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Conosco nesta emissão especial, Paulo Rangel. Começava por lhe perguntar que legado é que deixa Isabel II. A Rainha de Inglaterra é uma figura incontornável também para os políticos, para a política mundial.
Sem dúvida. A primeira palavra que eu acho que nós temos de ter todos, e em particular os portugueses, é uma palavra de grande solidariedade e fraternidade, e diria até de pesar, para com o povo britânico, porque, como nós sabemos, o povo britânico, e em particular os ingleses, são os mais antigos aliados de Portugal e tiveram sempre um papel muito relevante na nossa história e até em vários momentos na luta pela nossa independência. Portanto, naturalmente que o pesar de um povo amigo e tão próximo como o povo britânico tem efeitos que nos obrigam a prestar essa homenagem. Dito isto, não há dúvida que o legado de Isabel II é um legado enorme. Em primeiro lugar, porque ela foi uma monarca que atravessou toda a segunda metade do século XX. Viveu, aliás, a Segunda Guerra Mundial já com uma plena consciência. Ela tinha cerca de 13 anos quando a guerra rebentou, 13, 14. Portanto, já estava perfeitamente consciente e até consciente do seu papel, porque ela só passou a ser a herdeira do trono britânico a partir de 36, com a renúncia de Eduardo VIII e entrada no trono do seu pai, irmão de Eduardo VIII, Jorge VI. Portanto, só a partir desse momento é que se torna, no fundo, a Princesa de Gales, digamos assim, no sentido de ser a herdeira do trono. Mas depois disso, ela começa o seu reinado com Churchill. E isto é algo altamente revelador, porque estamos hoje a viver a perda e a morte de uma soberana que iniciou a sua vida como chefe de Estado, tendo como primeiro-ministro essa figura mítica da história do século XX, que eu penso que perdurará durante muito tempo, que foi Winston Churchill. Portanto, isto é desde logo um momento muito importante na própria formação da Rainha. Depois ela administrou sempre a sua função de chefe de Estado com uma interpretação rigorosa dos poderes do Rei da Inglaterra ou da Rainha de Inglaterra, neste caso, tal como a Constituição inglesa os prevê e os previa. Esses poderes são poderes honoríficos, protocolares, de representação simbólica da unidade dos povos britânicos e, portanto, ela soube fazê-lo com uma neutralidade. Repare, ainda hoje ninguém é capaz de dizer qual é o pensamento político sobre qualquer assunto da Rainha Isabel II. Por quê? Porque ela manteve esse dever de neutralidade esticado até um limite que eu julgo que nenhum monarca europeu, mesmo aqueles que foram mais explodidos, foi capaz de seguir. Portanto, sob esse ponto de vista, ela marcou o cunho e o carisma do seu cargo com uma interpretação rigorosíssima dos seus deveres constitucionais.
E o novo rei, Carlos III, também irá fazer o mesmo daquilo que conhecemos dela?
Eu penso que ele vai ter mais dificuldades em fazer. Em primeiro lugar, porque obviamente tem sobre os seus ombros um peso enorme que é substituir uma rainha que teve 70 anos de exercício do poder e que era carismática, e que especialmente nesses últimos 20 anos se projetou como uma grande figura de referência. Portanto, uma espécie de referência ética e moral da política global. Quer dizer, juntamente com o Papa e eventualmente com o presidente dos Estados Unidos, é sem dúvida a figura mundial mais conhecida. Portanto, não temos dúvidas sobre isso. No plano da política, obviamente, nesse plano que estamos a falar. Portanto, tem esse peso. E depois há outra questão: como ele foi Príncipe de Gales, tal como Eduardo VII, por exemplo, durante o reinado da Rainha Vitória, até muito tarde, neste caso até aos 63 anos, obviamente que ele ao longo destes 70 anos, ele próprio também expressou aqui ou ali as suas opiniões. É sabido que ele, por exemplo, é um grande defensor do ambiente e nesse sentido, um patrono até de causas modernas. E muito modernas e muito queridas às gerações mais novas, mas também que tem até aqui ou ali algumas opiniões um pouco exóticas e, portanto, essas afirmações que ele foi fazendo, ainda que parcas ao longo do tempo, podem refletir-se agora no exercício do seu mandato como soberano da coroa inglesa. Portanto, eu acho que ele vai ter aqui um pouco mais de dificuldade, mas a grande dificuldade que tem um rei como o Rei Carlos III é sem dúvida a comparação com a sua mãe. Repare, nós assistimos a uma coisa muito parecida aquando da morte do Papa João Paulo II, que foi um papa carismático, de multidões, e em que depois, de uma forma, eu diria, muito inteligente e hábil, se escolheu um papa totalmente diferente, o Papa Bento XVI, justamente para fazer uma transição, para que as comparações não pudessem, para quem viesse a seguir, já não tivesse que ser comparado, que é o caso do Papa Francisco, com o carisma enorme que tinha tido durante aqueles anos, aquelas duas décadas, digamos assim, o Papa João Paulo II. Aqui é um pouco a mesma coisa. Nós estamos perante uma soberana, uma chefe de Estado que tem um carisma, tem um registo absolutamente incomparável e que o seu filho nunca poderá obviamente comparar, porque ele não terá, por razões das leis da vida, nunca terá, obviamente, mesmo que vivesse o mesmo tempo que a sua mãe, que tinha um reinado de 20 anos e não de 70 Evidentemente, não vai poder fazê-lo. Eu acho que, essencialmente, a grande tarefa de Carlos III será a tarefa de fazer a transição para a monarquia do século XXI e para aquilo que será a monarquia do seu filho Guilherme. Ele vai ser, com certeza, sempre um elo nessa transição. E na arte que tenha de saber fazer essa ponte, ele poderá ter algum sucesso, e esse sucesso passará seguramente, obviamente, por um cumprimento rigoroso das leis constitucionais. Mas sabe que nisso os ingleses e os britânicos em geral, mas os ingleses em particular, são extremamente profissionais. E eu acho que aquele Carlos III que nós vamos ver agora vai ser um pouco diferente do príncipe de Gales, que obviamente estava numa posição muito difícil, porque no fundo, ele era um aspirante a rei, mas já numa idade muito avançada para aquilo que seria comum, o que se expectava que aos 40 ou aos 50 anos, ele pudesse ter chegado à coroa. Eu penso que aqui, aquela que é a sua tarefa, e nesse aspecto, há várias pessoas, por exemplo, que criticam o fato dele não abdicar e não passar imediatamente para o seu filho Guilherme, que é bastante mais popular. Agora, é evidente que isso não seria o melhor para Guilherme, porque ele seria comparado com a sua avó. No fundo, eu penso que aqui ele pode ter um papel muito importante nessa transição.
E há aqui desafios no campo político, na governação do Reino Unido, Paulo Rangel, porque fecha-se aqui um ciclo com a morte da rainha, abre-se outro com a nova primeira-ministra, que foi indigitada precisamente esta semana, o último ato oficial de Isabel II. Que impacto é que esta perda pode ter para o mandato de Liz Truss? Este aqui é o primeiro grande teste?
Sim. Será, sem dúvida, um grande teste, mas será já um teste de natureza diferente. Nós não devemos confundir os dois níveis e não devemos confundir os níveis da governação da Grã-Bretanha com os níveis da chefia de Estado. Aqui há realmente uma coincidência, isto é muito infeliz para Liz Truss, porque obviamente ela vai ficar aqui numa situação muito difícil, porque vai ter que ser com um dia ou dois de mandato, a pessoa que vai assegurar alguns dos aspectos mais importantes da transição constitucional que está em curso. Mas enfim, esse será um desafio para ela e no qual ela também provará se tem ou não tem capacidade para agarrar o cargo que agora acaba de abraçar.