preocupes, não está nas minhas intenções candidatar-me à presidência do partido, mas quero dizer hoje aqui, tenho a certeza absoluta, candidatasse quem se candidatasse neste congresso ou nos que aí vêm, tu ganhavas e largo. Candidatasse quem se candidatasse. E digo isto com todo o respeito por todos. E quero sublinhar, eu o que fiz em 2018 podia ter feito mais cedo, não tivesse ascendido à liderança alguém que tanto consideramos, respeitamos e admiramos, como Pedro Passos Coelho e o trabalho notável que teve que fazer no tempo de emergência nacional. Portanto, é isso que eu hoje aqui quero muito vir dizer, com os meus cabelos, enfim, não muitos e mais esbranquiçados. É que é nestas alturas em que as sondagens nos dão, as tais sondagens, Santa Maria, em terceiro, que me sabe bem voltar aqui. Se te dessem disparado à frente, não é muito o meu gênero. Foi por isso também que quando foi a troika quis continuar. E agora, eu lembro-me que fui à convenção da AD no Estoril, dizer-te a ti o que merece ser dito, a capacidade que tens, a competência que tens. Aliás, basta ver a equipa dos teus ministros, o que o teu governo tem feito. Eu estou a olhar aqui para a Ministra da Saúde e é extraordinário o tempo que se perde em Portugal a falar de coisas que não interessam muito e a falar pouco do que interessa bastante. A reforma que o governo, o teu governo, a Ministra da Saúde fizeram só nesta questão dos médicos tarefeiros que não trabalham na urgência do respectivo hospital e depois entram a trabalhar por empresas de recursos humanos noutros hospitais, é uma reforma extraordinária, com uma coragem enorme, da qual poucas e poucos falam. É uma coragem enorme que outros não tiveram. E já dura anos.

Uma das ministras mais polémicas do governo é elogiada por Santana Lopes.

Portanto, é isso que pergunto a todas e todos. Quando se fala em reformar mais, eu preciso que cada um que diz isso, e cada uma, diga é: "Muito bem, mas quais reformas? Até onde e com quem?" Como se viu ontem, naquele espetáculo confrangedor na Assembleia da República. Com quem? E é por isso que digo que sendo a tarefa obviamente muito difícil, tu tens tido uma postura de serenidade como estadista irrepreensível, que não é fácil nos tempos que vivemos, no mundo que vivemos. E mal ou bem, com todo o respeito, elegemos um Presidente da República novo. Novo? Novo mandato. E eu gostava de sublinhar duas ou três coisas a este propósito. Esta gente da oposição ou das oposições, mal veem uma sondagem apetitosa, começam logo a falar em crise ou em eleições. Eu já ouvi hoje na televisão. Felizmente, elegeu-se um Presidente da República, não votei nele, estou à vontade pra dizer. Também não votei no outro. Elegeu-se um Presidente da República que disse expressamente que as legislaturas são para serem cumpridas e que preza muitíssimo a estabilidade política. E, portanto, essa é uma garantia de que o sistema poderá funcionar corretamente com a oposição no Parlamento, e não nas ruas, principalmente, e com o governo a governar. É que nós temos tanta coisa pra fazer, para além do que o governo tem feito. Eu não vou aqui dizer mal do Tribunal de Contas. Sou presidente de câmara, até, não posso. Mas ainda hoje, há bocado na televisão, ouvi a presidente da Câmara de Bragança, Dal Portela, falar disso. Mas o ministro, não sei se está aqui, viu na televisão há bocado. Gonçalo Matias dizia há pouco tempo só 11%, julgo, dos processos que vão a visto prévio é que são-- ah, é 1%? Eu ouvi um e nem acreditei, julguei que era 11, não leva a mal. 1% dos processos que vão a visto prévio é que não passam. É isso, não é? Portanto, a reforma faz sentido, mas já antes desta, o Governo tinha decidido que nas obras, nos processos que têm fundos europeus, não pode haver uma ação com efeitos suspensivos em tribunal. E a importância que isso tem para as autarquias de todo o país, para o Estado em geral, é imensa. Agora se perguntarem: "Foi uma reforma importante?", o ministro Castro Almeida, que está cá, também se empenhou bastante. Fala-se pouco. É por isso que eu digo, no estado em que está o mundo, nós já não percebemos nada. Ontem tinha aberto o Estreito de Hormuz, não foi? Hoje fechou o Estreito de Hormuz outra vez. Dizem que vai fechar. É um bocado como cá dentro. Anteontem estava aprovada a legislação laboral, passe a comparação, ontem já não estava aprovada a legislação laboral. Vivemos neste mundo e é por isso que, para terminar, eu quero dizer que é neste mundo difícil que temos duas hipóteses: ou estamos na nossa concha, a nossa casa, no nosso reduto, no nosso município e tapamos um bocado os ouvidos e os olhos e não ouvimos toda a loucura em que o mundo está mergulhado ou, pelo contrário, assumimos as responsabilidades que temos e dizermos: "Aqui estamos presentes para o combate e para construir o tal novo futuro." E é esse apelo que eu faço ao partido, à Jota, a todos. O presidente do partido tem essa especial preocupação, orientação ministro da reforma administrativa. Lideremos os tempos da revolução tecnológica, os tempos da coexistência com a inteligência artificial. O Papa já fez a encíclica, chamou um dos principais cientistas para o seu lado. Tudo isto em meses vai mudar. Se calhar o próximo congresso daqui a dois anos já vai ter alguns robôs ou alguns humanoides, não faço ideia, mas tudo isto está a mudar muito depressa. Só há uma coisa que quero dizer lá para fora também. Tenho ouvido aí umas teorias sobre o futuro do PPD/PSD. Ó minhas amigas e meus amigos, desde sempre se disse que o PPD/PSD era um partido que não estava previsto. Havia até alguém que morreu há pouco tempo, o Joaquim Aguiar, que tinha um livro extraordinário, "A Ilusão do Poder", sobre um partido a mais, um partido a menos, mas era o CDS que era da democracia cristã, o PS da Internacional Socialista e nós? Mas dizíamos de nós próprios sempre, e somos, o mais português dos partidos portugueses. E é isso que também nesta altura tão particular do globalismo, do europeísmo que queremos manter vivo, temos que sublinhar em relação a nós próprios. Porque há uma coisa: muitos vaticinaram maus tempos para este partido. Desde 1978, com uma estratégia chamada do camelo, as duas borsas do camelo, com o devido respeito aos nossos amigos do CDS, em que só sobreviveriam o CDS e o PS, que o PPD/PSD estaria condenado a desaparecer. O PPD/PSD cá está, tem um líder à frente que-- mais uma nota pessoal, é uma chatice quando se chega aos 60 e muitos, 70 anos, fala-se muito do passado. Mas quando aquele senhor tinha 34 anos e eu era presidente do grupo parlamentar, eu aí adivinhei o futuro. Olhei para ele e disse: "Este tipo não engana". Ele está se a rir, que ele sabe as coisas. Só me irritava quando eu lhe perguntava a idade, eu já contei isto várias vezes, ele me dizia: "Tenho 34", que até é o meu número, mas enfim. Mas não enganava e está cá e é estadista. E eu felicito-te pela maneira como tens aguentado. É tão curioso, quando está o centro-direita no poder, há sempre suspeitas sobre as nossas honras, sobre a honra de cada um. Quando eles estão, têm que ir lá vasculhar as gavetas para se provar o que é a força da realidade. Não comparando, não há comparação. E é por isso que eu digo: podem teorizar à vontade, podem gritar, berrar. O PPD/PSD-- termino com esta nota pessoal. Na minha ficha de nova inscrição, pus como militante proponente o presidente do partido que apreendeu a Conceição Monteiro. Eu peço a comparação por ela não ter assinado, porque ela está no hospital e não pode atender o telefone. Mas é a pensar nela e a pensar na Jota e a pensar nos meus netos, que hoje se me virem na televisão, devem estranhar e perguntar assim: "Ó avô, que clube é aquele?" Porque eles ainda são todos pequeninos. Mas há uma matéria em que eu lhes ensino qual é o clube que devem ser. Aqui eles escolhem com liberdade, mas tenho a certeza que eles vão gritar: "Viva o PPD/PSD, viva Portugal!" Muito obrigado.

O regresso oficializado de Pedro Santana Lopes à liderança do PSD, um discurso com uma tônica muito pessoal, onde explicou os motivos da saída, diz que não pede desculpa por essa decisão. Na altura, fez o que estava certo, o que considerou que estava certo e aplaudido ali, principalmente por Luís Montenegro, com quem trocou um largo cumprimento e que vai cumprimentar agora novamente à descida do palco. E também a dar conta de que a ficha de regresso ao PSD assinada por Conceição Monteiro, ela que era a secretária pessoal de Francisco Sá Carneiro, foi recentemente homenageada no aniversário do partido. E assim, digo eu, é a última surpresa do dia neste congresso do PSD.