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Miguel Pinheiro, vamos a essas medidas que temos pedido ao longo das últimas semanas. Temos aqui salário mínimo nos € 1000 em quatro anos e também a questão da atualização das rendas indexada ao salário, que é um setor que Pedro Nuno conhece bem ou que pode atuar também no passado.

Sim. O salário mínimo, por um lado, é interessante percebermos que finalmente Pedro Nuno Santos conhece os valores do salário mínimo, já não é Mauro numa entrevista ao Observador que estava com algumas dificuldades. Fica por perceber exatamente qual é aqui o plano, porque Pedro Nuno Santos depois também fala do salário médio. Finalmente, se nós temos o salário mínimo nos € 1000, a dada altura o salário mínimo e o salário médio que são iguais.

Encontram-se.

Claro, e isto só se resolve com a economia como um todo a produzir maior riqueza. E essa foi a primeira parte do discurso, em que Pedro Nuno Santos, no fundo, vê que era uma espécie de plano quinquenal em que o Estado vai decidir quais são-

Já não basta deixa

...quais são as áreas da economia em que vale a pena apostar. Ele não tem resposta para quais são essas áreas.

Que era o Estado a dizer que não, isso diz que não tem acontecido nas últimas décadas do país.

Enfim, parecem que são aqui duas visões diferentes. Uma visão é nós temos que dar as condições à economia para ela por si descobrir quais são as áreas em que vale a pena investir e, portanto, o jogo é igual para todos. O Estado dá condições iguais para todos e confia que cada agente econômico por si vai apostar nas áreas que têm mais futuro, mais rentabilidade. E depois há uma segunda visão, que é esta de Pedro Nuno Santos, que é termos o Estado centralmente a decidir qual é a especialização do país, para onde é que o país deve ir e a descobrir e a indicar qual é o caminho. São duas formas muito diferentes de olhar para a economia, que dividem seguramente este PS do PSD. Vamos ver o que é que diz o Malta sobre isto. Aqui, claro, há muitas respostas que ficam por dar. Como é que vão ser tomadas essas decisões, quem é que as vai tomar, de que maneira.

Será uma comissão técnica independente?

Exato, um grupo de sábios. O governo vai reunir um grupo de sábios para decidirem como é que a nossa economia deve ir. E o que é que acontece? Porque Pedro Nuno Santos diz que ao mesmo tempo vai manter os apoios horizontais, ou seja, os apoios para todos. Mas são novos apoios? Temos que perceber um pouquinho melhor, mas realmente aqui-

Aí continua a deixar muito em plano macro.

Certo, mas há aqui, de facto, uma visão alternativa e que os eleitores poderão tomar decisões em relação a ela. A questão das rendas, de facto, há aqui coisas que não percebi muito bem. Quando ele diz que em momentos em que a inflação é superior a 2%, a atualização das rendas vai ter que ter em linha de conta a capacidade das pessoas pagarem, ou seja, vai estar ligada à evolução dos salários. Uma das coisas que ficam por esclarecer é: como assim, dos salários globalmente ou de cada salário em concreto? Dos salários de cada arrendatário em concreto ou dos salários globais? Enfim, acho que vai ser preciso Pedro Nuno Santos dar-nos um pouquinho mais de informação. Interessante é que Pedro Nuno Santos não fala da recuperação do tempo de serviço dos professores.

Fala só nos salários de entrada e depois na aproximação entre o primeiro e último escalão.

Exatamente. Uma carreira em que seja mais fácil chegar ao último escalão e uma carreira que pague melhor à entrada. Imagino que os sindicatos não tenham ficado muito contentes com este silêncio sobre a recuperação do tempo de serviço.

Não responde à grande fatia dos professores atuais, que são mais velhos.

Certo, e ao grande tema de mobilização dos professores. É muito estranho que Pedro Nuno Santos não tenha referido a recuperação do tempo de serviço. Vamos ter que tentar perceber um pouquinho melhor o que isso quer dizer.

Eu vou vendo também aqui, António Costa a cumprimentar várias pessoas, é quase como se fosse ainda ele o secretário-geral, numa zona em que está ali com Miguel Pinto Luz, também muito próximo dele, mas vai também cumprimentando. Enquanto Pedro Nuno o vai fazendo também ali na zona junto ao palco. Rui Pedro Antunes, sobre este caminho aqui-

Deixa-me só dizer sobre isso, Miguel, que é o chairman, que é o António Costa, e o CEO, que é o Pedro Nuno Santos. Sendo que aqui há o problema de quem está com o poder executivo, pelo menos ainda, é António Costa. Também é chairman e CEO ao mesmo tempo.

E não é uma empresa familiar, porque não são família, mas os dois ainda vão mais ter com o pai, digamos assim. Rui Pedro, sobre este caminho aqui que Pedro Nuno Santos já começou agora sim a traçar, sobre esta ideia para a economia de um país que se especializa em certos setores durante uma década, são primeiros sinais, primeiras luzes daquilo que podemos esperar de um programa eleitoral de PS.

Deixa-me só dizer, por exemplo, sobre o salário mínimo, porque é vistoso, é € 1000, faltam quatro anos. Para termos uma ideia, o salário mínimo, que agora aumentou para este ano 60 €, a um ritmo de € 50 por ano, chegaria a 2028 a 1020 €. Portanto, não é uma grande loucura de Pedro Nuno Santos prometer pelo menos € 1000, nem sequer é ir completamente contra aquilo que tem sido mais ou menos o ritmo de subida de salário mínimo. Claro, depois há vários outros fatores, como a inflação. António Costa propunha os tais 900 para 2026, portanto, esses dois anos seria aumentar mais 50 € ao ano o salário mínimo Custa um pouquinho acreditar, também com aquilo que tem sido o ritmo de subida dos salários, que o salário já não estivesse daqui a quatro anos por volta dos € 2.000. Não é propriamente uma medida kamikaze para a economia, mas obviamente que a questão salarial sempre foi um problema da economia precisamente por isso, porque em alguns setores a concorrência era grande noutras geografias e daí a deslocação da indústria para essas zonas. O país também está muito mais agora no setor dos serviços. Ele, de facto, na questão dos apoios às empresas, quer uma espécie de afinação estratégica. Fala na robotização, na inovação tecnológica, na inteligência artificial. É uma visão que ainda não está bem definida. José Sócrates também tinha uma visão, que era o choque tecnológico mudar. Havia um pouquinho aquela ideia de transformar Portugal numa espécie de Israel, de grande incubadora de tecnologia. Enfim, acho que não temos esse know-how, mas Pedro Nuno Santos quer ser seletivo na forma como distribui os apoios, principalmente às empresas. Coisa diferente será os apoios sociais, que nesse aspecto, ele parece, ao dizer que a direita tentou sempre atacá-lo, estar a defender que à partida não mexe nesses apoios. Na questão dos professores, não sei se é como o Miguel diz, a questão de aumentar o salário de entrada, se é para fugir, a apontar qual é que vai ser o ritmo de reposição, como promete na missão estratégica das carreiras que estão congeladas na função pública, não só o professor, mas os outros. E neste aspecto, vamos lá ver qual é que é a proposta. Nas rendas, isto não é bem um teto às rendas, mas é colocar-lhe uma limitação para lhe dar alguma margem para ter um instrumento. Isto pode ter algum efeito no mercado, principalmente os senhorios podem aqui protestar de alguma forma, porque não se percebe o que vai ser indexado para que haja este controle das rendas. Nem se percebe também de que tipo de salários é que ele está a falar. Porque pode estar a referir-se à função pública, que supostamente aí será o governo a definir, e também terá que relacionar a própria subida de salários da função pública àquilo que for a inflação, como aliás vai fazendo. Depois, na saúde, isto pode não parecer uma coisa muito lateral, mas não é. António Arnaut, o pai do SNS, lembro-me de ter algumas conversas com ele há 12, 13, 14 anos, e um dos grandes problemas que ele dizia, ele tinha dois grandes problemas. Um era a forma como Vítor Constâncio o convenceu a meter o tendencialmente gratuito na Constituição, porque esse advérbio de modo para ele não devia existir, era gratuito e pronto, só aconteceu para evitar que nas urgências houvesse abusos e para incluir as taxas moderadoras. E o segundo grande problema era: "Nós falhámos numa coisa, que foi medicina dentária." E o Arnaut dizia isto muitas vezes. E de facto, se houver um investimento na medicina dentária, isso faz com que haja muito menos outros problemas, porque naturalmente que a saúde oral depois provoca uma série de outros problemas e é uma parte em que a população portuguesa está muito atrasada. Agora, não existem dentistas para isto, nem sequer os médicos dentários estão disponíveis para largar o setor privado e de repente, vamos lá ver, o SNS não dá resposta a esta área, é a única que as pessoas têm que recorrer normalmente fora do SNS. Pedro Nuno Santos é contra toda e qualquer complementaridade do SNS e quer investimento do SNS. Isto parece-me um desafio demasiado ambicioso para uma legislatura de quatro anos.

Estávamos a falar de SNS, Rui, e agora passava ao Miguel sobre isso, porque num tema que tem estado com grandes problemas nas últimas semanas, em particular devido à pressão nas urgências, a proposta de Pedro Nuno Santos, para além desta da saúde oral, é implementar a reforma que está em curso. Portanto, não há aqui nenhum rasgo para tentar pôr fim à questão.

Fala na valorização da carreira médica, presumo que valorização em sentido estrito, ou seja, pagar a mais aos médicos. Há aqui um problema, é que os médicos não querem trabalhar no SNS e não me parece que seja por mais uns tostões que isso vá mudar. Fala também numa modernização dos equipamentos usados no SNS. Sim, é também um dos pontos que provoca descontentamento nos médicos, sentem que não têm condições para exercer medicina decentemente no SNS. Mas isto é tudo, obviamente, muito vago. Pedro Nuno Santos acha que é tudo uma questão de dinheiro? Que já foi despachado tanto dinheiro no SNS, é mais dinheiro ainda? E em relação à reforma que está em curso, Pedro Nuno Santos tem se refugiado apenas neste argumento de que nós não vamos de repente mudar tudo, que é um argumento que faz sentido. Se estamos a começar esta reforma, não vamos agora de repente deitar isto para o lixo. Mas convinha que ele nos explicasse como é que ele vê esta reforma, porque aquilo a que nós temos assistido até agora é uma mudança na forma de funcionamento do SNS, em que se mantêm as coisas, mas vão fechando. Ou seja, mantém-se o mesmo número de urgências, por exemplo, de obstetrícia, mas elas vão fechando alternadamente. Pedro Nuno Santos acha que este é um bom caminho? Como é que se dá o salto daqui para um funcionamento de outra maneira? Tanto aí como na questão da educação, realmente não há aqui grandes novidades. E na questão da habitação, ele foca-se apenas e só na expansão do parque público, no Estado a construir casas, mais uma vez. Ele não está preocupado em ver de que maneira é que os privados podem ser incentivados a construir mais. Não, o Estado saia da frente, agora o Estado é que vai-

É a responsabilidade do Estado.

Ami, eu queria só dizer uma coisa sobre a educação, porque Augusto Santos Silva dizia isso na conversa com o Miguel Cordeiro, que é esta questão, e o Miguel também já tinha que referir, de aproximar o primeiro do último escalão e das oportunidades, etc. O que agora o PS pode fazer é dar cabo do caminho que Maria Lurdes Rodrigues começou a fazer, que era antigamente os professores quando entravam na carreira, claro, havia muitos professores, mas quando entravam na carreira, independentemente de serem bons, de serem maus professores, de faltarem muito, de uma forma ou de outra, eles chegavam sempre. José Sócrates até dizia: "Eles chegam todos a generais e no exército não é possível". E portanto, chegavam todos ao topo da carreira, independentemente de serem bons, de serem maus, etc. Obviamente que hoje os professores são um problema e ganham pouco e é uma profissão de desgaste rápido, etc. Mas de qualquer das formas, toda essa reforma incutiu uma cultura, foi uma reforma feita no tempo de José Sócrates, já agora, que depois teve grandes problemas e até lhe custou, se calhar, a primeira maioria absoluta, essa guerra com os professores. Aliás, Fernanda Tadeu, que foi aqui referida, que veio ser militante na área da JS, como professora, a mulher de António Costa, também se manifestou num desses protestos na Avenida Liberdade. Mas para dizer o quê? Isto é uma cultura do gênero, agora os professores vão ser muito mais aumentados do que as outras profissões porque há uma falha de professores. Quer dizer que todos os professores vão voltar a ter uma ascensão na carreira, por exemplo, passando para segundo plano a questão da avaliação para permitir que haja uma maior mobilidade entre o primeiro e o último escalão. É preciso ver isso, porque de facto um dos caminhos nos últimos anos foi que os professores passaram a ser, talvez até mal, no sentido em que perderam muito tempo com questões burocráticas e não tanto na parte do ensino e pedagógico. Mas de qualquer das formas, é preciso ver exatamente o que Pedro Nuno Santos propõe nessa matéria.

Aproveitar esta questão dos partidos à esquerda, Rui Pedro, para esta não referência à geringonça. Não existiu em praticamente nenhum momento.

Tu dizias há pouco que nas choose real nem vem cá. Isto pode ficar para um deputado ou outro. O PAN pode ter ali um papel de charneira fundamental e com aquele chamado papel Ruth Marlene, que ora pisca pra direita, ora pisca pra esquerda, como foi muito referida essa música popular na Assembleia da República em altura em que se falava em blocos. Mas isto pra dizer o quê? Sim, ela não refere os partidos da geringonça. Tem um discurso, outra vez, com uma marca ideológica, diria que nesse aspecto não é tão brilhante como o tal discurso das gaspiadeiras, mas tem uma visão, tem a ver com o outro, com o coletivo, se calhar até um bocadinho contra a questão daquilo que é o princípio da iniciativa liberal e dos liberais. Nesse aspecto, falam num Estado social avançado e não percebemos aqui se é ir a uma social-democracia, assim ao estilo do Olof Palme na década de 70 ou Willy Brandt, por exemplo, um socialismo mais social-democrata do gênero do SPD alemão. Não sei se é isso que ele quer, mas continua a existir uma marca ideológica dele. Se isto vai ou não ao encontro do PCP e do Bloco, mesmo não havendo uma referência direta. Bom, eu creio que esta ideia da habitação e da construção do parque público, por exemplo, que o Miguel falava, e Marina Gonçalves, que é ministra da Habitação e provavelmente vai continuar a ser se Pedro Nuno Santos for primeiro-ministro, e até pode ser outra coisa, até pode ser ministra de Estado e da Habitação, ser alguém que tem-

Pode ser a Maria Vieira da Silva de Pedro Nuno Santos.

Talvez. Eu acho que aí apostaria mais em Alexandra Leitão. Tem mais o perfil porque é da questão administrativa e é muito boa do ponto de vista da gestão, mas Marina Gonçalves pode ser alguém que é próxima de Pedro Nuno Santos, assim como alguém do seu núcleo duro. E nesse aspecto, ela dizia ontem que de facto, no investimento no parque público, não há diferenças entre o Bloco de Esquerda ou o PCP, e também acrescentou o Livre, que também pode ser fundamental. E portanto, respondendo à tua questão, não houve uma referência direta, mas talvez também não seja assim tão precisa. Era preciso, se calhar, responder a Mariana Mortágua sobre a questão dos acordos escritos, mas Pedro Nuno Santos também já disse que está confortável com isso. A questão do acordo escrito é que parece que só há um parceiro pra isso, talvez dois, se incluirmos o Livre e o seu deputado ou dois que há de ter a partir de março.

Miguel Pinheiro, sobre esta questão de não existir nenhuma referência dos acordos à esquerda, Pedro Nuno Santos começou por apresentar aquilo que é a visão de sociedade ou de comunidade que tem, isto até vai um bocadinho ao encontro também de alguma ideia do Bloco de Esquerda e do PCP. Sim, mas eu acho que Pedro Nuno Santos não vai querer de maneira nenhuma, daqui até às eleições, falar numa possível geringonça. Zero, não vai querer falar sobre isso. Qualquer conversa sobre geringonça pode custar-lhe votos ao centro, pode custar-lhe os votos que deram esta maioria absoluta a António Costa e, portanto, ele não vai falar sobre isso. E do ponto de vista dele, bem. Este realmente era o momento pra ele apresentar o seu mini programa. Eu digo mini programa porque uma parte do programa é continuar aquilo que António Costa tem vindo a fazer e depois há ali Dois ou três pozinhos de mudança. Principalmente, como já falamos, na saúde e na educação, pareceu muito curto. E mesmo na habitação, se aquilo que Pedro Nuno Santos tem para oferecer é continuar a construir um parque público mais robusto e esta proposta relativa às pensões, é um bocadinho curto. Ele não tirou daqui nenhum coelho da cartola para apresentar para estes grandes problemas. São aqueles que António Costa identificou como as áreas onde falhou: salários, educação, saúde e habitação. Não vejo aqui um grande salto em frente, para continuar a usar a expressão.

O Pedro Nuno Santos diz qualquer coisa do gênero: "Nós vamos aumentar as pensões, porque aumentando os salários, depois as pensões futuras são maiores". É uma lógica mais imediata que ele diz isso.

Já é uma diversificação das fontes de rendimento. É um esforço.

António Costa fez a proposta e chegou a aplicar parte do fundo da Segurança Social na reabilitação urbana e chegou a investir.

Mas mesmo esta grande ideia para a diversificação do financiamento da Segurança Social, que tem a ver com contribuições de indústrias menos assentes em mão de obra e mais assentes em alta tecnologia. Enfim, tudo isto já tem sido falado, o próprio António Costa falou sobre isso.

Há até um relatório de uma comissão que está para sair depois das eleições, que nas últimas semanas tem também sido polémico.

Por isso não há aqui também... Vamos ver. É óbvio que Pedro Nuno Santos não vinha aqui de repente com soluções de que nunca ninguém se lembrou antes. Não é legítimo esperar isso, não é legítimo esperar que, de repente, Pedro Nuno Santos e Alexandra Leitão se sentassem a uma mesa e conseguissem descobrir o que nunca ninguém descobriu. Como é óbvio. Parece-me curto, de facto, e para alguém que preza a capacidade de ousar, ousar lutar, ousar vencer, acho que há aqui pouca ousadia.

Tu aumentas os salários, aumentas as contribuições, naturalmente, para a Segurança Social. Enquanto as pensões a pagamento que estão neste momento são mais baixas, porque as pessoas que já estão reformadas têm reformas mais baixas, consegues ir pagando e aumentando vários anos a sustentabilidade. Só que quando estes salários grandes lá chegarem, se mantiver aquilo que é a retribuição, vai ser um problema nessa altura. Mas aí onde é que também Pedro Nuno Santos já estará na política muito fora.

Sim, mas sendo que tudo isso são detalhes. Ele explicou aqui, o grande ponto é a transformação da economia portuguesa. Ele acha que é ele quem vai ter a chave da transformação da economia portuguesa. Nas últimas décadas e séculos, a economia portuguesa não deu um salto e Pedro Nuno Santos está convencido que ele vai decidir quais são os setores. Ele, enfim, claro, falando com a sociedade portuguesa, vai decidir quais são as não sei se três, quatro, cinco áreas que vão potenciar uma transformação radical da economia.

Hidrogênio, data centers em Sines.

Aviação, também tem sido.

Lítio.

Se as pessoas acreditarem que...

Trocamos o Fundo Medina por um plano Pedro Nuno Santos.

É o plano Pedro Nuno, o PPN.

Rui Pedro, aqui neste congresso, ao longo destes três dias, temos falado sobre a galvanização ou falta dela à volta de um novo líder. Este último dia e este discurso de encerramento, que sinal é que dão para o exterior daquilo que é a força de Pedro Nuno Santos para agora enfrentar o país para as eleições de 10 de março?

Isto do ponto de vista, se quisermos até semiótico e daquilo que é a imagem que passou, obviamente pelas televisões só pode ter sido empolgante e foi um bocadinho mais animado do que nos dias anteriores, que de facto teve aqui muito... Mas também se nestas duas horas não se mobilizassem para isso, eu acho que Pedro Nuno Santos acaba por galvanizar mais a sala quando ataca o PSD, voltou a fazê-lo, em particular a direita e Pedro Passos Coelho. Quando fala, e ele tinha fugido falar dos fantasmas do CHEGA, agora já falou que os valores de Abril não são irreversíveis, as conquistas de Abril não são irreversíveis.

Faz a volta, mesmo assim é muito vago.

É vago, não é uma coisa muito direta. E depois tem aquela coisa que puxa sempre, aqueles tipos do segredo, não é do mindfulness, mas tem assim umas frases que é: nós temos que nos amar a nós e aos vizinhos, e aos amigos, e aos colegas. Está ali uma coisa um bocadinho motivacional ou automotivacional, não sei bem, porque ele também parece que gosta dessa parte, que é no fundo mostrar essa visão de que o PS é o partido amigo, do carinho das pessoas, face a outros que defendem uma sociedade em que cada um está por si. E eu acho que esse é o grande tónico, ele consegue motivar muitas vezes. Há uma frase no meio disso que eu creio que está bem conseguida, que é da cooperação e da união que os fracos se tornam fortes. Acho que faz sentido, é uma frase mais polida do que dizer que temos que dar a mão ao outro e o amigo, etc. Para isso há outro tipo de situações. Ele chega a dizer, é verdade Nos permite crescer como pessoas capazes de amar. É uma das frases que ele diz. Isto parece um bocadinho aquelas coisas motivacionais, etc., mas é o estilo. Por outro lado, ele também mostra um bocadinho de desenvoltura, não é um ser sem social skills, que vai agora pra campanha. É importante a maneira como passa a imagem, como ele se relaciona com as pessoas. E não só a maneira como ele entrou hoje aqui a apertar as mãos a toda a gente, a abraçar, como ele disse que ia ser dos afetos, como ontem um momento um bocadinho lateral. Hoje está nevoeiro, mas ontem é que apareceu o Sebastião, não o Dom Sebastião, mas o filho de Pedro Nuno Santos que foi ali ao palco e ele afagou a cabeça do filho, abraçou, etc. Tudo isso contribui para uma imagem de alguém que além da imagem de perigoso neomarxista, afinal, também pode ser alguém que é capaz de ter esse lado mais afetuoso e isso creio que em todos os momentos é sempre uma mais-valia eleitoral. E também não se pode dizer a Pedro Nuno Santos duas características, que é politicamente combativo, e isso é. Luís Montenegro apontou como a maior qualidade que ele tinha era ser politicamente combativo, e concordo, acho que foi ao ponto nesse aspecto, Luís Montenegro foi honesto nessa análise. E o segundo é que ele, de fato, consegue mobilizar as pessoas e galvanizá-las, o que não era fácil neste congresso. Nós tivemos ali o que parecia quase um sketch quando o líder da JS chegou ao palco e começou a dizer JS, que até aí normalmente os tifosi dos Jotas começam a gritar e ficou tudo calado e aconteceram vários momentos desses. Mesmo o speaker hoje já utilizou uma linguagem mais agressiva, foi um bocadinho melhor do que nos outros dias, mas não se pode dizer que Pedro Nuno Santos seja um político amorfo, que seja incapaz de mobilizar, que não consiga puxar pelos seus. Isso efetivamente, com sinceridade, temos que dizer com honestidade que é, isso sim. E não foi um discurso cinzento que não conseguiu motivar ou mobilizar os seus e não me parece que ele tenha dificuldades em cerrar fileiras.

Miguel Pinheiro, sobre este último discurso, começou logo por enterrar novamente o costismo, é a segunda vez que o faz em dois dias.

Sim.

Para depois partir para um novo capítulo.

Sim, um bocadinho desnecessário.

Ainda por cima com o homem na primeira fila.

Não me pareceu muito elegante, de fato. Mas enfim, também isso foi feito no meio de mais um elogio a António Costa e, portanto, não me parece que o filho vá matar o pai, pelo menos até 10 de março. Acho que se houver algum homicídio político planeado, será só depois disso. Agora, o que sai deste congresso? Sai algum amadorismo em alguns pontos de Pedro Nuno Santos. Eu acho que os dois discursos funcionaram. Acho que o primeiro discurso foi melhor do que este segundo. Mas o problema deste segundo é a falta de ideias mobilizadoras. Se nós formos correr os sites da imprensa, dos meios de comunicação social, vemos toda a gente praticamente a puxar pela questão dos mil euros do salário mínimo. Não podemos dizer que seja pouco.

O Observador, inclusive.

O Observador, inclusive. Mas há uma razão pra isso, é o que há, não há mais do que isso. E, portanto, é curto. Agora, no resto, Pedro Nuno Santos não tem tempo a perder. E, de fato, há algumas coisas, algum amadorismo, que é normal. Claro, as pessoas não nascem preparadas pra serem líderes de partidos, mas ontem foi muito impressionante ver a sequência de entrevistas às televisões. Pedro Nuno Santos não tinha nada pra dizer. Eu acho que é um princípio básico numa entrevista. Quando um responsável político dá uma entrevista, tem que ter alguma coisa pra dizer. Ele não, ele foi pra lá ouvir as perguntas e responder com evasivas. O que ele mais dizia era: "Ainda não é o tempo pra isso, não vamos falar sobre isso, não quero falar sobre isso." Nas entrevistas, correram-lhe muito mal e as outras interações com os jornalistas no congresso também decorreram pessimamente. Este queixume permanente de vocês estão a fazer muitas perguntas e eu quero fazer outras coisas. Bem, é culpa dele. Se ele não quer responder a perguntas, não responda. Tínhamos ali uma situação um bocadinho equívoca.

O sócio foi uma colega nossa da TV que disse: "Mas tem que se habituar se quer ser primeiro-ministro."

Não, mas ele até podia pegar, chegava e dizia: "Olha, desculpem, não vou responder a perguntas, muito bom dia a todos, mas vou ter o discurso, não tenho nada a dizer." E avançava. Não, ele fica neste meio-termo em que vai andando, vai respondendo a uma pergunta ou outra consoante vai ouvindo, depois vai se queixando que tem que ir embora, depois olha ali pra assessoria ver se alguém o vai salvar e depois queixa-se mais um bocadinho, mas ao mesmo tempo responde a outra pergunta. Quer dizer, ele devia ter na cabeça que mensagem é que queria transmitir à chegada. Transmitia essa mensagem. Ok, respondia a uma ou duas perguntas se entendesse e depois ia a vida dele, não fica ali como se estivesse num pântano a tentar sair do pântano e a não conseguir. E mais uma vez, ele tem pouco tempo. As eleições são já a 10 de março, portanto, qualquer oportunidade falhada é uma oportunidade que não regressa. Ele ontem falhou a oportunidade de falar nos três canais de televisão pra os eleitores potenciais, falhou, não teve nada pra lhes dizer. E falhou nas várias vezes em que esteve com os jornalistas. E atenção, estar com os jornalistas, também pra ele meter isso na cabeça, é estar com eleitores.

Faz parte do trabalho dele.

E é falar pra os eleitores, é uma oportunidade única, não é pelos jornalistas que ali estão. Quer dizer, isto não é corporativismo, é a oportunidade que ele tem de passar uma mensagem pra os eleitores. E ele também não aproveitou isso. E além do mais, este ponto que ficou evidente de ele realmente ter perdido o controle do congresso e o congresso ter sido passado a falar do Ministério Público e do Presidente da República. Isso, de fato, foi fatal também.